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Sintra, Ildefonso vítima de bullying da Polícia Municipal

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Em Sintra, o que estão a fazer com o cidadão sem-abrigo Manuel Ildefonso é algo que roça o sadismo. Pela força da farda que envergam, agentes da Polícia Municipal, obedecendo a ordens superiores, têm passado o tempo a tirar os pertences deste senhor que vive há 3 anos à porta da Câmara Municipal de Sintra.

Vivendo ali, exposto aos olhares, e ao frio e à chuva, Manuel Ildefonso exerce o direito de reclamação, protesta, luta por uma causa que considera justa: o direito a ter uma casa, uma habitação social atribuída pela Câmara.

As razões são sobejamente conhecidas, quem tiver curiosidade pode fazer aqui neste site uma busca com a palavra Ildefonso.

A Polícia Municipal apreende coisas como, por exemplo, pequenas telefonias, bancos de plástico, alimentos, chapéus de sol, baldes de plástico e, como vimos, até cartazes de protesto que o senhor Ildefonso transporta junto ao peito. Também lhe rebocaram já duas viaturas. Uma história inacreditável, a história das apreensões das viaturas. Um saque constante com que massacram este homem, numa óbvia tentativa de o desmoralizar para que ele abandone o protesto e saia da vista do presidente da câmara.

Quem manda na Polícia Municipal é o Presidente da Câmara. Como Basílio não fala com pessoal menor, deve dar ordens ao comandante da polícia que, por sua vez, transmitirá a vontade de Basílio aos agentes que, assim, se vêm na obrigação de cumprir ordens desumanas e injustas.

Quem manda em Basílio Horta são alguns dos membros do Governo, a saber, o primeiro-ministro e o ministro da administração interna. E por isso creio que o grupo de cidadãos sintrenses que apoia o senhor Ildefonso deveria tentar essa via política hierárquica para tentar parar com esta pouca vergonha. A não ser assim, só um tribunal poderá mandar parar com este bullying constante sobre um homem indefeso.

Para já, o ator Guilherme Leite decidiu juntar-se ao senhor Ildefonso, um dia destes serão dois de cartaz ao peito à porta da Câmara Municipal de Sintra.

Escravos construiram estádios para o Mundial de 2022 no Qatar

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Mais de 6500 trabalhadores migrantes morreram nas obras do Qatar para o Mundial 2022. A Amnistia Internacional diz que se trata de uma “forma moderna de escravatura”, mas o Governo qatari diz que número de mortes é normal e a FIFA também considera 6500 mortes um número baixo…

título do jornal Público

O Qatar tem sido palco de grandes eventos desportivos. O Governo do país, uma monarquia absolutista, uma ditadura, decidiu investir na sua própria promoção e imagem através do desporto internacional, eventos que são sempre transmitidos pelas televisões de todo o Mundo e que chamam bastante a atenção da população.

A organização deste tipo de eventos obriga à adaptação ou construção de raiz de muitas infraestruturas. O Qatar tem feito investimentos megamilionários nessas construções. Não só os materiais têm de ser todos importados, também a mão-de-obra sai de todo o Mundo para convergir ali.

O Qatar passa por ser um país muito rico, mas não é por isso que trata melhor os trabalhadores migrantes que constroem os estádios e os arranha-céus com que o resto do Mundo se tem embasbacado.

Doha, capital do Qatar, onde nem tudo o que luz é oiro

As acusações de graves violações dos direitos humanos desses trabalhadores existem há anos. Quando a FIFA em 2015 decidiu entregar ao Qatar a realização do Mundial de Futebol de 2022, as condições de escravatura a que os imigrantes estão sujeitos foram motivo para muitos protestos, como eu próprio reportei, na altura, ao serviço de um canal de televisão de Angola.

Não é a primeira vez que a FIFA aceita sedear um grande evento neste país. É a força dos petrodólares a mandar, não tenhamos dúvidas. Foi no Qatar que se realizou o Campeonato do Mundo de Clubes de 2020, quando venceu o Bayern Munique.

Além da FIFA, outros organismos do desporto internacional têm aceite realizar eventos no Qatar. Foi lá que se realizou o Campeonato do Mundo de Atletismo, em 2019. O Grande Prémio de Moto GP do Qatar faz parte do calendário internacional. Enfim, há muitos exemplos, desde competições internacionais de voleibol ao ténis que se realizam num país onde raramente as temperaturas baixam dos 35 graus centígrados à sombra. Ou seja, onde as condições para a prática desportiva não são as ideais e as provas têm de se disputar de manhã bem cedo ou até mesmo durante a noite.

Se pensarmos que as maiores audiências televisivas de eventos desportivos estão na Europa e na América, e que devido aos fusos horários essas transmissões em direto chegam de madrugada a casa das pessoas, escasseiam as razões para que o Qatar seja escolhido com tanta frequência para a realização desses eventos. Isto é, se excluirmos o peso do dinheiro, é claro.

E da escravatura não se fala.

Chineses têm novo ‘carocha’, mas… eléctrico!

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Um automóvel ‘parecido’ com o ‘Carocha’ vai voltar a circular… graças a indústria chinesa. Será totalmente elétrico e com autonomia de 500 kms.

Tem o nome de Punk Cat e pertence à Great Wall que, em 2013, pôs um veículo todo terreno nas mãos de Carlos Sousa, no Dakar da Argentina. Era um Haval Suv, made in China.

Os chineses deixaram há muito de fazer pequenas tralhas e estão em força no comércio automóvel com 19 marcas próprias.
O novo ‘parecido’ ‘carocha’ é realmente aliciante. E poderá ser fabricado no Brasil, na antiga fábrica da Mercedes, apesar dos brasileiros terem poucos pontos de abastecimento elétrico.

O facto está a incomodar os alemães. Mas é importante recordar que Volkswagen instalou nos seus automóveis um software que viciava os dados sobre a poluição dos seus motores de combustível fóssil, quando eram testados por computador.
E agora a VW vem queixar-se que a Great Wall lhe anda a copiar… as linhas de um dos muitos tipos de ‘carocha’ fabricando carros Punk Cat eléctricos!

O Punk Cat têm parecenças com o VW Type 1, de 1938 e 2003 e depois alterado de 2004 a 2019. Mas não é o VW Type 1.
Agora que os chineses se interessaram por um carro tipo ‘‘carocha’, os alemães apressam-se a insinuar que vão retomar a produção do Beetle com base na plataforma eléctrica MEB.

É uma sorte o argumento não ‘pegar’ por exemplo na indústria naval ou na dos instrumentos musicais ou na indústria da confecção, porque ficávamos fritos com este tipo de multinacionais.

Que venham os ‘carochas’ de vários feitios e tamanhos… para todos os gostos. Quero lá saber da Volkswagen que andou a aldrabar o mundo e agora clama “ai Jesus! que não queremos carros parecidos com os ‘nossos’’!

Lisboa, os misteriosos túneis do bairro da Ajuda

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Um buraco feito no pátio do Palácio da Ajuda descobre um túnel e a leitura da notícia deste incidente trouxe para a praça pública reações e memórias de muitos lisboetas, nomeadamente os que viveram ou vivem no bairro da Ajuda e dos que se interessam pela arqueologia ou pela preservação do património histórico.

E vieram os relatos de quem viu ou sabe da existência de vários túneis por debaixo das casas e antigas quintas da Ajuda. Património que está a desaparecer, como relata Alves Maia numa publicação que fez em 2016 no Facebook: “falando nas obras na Calçada da Ajuda, ao passar por ali hoje deparei com este senário, referente a este túnel que vos mostro, que sempre ouvi falar e nunca acreditei, agora fiquei sem palavras a ver uma riqueza destas de baixo do chão e nunca foi explorado e agora pelos vistos irá ser destruído.”

O túnel que se vê nesta fotografia tem pé direito, seria possível caminhar no interior, certamente que não se tratava de um esgoto. As paredes deste túnel parecem semelhantes às paredes do túnel que ficou a descoberto nas recentes obras no pátio do Palácio da Ajuda. Talvez se trate da mesma estrutura.

Seria interessante se os responsáveis pelo Palácio Nacional da Ajuda viessem esclarecer esta questão. Que túnel é este, que função teve e se os danos provocados irão ser reparados.

Tentamos o contacto disponibilizado no site do Palácio Nacional da Ajuda (e-mail apenas) mas o sistema não funciona, está a precisar de obras também…

No site do Palácio Nacional da Ajuda, a única referência a obras não menciona qualquer túnel…

Outro caso, relatado por Paulo Alexandre Ramos. Como mostra a fotografia que este cidadão incluiu na publicação que fez no Facebook, uma obra rebentou com um túnel e não houve notícia que alguém se tivesse alarmado com isso.

Na Ajuda, os mais velhos quando crianças brincaram nestes túneis. Há relatos dessas memórias…

É pena que estas infraestruturas não estejam a ser preservadas. Os projetos de urbanização do bairro deviam incluir estas memórias. Uma coisa não impede a outra. Basta querer fazê-lo. Não vale a pena argumentar que não se sabe por onde esses túneis passam, porque há mapas antigos que mostram bem onde eles estão.

O bairro da Ajuda esteve esquecido durante muitas décadas. Entalado entre dois polos de atração turística, Belém e Alcântara,  o bairro degradou-se bastante mas, ao mesmo tempo, manteve uma alma muito característica. Hoje, com projetos urbanísticos a avançar, tudo vai mudar, mas nem sempre para melhor. No que respeita à preservação do património, existem muitas dúvidas.

A humanidade da Humanidade

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Terminada a COP26, parece-me pertinente discutirmos alguns dos muitos prazeres que saboreamos neste nosso admirável primeiro mundo e que os marotos dos cientistas, liderados pela poderosíssima enfant plus terrible du planète nos querem retirar.

Um dos grandes prazeres da vida é saborear uma excelente refeição, com entradas, aperitivo, prato principal, sobremesa e digestivo, repleta de iguarias que percorreram meio mundo até aterrarem no nosso prato, num ambiente sofisticado e devidamente climatizado. Desde quando é que isso pode ser batido por carne, peixe, leite, ovos e legumes locais, com fruta biológica, provavelmente cheia de bicho, num espaço em que a temperatura até nos obriga a vestir um casaquinho??

E haverá algo que se compare àquele cheirinho a carro novo, com uma estereofonia que nos permita ouvir o “Tubo de Ensaio”, entre outros grandes êxitos divertidos radiofónicos matinais, que até nos fazem ter pena quando o trânsito se move e nos descarrega no emprego tão cedo que nem conseguimos ouvir a conclusão do alegre “O Homem que mordeu o cão”, que o carismático Nuno Markl debita pelas ondas hertzianas? Agora comparemos isso com um metro – ou autocarro – apinhado, onde a playlist mais positiva do mundo nos entra pelas orelhas através de earphones bluetooth com um poderoso baixo, mas que não é suficientemente potente para anular um ou outro sovaco mais descuidado, já para não falar de uns restos gasosos do chicken tikka masala que alguém não digeriu devidamente na noite anterior.

E haverá algo mais prazeiroso do que desembrulhar um telefone novinho em folha, quiçá em frente a uns milhares de seguidores nas redes sociais, porque nada merece mais atenção do que vislumbrar o mais recente gadget adquirido pela estrela influenciadora do momento? Comparemos isso com o nosso desmazelado equipamento de vidro partido e memória quase cheia, que não nos deixa likar devidamente os comentários mais impactantes do momento, como seja troçar da pegada ecológica do percurso percorrido pelos líderes da COP26 até à fria Escócia.

Estes são os nossos pequenos prazeres, aqui nesta enfadonha Europa e América do Norte, onde sofremos diariamente na pele os terríveis impactos das crises económicas, o mal-estar causado atrás das orelhas pela obrigatoriedade em usarmos máscara ou, pior ainda, a impossibilidade de organizarmos jantaradas com os amigos durante tantos e penosos meses, num perigosíssimo alerta ao barramento das nossas liberdades individuais, por parte dos sistemas governativos autoritários – quase tirânicos – que por aqui temos ao leme.

(Mensagem aos/às leitore/as mais desatento/as: os parágrafos anteriores pretendiam ser irónicos…)

Para que servem tampinhas de garrafas de plástico

No resto do mundo, os prazeres são outros. Em 2015 estive numa conferência em Tenerife e o meu amigo Brian tinha acabado de regressar de Madagáscar, por onde andou durante semanas em busca de uma espécie de peixe julgada extinta. Conseguiu localizar dois exemplares, mas não foi só isso que lá encontrou. Também deu de caras com a pobreza e carências mais abjectas que já alguma vez tinha testemunhado e estamos a falar de um naturalista que percorre os quatro cantos do mundo em busca de organismos raros. Mas, no meio da maior seca que o país jamais tinha experimentado, o Brian encontrou sorrisos suplicantes, que lhe foram oferecidos por crianças quando conseguiam deitar a mão às tampas das garrafas de plástico (catadas pelos adultos) que os (poucos) turistas mandavam fora. Porque, em Madagáscar, uma tampinha de plástico de uma garrafa serve para tirar umas gotas de água duma poça na lama e beber essa água. Uma tampinha de garrafa é um tesouro que permite às crianças sorverem as primeiras gotas de água que lhes tocam nos lábios em dias, mesmo que, nessa água, um cão sarnento tenha defecado minutos antes.

Mas continuemos a falar de pequenos prazeres, como seja a chegada de um camião da ONU carregado de sacos de cereais que tiveram a sorte de escapar aos mafiosos que controlam estas entregas a populações esfomeadas. Há uns dias a minha mulher Sérvia contou-me, em lágrimas, que, no Iémen, as crianças estão a comer as próprias mãos de tanta fome que têm. Vou deixar-vos ler novamente a frase anterior antes de prosseguir.

Convencido que uma pequena disfunção linguística certamente a fez entender mal o título da notícia, googlei a mesma. Não deu muito trabalho, porque o Google completou-me a frase à medida que a teclava, como se adivinhasse aquilo em que estava a pensar. Não encontrei um artigo a narrar o choro silencioso das crianças, cujas cordas vocais estão tão secas que já nem lhes permitem chorar; encontrei dezenas – centenas – de descrições horríficas do que se passa nesta região, assolada pela guerra e seca.

Por falar em seca e guerra, já a tese de mestrado – em ciência política – da minha Nina tinha versado sobre o caso da Síria, onde uma seca de magnitude épica levou milhões de refugiados a meterem-se à estrada com a roupa no pelo e os filhos ao colo. Essa despopulação do país abriu caminho ao Daesh, que o tomou de assalto em poucas semanas. Foram precisos anos de destruição para correr com eles, mas a guerra civil – que já existia – ainda dura. Nem sequer me vou aventurar nesses meandros políticos, porque me falta a qualificação técnica para tal, mas uma coisa é certa: a seca forçou milhões de pessoas a abandonarem as suas casas.

Eu bem os vi, em outubro de 2018, quando regressava de Istambul num camião com 15 raias, que entreguei no Aquário de Madrid. Depois de entrarmos na Bulgária, para logo sairmos para a Grécia, percorríamos uma estrada em direcção a sul, contígua à fronteira com a Turquia, onde um amontoado de pessoas no meio da estrada nos levou a pensar que alguém tinha sido atropelado. Só quando nos aproximámos percebemos que eram umas poucas dezenas de refugiados, homens, mulheres, crianças, velhos e uma menina de três ou quatro anos que, de casaquinho de malha rosa, chorava baba e ranho que já não tinha, ao ver a polícia grega arrastar os pais, primos, tios para fora da estrada, pelos pés, enquanto esperneavam e o resto da família mandava cabeçadas nos vidros do nosso camião e tentavam entrar na galera, numa tentativa desesperada de deixarem um sítio onde se comem as mãos, para abraçarem o eldorado Europeu onde nós, primeiro-mundistas, sofremos diariamente com problemas tão terríveis quanto a falta de sinal wi-fi no Metro.

Para que serviu a COP26

Não tenhamos ilusões: na COP26 não se discutiu o futuro do planeta, que cá continuará depois da nossa passagem efémera, onde os nossos ossos vão ser estudados com curiosidade científica pela próxima espécie dominante, montando o nosso esqueleto à entrada de Museus de História Natural, como se de um Tyranossaurus se tratasse. Mas podemo-nos permitir algum conforto porque, sejamos pragmáticos, tenhamos consciência de que não vamos todos desaparecer; nós, os pobres europeus e americanos, que tanto temos sofrido à conta desta pandemia que fez filas de horas à porta de hospitais, vamos cá continuar. Mais grau, menos grau, mais casaco, ou menos chinelo, mais protector solar ou menos braseira, cá continuaremos alegremente a comentar o estado do mundo, com mais frio ou calor, porque temos casas, dinheiro e meios para sobreviver.

Mas isso somos nós. O resto do mundo não. A esses pobres desgraçados não lhes resta muito mais para além de comerem as mãos quando têm fome, ou esperar que os vídeos em que o fazem nos tragam uma lágrima ao canto do olho e, já agora, nos façam transferir meia dúzia de dólares que lhes meta qualquer coisa no estômago.

Na COP26 não se decidiu o futuro da Humanidade. Na COP26 decidiu-se o futuro da humanidade da Humanidade.

E, como todos vimos e sabemos, a probabilidade de os discursos acalorados, metas e valores que ouvimos passaram à acção é, na melhor das hipóteses, remota. Vamos finalmente começar a tomar medidas que poupem dois terços da população deste planeta ao sofrimento a que os nossos hábitos diários os votam desde o fim da Segunda Guerra Mundial? Ou vamos continuar a fazer de conta que todos estamos empenhados neste esforço de salvar o planeta porque passámos a usar sacos de compras reutilizáveis, em vez de sacos de plástico? As palavras proferidas asseguram-nos que sim, vamos. Mas a experiência diz-nos que continuará tudo na mesma – como a lesma.

Precisamos de fazer mais. Precisamos de fazer muito mais. Infinitamente mais. Não me perguntem o quê, porque quem descobrir a resposta a essa questão merece uma estátua do tamanho do mundo e eu não tenho uma fracção da esperteza necessária para tal. Mas uma coisa é certa, depois de tantos anos a tirar, podemos dar. E dar. E dar. E dar. E dar. E podemos doar, podemos votar, podemos organizar, podemos falar, podemos gritar, podemos protestar, podemos abraçar, podemos partilhar, podemos chorar, podemos mandar muito e muito e muito dinheiro para organizações que efectivamente façam alguma coisa por esta gente. Acima de tudo, podemos mostrar ao resto do mundo que sabemos aquilo por que estão a passar e sabemos que não é nada comparado com o que aí vem. Sim, porque, enquanto os nossos ares condicionados nos protegem dos quentes e frios intensos que já nos batem ocasionalmente à porta – e que se tornarão progressivamente mais intensos se continuarmos neste rumo –, não há mãos suficientes para saciarem a fome dos outros, que não vivem neste cantinho de céu que forjámos aqui para nós. Estamos numa panela que já está demasiado quente para ser arrefecida. Mas nós conseguimos regular a temperatura da nossa panela; eles, não.

Na COP26 não se decidiu o futuro da Humanidade. Na COP26 decidiu-se o futuro da humanidade da Humanidade. Resta ver se vamos passar das palavras aos actos…

Joaquim montou tenda em frente ao Palácio de Belém

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É uma história longa e nem sempre bem contada. Joaquim Oliveira perde-se, por vezes, nos meandros das injustiças que diz sofrer nos últimos 15 anos. Tudo terá começado quando alguém (que ele não nomeia) lhe fez uma proposta de compra da sua propriedade, uma casa num terreno amplo em Albufeira, no Algarve.

Proposta “ridícula” que foi recusada. Em má hora porque, segundo relata o sr. Joaquim, a partir daí o céu caiu-lhe em cima. Surgiram sucessivas penhoras das Finanças que foram sempre refutadas por ele, segundo diz. Acabou por perder a propriedade devido a uma dívida ao fisco de 3.500 €, uma dívida inventada e que ele nunca aceitou pagar, segundo relata.

Num contacto que estabelecemos com ele, disse-nos que “já em 2010 esta seita tinha mandado agredir os estrangeiros que tinham casas no barrocal algarvio para eles desanimarem e irem embora e venderem as casas baratas.”

Eventualmente, se a propriedade penhorada for leiloada, acabará por cair nas mãos de quem a quis comprar. “Gostam de comprar barato”, diz o sr. Joaquim, que diz ter a certeza de que este esquema está montado em todo o país por essa organização mafiosa.

Sobre este assunto, publicou um único vídeo nas redes sociais, em fevereiro de 2020.

No Algarve, vive há quase 7 anos num contentor, e também utiliza uma carrinha adaptada para campismo. Nessa carrinha vai visitando diversos locais do país, sempre exibindo o seu protesto. Um dos locais preferidos é o jardim fronteiro ao Palácio de Belém. E foi ai que decidiu, agora, montar uma tenda e continuar o protesto, na esperança de que o Presidente dos afetos venha um dia ter com ele.

Joaquim não desdenharia uma selfie com Marcelo, mas o que ele gostaria mesmo era de poder contar com a influência do Presidente da República para conseguir resolver os seus problemas, o principal seria recuperar a habitação que o fisco lhe tirou.

Emigrante, na sua página do Facebook percebemos que viveu e trabalhou em Inglaterra e também vemos fotografias dele em Macau e Hong Kong. E em manifestações contra a exploração de petróleo na costa algarvia. Vestígios de uma vida com Mundo e opções políticas e de cidadania. O que foi que lhe fizeram para se tornar num obstinado?

A Joana, a Clara e a Boneca na CNN Portugal

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Na conversa de João Rendeiro com Júlio Magalhães, na inauguração da CNN Portugal, as duas novidades foram a existência das três cadelinhas no agregado familiar do banqueiro, Joana, Clara e Boneca, e a intenção de mover uma ação contra o Estado português pela lentidão da Justiça. E pedir 30 milhões € de indemnização.

Esta parte da conversa foi a oportunidade desperdiçada para o Júlio Magalhães transformar aquilo numa entrevista. Se a Justiça portuguesa fosse célere, Rendeiro teria sido rapidamente condenado nos mesmos três processos em que foi tardiamente condenado e, possivelmente, estaria agora a pensar na vida e com saudades da Maria numa suite da Carregueira. Teria tido menos tempo para malbaratar as obras de arte penhoradas pelo Estado, teria tido menos tempo para contratar o artista que falsificou alguns quadros, teria tido menos tempo para organizar a fuga. Se a Justiça tivesse sido célere, Rendeiro teria boas razões para se queixar da diferença de tratamento relativamente a Ricardo salgado que, apesar dos 60 crimes de que está acusado (entretanto, o juiz Ivo Rosa já descartou alguns desses crimes), ainda não foi julgado por nenhum.

Assim, na verdade, não se pode queixar de discriminação. O caso BPP foi despoletado em 2010 e a crise do BES só teve início em 2014. Esse desfasamento temporal explica que um já tenha sido julgado e condenado e outro ainda não.

Rendeiro choramingou, mas pouco. Nenhum canal de televisão resiste a exibir uma fraqueza de um entrevistado. Creio que é coisa que jamais veremos acontecer com Ricardo Salgado.

Ventura, praticante da luta livre verbal

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A Procuradoria Geral da República pediu à Assembleia da República para levantar a imunidade parlamentar ao deputado Ventura, para que seja constituído arguido e possa ser interrogado por crimes de difamação.

Desta vez não se trata das ofensas a famílias de minorias étnicas, mas de acusações feitas a Fernando Rosas, historiador e antigo deputado pelo Bloco de Esquerda. Ventura terá escrito no Facebook que Rosas “torturou homens e sequestrou mulheres em 1976”. Ou Ventura tem modo de provar o que disse ou vai ser condenado novamente.

no Facebook

Desbocado intencionalmente, porque sabe que é o tipo de discurso que agrada à sua clientela, André Ventura disse hoje que Ana Gomes era “atrasada”. O motivo do epiteto foi Ana Gomes ter dito que não ficaria chocada se a vacina contra a covid-19 fosse obrigatória. Ana Gomes lembrou que quando foi criança era obrigatório tomar algumas vacinas como, por exemplo, a BCG e a do sarampo. A comentadora falava de vacinas providenciais que salvaram milhões de pessoas desde que foram distribuídas pela população mundial.

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Se repararem bem, Ventura não perde uma oportunidade para tentar perturbar Ana Gomes, uma espécie de inimiga primordial desde que a antiga eurodeputada disse que o Chega deveria ser ilegalizado.

Há dias, o deputado Ventura disse que a deputada Mariana Mortágua era “a deputada mais desonesta e aldrabona do parlamento”. Para Ventura, a política é uma espécie de luta livre verbal, um combate de vale-tudo sem árbitro. Esperemos que Mariana Mortágua lhe ponha um processo, também.

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Caceteiro, mas frágil. Um dos pontos fracos de Ventura é não saber reagir a uma crítica. Parte para a ofensa desabrida. O povoléu ri-se muito, mas quem gosta de argumentação inteligente tem pena dele. A condenação no caso família Coxi pode ter sido a primeira de muitas.

Beatrix Cenci – o espectáculo

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Deverá anotar-se, em primeiro lugar, que de um simples folhear dos textos de apoio ressaltará a noção clara de a Escola Profissional de Teatro de Cascais se poder vangloriar de ser bem fecundo alfobre de actores e, por outro lado, desse mero folhear há-de resultar a consciencialização de que – tanto no que se refere aos variadíssimos aspectos técnicos que tornam possível um espectáculo como à arte de representar em si mesma – estamos em presença de pessoas com larguíssima experiência e vasto currículo já, gente que não tem parado e vai de actualização em actualização, para nos fornecer, alfim, algo simples na aparência e que é, todavia, fruto de longo estudo e mui árdua preparação. Nesse aspecto, não é de admirar, por exemplo, que Carolina Faria, de 18 anos, formada em Agosto passado com a sua intervenção em «Os Gigantes da Montanha», integre já este elenco, na figura de Beatriz aparição.

Sim, são os actores que estão à vista; sabe-se, contudo, e nunca é de mais repeti-lo que o espectáculo se faz de som, som que não são apenas os trechos musicais sabiamente escolhidos para realçar uma passagem mas todo o conjunto de sons de ambiente; faz-se de luz, luz que ilumina ou que falta, ‘desenho de luzes’ é a bonita expressão ora usada (aqui pela mão de Fernando Baranda); faz-se de… vídeo! Nesta Beatrix, mui oportunamente se recorreu ao vídeo (obra de José Teresa Marques) projectado na pantalha ao fundo, para documentar as realísticas cenas de orgia perpetradas pelo conde em sua mansão ou para nos transportar a ambientes de mar, bucólicos ou de simples colorido a complementar a cena. Tudo se passa, aliás, à nossa frente, como vem sendo hábito nos espectáculos do TEC. Não há pano de cena, não há pancadinhas de Molière, há luz que se apaga e cirurgicamente se vai acendendo. O espectador ‘está’ em cena, sem barreiras. E vem falar connosco Artemisia Gentileschi (Teresa Corte-Real), a pintora que, aos 6 anos, assistiu à decapitação de Beatrix. Nessa altura, gostávamos de ter um gravador ou a possibilidade de ler depois, nos textos de apoio ou em livro, esse ‘discurso’ ou esses discursos, veículos, se bem compreendi, usados por Graça P. Corrêa para trazer a cena à actualidade.

Encontra-se, em todas as peças teatrais, uma infinidade de pormenores que foram meticulosamente analisados, discutidos. Difícil, muito difícil se torna apanhar o significado deles, na sua maior parte. Por isso há, de vez em quando, mesas-redondas em que os intervenientes explicam por que razão seguiram esta e não aquela proposta.

Postulava-se uma dessas mesas-redondas, a respeito desta Beatrix Cenci. Não digo tanto sobre a história em si e o que ela representa de feroz libelo contra o poder desumano da economia, do prestígio social, da religião, mas sobre a ‘leitura’ que ela implicou para chegarmos a este espectáculo, com esta dramaturgia e não outras, estas marcações e não outras, com este cenário e não outro, com este guarda-roupa (mão de Fernando Alvarez)… Pouco a pouco, no espírito do espectador, após a saída, haverá imagens que reteve mais do que outras, cenas que mais o impressionaram ou lhe proporcionaram encanto.

Ao ler algo do muito que se escreveu sobre a história de Beatrice Cenci, uma perplexidade terá surgido: como é que isto se passa para a cena? De uma forma brutal, sim, em provocação evidente e feia; mas sem o recurso fácil a cenas susceptíveis de chocar sensibilidades.

Veja-se, a título de exemplo, a forma realmente engenhosa e perfeita do ponto de vista cénico como se representou um momento da incestuosa violência sexual por parte do pai. Ele, de pé, hirto, olha sadicamente para a filha que, deitada à sua frente, estrebucha, grita, chora, clama!… E ele, impertérrito, sem palavras, esbirro. Mas no chão, ao lado, o servo mudo, Santi (muito boa interpretação de Francisco Monteiro Lopes), no estertor próprio de quem assiste ao acto…

É Renato Godinho – também ele antigo aluno da Escola Profissional de Teatro de Cascais e com muito trabalho desenvolvido já igualmente em cinema e televisão –quem incarna a figura do Conde Francesco Cenci. Um rigor levado ao extremo, na atitude precisa, na entoação adequada. Candidato sério, a meu ver, ao título de «melhor actor do ano». Acompanha-o muito bem Soraia Tavares, uma Beatrix muito segura do seu papel, a demonstrar bem quanto já aprendeu desde que iniciou, em 2009, os estudos na EPTC; encantou-nos com a sua voz, não só quando, em 2015, logrou chegar à semifinal do concurso «A Voz de Portugal», mas agora, ao interpretar uma ária da ópera que Berthold Goldschmidt apresentou, em 1949, sobre a história de Beatrice.

O drama «Beatrix Cenci» está em cena no Mirita Casimiro (Monte Estoril), até 12 de Dezembro, quartas e sábados às 21 horas, domingos às 16. O espectáculo, sem intervalo, tem a duração de duas horas e é para maiores de 14 anos.

imagem partilhada do Facebook do TEC

Sobre a transparência dos políticos

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Na Assembleia da República, a Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados aprovou há dias um diploma relativo à criminalização do enriquecimento injustificado que altera a legislação sobre as obrigações declarativas de políticos e altos cargos públicos.

Havia nove projetos sobre este assunto. A saber, do PS, PSD, BE, PCP, CDS-PP, PAN, PEV, Iniciativa Liberal e da deputada não inscrita Cristina Rodrigues. Nenhum do deputado Ventura, mesmo se é ele que faz da corrupção bandeira e arma de arremesso político.

O texto aprovado é uma síntese de todos os outros. A maior parte do texto comum acordado pelos vários partidos foi aprovada por unanimidade. O PSD absteve-se no artigo que refere que a não apresentação da declaração de rendimentos e património, “após notificação, é punida por crime de desobediência qualificada, com pena de prisão até três anos”. Para o PSD faltou a palavra “intencional”. A pena de prisão só vale se houver intenção de prevaricar. Se for sem querer, um descuido, um engano, não se vai para a cadeia por causa disso. Seria preciso, portanto, provar a intencionalidade do erro.

Lei disfuncional

De qualquer forma, a lei aprovada continua a proteger o infrator, uma vez que dá a possibilidade ao deputado ou detentor de alto cargo público de sanar o problema sem qualquer sanção legal, desde que retifique a declaração de rendimentos e património depois de ser notificado para tal. Se fizessem o mesmo com todos os fora-da-lei, as cadeias estariam vazias.

Quer isto dizer que, por exemplo, a lei pode ter mudado, mas o atual Presidente da Câmara de Sintra continuaria a passar por entre os pingos da chuva sem se molhar. Todos nos lembramos do caso dos “três zeros” que faltaram durante anos e em declarações de rendimentos sucessivas que Basílio Horta apresentou no Tribunal Constitucional.

Depois do caso denunciado por um jornalista, a coisa resolveu-se com uma conversa com o presidente do Tribunal Constitucional, segundo foi publicado na altura. Basílio pediu por escrito a retificação da declaração e terá dito que os milhões que por lapso não tinham sido referenciados tinham origem em poupanças. E acreditaram nele.

O presidente da Câmara de Sintra a trabalhar no seu gabinete