AS COLÓNIAS QUE PERSISTEM

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Durante anos repetiu-se que Portugal descolonizou tarde demais e que esse atraso explicaria grande parte dos problemas atuais dos países africanos de língua portuguesa. A ideia tornou-se confortável: a cronologia serviria como chave explicativa para instabilidade, subdesenvolvimento e fragilidade institucional.

O problema é que essa explicação é, no mínimo, incompleta. A história mostra que a data da independência não garante nem estabilidade nem desenvolvimento. Há países que se libertaram cedo e permaneceram presos à violência e à dependência. Outros, apesar de processos tardios e traumáticos, conseguiram construir Estados relativamente funcionais. O atraso pode pesar, mas não explica tudo.

Mais grave ainda é o silêncio seletivo que rodeia esta narrativa. Outras potências coloniais nunca descolonizaram verdadeiramente. França, Reino Unido e Países Baixos continuam a exercer domínio sobre territórios espalhados pelas Caraíbas, Índico e Pacífico. Os Estados Unidos mantêm Porto Rico e várias ilhas estratégicas. O colonialismo não acabou: apenas mudou de nome e de enquadramento jurídico.

A Gronelândia é um exemplo particularmente revelador. Sob domínio dinamarquês há mais de 500 anos, foi tratada como colónia durante séculos: população indígena negligenciada, direitos políticos adiados, autonomia concedida apenas quando já não podia ser recusada. É neste contexto que surgem agora as pretensões de anexação anunciadas por Donald Trump.

Copenhaga afirma que a Gronelândia não está à venda, mas apressa-se a lembrar que os EUA já têm liberdade total para instalar bases militares no território. O argumento é ingénuo ou cínico. As pretensões norte-americanas não se baseiam em necessidades de defesa, mas numa pulsão imperialista elementar, movida por ganância estratégica e económica. Contra isso, a razão não serve de antídoto.

A questão central é simples e brutal: se os EUA avançarem, a Dinamarca irá combater? E que países europeus estarão solidários e dispostos a enfrentar mísseis norte-americanos para defender um território colonial que sempre foi tratado como periferia?

A persistência de colónias no século XXI não é um resíduo do passado. É a prova de que o imperialismo continua ativo, à espera de uma oportunidade para voltar a falar sem disfarces.

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