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LEVAREI O FOGO COMIGO

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Lila Slimani e a sua saga familiar

Em “Levarei o fogo comigo”, sobre a terceira geração da família Belhaj, as marroquinas Mia e Inês mostram-se divididas entre o seu desejo de modernidade e o medo de perder a alma e as tradições do seu país. Ganha em ambas a ânsia de liberdade, mantida acesa pela chama das mulheres que as precederam: a avó Mathilde, a mãe Aicha e a tia Selma, essa mulher sozinha e livre, de uma força desmesurada… Enquanto Inês estudava medicina, Mia procurava nos livros a liberdade e a libertação da sua vida enfadonha e sem brilho.

Para ver uma ilha é preciso sair-se dela, fazer-se ao mar… Mas para nos integrarmos no novo, teremos de dissolver, apagar e anular de onde viemos? O que fazer quando já não somos do lugar onde nascemos e sabemos que nunca seremos do lugar onde estamos?

Em casa de Mia e Inês podia-se criticar o véu, o fanatismo, inflamar – se contra os barbudos mas fora de casa não se podia falar… Era preciso fingir que se respeitava o decoro. Pura hipocrisia, pensava Mia, humilhada por saber que os seus pais não eram livres.

Amar, o que é, afinal? Talvez amar não tenha nada que ver com as palavras. Talvez amar seja não fazer perguntas, não abrir os armários que o outro teve o cuidado de fechar à chave.

Mia também partiu de Marrocos, uma partida daquelas que determinam uma vida inteira. Por vezes, é preciso ir sem olhar para trás porque essa história das raízes não passam de uma maneira de nos pregar ao chão. Não importa o passado, a casa, os objetos, as recordações. Importa atear com todos eles um grande incêndio e levar o fogo connosco.

Não ceder, nunca, no que toca à liberdade.

Por vezes, muitas vezes, temos de ir sozinhas ao encontro dos monstros. Até ao dia em que recomeça em nós o desejo de voltarmos às origens…

Podemos ser, ao mesmo tempo, daqui e de lá?

ATAQUES CADA VEZ MAIS SOFISTICADOS

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Burlões cada vez mais sofisticados, devem estar a levar uma boa vida à conta dos incautos que caem nas esparrelas que semeiam pelas redes sociais. As mais recentes de que tive conhecimento, uma passou-se comigo, outra com um conhecido que publicou o seu relato nas redes sociais, com o intuito de avisar a malta. Com o mesmo espírito, aqui ficam as duas situações.

Comigo, foi assim. Surgiu num sms o seguinte ‘aviso’: “CAIXADIRETA: Foi registada uma compra no valor de 870,00 na FNAC. Confirma? Caso não reconheça, contacte imediatamente o 800 180 441.”

Estamos perante uma treta. Reparem nos pormenores: primeiro, CAIXADIRETA é um organismo desconhecido, nunca ouvi falar em tal coisa, o banco onde tenho dinheiro (pouco…) nunca utilizou intermediários nos contactos comigo; segundo, que se saiba a FNAC também não utiliza intermediários, o relacionamento com o cliente é feito ao balcão ou,em caso de vendas online, a transação é sempre certificada no ato da transação.

A vermelho estão assinalados os sinais que evidenciam que se trata de uma tentativa de burla.

O que é importante é nunca ir na cantiga de contactar o remetente da mensagem, seja por telemóvel ou por link. Nunca.

O segundo aviso é de Luís Monteyro. Faço copy paste do que ele publicou na sua página do Facebook:

“Não costumo atender n.ºs desconhecidos (não apenas os anónimos/privados) mas como aguardo uma chamada do hospital, abri excepção.

Perguntaram se era eu (pelo nome e apelido) que falava.

“Quem deseja saber?”

“Mas é ou não é o sr. Luís Monteyro?”

“Olhe, as regras da boa educação ditam que quem liga é que se deve anunciar primeiro, portanto vou desligar de imediato.”

“Ah, é de uma entidade bancária.”

“Eu não trabalho com entidades bancárias, passe bem. (estava mesmo a ver-se…) Daí a nem um minuto recebo esta SMS.

Resolvi ligar para o 21380214 da SMS, mas liguei como anónimo, ninguém atndeu, claro, e a gravação foi esta.

gravação audio

Agora oiçam com atenção que percebem que é voz gerada por IA. E chegamos a este ponto – alguém menos sagaz ou um(a) velhotinho(a) mamavam com isto e caiam na esparrela que nem uns patinhos.”

Todo o cuidado é pouco. Por mais espertos que julgamos ser, às vezes caímos na esparrela. Ainda há pouco tempo, eu próprio perdi 74€ num cointo do vigário na net, de vendas fictícias através do Facebook. Aliás, esta rede social ganha dinheiro com as burlas. Mas os exemplos são inúmeros. Espreitem aqui

A ROTUNDA JÁ TEM NOME

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José Joaquim Jesus Oliveira, que nasceu no centro da vila de Cascais em 1932, foi, durante três décadas, funcionário municipal, destacando-se pelo seu trabalho em prol do saneamento básico e teve papel importante no planeamento urbanístico da vila. Deve-se-lhe, por exemplo, o traçado dessa avenida; e a rotunda – que, por feliz coincidência, tem a decorá-la uma oliveira secular vinda dos campos do Alqueva – marca justamente o início da chamada 2ª circular.

Coberta com a bandeira do Município, a lápide foi solenemente descerrada pela filha do homenageado e um dos netos.

O presidente da Junta de Freguesia, Francisco Kreye, enalteceu a figura do Engº José Oliveira, cascalense nado e criado em Cascais, técnico camarário a vida inteira. Passava, nesse dia, o 1º aniversário do seu falecimento e, por isso, mais significativa ainda se tornava a cerimónia, sublinhou.

José d’Encarnação, de quem partira a proposta desta homenagem – prontamente aceite pela Junta de Freguesia de Cascais Estoril e Câmara Municipal – corroborou as palavras do presidente da Junta, salientando como, durante o  período não fácil de 1974 e 1975, o homenageado suprira em funções vários dos seus companheiros de trabalho, e terminou contando uma das cenas por que ele passara:

«Um dia, ao entrar nos Paços do Concelho, vestido de fato como sempre, um varredor que ele bem conhecia dirigiu-se-lhe: “Fascista!”. O engenheiro parou, tirou a sua caneta Cross do bolso, deu-a ao varredor e disse-lhe: “Tome a minha caneta e vá para o meu gabinete fazer o meu trabalho e dê-me a sua vassoura, que eu fico aqui a fazer o seu”. O varredor pediu-lhe desculpa e foi cada um à sua vida».

Em nome da família, agradeceu, emocionada, a filha do homenageado, Ana Borges. A cerimónia – que teve bem luzida assistência de familiares, amigos e admiradores, numa feliz ‘aberta’ que as condições atmosféricas permitiram – foi encerrada pelo  Presidente da Câmara Municipal, Nuno Piteira Lopes, que, no seu discurso, reiterou o regozijo do Executivo Municipal por ter apoiado a iniciativa da Junta de Freguesia, nomeadamente por se tratar da homenagem a um dedicado funcionário municipal de toda uma vida, cascalense que se interessou pela problemática da circulação na vila. Aliás, acrescentou, uma rotunda convida a isso mesmo, a circular, a facilitar a comunicação; e manifestou o seu contentamento pessoal por se registar esta coincidência entre a existência de uma oliveira e o nome do homenageado, porque ele, actual presidente, fora uma das pessoas, na Câmara, que mais pugnara pela colocação de oliveiras nas rotundas da vila.

O DIA EM QUE SALAZAR QUASE VOOU

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O ano era 1937. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), pela voz do seu destacado membro Emídio Santana, prometera num congresso em Espanha, no ano anterior, que tudo faria para se solidarizar com o povo do país vizinho, em guerra civil contra o fascismo. E se logo no início de 1937 fizera explodir várias bombas quer em ministérios portugueses, quer em instituições ligadas aos interesses de Franco, em Julho desse ano decidiu avançar para um atentado direto ao ditador.

António Granja, comunista, apresentou então o plano ideal para essa operação. Taxista, influente no movimento sindical do setor, aprendera pelos colegas que operários da canalização laboravam todas as noites nos esgotos da capital. E observou que havia um coletor de esgotos, precisamente, diante de uma residência na Barbosa du Bocage.

Todos os Domingos às 10h da manhã Salazar vinha àquele palacete assistir à missa numa capela privada. O seu carro vinha do Saldanha, pela Avenida da República, virava na Barbosa du Bocage, e parava diante da moradia. Um carro da polícia chegava sempre antes, e inspecionava o local, ficando de vigia enquanto durasse a cerimónia religiosa. Porque não, defendia Granja, colocar ali um engenho explosivo que livrasse Portugal do ditador?

Começaram os preparativos. Armindo José Estêvão, funcionário da companhia dos telefones, ficou encarregue de conceber a bomba e do seu sistema de detonação. Determinou que se colocasse uma bateria numa tampa de esgoto da 5 de Outubro, com um fio esticado até ao coletor, onde uma carga de pólvora seria alojada. Quando o carro do ditador ali chegasse, alguém acionaria o detonador e concretizaria o atentado.

Os cuidados foram extremos. O material foi preparado separadamente em três locais, uma parte no Benformoso, outra em Benfica, e uma terceira na Amadora. Só no dia se juntaram, já no local, todos os elementos necessários. Foram trazidos em três táxis, um conduzido por António Granja, e outros dois por motoristas chamados Damião e Virgílio. Chegaram à 5 de Outubro, encontraram dois operários que fingiam trabalhar nos esgotos, e estes assim que receberam o material iniciaram os preparativos. Um deles, Carlos Pimenta fica encarregue de acionar o detonador. 

Surge, porém, um contratempo: as medidas do coletor e da bomba não correspondiam. A bomba não passava pela manilha, e por isso havia o risco real de, caso deflagrasse, não se obter o êxito procurado. Os operacionais tiveram de debater entre si se avançavam para o atentado mesmo sem garantias de sucesso, ou se abortavam a missão. Houve acordo geral em que se tentasse na mesma.

Damião, o taxista, colocou-se num local onde tinha visibilidade tanto para o palacete da Barbosa du Bocage como para a tampa de esgoto onde Carlos Pimenta acionaria a explosão. Fingia ler o jornal, pediu a um engraxador que lhe tratasse dos sapatos, tentou agir com a naturalidade possível. Vendo chegar o carro do ditador, assim que este saiu para a rua e tal como tinha sido combinado, dobra o jornal, coloca-o debaixo do braço, e levanta-o no ar logo em seguida. Carlos Pimenta aciona o detonador, um estrondo ecoa na rua, e enquanto as pedras da calçada voam pelos ares, tudo ficou de repente submerso numa nuvem de fumo e de pó.

Por ter sido mal colocada, a bomba rebentou de tal forma que a sua explosão expandiu mais pelo interior da galeria do esgoto do que no seu exterior. A tal ponto que o impacto da deflagração fez saltar várias tampas nas ruas vizinhas, incluindo uma que atingiu, e feriu, o próprio Carlos Pimenta. Salazar, ileso, entrou na missa e fez sair em todos os jornais a notícia de que permanecera impassivo. Nesse dia o ditador não voou. Esteve quase.

QUANDO OS POBRES VOTAM À DIREITA

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A direita e a extrema-direita não incitam o ódio ao milionário, ao grande acionista, ao dono do banco. Incitam ao ódio contra o pobre “que recebe sem trabalhar”, promove a inveja do vizinho que “tem ajudas”, realça o desprezo pelo cigano que “anda de BMW” (mesmo que seja mentira). É uma engenharia ideológica muito eficaz, protege o topo, estimula a guerra entre os de baixo.

A direita mais extrema, não democrática, usa a tática da propaganda persistente de modo a cultivar o medo, transforma o sentimento de inferioridade em ódio. A extrema-direita oferece uma coisa muito concreta: “Tu não és lixo. Lixo são eles.” E isto cola.

No atual combate ideológico, o racismo funciona como substituto da luta de classes. As pessoas deixaram de considerar a exploração económica de que são vítimas, aprenderam a encontrar novos bodes expiatórios.

“Se eu trabalho e o salário não chega ao fim do mês, alguém me está a tirar alguma coisa.” Quem? O imigrante, o refugiado, o “subsidiodependente”, o “estrangeiro que vem para aqui viver à custa dos nossos impostos”. É falso, mas é emocionalmente convincente, porque dá um culpado visível. O capital é de difícil visualização. O imigrante é bastante visível.

Este “racismo dos pobres” não cai do céu nem nasce espontaneamente da pobreza. É uma ideologia alimentada pelos media sensacionalistas, amplificada nas redes sociais, legitimada por discursos políticos que utilizam o velho truque de “com meia verdade me enganas”, é um racismo normalizado quando o Estado fala na imigração como “problema”. Na verdade, só passa a ser problema quando os políticos abdicam do combate pelas ideias decentes e vendem a alma ao diabo face à gritaria neofascista.

cartoon de Hélder Dias

LADAINHA DE UM ETERNO PEDINTE

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Assistimos a uma catástrofe no nosso país, depressão Kristin, cujo resultado foi um arremedo do provocado pelas devastações que Putin e Netanyahu provocam na Ucrânia e na Palestina. Imagine-se perder tudo, sem apelo e sem ajudas nenhumas…

Remeti-me ao silêncio, fui em pensamento invocando diversas divindades… para os diversos casos que nos afligem. Comecei pelo São Tomás More. Pretendi dialogar com ele… Devia atender-me, é o padroeiro dos políticos, é conhecido pela sua integridade, justeza… Era! Quer dizer, os ditos cujos do burgo é que deixam a desejar… Enfim, não consegui nada a não ser um certo olhar trocista com que me contemplava… lá, da imagem!

Quis falar com São Miguel Arcanjo. Pois, não há dúvida. Na hora de lhe pedir contas sobre o que os seus protegidos andam a fazer: “Estou em reunião”. Outra resposta: “O Senhor Santo está a atender uns autarcas, agora não pode atender”; “O Senhor Santo manda informar que o seu caso tem que seguir os trâmites legais dentro desta autarquia”. Serviu-me de alguma coisa pedir contas ao Santo? É tudo assim!

Perante os problemas que nunca são passíveis de solução, solicitei Santa Rita de Cássia. Ao menos essa trata das causas impossíveis! Não tardaram uns minutos e ouvi uma voz, de homem… Perguntei quem era e foi-me respondido que era São Judas Tadeu. Informou-me que naquele dia, os dois estavam com Cristo em reunião; logo, nada podia ser tratado…

Jesus, isto assim vai de mal a pior, não consigo fazer-me ouvir? Será que nem pedindo a Deus? Logo ao ter falado, nem parecia verdade, de repente, de uma “secretária” divina, veio a solução numa voz pausada e harmoniosa: “Hoje está de serviço São José Operário, padroeiro dos operários e podes…”

Nem quis ouvir mais, não fosse alguém estar a ouvir isto e eu ter que responder ao convite: “Tarrenego! Não sou comunista!”. Mas não… eu estava sozinho… Sabem, isto é que são fortes traumas sociais, não são essas porcariazitas de que tantos se queixam! Ainda pensei em solicitar Santa Bárbara dos trovões e tempestades, mas,para quê? Também devia ter estado em reunião naquele dia… Pensei, repensei e escrevi a minha ladainha, a que me aliviaria dos problemas e é assim:

Oremos:

Senhor, tende piedade de nós por acreditarmos ainda e sempre neste país.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós porque somos crédulos e aceitamos tudo que nos dizem como válido e nunca fazemos o “trabalho” de casa.
Jesus Cristo, ouvi-nos, atendei-nos e se nos criaste à vossa semelhança, regenerai-nos.
Senhor, tende piedade de nós porque nos embebedamos de promessas políticas e sociais todos os fins de semana quando fazemos zapping.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós sobretudo dos que entraram agora na política e tudo sabem antes de eleições e se “suicidam” depois delas, abraçados a soluções de nada, sendo o tudo que lhes ficou.
Jesus, tende piedade de nós por estarmos tão perto deles.
Senhor, tende piedade da menina que tem um namorado mais velho e que sorri superiormente para as outras sem se dar conta que é um miminho numa mão sabedora com a promessa de entrar numa jota qualquer.

Jesus, tende piedade de nós por sorrirmos disto.

Senhor, tende piedade de nós, mas de sobremaneira iluminai os que compram coisas online e que por isso, passam a vida a devolver os produtos.
Jesus, tende piedade deles todos.

Senhor, tende piedade dos que vêem coisas, reais, mas uns génios lhes dizem, ao chegarem a suas casas, que o bife que compraram é uma lata de cavala, porque o que esses génios dizem é que é verdade.
Jesus pacientíssimo, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade destes “convertidos políticos ao nada”, parecidos com as mulheres que se guardam para os seus amantes pois conseguem sempre refazer a virgindade (credibilidade), quando se encontram perante os “salvadores”.
Jesus, manso e humilde de coração, tende piedade de nós.

Senhor, tende piedade dos políticos “a concurso”, que afirmam possuir uma “varinha mágica” que irá destruir todos os males do nosso país. Por favor, fazei com que essa varinha mágica, ao menos, dê para “passar” a sopa.

Jesus, sorridente, com bom humor, tende piedade dessas varinhas mágicas e dai-lhes destino digno da sua função.

QUEBRA-CABEÇAS

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“Contas d’Antanho”, da autoria de Celestino Costa, um livro de charadas, foi ontem, sábado, dia 31, à tarde, lançado perante um público interessado.

Severino Rodrigues, actual responsável autárquico deste Centro de Interpretação do Espaço Rural de Cascais, abriu a sessão, relembrando quanto o autor lhe tem ensinado.

A apresentação deste livrinho de cordel foi feita por José d’Encarnação, que explicitou o interesse do seu conteúdo e relembrou, a propósito, os tempos de seu pai como cabouqueiro na pedreira e como ele fazia contas de cabeça para achar o peso de um bloco de pedra, pronto a carregar para ir para a serração…

Severino Rodrigues e José d’Encarnação

Fechou a sessão o autor que, mais uma vez, declamou dois dos seus poemas: escolheu um evocando os poetas («Prós poetas, pátria querida / és madrasta toda a vida / só és mãe depois da morte») e outro de louvor à azáfama diária das mulheres do seu tempo.

Trata-se de mais uma obra, editada pela Associação Cultural de Cascais, de um canteiro e poeta de Cascais, de 92 anos, que, pelos vistos, nas horas vagas, ocupa o seu tempo a pensar soluções para quebra-cabeças.

Editado pela Associação Cultural de Cascais, o livro teve capa de José Luís Madeira, paginação de João Miguel Freitas, impressão de Edições Colibri. Está disponível no referido Centro de Interpretação.

A CAMINHO DA SEGUNDA VOLTA DAS PRESIDENCIAIS

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A entrada dos dois candidatos, à segunda volta das Presidenciais, para o debate de terça-feira, fixou a posição de cada um deles nestas eleições. Um, líder de claque, lá se apresentou, aos gritos, entre os berros dos seus seguidores, articulando umas palavras de enorme vacuidade. O outro, chegou, serenamente, com posse de Estado, revelou-se, desde já,  como Presidente de todos os Portugueses, manifestando a sua solidariedade com acontecimentos que entristeceram o nosso País.

O debate, na verdade, começou e acabou aí, o resto foi um tempo perdido, que confirmou o desnorte do candidato do Chega e que comprovou que o mesmo apenas tem um objectivo – que talvez consiga- destruir o PSD. Porque, quando surgir o momento, nas próximas eleições legislativas, o espaço que ele tentou preencher poderá estar preenchido pelo Movimento 2031 de Cotrim de Figueiredo e pelo partido que irá nascer dos órfãos de Gouveia e Melo.

A mudança do quadro político português será uma realidade, com a perda de relevância dos partidos tradicionais e a subida dos partidos emergentes, nascidos num clima de grande incerteza social e económica que pode rasgar a Europa e lançar o Mundo num caos. Mas, mesmo que seja possível controlar este deslaçamento, o que se afigura complicado, as consequências serão tremendas e abrem o caminho a quem prometa uma esperança de solução, mesmo que seja falsa.

Regressando às eleições presidenciais, em Portugal, nada está ganho, para António José Seguro, e a certeza da vitória, como explicou o Luís Paixão Martins, pode ter sido alterada em consequência directa da calamidade que se abateu no nosso País. Em termos reais, há um momento antes e outro depois da tempestade, que destruiu vidas e bens e lançou o caos na vida dos nossos cidadãos.

Esta asserção de Paixão Martins fica, porém, na minha opinião, ferida nos seus pressupostos, face ao comportamento vergonhoso do candidato André Ventura, que pretendeu fazer uma aproveitamento, miserável, da tragédia que afectou milhares de cidadãos, por comparação com o sentido de Estado do candidato António José Seguro, num quadro em que o governo revelou toda a sua incompetência. Hoje, no dia em que escrevo este texto, milhares de portugueses vão exercer o seu direto de voto. Que tenham feito uma boa escolha, com a certeza que os tempos serão muito difíceis, para Portugal e para a Europa, não havendo lugar a aventureirismos

O CASTELO DE PENEDONO

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Do Castelo de Penedono ancorado nesse promontório rochoso de onde se vigia, como se mar fosse, a interminável paisagem de vale e serra, ninguém sabe dos começos, do desenho, dos panos de muros inicialmente levantados, das pelejas acontecidas nos ermos territórios ao redor.

A primeira notícia sólida colhe-se no Testamento da poderosa D. Chamôa (ou Flâmula) Rodrigues que, recolhendo-se no ano de 960 ao Mosteiro de Guimarães, confia o castelo de Pena de Dono, actual Penedono, com outros vizinhos castelos – Trancoso, Sernancelhe, outros ainda – a sua tia, a Condessa Mumadona, que legará mais tarde todos os seus bens ao Mosteiro que fundara.

Situado numa Extremadura de continuadas arremetidas de cristãos e mouros, vem a cair sob domínio muçulmano, por ocasião da passagem de Almançor para Compostela, em 997, voltando novamente à posse de cristãos, aquando da “Campanha da Beira” empreendida por Fernando I de Leão, entre 1055 e 1064.

Arruinado numa antiga feição que desconhecemos, sofrerá reparo, quando D. Sancho I outorga foral ao concelho em 1195, empreendendo, então, o repovoamento de um ermo território.

Mas será a partir de finais do século XIV, quando a nobilitada família dos Coutinhos recebe, por mercê d’ El-Rei D. Fernando, estes domínios, que o castelo ganhará a feição que hoje apresenta, adquirindo, já em fins do século XV, inícios do XVI, a qualidade acrescentada de residência senhorial dos membros desta importante família terratenente, possuidora de numerosas terras, onde se incluía Lamego, com largas casas de morada, Sernancelhe, Penedono, Trancoso e algumas mais.

Não repugna que Álvaro Gonçalves Coutinho, o célebre “Magriço” que a lenda aureolou, tenha nascido no Castelo de Penedono, dado que seu pai, Gonçalo Vasques Coutinho, Marechal e Fronteiro da Beira, bastas vezes teria de estanciar por terras do seu domínio.

Será, todavia, seu irmão, o primogénito Vasco Fernandes, 1.º Conde de Marialva, quem herdará o título de alcaide, que passará a outros membros da família, cuja linhagem estranhamente se extingue antes dos meados do século XVI, após a morte de D. Guiomar Coutinho, que não deixa geração.

Pacificadas as fronteiras, alteradas as técnicas de guerra, o altaneiro castelo depressa sofre ruína: estremecem as pedras de seus muros de pedra miúda; o telhado desaba sobre o tabuado do chão de castanho do piso residencial onde só as janelas permanecem escancaradas; vazias de gente as pedras que a gente chama de namoradeiras; fendas abertas despejam a água da cisterna; desaparecem as traves que o gentio terá levado para habitação; e desolador se torna o retrato do castelo feito pelo cura que escreveu as “Memórias Paroquiais” em 1758.

Declarado Monumento Nacional em 1910, restaurado entre os anos 40 e 53 do século XX, pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais – ei-lo, sublime, eterna pátria do mítico Magriço, trágico e sedutor, dourado dos líquenes, dourado de nossas poéticas memórias.

CENSURA ALGORÍTMICA, PORNOGRAFIA PAGA E PROPAGANDA POLÍTICA

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O algoritmo não compreende subtilezas linguísticas. Mas o problema não é técnico, é político, como tento explicar neste vídeo (link para o vídeo alojado na rede Telegram).

vídeo

Se a publicação fosse realmente erótica, exibindo corpos sexualizados, cenas implícitas de prostituição ou mulheres transformadas em mercadoria visual, o problema seria facilmente resolvido: bastaria pagar. “Promover conteúdo”, como lhes chamam. O Facebook está saturado desse material, impulsionado pelo próprio marketing da plataforma, acessível a qualquer utilizador, incluindo crianças. Isso, porém, não levanta alarmes.

Temos assim um sistema em que a crítica política é punida, mas a degradação humana é monetizável. Um espaço onde tudo é permitido desde que alguém pague, da grunhice da extrema-direita à exploração do corpo feminino. A censura não é moral: é comercial e ideológica.

O Facebook está cada vez mais mal frequentado. Não porque haja excesso de liberdade, mas porque há liberdade seletiva, vendida ao melhor cliente e aplicada com zelo apenas contra quem questiona o poder.