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ESTUDANTE MORTO EM LEIRIA

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A Polícia Judiciária diz que, neste momento, “todos os cenários estão em aberto” relativamente à morte de um jovem de 18 anos, em Leiria.

A morte aconteceu a noite passada, em circunstâncias que levantam suspeitas de crime.  Tudo começou quando a PSP de Leiria recebeu informação de que tinha morrido um jovem nas urgências do Hospital de Santo André.

O jovem chegou ao hospital transportado pelo INEM, depois de uma chamada 112 realizada cerca das 19 horas. Segundo relatório do INEM, o paciente estava ferido no tórax. Ferimentos que provocaram uma hemorragia, alegadamente causados por “acidente doméstico”.

Fontes hospitalares afirmaram que “o referido jovem de 18 anos deu entrada no Serviço de Urgência Geral, em manobras de reanimação, com um quadro de choque hemorrágico e apresentava duas feridas na região axilar. O óbito foi declarado pelas 20:00”. A autópsia irá, certamente, determinar as circunstâncias que provocaram os ferimentos.

O local onde tudo aconteceu é a casa onde a vítima residia e que partilhava com outro colega. A vítima estudava no Politécnico de Leiria, frequentava o 1.º ano de Solicitadoria da Escola Superior de Tecnologia e Gestão.

SOLDADOS RUSSOS AMARRADOS MORTOS COM BALAS NA CABEÇA

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É um vídeo chocante porque mostra a frieza, a crueldade, o desapego pela vida que rodeiam os atos de guerra. O vídeo já foi confirmado por diversas fontes, uma delas o insuspeito New York Times.

Foi, entretanto, copiado e exposto em diversos sites, mas o Youtube está a bloquear o visionamento dessas imagens que, por enquanto, continuam disponíveis no Telegram.

Se tiverem estômago, vejam como soldados ucranianos matam prisioneiros de guerra. Soldados rendidos, de mãos atadas, mortos a tiro. As imagens revelam os três tiros de misericórdia que um ucraniano desfere num russo moribundo a esvair-se em sangue.

Há dois dias, na crónica Na Guerra O Que Importa É Vencer, escrevi que “Não há memória de ter havido uma guerra limpa de “pecados mortais”. Procurar ética na guerra é tempo perdido. Os cavaleiros andantes só existem nas histórias aos quadradinhos e nos filmes de Hollywood. Os que fazem a guerra são todos vilões ou transformam-se em vilões com o desenrolar do conflito. O combate é sempre de vitória ou morte. E usam-se todas as armas disponíveis. Pedra, faca, espada, pistola, canhão, míssil, televisão.”

As televisões e a generalidade dos órgãos de comunicação social não irão transmitir estas imagens ou, sequer, mencionar este relato. É politicamente inconveniente, contraria tudo aquilo que se tem procurado transmitir.

Mas, da Amnistia Internacional, do Tribunal Penal Internacional, já se espera que tomem posição, como têm feito sobre relatos similares atribuídos aos soldados russos. E, neste caso, até temos a cara de alguns dos assassinos.

Lágrimas pela Ucrânia…

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A 28 de fevereiro, no quarto dia da invasão da Ucrânia, publiquei uma crónica em que antevi a “humilhante derrota” do exército russo.

As razões dessa previsão assentavam em fortes razões, desde logo do foro militar: a operação fora mal concebida, dispersa até num ataque de mau gosto a uma central nuclear desativada; a imobilização no terreno, muito antes de Kiev, de uma coluna russa com 64 Km; e as perdas já infligidas aos atacantes, consideradas muito graves pelos especialistas.

Acresciam ainda outros factos determinantes: a impressionante resposta ucraniana, firmada num líder que surpreendia pela sua coragem, cultura e discernimento; a reação de uma Europa, unida como nunca em toda a sua História milenar; e mais a garantia da NATO, que prometia travar um passeio que se adivinhava triunfal.  

Todos estes fatores, embora importantes, não seriam ainda decisivos. A minha convicção assentou então na desesperada reação de Putin que, nesse mesmo dia, anunciou recorrer a armas nucleares, se necessário. Era como se, depois de um primeiro assalto falhado, um lutador reentrasse em cena usando técnicas proibidas. Conheço o funcionamento do cérebro dos sociopatas, que sentem prazer com o sofrimento e morte dos outros e nunca desistem dos seus objetivos. Naquele instante, aquele serial-killer sofria as dores do fracasso e do desespero.

Sempre acreditei, e ainda acredito, que a loucura de Putin será travada por dentro, por colaboradores próximos não interessados no seu próprio holocausto. E muito embora temendo a repetição dos massacres de Alepo, e outros mais recentes no Cáucaso, previ então um impasse militar e um armistício próximo. E perante o sucesso ucraniano, enquanto produtor de vinhos alentejanos, me atrevi até a comunicar à Embaixada da Ucrânia que teria muita honra em fornecer alguns excelentes vinhos, para serem servidos nas comemorações oficiais da vitória, em Lisboa e em Kiev.

Uma oferta que, nos dias seguintes, acabou por se tornar diplomaticamente delicada de gerir, face aos horrores que, entretanto, se desenrolaram perante os nossos olhos: não faz hoje qualquer sentido falarmos em qualquer comemoração, ainda que na sequência de uma estrondosa vitória. 

E foi neste delicado contexto que, na tarde de 5 de abril, recebi uma comunicação telefónica de uma colaboradora da Embaixada da Ucrânia, a agradecer a minha oferta, mas, naturalmente, a decliná-la.

Estabelecido, contudo, um diálogo aberto e franco, facilmente assentámos numa alternativa. Esmagada a barbárie, e ultrapassado o furacão, o mundo civilizado irá certamente participar num gigantesco plano de recuperação da Ucrânia. E então, sim: compromisso assumido em nome da Senhora Embaixadora, os vinhos alentejanos acompanharão as cerimónias da reconstrução, em Lisboa e, provavelmente, até mesmo em Kiev.  

Com muito trabalho pela frente, a nossa conversa não podia prolongar-se por muito tempo. Mas, por entre insistentes agradecimentos, a minha interlocutora ainda pôde encerrar a sua comunicação lançando duas enérgicas interjeições: 

– Viva a Ucrânia! Viva Portugal! – Proclamou, com a voz embargada, incapaz de esconder a enorme onda de comoção que a avassalava:

Como despedida, devo ter-lhe respondido à altura do momento presente:

– Glória à Ucrânia! E viva a Europa!   

Pois não é verdade que, neste turbulento mundo em que vivemos, nunca, de Lisboa a Vladivostok, a Europa esteve tão unida e tão próxima dos valores greco-judaico-cristãos em que assenta a garantia do progresso da Humanidade?

fotomontagem

*Cândido Ferreira é produtor dos vinhos da Casa da Urra, em Portalegre.

A ARTE DE FAZER O MÁRMORE FALAR

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É a segunda vez que a galeria acolhe, individualmente,  as obras do escultor nascido em Leiria (1978), que aos 20 anos se iniciou nesta difícil arte de fazer o mármore falar. E nós, que temos os cinzentos ruivinas de Rio de Moinhos, os verdes de Viana do Alentejo e, sobretudo, os brancos e os rosados de Estremoz / Vila Viçosa, da predilecção de Filipe Curado.

Escreve-se no catálogo (também ele uma ‘peça’ a guardar!) que o mármore, sendo «cerne da própria terra, recria aqui paisagens que nos propõem uma viagem imaginária para lá do nosso horizonte, onde o sentido de elevação e a coexistência de pontos opostos cria momentos idílicos». Palavras bonitas, sim; contudo, até não deixam de ser verdadeiras para quem, com algum vagar, se detenha perante as propostas do escultor: aquela árvore como que postada, só, no cimo da montanha; ou aqueloutras, agrupadas, como que a galgar distâncias… E tudo numa claridade que não ofusca mas convida à reflexão.

Tente, amiga(o), dar uma saltada para ver de perto; caso não possa, não deixe de dar uma olhadela – sem pressas! – às imagens que ilustram este mui singela mensagem.

SEM ABRIGO APRESENTA QUEIXA CONTRA POLÍCIA MUNICIPAL E GNR

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Depois de 4 anos a sentir-se vítima de bullying, violência policial, coação e outras malfeitorias, o sem abrigo Manuel Ildefonso meteu pés ao caminho e apresentou queixa contra os agentes da Polícia Municipal de Sintra e da GNR que com maior frequência abusavam do poder que a farda representa.

Quando se aperceberam disso, os visados na queixa de Manuel Ildefonso interpuseram, também eles, uma queixa no Ministério público.

Agora, a mesma procuradora analisa as duas queixas. Uma medida acertada. Assim, um único inquérito resolverá as duas queixas que se contradizem. Ou que se complementam.

Neste inquérito, além de apreciar os depoimentos das pessoas que foram indicadas como testemunhas, a procuradora está também a analisar os vídeos e as fotografias que foram publicadas nas redes sociais e na imprensa.

Certamente que a procuradora já terá notado que desde que a queixa chegou ao DIAP pararam as “visitas” da Polícia Municipal de Sintra e da GNR a Manuel Ildefonso. Ele mantém-se no mesmo local de sempre, não desmobilizou do protesto que o move, permanece no exercício do direito de manifestação que a lei lhe concede. Ou seja, se hoje o homem vive em paz, porque razão não o terão deixado em paz antes? Quando questionados, os agentes da Polícia Municipal e da GNR respondiam que cumpriam “ordens superiores”. E não deviam estar a mentir.

O inquérito avança na 4º secção do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP), no Tribunal de Sintra.

A história deste homem é sobejamente conhecida. Adoeceu, perdeu o emprego, divorciou-se, ficou sem casa, pediu uma habitação social à Câmara de Sintra, não lha deram. E ele luta pelos seus direitos.

ANTECEDENTES “HISTÓRICOS”

O protesto teve início em 1 de julho de 2019. Até hoje, passaram 1005 dias desde que o primeiro cartaz foi escrito e exibido no largo Virgílio Horta, em Sintra. O problema de Manuel Ildefonso continua sem solução. A autarquia apresentou-lhe alternativas de morada, mas Manuel Ildefonso não quer viver numa camarata. Por isso, mantém-se em manifestação permanente de protesto.

O “diálogo” com a autarquia passou a fazer-se através dos agentes da Polícia Municipal e da GNR que, aparentemente, receberam “ordens superiores” para tornar insuportável a vida de Manuel Ildefonso.

fotomontagem

O “EUROASISMO” EM MARCHA

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Depois do negacionismo, do whataboutismo e de outras afrontas à inteligência e ao pensamento, chega-nos agora mais um alter-modernismo, o “euroasismo” que promete fazer da velha Europa, a das Luzes, um enclausurado periférico da robustez autocrática com centro em Moscovo e Nursultan. Não vale a pena ir ver ao google maps – Nursultan é a capital do Cazaquistão. E Nursultan Nazarbaev o seu eterno presidente, que governou três décadas e quando se foi embora deixou a família e um presidente-fantoche a tomar conta do país.

O primeiro grande acto de gestão “pós Nursultan” foi mudar o nome da capital, de Astana para o nome do velho ditador. Mais ou menos como se Lisboa agora se tivesse passado a chamar Cavaco Silva – “vives onde? Vivo no Barreiro mas como trabalho em Oeiras estou a ver se consigo comprar casa em Cavaco Silva” – dá para imaginar o modelito que nos querem impor.

E qual a importância de Nulsultan neste novo mundo de Lisboa a Vladivostok… aliás, do Cabo da Roca a Vladivostok? Muito simples, o velho Nursultan Nazarbaev foi o pioneiro da grande ideia da “eurásia” e Putin atribui-lhe tal crédito. A coisa ainda está em formação. Tem substrato económico, social, político e ideológico e, claro, também substrato militar. A guerra a que agora assistimos é, à luz da timeline da História, um episódio menor na retaliação contra um parceiro mal comportado, a Ucrânia.

Tudo começou a 29 de Maio de 2014 quando a Rússia, o Cazaquistão e a Bielorussia assinaram solenemente um tratado de União Económica com vista à criação da “Eurasian Economic Union”, antecipando a livre circulação de pessoas, serviços, bens e capitais e uma moeda única – já vimos isto noutro local. Depois Putin puxou para o grupo a Arménia em 2 Janeiro 2015 e o Quirgistão em 29 de Maio do mesmo ano – “está a acontecer!”, como dizia o do anúncio.

Assume também grande importância o substrato doutrinário e ideológico: o linguista Nikolai Trubetzkoy escreveu, “devemos acostumar-nos à ideia de que o mundo romano-germânico, com toda a sua força cultural, é nosso pior inimigo. Devemos derrubar e esmagar impiedosamente os ideais sociais e preconceitos emprestados do Ocidente, que sempre nefastamente influenciaram os nossos “intelectuais”…” e depois de atacar o Ocidente Trubetzkoy não pára, mais à frente desfere novos ataques aos “eslavófilos” e outros… Delicioso.

Para compreender tudo isto convém ler a obra (de onde retiro as citações) “Inside the Mind of Vladimir Putin”, de Michel Eltchaninoff, C. Hurst & Co. PublishersLtd., 2017, e ir directamente ao capítulo VI, “the Eurasianist Dream”. Está lá tudo o que temos vindo a assistir e o que (infelizmente) iremos ver a seguir.

Não vale a pena ir à Fnac pedir para vos enviarem um sms quando o livro chegar porque nunca irá chegar. Mas podeis facilmente “baixá-lo” como pdf, gratuitamente. Anda por aí na nuvem.

(crónica publicada também no Facebook de João Salvado)

AS ESTATÍSTICAS PENAIS EM 2021

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Há gente contente, em Portugal, com os números indicados no Relatório do Conselho da Europa sobre os diversos Sistemas Prisionais Europeus.

Há, mesmo, quem garanta que houve uma evolução em Portugal, no que respeita ao número de presos que, dizem, terá baixado.

A verdade é que os números podem ter diversas leituras e as estatísticas permitem todo o tipo de interpretações.

Por exemplo:

Os que afirmam que o número de presos baixou em 2021 (por causa da pandemia) “esquecem-se” de dizer que se referem ao número de presos dentro dos Estabelecimentos Prisionais. Isso porque houve uma Lei excepcional que permitiu que cerca de 1.800 presos (por delitos menores) deixassem a cadeia, para ficarem em prisão domiciliária, numa tentativa de se poder diminuir o risco de contágio em larga escala.

Ora, se é verdade que o número de presos, nas prisões, baixou, não é menos verdade que o número real de presos continuou o mesmo. Estar preso em casa é estar preso. Não é turismo. Para mais, a imensa maioria desses reclusos, num momento em que o Governo considerou que a pandemia estava controlada, regressou às cadeias.

Porquê, então, embandeirar em arco no único ponto em que Portugal é referido de modo positivo, sabendo-se que esses números assentam numa falsidade?

Mas, o que mais custa é analisar os dados avançados, no Relatório, sobre o nosso Sistema Prisional. Em TODOS os pontos Portugal é equiparado a países como: Moldávia, Azerbeijão, Croácia, Eslovénia, Ucrânia e Roménia. E nem sempre à frente destes.

O retrato que fica das nossas cadeias é o de um atraso de dezenas de anos em relação aos países democráticos, desenvolvidos e, logo, preocupados com os Direitos Humanos. O modo como os nossos governantes – todos eles – têm analisado a problemática do Sistema Prisional envergonha qualquer democrata. As nossas prisões estão, hoje, piores do que no tempo da ditadura. Podem ter melhorado as instalações, mas tudo o resto é idêntico a um país do terceiro mundo. E este Relatório, uma vez mais, prova isso.

O Estado paga 0,80 € por cada refeição dada aos presos. A imensa maioria não tem a possibilidade de trabalhar nas cadeias – porque fecharam praticamente todas as oficinas e impedem que os presos cultivem as terras que cercam a prisão, produzindo produtos que podiam ser usados nas suas refeições – e os que conseguem recebem dois euros por dia. Conseguir estudar na cadeia é uma aventura, dadas as inúmeras dificuldades que se levantam a quem o pretenda. As bibliotecas e os ginásios são, quase, inacessíveis. A saúde está a cargo de empresas privadas e as queixas são constantes.

As visitas, de modo ilegal e violando todas as leis, passaram de duas horas semanais para meia hora, obrigando familiares a deslocações de centenas de quilómetros para estarem 30 minutos com os seus.

A Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais é dotada de um orçamento anual que é gasto, praticamente, em salários. Aliás há quase 9.000 funcionários (incluindo os guardas prisionais) para cerca de 12.000 presos, e isso justifica tudo.

Conseguir que se reverta esta situação, de modo a podermos começar a ser comparados com os países evoluídos, é trabalho árduo. E a primeira dificuldade é combater a convicção dos nossos governantes para quem os presos não são cidadãos à guarda do Estado – sendo que este tem a obrigação de, dando o exemplo do cumprimento integral da Lei, lutar pela sua reabilitação e reintegração – mas “cidadãos de segunda”.

Com esta atitude, até podem conseguir o apoio de populistas, e ganhar, em Portugal, alguns votos, mas verão, no futuro, o seu desempenho criticado severamente por todos os que lutam pela verdadeira Justiça. Entretanto, no estrangeiro, mormente nos países europeus de referência, são olhados com desdém.

Merecidamente.

OS AMORIM, SALAZAR E A RÚSSIA

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Chama-se Maria Fernanda Amorim, a viúva de Américo Amorim, o rei da cortiça portuguesa. Um oligarca (para usar um termo em voga). Quando Américo morreu deixou à mulher todas as suas participações e créditos em sociedades, no valor de 77 milhões de euros.

Hoje, a fortuna de Maria Fernanda está avaliada em cerca de 4.300 milhões de euros, somando gordas contas bancárias, negócios e imobiliário. Para que serve tanta acumulação de riqueza é um mistério insondável.

colagem fotográfica, Maria Fernanda Amorim e um exemplar de rolha da Corticeira Amorim

OS AMIGOS DA RÚSSIA

Um pouco de história. Os negócios da família Amorim começaram no século XIX com o fabrico de rolhas. Quando Américo Amorim nasceu já era rico. E aprendeu com a família a aproveitar as oportunidades da vida, digamos assim.

Até à revolução do 25 de abril 1974, diversificaram o negócio para os aglomerados de cortiça. Sem alvará. Salazar era um amigo.  O ministro das Corporações e da Previdência, Veiga de Macedo, também era amigo. O presidente do Supremo Tribunal Administrativo, Albino dos Reis, amigo era.

E havia amigos na Rússia. Como se sabe, os capitalistas sempre consideraram que o dinheiro não tem cor nem cheiro. Nem barreiras ideológicas. Américo Amorim abre um escritório em Viena de Áustria, em nome de terceiros, para exportar a produção da corticeira para os países comunistas. Era proibido pela lei portuguesa, mas o Banco de Portugal fechou os olhos (uma tradição que se mantém). O dinheiro da família Amorim passou a vir também de todos os países do bloco de Leste e de países não-alinhados como, por exemplo, o Egipto ou a China.

Américo Amorim ia ficando cada vez mais rico. Quando chegou o dia 25 de abril de 1974, perdeu episodicamente uma herdade com mais de 3 mil hectares no Alentejo. Mas manteve todas as outras mais a Norte.

Passado o primeiro impacto, Amorim começou a comprar barato herdades ocupadas ou em vias de serem ocupadas pelos trabalhadores agrícolas. Ele apostou que, tarde ou cedo, o registo de propriedade haveria de valer alguma coisa.

Entretanto, valeu também uma lei ardilosa aprovada em pleno PREC, que quase pareceu feita de propósito para proteger os interesses de Amorim. Dizia essa lei que os proprietários expropriados mantinham todos os direitos sobre a cortiça que estava nos sobreiros antes da expropriação. Ou seja, o que valia dinheiro não foi parar às mãos dos trabalhadores.

Amorim nunca escondeu que, contra o ciclo vivido naquela época pelo capitalismo português, o seu grupo deu um grande salto.

CRIMES PRESCRITOS

Em 1991, novo negócio milionário. Associado ao BES, à Efacec e à Centrel, compra a licença para uma operadora de redes móveis, a Telecel, por 15 milhões. Seis anos depois, vende-a à Vodafone por mais de cem milhões. 

No ano 2000, Amorim foi acusado de falsificação de documentos, fraude e desvio de dinheiro do Fundo Social Europeu. A União Europeia exigia uma indemnização devido à utilização fraudulenta de financiamentos para formação profissional entre 1985 e 1988. Nunca foi condenado. O processo arrastou-se e 11 anos depois o Tribunal da Relação do Porto considerou os crimes prescritos.

Na altura, o jornal Público escrevia sobre “a sensação que os ricos e poderosos passam ao lado do escrutínio da justiça”.

A habilidade, esperteza, ausência de escrúpulos e, eventualmente, amizades devidamente oleadas, fizeram de Amorim dono da única multinacional portuguesa que dominou o mercado mundial no seu sector, com o controle sobre 35% da cortiça mundial, trinta fábricas, vendas em 103 países.

Era, diziam os analistas, um dos maiores senhorios de Lisboa e, certamente, dos mais poderosos investidores em imobiliário e grandes superfícies comerciais. Possuía dezenas de hotéis em países da Europa, América e África. O dinheiro era tanto que dava para investir em tudo, na bolsa, na banca, nas comunicações, nos transportes, nas águas, na construção civil, nos casinos. Nestas andanças, associou-se a tipos como Stanley Ho, Horácio Roque, Belmiro de Azevedo ou Isabel dos Santos.

Foi mais ou menos isto que a dona Maria Fernanda e as filhas receberam de herança.

China – Mais um gigante com pés de barro

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Ontem mesmo, a comunicação social deu-nos conta de que só na região de Xangai, com a ajuda do exército, iriam ser feitos testes obrigatórios à covid a vinte e seis milhões de chineses. Hoje, o Ocidente teve notícia de que, numa medida extrema, até muitos bebés estão aí a ser retirados à família, por razões sanitárias.

No meu livro recente, sobre a pandemia, mergulhei sem medo nas águas sujas que hoje contaminam um mundo em profunda mudança. A China, um país onde mantenho estreitos contatos, não escapou a essa reflexão. Retomo hoje esse tema, sem desistir de escrever… e depois de muito me documentar e pensar.

Certo e seguro, a China, um gigante que tenta liderar o mundo, começa a exibir dolorosas fragilidades que expõem uma inesperada vulnerabilidade política, económica e até militar.

Tal “garantia” chegou-me do interior da própria China, durante a semana que passou. Há muito que a cidade de Xangai, o principal eixo económico, está “deserto”, com a população confinada em suas casas.

Por diversas razões, e o condicionamento económico não será a menor, milhares de cidadãos estrangeiros, entre eles portugueses, vêem-se impedidos de abandonar um país que os despreza e hostiliza e onde não preveem qualquer futuro.

Entretanto, medidas brutais de isolamento interno têm prosseguido no combate à nova variante do Covid, ainda na lógica de uma “guerra biológica”: milhares de “suspeitos” de  Covid estão “internados” dias e dias em cadeiras nos corredores de hospitais; as camas amontoam-se em espaços miseráveis, como se pode comprovar pelas imagens que recebi; um pequeno vídeo, o possível, mostra mesmo uma “brigada” a selar as portas de um prédio residencial…

Milhares de cidadãos, muitos deles incapacitados ou idosos, morrem assim dentro de suas próprias casas, pois nem sequer lhes é prestada ajuda através de janelas, igualmente encerradas; o povo começa a estar revoltado e, embora tímidas, já surgem manifestações públicas contra um regime que se mostra brutal e inflexível.

Acresce que se construíram centenas de luxuosas cidades, hoje fantasmas, com milhões de apartamentos e centros comerciais ao abandono. A classe média, tal como no Ocidente, entrou em decadência e o regime já “permite” a implosão de prédios gigantescos, em construção. Enquanto isto, a população espreita uma nova “revolução cultural” que lhes permita tomar conta daquilo que, na mão de títeres, lhes pertence.  

Enfim, temos aqui já a demonstração clara de que nos encontramos perante um gigante com pés de barro, mais um daqueles que se estatela ao primeiro passo. Nada que cause admiração quando, tendo desistido de invadir Taiwan face à solidez da resposta do Ocidente à invasão da Ucrânia, a China agora assobia de banda e faz-de-conta que não vê as atrocidades cometidas pelo seu vizinho e principal aliado.

Numa época em que estão em causa os valores da democracia e da liberdade, aqueles que abriram lugar a uma civilização certamente cheia de defeitos, é uma “sorte” perceber que a “concorrência”, afinal, é uma ameaça que sofre de doença maligna.  

E é neste contexto que uma Europa unida, como nunca esteve durante toda a sua História, e um Portugal capaz de aproveitar os seus talentos próprios, constituem a única promessa de um futuro muito mais airoso do que aquele que esperávamos, há apenas dois meses.

Mas, para que tal aconteça, temos que “ganhar juízo”, remédio que não se compra nas farmácias.

NA GUERRA O QUE IMPORTA É VENCER

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Não há memória de ter havido uma guerra limpa de “pecados mortais”. Procurar ética na guerra é tempo perdido. Os cavaleiros andantes só existem nas histórias aos quadradinhos e nos filmes de Hollywood.

Os que fazem a guerra são todos vilões ou transformam-se em vilões com o desenrolar do conflito. O combate é sempre de vitória ou morte. E usam-se todas as armas disponíveis. Pedra, faca, espada, pistola, canhão, míssil, televisão. Vence o mais hábil e esperto, que nem sempre é o mais forte.

Quem vence jamais é chamado a prestar contas, nunca é responsabilizado pelos crimes que cometeu. A impunidade faz parte da vitória. Quem perde, enfrenta tribunais internacionais. Aconteceu com os alemães e japoneses nos julgamentos de Nuremberga, depois da II Guerra Mundial. Alguns foram condenados à morte. Outros a penas de prisão. Mas tribunais como o Tribunal Penal Internacional (TPI) só julgam pessoas, nunca julgam Estados.

Mas quem foi julgado pelo TPI? Alguns exemplos: Thomas Lubanga (Congo), Germain Katanga (Congo), Bosco Ntaganda (Congo), Jean Pierre Bemba (Congo), Ahmad al-Faqi al-Mahdi (Mali), Jovica Stanisic (Sérvia), Franko Simatovic (Sérvia), Ratko Mladic (Sérvia). Isto é, sempre representantes do lado que perdeu a guerra.