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CARROS ELÉTRICOS CHINESES INVADEM EUROPA

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Neste momento, a China é o grande mercado para carros elétricos. Cerca de 11 milhões de veículos elétricos tipo SUV foram vendidos na China, em 2022. E agora, as marcas chinesas preparam-se para invadir o resto do mundo. Parece que vão começar pela Europa.

Quando as indústrias ocidentais deslocalizaram as fábricas para a China, tinham na mira os salários baixos e o imenso mercado interno chinês. Não só passaram a fabricar barato como acederam a esse maná. Mas, agora, a maré está a virar e são as indústrias chinesas a invadir com os seus produtos os mercados do ocidente.

Por exemplo, há cerca de dois anos, a Tesla montou as suas fábricas na China. Foi um sucesso. O Modelo Y da tesla tornou-se o elétrico mais vendido na China. Mas, apenas dois anos depois, as marcas chinesas estão prestes a ultrapassar a Tesla.

Volkswagen, BMW e Toyota também disputam na China esse mercado de veículos elétricos, mas todos juntos não chegam para combater os 93 modelos SUV novos que as marcas chinesas apresentaram no Salão Automóvel de Xangai, em abril. Todos elétricos.

PREÇOS IMBATÍVEIS

Na China, o Zeekr, o carro elétrico topo de gama da marca Geely, ao câmbio de hoje, custa 24.954 euros. O surgimento deste carro a este preço provocou uma quebra superior a 56% nas vendas da Tesla na China. Um aviso terrível para os fabricantes de carros europeus, americanos e japoneses. Por exemplo, a Mitsubishi suspendeu por três meses a produção de seu SUV Outlander na China.

Carro elétrico chinês, modelo Zeekr

As marcas chinesas estão a chegar à Europa. Em Portugal, por exemplo, os grandes retalhistas do mercado automóvel já anunciam os seus modelos chineses. O grupo Salvador Caetano é o distribuidor nacional da BYD, que começará por vender no nosso país três modelos 100% eléctricos. Os preços dos carros da marca asiática começam nos 30 mil euros.

Salvador Caetano vai abrir stands da BYD em Portugal

Curiosamente, seja qual for o desfecho da guerra comercial entre os fabricantes de automóveis elétricos ou outros, parece que a China nunca sairá a perder. A capacidade de manter preços baixos está nas fábricas chinesas. Por exemplo, a Renault e a Tesla já começaram a exportar para a Europa os carros que produzem na China. E a Tesla ainda este ano começará a enviar crossovers Model Y de sua fábrica de Xangai para o Canadá.

fonte: Reuters

MONARQUIA BRITÂNICA, a caixa registadora

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A monarquia inglesa e os seus rituais, dos casamentos às coroações, dos jubileus aos funerais, entre outros eventos mais comuns, como a parada militar no palácio de Buckingham, fazem-me lembrar as cerimónias do Vaticano, ou o culto Mariano espalhado mundo fora, Fátima, Lourdes, Lujan, Guadalupe, onde uma série de locais de peregrinação se transformam em verdadeiros centros comerciais, cheios de produtos alusivos à religiosidade, neste caso alusivo à vida dos monarcas e seus descendentes, mas não só.

Por exemplo, vermos em Fátima, o Mcdonalds, o Burger King e outras cadeias de fast food, é bem demonstrativo de como a religião se tornou num ramo especializado da indústria turística, onde ninguém quer estar ausente desde que se venda.

Dito isto, acho que a monarquia inglesa só subsistiu até à actualidade, nomeadamente com toda aquela faustosidade e esplendor, porque se transformou num negócio de milhares de milhões de libras.

Aquilo é um pouco como a indústria cinematográfica americana, ou como as novelas brasileiras. Há um infinidade de consumidores daquela literatura cor de rosa, ou se quiserem, daquele conto de fadas, onde reis, príncipes e donzelas se cruzam nas mais variadas festas e intrigas palacianas.

A série televisiva the Crown e a Downton Abbey, geraram por si só, milhões de libras de receitas, só com a venda para as várias cadeias de televisão, das suas histórias. Várias temporadas.

Não há nenhuma monarquia no planeta que consiga facturar 1/5 das receitas que directa ou indirectamente estão associadas à monarquia britânica.

Sendo eu republicano convicto, reconheço que com aquele negócio de milhar de milhões que gravita em torno da monarquia inglesa, até com os escândalos e as zangas familiares, onde o voyeurismo faz parte do negócio, vai ser difícil acabar com aquilo.

A monarquia britânica é uma espécie de árvore das patacas, que toda a gente concorda estar a secar, mas enquanto de lá caírem “libras”, ninguém a vai cortar.

Escafederam-se por sombrio subterrâneo!

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Mascararam-se, para não serem reconhecidos e escafederam-se escuso corredor adentro!

O resultado foi terem feito parar o tempo e só verem de novo a luz do dia, mais de 50 anos atrás. Rejubilaram! Era mesmo isso que queriam! Sentirem na pele o fulgor da juventude e recordar!

fotografias de Luís Bento

Não hesitaram, pois, em incarnar a Amália; a Hermínia Silva; a Ivone; o Vasco Santana, perdido de bêbado, a pedir lume ao candeeiro; a conversa danada entre o Sr. Feliz e o Sr. Contente; «Água fria da ribeira, água fria que o sol aqueceu»; o «Fado Falado» (este, um bom momento!); as Doce e o seu ‘Uma da manhã, ei!»; o Eduardo Nascimento, «Oiçam, oiçam!»; o Grândola, vila morena…

fotografias de Luís Bento

Bem que se divertiram nessas evocações que lhes haviam enchido a alma! A cabeleira caiu? Que interessa! O bigode ficou de esguelha e ameaça despegar-se? Mais um motivo para boa gargalhada! O som não entrou a tempo para dar com o playback? Deixá-lo!…

Estavam nessa, quando o Senhor, a divindade que lhes permitira tal recuo, decidiu vir acordá-los: «Meninos, isso foi há bué tempo e agora tudo fia muito mais fino!».

A cena passa-se num Centro de Dia, o do Bairro do Rosário, gerido pela Junta de Freguesia Cascais Estoril. Os foragidos são os seus utentes, o grupo Cascotas (os Cotas de Cascais!) e o espectáculo, encenado pelo actor Luís Lourenço, estreou na noite do sábado, 6, no auditório do Cruzeiro, no Monte Estoril.

Lotação esgotada. Público entusiasticamente participativo. Uma sessão que cedo se não vai esquecer.

Aplauso para os intervenientes e, de modo especial, ao Executivo da Junta, que abraçou com mãos ambas o projecto e prontamente o apoiou!

MARCELO E A FOME DOS OUTROS

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Não há peditório do Banco Alimentar Contra a Fome (BA) sem Marcelo. E ainda bem. Sem Marcelo, a pobreza em Portugal ficaria ainda mais sujeita à caridadezinha. Marcelo diz que se trata de solidariedade. A diferença é óbvia: a caridadezinha é a esmola que o rico deita no copo do pedinte e a solidariedade é o sentimento nobre de ajudar quem precisa.

Marcelo não falha uma campanha do BA. Ele sabe como ficar bem na fotografia. Ou no “boneco” televisivo. Aproveita para cimentar a sua popularidade e sempre é mais uma oportunidade para deixar recados. Desta vez, não resistiu em voltar a dar indicações ao Governo e mencionou o problema das hipotecas bancárias na habitação, mas poupou o primeiro-ministro ao esquecer o combate à pobreza da responsabilidade governativa.

Há meses que as pessoas carenciadas, que se socorrem da ajuda providenciada através do BA, esperam pela reativação do programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC), suspenso, adiado, interrompido há muitos meses.

Este POAPMC é financiado pela União Europeia, mas depende da logística de cada Estado para ser implementado. Em Portugal (noutros países não sabemos), a operacionalidade deste programa tem sido alvo de litígios sem fim entre as empresas que concorrem aos fornecimentos e à distribuição dos alimentos. Quem se lixa, como sempre, é o mexilhão. Entre impugnações de concursos e falhas de fornecimentos, o apoio aos mais carenciadas tem ficado esquecido.

ACABAR COM A MONARQUIA

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colagem fotográfica

No dia em que Carlos III foi finalmente coroado, as ruas de Londres foram palco de várias manifestações anti monarquia. A polícia do reino deteve muita gente, como medida preventiva de eventuais excessos.

Nos corredores da política, onde a polícia não mete o bedelho (por enquanto), também há movimentações que procuram destronar o chefe do Estado.

Um desses atores antimonárquicos é a Fundação Sortition, onde se congemina a demolição paulatina do regime. Por exemplo, já apresentaram publicamente a ideia de substituir a House of Lords por uma House of Citizens. Traduzindo: apear os lords e substituí-los por cidadãos eleitos.

A House of Lords (Câmara dos Lordes) desenvolveu-se a partir do “Grande Conselho” (Magnum Concilium) que aconselhava o rei durante a época medieval. A época medieval já lá vai, mas há famílias que mantêm quase intactos os mesmos privilégios.

A House of Lords, é a segunda câmara do parlamento britânico, mas os seus membros são uma mistura de pessoas nomeadas pelo governo, aristocratas que herdaram a posição dos seus pais (!) ou representantes da Igreja Anglicana. Uma maioria de velhos e velhas barrigudos e barrigudas, sempre muito emproados.

A proposta da Fundação Sortition é a de criar uma câmara mais democrática, com uma assembleia de cidadãos a funcionar em permanência.

Um modo diferente de fazer democracia, transformar a política para melhorar a democracia – palavras de ordem da Fundação Sortition. Fonte: Sortition Foundation

Ninguém questiona a democraticidade atual do parlamentarismo inglês, apenas querem eliminar de vez os resquícios de tempos em que o poder não era democrático. Os reformistas da Fundação Sortition dizem que os privilégios dos Lords não fazem sentido, num tempo de enormes dificuldades para o cidadão comum, “é obsceno que mais de 100 milhões de libras por ano de dinheiro dos contribuintes vá para a Câmara dos Lordes, que parece uma aldeia de reformados para políticos desatualizados e caducos, uma espécie de bar aberto para esses políticos, uma relíquia dos tempos antiquados em que os assentos no governo eram um direito de nascença. Não admira que a maioria dos Lordes apareça adormecida ao volante.”

Um discurso nada meigo. Colocar em questão a existência desta câmara legislativa é questionar diretamente a própria monarquia. O rei é ali que se senta, entre os seus pares, num trono que mais parece um altar em talha dourada.

O MISTÉRIO DA PEDRA QUEBRADA

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Ele bem ordenara: quero o meu nome sempre bem à vista, por todo o meu Império, em tudo quanto seja obra de monta, pois nada pode ser feito sem o meu beneplácito, directo ou alcançado por intermédio dos meus fiéis mandatários!

O nome e os meus títulos. Que sou imperador, porque subi ao trono pela força das armas; sou César, porque foi Júlio César o meu pai adoptivo e eu lhe sucedi; sou augusto, porque os deuses assim me quiseram: que viesse para aumentar a felicidade de todos e afastar de vez a angústia que a muitos acabrunhava! Por isso, aliás, sou Pai da Pátria e Sumo Pontífice, interlocutor privilegiado entre os homens e as divindades!…

Mas neste caso, Senhor, vosso nome, além de cortado a metade por quem já de vós nada sabia nem queria saber, vosso nome aguentou camadas de argamassa por cima!

– Que palavras estão aqui, Amigos? Será bruxaria? O melhor é mesmo escondermos tudo isso bem escondido, que esta pedra assim acaba por estar mesmo a calhar aqui!

E, na tarde desse dia, os operários assim fizeram. Há séculos, decerto!

Outro dia, houve, no entanto, em que outros homens decidiram recuperar a torre antiga, renovar-lhe o aspecto. Deram em descascar as camadas e eis senão quando o nome do imperador surgiu! Esse mesmo: o de Augusto, o primeiro imperador romano!

Que teria ele mandado fazer em Viseu para aí termos uma pedra com o seu nome? Ou será que se trata apenas a menção cronológica de um evento qualquer ocorrido «no tempo em que era imperador César Augusto»? Ou quiseram as gentes de Viseu levantar monumento em sua honra, reconhecidas por benesse vinda da Roma longínqua?

Truncaram-te o nome, Augusto! Partiram a inscrição em que tudo isso viria, supostamente gravado para todo o sempre! Ficámos, pois, sem resposta!…

A não ser que, num outro dia, num dos edifícios por perto, se nos depare o que ora falta!

E todos ficaremos mais contentes!

Um dia, porém, houve uns senhores que ousaram tentar adivinhar o resto do escrito. Pelo menos uma boa parte. A proposta de leitura é a seguinte:

IMP(erator) · CAESA[R  AVG(ustus) · PONT(ifex)] / MAX(imus) · TRIB(unicia) · PO[TEST(ate)] [XXIIIX?] (septima vigesima) / CO(n)[S](ul) · XIII (terdecies) · PA[TER · PATRIAE] / [TERMINVS ∙ AVGVSTALIS] / 5 [INTER … ET …]

O imperador César Augusto, pontífice máximo, no poder tribunício 27º (?), cônsul treze vezes, Pai da Pátria. Término augustal entre… e …

Temos, portanto, um documento da maior importância para a história da cidade de Viseu.

O estudo epigráfico da pedra foi feito por mim, em colaboração com Ricardo Gaidão e Adelaide Pinto, na revista Ficheiro Epigráfico, de Coimbra, publicada no passado mês de Março, no quadro do acompanhamento dos trabalhos realizados pela empresa Inloco, Arqueologia, sob coordenação de Adelaide Pinto e Ricardo Gaidão, no âmbito das obras de reabilitação da Sé de Viseu, promovidas pela Direção Regional de Cultura do Centro, identificou-se, em Outubro de 2022, parte de uma inscrição romana, reaproveitada no cunhal de uma das torres que integra o complexo, conhecida na toponímia local como torre do “Aljube”, devido à função que desempenhou durante vários séculos.

Atendendo à sua importância, de imediato consciencializada, procedeu-se à desobstrução da totalidade do fragmento, de modo a poder ser feito o seu estudo. O edifício é propriedade da Diocese de Viseu e as obras visam converter o imóvel numa área de exposições temporárias. O dono de obra, representado pela Dra. Fátima Eusébio (responsável do Museu da Sé), foi o primeiro a incentivar a desobstrução da epígrafe, no âmbito do processo de valorização do edifício. E é provável que a peça fique in situ, sendo limpa e colocada em evidência através de iluminação apropriada.

Partes deste artigo foram publicadas antes em Renascimento (Mangualde), nº 843, 01-05-2023, p. 10 e no blog Notas & Comentários

MÚSICA NO CORAÇÃO

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Querido amigo Calisia:

Toda a vida me acompanhaste! Foste durante muito tempo uma razão, uma referência, um prolongamento de mim mesmo! Sempre te amei, vi em ti uma esperança, um desabafo, o abraço. Como bom amigo, não só me acompanhaste nos bons momentos, como também estiveste presente nos maus. O meu comportamento bipolar para contigo foi uma constante ao longo dos anos. Da mesma forma que te amo e te trato com amor, descarrego em ti, toda a minha mágoa, tristeza e fúria! Com mais ou menos fragilidades, com mais ou menos pó, tu estiveste lá para mim, parado, à espera que fosse ao teu encontro. Ainda assim, odiei-te! Foste muitas vezes instrumento da minha vaidade e, em paralelo, da minha vergonha.

Um dia descobri que um amor não precisa de ser perfeito, que o amor não é perfeito. Provavelmente passei demasiado tempo a tentar dizer-te algo, esquecendo o que tinhas para dizer. Incrível que, apesar de velho e cansado, depois de tudo aquilo por que passamos, ainda olhas para mim e me convidas a sentar ao teu lado. Talvez te deva um pedido de desculpas ou talvez deva procurar desculpar-me a mim próprio. Sinto que vivemos tanto uma mentira que a mentira se tornou real. E apesar de mentira, foi verdadeiro.

Agora os nossos encontros são menos constantes, mas sinto muitas vezes a tua falta. Matamos saudades sempre que surge uma oportunidade! Nasceste primeiro que eu e sei que viverás mais do que eu. Sei que viverás mais histórias para contar.

A minha avó escreveu poemas sobre nós. Depois de ela falecer, eu ainda encontrava pequenos papéis escondidos nos bolsos dos meus robes, referentes a nós. Sorrimos e choramos juntos. Conheceste todas as minhas paixões. Ajudaste-me a descobrir o que dizer, quando as palavras não serviam. Quando senti necessidade de substituir um por outro, derramei vinho sobre ele, e o mesmo virou-se contra mim. Já tu!!! Tu és à prova de vinho!! És à prova de mim mesmo.

 Até sempre meu velho piano. Estarás sempre no meu coração

“A nossa nobre missão civilizadora”

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Abra as portas do roupeiro, conte as calças, vestidos, casacos, camisas, camisolas, sapatos, etc. Pergunte-se e responda: preciso de tudo isto para viver bem?

Se por acaso está num centro comercial, basta caminhar olhando as montras, para cumprir, com sucesso, o exercício de reflexão que proponho nesta crónica. Quantas lojas de inutilidades! 

Se a leitura lhe provocou algum incómodo, refugie-se no pensamento habitual: eu não! Eu não sou consumista, só compro o que preciso, separo os lixos, entrego sempre as roupas que não visto, na igreja, nas lojas sociais ou nos pontos de recolha. Eu não!

Pois eu digo: todos nós SIM e esse é O PROBLEMA.

A obsessão produtivista e a febre consumista, os dois pilares do capitalismo, o modelo de desenvolvimento que diariamente nos é vendido, serão, a curto prazo, a nossa sepultura.

A produção infinita de mercadorias é o modelo económico que grassa por todo o mundo, graças à globalização feliz, que os países do G7, G8, ou G20, festejam nas cimeiras.

O absolutismo económico do capitalismo, num mundo cada vez mais ameaçado de acabar, tem uma história curiosa. Depois de séculos de pilhagem de recursos do sul pela civilizada Europa, vieram os anos das trocas desiguais, depois das independências, mantendo-se a desigualdade norte/sul. Seguindo o nosso exemplo de sucesso, o sul global adotou o mesmo modelo económico, reproduzindo a divisão da sociedade em classes, sob o guarda chuva da democracia política. A missão civilizadora da Europa traduziu-se, onde pode, na reprodução desse modelo. Pois não é a Índia, com os seus 1500 milhões de seres, designada como a maior democracia do mundo?!

Ensinamos um modelo da economia contra a natureza e contra a sociedade. Ignoramos as diferenças sociais, desdobramo-nos em organizações humanitárias, para apaziguar a nossa culpa, pugnamos pelas liberdades como valores supremos, escondemos as misérias em lugares onde não nos incomodem.

E não bastando séculos de exploração, seguidos dos tempos de trocas desiguais, nos últimos anos, exportamos para o sul global os nossos resíduos, tornando-o a lixeira dos excessos do produtivismo.

As imagens do deserto de Atacama, no Chile, são o reverso da imagem que lhe propus no início desta crónica: aí acabam os milhões de peças de roupa da moda, bem escondidos dos nossos olhares.

Nós? Nós não! Nós fazemos parte daqueles que têm direito a peças novas em cada estação. Daqueles que têm direito a um mundo limpo, aos paraísos nos mares do Sul, a gozar uma boa vida. Somos do norte, da Europa, cumprimos, na história, a nossa nobre missão civilizadora, ensinamos os bons modelos a povos que viviam em estado selvagem. Construímos-lhes igrejas, ensinamo-los a rezar.

Ensinamos-lhes o melhor do capitalismo e ainda os presenteamos com 11 milhões de toneladas de lixo diário (dados de 2016), criamos ilhas de resíduos de plástico, e jardins Gramacho (a ironia do nome desta enorme lixeira no Brasil é gritante) onde crianças e adultos vasculham lixo reutilizável. Nesta e noutras lixeiras, onde centenas de pessoas desmantelam resíduos tecnológicos, expostas a toda a espécie de toxicidade, para que nós possamos mudar de gadgets a toda a hora, atafulhar as casas com tralha fora de uso, para que as multinacionais tenham lucros obscenos, a máquina publicitária vendendo-nos continuamente inutilidades indispensáveis à nossa felicidade.

Ah! nós não! Nós tratamos os nossos lixos, reaproveitamos tudo, transformamos em novos bens todos os lixos! Até fazemos obras de arte com lixo!

E enquanto transformamos o sul numa lixeira, destruímos habitats marinhos e fazemos desaparecer espécies à velocidade de 200 a 2000 por ano, vamos entretendo-nos com a encenação, minuciosamente preparada para os media, da coroação do rei britânico, e, nos intervalos, a máquina publicitária nos aguça o apetite para mais um produto desnecessário, mas que nos deixa tão felizes! Ou aborrecemo-nos até à náusea, com os comentários à notícia requentada vezes sem conta dum ministro e dum governo que afinal ficam, apesar do puxão de orelhas do presidente.

Com paciência e sorte, fazendo zapping, talvez possamos ver umas imagens chocantes do deserto de Atacama, dos jardins Gramacho, ou da lixeira geral da maior democracia do mundo, a Índia, dos esgotos a céu aberto, limpos pelos dálitas. Mas podemos sempre mudar de canal!

Nós, que reivindicamos o direito a consumir cada vez mais, a gozar uma boa vida, a não sermos incomodados com lixeiras, que protestamos se não há recolha do lixo atempada na nossa rua, nunca assumimos a nossa quota de responsabilidade. E ainda olhamos com desdém toda uma humanidade condenada a fazer o trabalho de limpar o mundo. Uma humanidade, a quem calha o sujo, o lixo, as imundícies, os plásticos que invadem os oceanos, para que o norte tenha cidades limpas e jardins floridos onde possa viver serenamente.

Em vez do minuto verde, ou dos programas fora de horas na RTP 2, nos quais os coletores de lixo e toda a imundície é tratada com a dignidade de grande notícia, uma vez na vida gostava de ocupar um lugar no qual pudesse decidir que todos os telejornais de horário nobre passariam a abrir com notícias sobre o lixo. O nosso lixo, que continuamos a varrer para debaixo do tapete.

LIDAR MAL COM A REALIDADE

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Não dou alvissaras por este governo. Nem este, nem algum outro que seja detentor de uma maioria absoluta, assente apenas na vitória eleitoral de um só partido. A vantagem das coligações é vigiarem-se uns aos outros, mesmo que em muitos casos, nem isso seja suficiente para evitar algumas asneiras. Mas do mal o menos.

Também nunca votei em Marcelo Rebelo de Sousa. Por uma simples razão. A minha percepção de que independente da simpatia que ele granjeou na opinião publica, fruto daquele ar simpático e ternurento com que se dirige às pessoas, numa linha de populismo “pimba”, há ali um “Petit Maquiavel”. O percurso intelectual e politico do actual PR mostra-nos que ao longo da sua vida, os seus momentos de êxtase sempre coincidiram com a criação de factos políticos. O Professor Marcelo não resiste à normalidade.

Já aqui escrevi no “Duas Linhas”, que o actual PR teve uma intuição desastrada quando no final de 2021, após o chumbo do OE 2022, dissolveu o parlamento, convencido pelas sondagens de que o PS iria perder essas eleições. Ou vencendo-as por margem ínfima, no mínimo acabaria por ficar refém do PSD, num governo minoritário liderado por António Costa, sem qualquer apoio à sua esquerda no parlamento. Como viemos a verificar a coisa correu-lhe mal, e o PS acabou por alcançar uma maioria absoluta, contra todas as expectativas.

É neste novo quadro que o PS tendo a liberdade de movimentos que lhe é conferida por uma maioria absoluta, avança para um conjunto de medidas politicas, uma delas a privatização da TAP, sem a pressão dos partidos à sua esquerda. Mal ou bem, com um sucedâneo de episódios rocambolescos, o governo lá conseguiu pôr a TAP a dar lucros. E isso é que é importante, independente das indecências relativas a algumas indeminizações, que, note-se, também foram pagas na CGD a ex administradores, por Paulo Macedo, sem o alarido da TAP. 

Onde é que o PR entra muito mal neste segundo mandato?

Depois de já ter dissolvido o parlamento uma vez, do qual resultou a actual maioria absoluta, insinua aqui e acolá, a cada momento critico, com uma nova dissolução, como se o mais alto magistrado da nação andasse numa espécie de jogo do gato e do rato com o PM. Goste-se ou não, António Costa está investido de toda a legitimidade politica e democrática para prosseguir o seu mandato. Nem há nenhuma disfunção regular dos órgãos de soberania, nem a maior ou menor fragilidade politica de um ministro é razão para se dissolver o parlamento.

Há sim, um Presidente da Republica que ainda não digeriu bem o resultado eleitoral das ultimas legislativas, contra todas as suas expectativas. Essa realidade que emergiu nesse ultimo domingo de Janeiro de 2022, deixou-o num estado de ansiedade que está bem latente nas suas entrevistas e afirmações ao longo deste ano. Para aqueles que sempre acharam o actual PR uma espécie de inteligência rara, acima da média, face aos seus antecessores, desenganem-se. Está muito longe de ser o estadista de que necessitávamos.

cartoon de Hélder Dias

REFERENDO POR INICIATIVA DE CIDADÃOS

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Uma das características de Marta Gameiro é a persistência. Afirmação que não corre o risco de ser desmentida, mesmo não conhecendo bem a pessoa em questão. Periodicamente, o nome dela surge nos media: organizou um Congresso Internacional sobre Gestão de Pandemias (Fátima, outubro de 2022); organizou uma petição sobre a necessidade de se discutir a adesão de Portugal ao Tratado Internacional sobre Prevenção e Preparação para Pandemias, que foi defender na Assembleia da República em fevereiro deste ano. Agora, Marta Gameiro regressa com nova petição, mais ambiciosa, para se aprovar um referendo sobre a adesão a esse tratado.

“As democracias e as sociedades sãs assentam no racionalismo e na honestidade. Podem não o demonstrar sempre, mas estes valores devem estar na base das grandes decisões. Sem eles, nem a democracia nem a justiça são sustentáveis. São substituídos por uma estrutura em que poucos ditam a muitos, e os excessos do feudalismo, da escravatura ou do fascismo tornam-se dominantes”, está escrito na apresentação da petição, como argumento para a realização do referendo.

60 MIL ASSINATURAS EM SEIS MESES

Marta Gameiro pensa que o Diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) tem demasiado poder, sendo que pode estar nas mãos de interesses particulares, por via das fundações privadas que hoje financiam a OMS.

Sobre tudo isto, conversámos com Marta Gameiro.

É uma iniciativa pessoal ou está a dar a cara por algum grupo de cidadãos?

Esta iniciativa surgiu na sequência de uma outra petição que submeti no ano passado e que fui defender na Assembleia da República no passado dia 16 de Fevereiro. Nessa petição, eu apelava apenas a que o Parlamento tomasse em atenção o que se estava a passar na OMS e que submetesse a referendo a participação de Portugal num Novo Tratado Pandémico, que se começou a ouvir falar em inícios de 2022. Reuni mais de 8000 assinaturas, tendo sido validadas 7660, pelo que a petição terá de ser obrigatoriamente discutida em plenário.

A questão é que já tive uma outra petição que chegou a plenário (Petição contra a vacinação covid de crianças e jovens), tendo demorado cerca de 18 meses até ser discutida e, consequentemente, reprovada. Por tal, sinto que só levar a plenário não chega. A petição será ignorada pelo público em geral se não houver algum tipo de atenção da imprensa nacional e muito facilmente é adiada até já não ter qualquer tipo de relevância.

Por outro lado, sendo este um governo de maioria absoluta, basta o PS não se querer meter por estes caminhos e o assunto é encerrado. Aguardo há mais de  dois meses por um simples relatório da Comissão de Saúde do dia 16 de Fevereiro.

Posto isto, sinto que devo algo às mais de 8000 pessoas que assinaram a petição original e devo tentar ir mais além e conseguir as 60000 que permitem a realização de um referendo por iniciativa dos cidadãos. Estou em contacto com várias pessoas por todo o mundo que acompanham as reuniões da OMS e que tentam o mesmo tipo de iniciativas nos seus próprios países.

Como acha que os deputados olham para estas iniciativas dos cidadãos?

Há um problema na nossa democracia: pouca gente acredita nela ou que ela funcione. Além disso, somos um país com uma preocupante alienação política, como se comprova pelo número de pessoas que costuma aderir a manifestações. Daí que, quando se trata de defender os nossos interesses, frequentemente o cidadão comum sente-se desorientado e não sabe sequer por onde começar. Além disso, a burocracia que se tem de ultrapassar é tão desgastante e de tal modo fora do contexto do quotidiano, que facilmente se chega à conclusão: não é possível, isto não resulta.

Ora, os deputados sabem isso. Aliás os deputados têm consciência que dentro da Assembleia da República por vezes joga-se a lei da selva e vence quem consegue ter maior jogo de cintura e maior conhecimento das rasteiras da lei. Na última vez que assisti a uma sessão plenária fiquei impressionada com a quantidade de tempo que se perde em demagogia e sem falar nada em concreto. Fez-me lembrar as críticas ao parlamentarismo que lia na adolescência nos livros do Camilo Castelo Branco.

Outra questão é o tipo de argumentação que se leva, o tipo de discurso. Se não agradar, facilmente somos conotados a uma determinada ideologia – mesmo que não nos identifiquemos minimamente com ela – e novamente o assunto é encerrado.

De modo que julgo que os deputados olham para estas iniciativas com o nível de atenção que elas têm mediaticamente. Se for “zero” a cobertura mediática, é “zero” a atenção que vão ter. Tudo se traduz em votos no final.

Tem prazo para alcançar os objetivos com esta petição?

Preciso de 60.000 assinaturas validadas, como tal vou apontar para as 100.000. Vou tentar recrutar pessoas para me ajudarem. Julgo que na próxima Assembleia Mundial de Saúde, que se realiza este mês, ainda não vão decidir nada e que estão a apontar para 2024. Como tal, o meu objetivo é submeter a proposta de referendo em Dezembro. Daqui a 6 meses.

Acredita mesmo que há uma possibilidade de sucesso, impedindo a adesão de Portugal a esse tratado?

Preciso de salientar que eu NÃO sou contra uma instituição como a OMS. Eu acho que a OMS faz todo o sentido e que o esforço conjunto entre países em prol da saúde comunitária é um ideal nobre, que deve ser perseguido com diálogo, solidariedade e uma base científica muito sólida para intervenções coletivas. Mas a OMS atual já não é a OMS que se formou a partir dos códigos de Nuremberga. Algo mudou e isso eu não posso aceitar.

De uma instituição como a OMS pretende-se transparência e, principalmente, independência, assim como uma completa isenção de conflitos de interesses. E isso não se verifica. Neste momento o seu financiamento é maioritariamente de mecenas privados que ditam em que direção o dinheiro tem de ser aplicado. A forma como se gere a saúde está a ser alterada para um modelo em que poucos decidem o futuro de muitos, com muita pouco investimento em sistemas de saúde e excessivo direcionamento de recursos para produtos, que depois é preciso obrigar os cidadãos a adquirir.

É da saúde das pessoas que estamos a falar! E mais profundo que isso: da liberdade de escolha sobre o que fazer com o nosso corpo.

O que se viu na gestão da pandemia Covid foi o reflexo desse modelo novo de olhar para a saúde. A OMS abandonou todas as evidências que tinha de estudos anteriores que apontavam que os confinamentos não funcionavam. Desprezou por completo o bem estar físico, psíquico e social (a sua própria definição de saúde) e enveredou por uma odisseia de testes, apps de rastreamento, máscaras e “vacinas” em tempo recorde. Os hospitais dividiram-se entre alas com pacientes com covid e alas com pacientes sem covid, o que levou ao seu total colapso, tanto a nível de recursos humanos, como de logística.

E tudo isto porque a maioria dos governos decidiu seguir as orientações de quatro fundações privadas.

Há quem não concorde com o referendo porque acredita que o povo vai votar massivamente no “sim” e que, de qualquer forma, nada disto foi constitucional. Eu não concordo com isso. A gestão covid provou largamente que em caso de “emergência” tudo é autorizado e o resto logo se vê. Havendo debate honesto e líderes de opinião credíveis, penso que o final é uma incógnita.

Sugiro três perguntas na minha proposta de referendo. Qualquer pessoa pode votar contra o Tratado e as Emendas e no entanto achar que devemos permanecer na OMS haja o que houver.

Se o referendo acontecer já considero uma vitória. Se o “sim” às propostas internacionais ganhar, apenas ficaremos onde já estamos. Mas ao menos tentei.

Se quiser assinar a petição sugerida por Marta Gameiro, pode seguir este LINK.