A médica que deu voz às mulheres

Adelaide Cabete (1867- 1935)

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Nasceu em Elvas, a 25 de janeiro de 1867, numa terra de fronteira onde a resistência faz parte da paisagem e do carácter. Adelaide de Jesus Brazão, filha de uma família humilde, tornou-se, ainda criança, o apoio da mãe viúva e dos irmãos mais novos. Trabalhou como criada de servir em casas abastadas e em montes alentejanos, enquanto, nas horas roubadas ao cansaço, estudava para alcançar a única instrução possível: a quarta classe.

Cantava enquanto trabalhava. Diz-se que foi ao ouvi-la cantar que o futuro marido se apaixonou. Manuel Cabete, sargento republicano de Elvas, progressista e culto, identificou desde logo grande ambição e inteligência naquela jovem alta e forte, de cabelos negros brilhantes e olhos vivos que o cativara.

Casaram-se em 1886. Manuel não a confinou à vida doméstica. Acreditou nela quando quase ninguém acreditava nas mulheres e incitou-a a prosseguir os estudos. O seu casamento, num tempo em que tantas mulheres eram silenciadas, tornou-se para ela um espaço de apoio e emancipação. Manuel vendeu terras, partilhou tarefas de casa, tudo para que pudessem sustentar o sonho de Adelaide: ingressar na Escola Médico Cirúrgica. Juntos partiram para Lisboa, onde Adelaide enfrentaria o maior desafio da sua vida: estudar Medicina num meio quase exclusivamente masculino e profundamente marcado por preconceitos.

Formou-se em 1900, apresentando uma tese cujo tema já revelava a sua missão: proteger as mulheres grávidas pobres como forma de garantir um futuro digno às crianças que nasceriam. Para Adelaide, a medicina não era apenas ciência — era uma forma de intervenção social. Iniciou o exercício clínico na especialidade de Ginecologia, uma área sensível, ainda envolta em tabus, prestando especial atenção a mulheres em situações de grande vulnerabilidade, incluindo as que viviam da prostituição.

Abriu consultório em Lisboa, mas não se limitou ao atendimento individual. Sem esquecer as suas origens, promoveu sessões públicas sobre alimentação, pedagogia e puericultura, denunciando as causas invisíveis da mortalidade infantil e impulsionou um projeto-lei para garantir licença de maternidade às mulheres trabalhadoras.

Com frontalidade, afirmou que moda das mulheres devia obedecer à saúde e não à vaidade: condenou espartilhos que deformavam corpos, saltos altos usados por grávidas, saias longas e de tecidos pesados (ajudam à proliferação dos ácaros) dietas perigosas e substâncias como o vinagre para emagrecer. Alertou para os riscos do álcool e do tabaco quando ainda eram sinais de estatuto social.

Republicana e feminista, entrou na Maçonaria em 1907, adotando o nome Louise Michel, em homenagem à revolucionária francesa. Fundou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, com sede no seu consultório e liderou associações, escreveu manifestos, organizou congressos. Em 1910, acreditou que a República poderia melhorar a condição das mulheres e, ao lado de Carolina Beatriz Ângelo, bordou as novas bandeiras — num gesto simbólico de esperança.

Em 1929, viúva e desiludida com o rumo autoritário do país, partiu para Angola com o sobrinho, a quem criava como filho. Em Luanda, abriu um consultório, denunciou condições degradantes, defendeu maternidades, creches e redes de apoio social. Recusou aceitar a miséria como destino — nem em Portugal, nem no mundo colonial.

Regressou a Lisboa enfraquecida e doente, mas fiel a si mesma até ao fim. Morreu a 19 de setembro de 1935. Pediu um enterro simples, amortalhada com a bata médica que a acompanhara toda a vida.

Décadas depois, o país reconheceu-a com a medalha de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Mas Adelaide Cabete, muito antes de títulos ou honras póstumas, já tinha um lugar na história das grandes mulheres portuguesas: aquelas que ousaram estudar, dar voz às outras mulheres e resistir.

3 COMENTÁRIOS

  1. Aqui está um texto digno de ser conhecido por muitos leitores.
    Já sabia da história desta mulher que veio a ser notável graças a um homem (marido) num tempo em que a maior parte das esposas era silenciada. Honra seja feita também a este senhor.
    Tenho uma Amiga, Rosabela Afonso, que tem escrito muito sobre feministas e republicanas com uma vida activa digna de ser enaltecida.
    Num conjunto de seis livros, As Mulheres e a República, cada título homenageando uma figura de prestígio, mostra como uma parte feminina da humanidade, neste caso em Portugal, teve um papel preponderante na dedicação a causas ainda tabus.
    Essas figuras fizeram-no porque conheciam a matéria por experiência próxima. Apesar de estarem bem na vida, não passaram por ela com indiferença, consideraram a situação das mais carenciadas tentando reduzir as desigualdades sociais.
    Grata pelo texto, Vera Nobre.

  2. ADELAIDE DE JESUS BRAZÃO,
    UMA MULHER EXEMPLAR A SEGUIR PELA HUMANIDADE.
    POR ISSO VOU PARTILHAR.
    BEM-HAJA VERA NOBRE,
    NOBRE NO NOME E NA SUA FINA PROSA.

  3. Notáveis mulheres houve, em todos os países, na viragem do século XIX para o século XX!
    alguém mais novo e com mais saúde que eu havia de coligir todas as biografias das portuguesas que precocemente se destacaram em diversos mesteres.

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