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Os Patrões da OMS

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1. Afirmam alguns estudiosos que um dos maiores mecanismos na História para submeter os povos nativos dos continentes americano, africano e oceânico foi a evangelização. Através dos missionários, que pretendiam apenas levar a palavra de Cristo pelo mundo e oferecer a salvação, culturas que nada tinham a ver com a cultura europeia acabaram por assimilar os seus valores, o que acabaria por trazer repercussões às suas sociedades. No século XIX, estes esforços de  congregação política sobre valores hegemónicos unilaterais assumiram o nome de “imperialismo”, sendo que a evangelização deu gradualmente lugar à exploração capitalista.

Desembarque de Pedro Alvares Cabral em Porto Seguro em 1500, quadro de Oscar Pereira da Silva, 1865–1939

Os valores superiores do homem branco permitiram, assim, não só domar o homem “selvagem”, como quase eliminá-lo, ao mesmo tempo que escravizavam quem nascia com a pele substancialmente mais escura. Neste processo, claro, muito contribuíram para a “conversão” os avanços tecnológicos europeus, sobre a forma de armas, navios, equipamentos médico-científicos, entre outros.

Falemos, portanto, do poder da doutrinação para fins superiores de salvação, sem que se permita o devido diálogo com uma sociedade que se quer democrática.

2. Nos últimos anos o epíteto “desinformação” é cada vez mais utilizado como desculpabilização para a censura. Sendo certo que a ascensão das redes sociais e as suas práticas algoritmicas promotoras da adição podem ser apontadas como uma das causas de fenómenos políticos assentes em informação falsa ou incorreta, a abstração do termo “desinformação” tem servido para combater quer a propaganda política sem escrúpulos, quer a crítica legítima e fundamentada de determinados temas, apenas porque não está em sintonia com as questões sociais do momento. No intuito de tornar este cruzamento transparente, embora lhe possamos questionar as motivações, Elon Musk abriu o Twitter à análise de jornalistas independentes, em relação à atuação desta rede social durante os anos da pandemia.

Na sua análise aos “Twitter Files”, Andrew Lowenthal, ex-director de uma ONG focada em direitos humanos online, liberdade de expressão e tecnologia aberta, encontrou uma realidade perturbadora. Aparentemente, há uma enorme quantidade de dinheiro a ser injetada contra a “desinformação” em ONGs e na Academia, tanto do Governo como da filantropia privada. A título de exemplo, só a empresa de segurança e tecnologia Peraton celebrou com o Pentágono um contrato de mil milhões de dólares.

Ainda mais alarmante é o envolvimento entre o financiamento militar e grupos privados que se misturam com a sociedade civil, sobre o mote da defesa dos direitos humanos e liberdades civis. A empresa de análise dos media Graphika, por exemplo, recebeu uma doação de 3 milhões de dólares do Departamento de Defesa dos EUA. Ao mesmo tempo, esta é uma firma que trabalha para a Amnistia Internacional e outros ativistas de direitos humanos.

Se o foco de um sistema militar nacional é a defesa do seu próprio país e, em termos mais latos, a própria guerra, em que medida é que se justifica o seu envolvimento em ativismo humanitário de cariz social e internacional? Não haverá aqui um “desvio moral”, ou seja, uma perigosa incursão dos interesses privados nacionais em questões internacionais de dimensão pública?

3. É, porém, neste contexto que se destaca a coordenação da resposta à Covid-19. Segundo os contratos da Moderna e da Pfizer e os FOIA, libertados por ordem do tribunal, a resposta à pandemia de Covid-19 foi liderada pelo Departamento de Defesa dos EUA, ficando a cargo das farmacêuticas, em última análise, a estatégia de marketing e o subgerenciamento dos ensaios clínicos feito por sub-contratos a outras empresas. Se efetivamente esta interligação se vier a comprovar, ficará claro que a FDA não teve qualquer papel na autorização de emergência das vacinas, uma vez que a resposta Covid terá sido uma operação militar.

Noutras palavras, o chamado “Deep State”, a burocracia profunda dos EUA, terá tido mais poder que o próprio Presidente dos Estados Unidos na resposta a uma aparente ameaça nacional.

4. Então qual o papel da Organização Mundial de Saúde (OMS)? Precisamos da OMS para declarar pandemias e emitir recomendações a serem seguidas a nível mundial. Mas segundo uma investigação dos jornais POLITICO e WELT, a resposta à pandemia de Covid-19 foi, na prática, coordenada por quatro organizações de saúde (a trabalhar em conjunto), que gastaram quase 10 mil milhões de dólares nesse propósito. Tal ação foi realizada sem qualquer escrutínio dos governos e terá ficado, aparentemente, aquém dos seus próprios objetivos.

A Declaração de Pandemia pela OMS em 2020 apanhou os governos ocidentais desprevenidos, em parte pela lenta degradação de respetivos sistemas nacionais de saúde. A Fundação Gates e o Wellcome Trust, juntamente com outras duas instituições privadas de saúde criadas por Bill Gates – a Global Alliance for Vaccination and Immunization (GAVI) e a Coalition for Innovation in Epidemic Preparedness (CEPI) – aproveitaram essa falta de preparação para lançar uma nova abordagem à gestão de crises pandémicas. “O que se seguiu”, relata o POLITICO após dezenas de entrevistas, “foi uma mudança constante, quase inexorável, de poder dos governos sobrecarregados para um grupo de organizações não-governamentais”.

Quando a maioria dos governos ainda debatia sobre a real perigosidade do vírus SARS CoV-a, estas  quatro organização já tinham um plano traçado e pronto a ser executado, estando os potenciais produtores de vacinas identificados. Falava-se em salvação, mas a gravidade da crise em causa nem era objeto de debate.

“Eles usaram a sua influência com a Organização Mundial da Saúde para ajudar a criar um ambicioso plano de distribuição mundial para a disseminação dessas ferramentas Covid (testes, tratamentos e injeções) para nações carenciadas, embora acabassem por falhar em cumprir as suas promessas originais” , publicou o POLITICO.

Estas quatro organizações interconetadas (o Wellcome Trust ajudou a Fundação Gates a criar o CEPI) investiram 10 mil milhões de dólares, desde 2020, na resposta global à Covid. Juntos, eles doaram 1,4 mil milhões para a OMS, o que, segundo funcionários de altos cargos da organização de saúde, deu a eles uma influência semelhante a “um grande poder”.

No entanto, essas instituições gastaram (apenas) 8,3 milhões em lobby, nos Estados Unidos e com vários governos europeus. Essa quantia de dinheiro é, em termos relativos, muito pequena, e estima-se que seja porque a influência deles – assim como a das Big Pharma – sobre esses atores estatais já estava totalmente consolidada muito antes da pandemia.

5. Assim, de acordo com o POLITICO, funcionários dos governos dos EUA, da União Europeia e representantes da OMS “rodaram por essas quatro organizações como funcionários, ajudando-os a solidificar as suas conexões políticas e financeiras em Washington e Bruxelas”. Estas “portas giratórias” são atrativas pois permitem que funcionários de cargos públicos “saltem” para empresas privadas com bonificações muito mais compensatórias, algo que é muito usual nos EUA e até em Portugal.

O POLITICO também entrevistou vários especialistas em saúde pública. Um professor da Universidade de Georgetown, Lawrence Gostin refere: “…deveríamos estar profundamente preocupados…esta é a pior forma de influência…porque o dinheiro não deve ditar a política…mas também porque constitui um acesso preferencial, à porta fechada…”. Um poder como este, continua, “… (é) antidemocrático, porque é extraordinariamente não transparente e opaco… deixa para trás pessoas comuns, comunidades e sociedade civil.”

Não estamos, portanto, diante de um louvável gesto de humanitarismo, mas testemunhamos o mau uso da influência política cultivada ao longo de décadas de lobby, propaganda e desregulamentação empresarial.

6. Em última análise, não está em causa o objetivo final de curar doenças, mas a metodologia. A saúde global, que é em si mesma todo um sistema altamente complexo de múltiplas respostas a múltiplos e diferentes problemas, fica presa a uma perspetiva excessivamente orientada para consumo. Noutras palavras, para teres “saúde” passas a ser obrigado a comprar produtos que uma entidade global não eleita define como e em que condições deve vender.

Num estudo publicado em 2014, a investigadora Katerini Storeng explica que iniciativas público-privadas voltadas para a saúde, como as promovidas pela Fundação Gates, passaram a “dominar a governação global” na sua área, em detrimento de políticas voltadas para o fortalecimento da sistemas nacionais de saúde como um todo. Estas iniciativas público-privadas internacionais têm conseguido orientar os sistemas públicos de saúde para que, agora, apoiem as suas iniciativas específicas, voltadas não para a saúde e o bem-estar geral, mas para doenças específicas.

Como pudemos presenciar durante a pandemia de Covid-19, estas iniciativas conseguem redirecionar os recursos e a atenção dos sistemas nacionais de saúde, como um todo, para o objetivo específico que promovem, deixando tudo de lado e tratando a saúde como se fosse unidimensional e meramente matéria técnica. Os recursos destinados ao cancro, doenças cardíacas e dezenas de doenças foram relegados por meses sem sequer calcular o enorme dano que isso causaria a milhões de pessoas. Dimensões sociais e económicas da saúde – como acesso a especialistas em saúde, água potável e eletricidade e, acima de tudo, à cultura necessária para saber o que significa ter boa saúde – foram negligenciadas em favor da administração de vacinas ou outros produtos farmacêuticos específicos.

No final das contas, todo o sistema nacional de saúde acaba por se assemelhar a uma enorme máquina de distribuição de vacinas (e, mais recentemente, de distribuição de terapias de mRNA). Noutras palavras, uma linha de montagem contínua focada em objetivos massivos de produtividade. Embora se aumentem os recursos destinados à saúde, também se consolida um sistema orientado para negócios privados e soluções técnicas, em detrimento de uma noção de “saúde” mais estruturada e equilibrada, que ultrapasse o mero foco de manter alguém a “respirar”.

7. O Tratado Pandémico e as Emendas ao Regulamento Sanitário Internacional que irão ser discutidas em Maio de 2023 na Assembleia Mundial de Saúde, visam oficializar e sustentar um modelo de negócio criado nos últimos 15 anos, com quaisquer crises reais ou potenciais que ameacem a Humanidade a serem coordenadas por um grupo de especialistas financiados por uma elite resultante da cooperação Big Pharma-Big Tech e o apoio na retaguarda do Deep State Americano. Ou seja, a guerra anda a vender humanitarismo para justificar o facto de não permitir que ninguém se lhe oponha. Kafka deve estar a rir no seu túmulo.

A salvação é sempre um bom produto para se vender a povos desorientados, sobretudo quando está em causa marcar uma determinada posição hegemónica no mundo. O problema é que antes que um meteorito caia no planeta ou sejamos dizimados por um vírus amplificado pelas alterações climáticas, serão os próprios homens a matarem-se uns aos outros pelas paranóias criadas pelas ferramentas tecnológicas que usamos sem qualquer responsabilidade.

1º de maio em Paris

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Em Paris, de França, as manifestações são marcadas pela net, através das redes sociais.

Para o 1º de maio, a coisa promete.

Adivinham-se grandes protestos de rua, muitos carros queimados, muitas lojas vandalizadas, os franceses quando protestam não brincam em serviço.

As palavras de ordem vão ser “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” e “guilhotina para Macron”.

O pretexto para a violência que se adivinha é a reforma da Previdência, com a idade limite para a reforma dos trabalhadores a passar dos 62 para os 64 anos de idade, que o povo rejeita e Macron teimou em impor.

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O século XXI será chinês

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Li algures que o ex-presidente Bill Clinton terá tido consciência disso, quando, em 1995, (ainda a meia dúzia de anos da entrada formal da China na Organização Mundial de Comércio ) se apercebeu de que a árvore de natal da Casa Branca era um pinheiro de plástico, made in China.

A agenda mediática inclui agora diariamente a China. Xi Jinping tornou-se uma estrela, mais brilhante que Mao Tse Tung.

E os chineses são mais de 1.400 milhões! São muitas formigas obreiras, ávidas de consumo dos bens que modelam o conforto da vida moderna. Os custos ambientais do estilo de vida que ambicionam… ora, pensam nisso depois.

Para já, a obsessão capitalista do crescimento económico convive bem com o regime político, do partido, único, autocrático, repressivo. A China está bem com o pior dos dois sistemas. O Ocidente bem pode esticar-se, estar alerta com Taiwan. Pequim estará de arsenal em riste, para o que der e vier.

Acontecimentos recentes (leia-se a guerra entre a Rússia e a Ucrânia), têm proporcionado à China um enorme protagonismo na disputa pelo lugar cimeiro na nova ordem mundial em construção.

Sempre que vejo, nas notícias, encenações de desfiles militares e o aparatoso  arsenal, vem-me à memória uma frase que a minha prima, emigrante em França durante décadas, ouviu de uma colega chinesa e me repetiu, em tom assustado, vezes sem conta: Madame X dizia sempre, “quand la Chine se reveillera, le monde entier tremblera” (quando a China acordar, o mundo inteiro tremerá).

Há uma década, tive uma oportunidade, única na vida, de visitar um bocadinho da imensa China.

Integrada numa missão económica, a convite de empresários da Marinha Grande, passei uma semana no nordeste da China, em Changchung, capital da província de Jilin. E tive direito a uns dias em Xangai, onde decorria, à época, a grande exposição mundial, a EXPOXANGAI.

Do que vivi nesses dias, compus um postal de emoções, que retornam sempre que imagens da China aparecem no ecrã.

Onze horas depois de sair do aeroporto de Schiphol, Amesterdão, o 747 da KLM sobrevoa o céu de Xangai. É noite. Vista a uns quilómetros de altitude, aquela cidade, de mais de 15 milhões de habitantes, parece-se com qualquer outra, gigantesca, em qualquer ponto do mundo. Uma espécie de nebulosa de estrelas!

Em alguns minutos, o imponente Boeing aterra numa das pistas de Pudong, uma obra prima da engenharia, da arquitetura e da funcionalidade.

Rapidamente ultrapassadas as formalidades alfandegárias, encontramo-nos no imenso hall das chegadas. A luz branca de milhares de lâmpadas torna visível um espaço que me parece estranhamente familiar. A presença da língua inglesa nos anúncios de néon, das cadeias de lojas de marca e restaurantes de comida rápida, ajuda a construir esta estranha familiaridade. Enorme e bastante silencioso, àquela hora da noite, naquele espaço cosmopolita, como são todos os aeroportos, apenas os traços orientais dos rostos dos muitos que chegam tornam evidente que aterrei na Ásia.

É impossível a qualquer ocidental partir para uma primeira viagem à China sem uma dúzia de ideias feitas, sem mil e uma imagens sobre o que vai encontrar. E é preciso desconstruir essas ideias e apagar essas imagens, para, de olhos bem abertos, olhar, ver e recuperar o espanto. Foi o que fiz.

Integrada numa missão empresarial europeia que se deslocou à província de Jilin, na Manchúria, lá nos confins do nordeste da China, para mais um Euro-Asia Business Meeting, eu sabia que não veria a Praça de Tiananmen, nem a Cidade Proibida, nem caminharia pela Grande Muralha, que continuariam no meu imaginário, míticas e intocadas, até uma hipotética próxima viagem.

Mas a Manchúria, que alfuía à minha memória, em flashes do romance épico de Lílian Lee – “A última princesa da Manchúria”- como uma montanha sagrada, onde princesas guerreiras viviam aventuras inenarráveis, foi uma enorme surpresa. No aeroporto de Changchung, comecei a recuperar o espanto. E conservei-o em cada esquina, em cada rua da cidade e em cada espaço noturno.

O Ocidente penetrou nas profundezas da Ásia. Os edifícios, as ruas, os automóveis, os jovens, as discotecas, os centros comerciais, a presença massiva de produtos de consumo e referências simbólicas europeias e americanas transformaram a estranha familiaridade numa espécie de desencanto. Afinal eu estava na China, numa cidadezinha de 7 milhões de seres e, à exceção da comida, da escrita chinesa e das dificuldades (mais que muitas) em me fazer entender (não é verdade que muitos chineses falam inglês, e mesmo os que falam, não o falam como nós), eu começava a sentir que também aquele pedaço de mundo era a minha casa!

Onde esperava encontrar história e identidade, encontrei uma cidade moderníssima, com a linha do horizonte recortada por arranha-céus e pelo brilho metálico das gruas, ruas atulhadas não de bicicletas nem riquexós, mas de automóveis de marcas europeias, topo de gama, ouvi música latina mas não chinesa e até comi, com talheres, ovos e bacon ao pequeno almoço.

A enorme zona industrial Changchung – Jilin, em construção acelerada, constituiu uma surpresa ainda maior, não pelo planeamento (aqui sim, há uma tradição que se mantém), mas pela capacidade de concretizar tão rapidamente. O perfil urbano parecia mudar de um dia para o outro, com arranha céus a crescerem como cogumelos.

Xangai trouxe-me outros espantos. Pelo gigantismo! É difícil conceber uma metrópole de 15 milhões de seres humanos (hoje mais de 25) quando se vive numa cidade de 35 mil, a vida inteira num país com pouco mais de 10 milhões. Pelo arrojo e beleza dos edifícios que recortam o céu azul desta cidade do futuro. Pela oportunidade excecional de viajar suavemente no Maglev, à velocidade de 430 km por hora.

Mas foi também em Xangai que pude descobrir a China que se estende em superfície, na sombra dos extravagantes arranha céus onde as grandes multinacionais se instalaram, a China  dos bairros operários, maoistas, das pequenas lojas e mercados de rua, das bicicletas, dos restaurantes com candeeiros vermelhos de papel, suspensos do tecto, onde não há talheres e nos recebem com chá.

Gostei dessa China onde tudo conserva a identidade, onde é impossível comunicar sem falar a língua deles, mas onde, apesar de tudo, nos entendemos. Nessa China, senti-me uma estranha numa terra estranha, num lugar que não era a minha casa, mas que me devolveu a consciência de que o mundo só continuará grande e extraordinário enquanto conservar a diversidade.

JORNALISTAS DA LUSA, O DINHEIRO E A SOLIDARIEDADE

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Há jornalistas na agência Lusa que levam para casa salários inferiores ao SMN. Salários (em forma de avença) na ordem dos 400 ou 500 euros por mês.

Passaram mais de 10 anos. “Comecei a ganhar à peça. Agora tenho uma avença miserável. Com a retenção na fonte, ficam 450 euros”, é o relato de um correspondente regional da Lusa que trabalha diariamente, que muitas vezes não tem folgas nem feriados. “No dia a dia, são 10 a 12 horas de trabalho seguidas. Sábados e domingos incluídos”, diz-nos este jornalista sob anonimato, para tentar evitar represálias.

Não é caso único. O medo do despedimento é geral. É muito fácil despedir quem não tem vínculo com a empresa, mesmo se trabalha diariamente, anos a fio.

“Trabalhamos tristes”, diz-nos uma jornalista da Lusa que nos disse haver na empresa tratamento diferenciado para quem é amigo ou amiga de chefes e alinha em jantaradas de grupinhos de colegas.

PREPAV, mitigadas boas intenções do Governo

Algum consentimento face ao assédio sexual, rebaixamento em assédio moral, a submissão, parecem ser vias para alguns conseguirem ultrapassar obstáculos como a entrada nos quadros e obter salários menos indignos.

Em 2019, vinte e cinco trabalhadores precários da Lusa foram integrados no quadro da empresa, no âmbito do programa de regularização extraordinária dos vínculos precários na Administração Pública (PREVPAP). Mas um número maior ficou de fora, na mesma precariedade, sujeitos a exploração laboral.

“O PREPAV só deu para resolver os problemas dos grupinhos”, disse-nos um dos jornalistas excluídos desse programa. “Quem entra para o quadro são amigos e amigas de alguém da chefia, levam bolinhos para a redação e alinham nas jantaradas de grupinhos”, diz-nos outro.

“Trabalho como qualquer jornalista do quadro” afirma um desses precários de longa data, que sente a injustiça na carne porque, como diz, “já queimei muito o rosto ao sol, em incêndios, valentes molhas em enxurradas…”. Não há desgraça que não seja notícia, exceto a desgraçada vida de quem faz a notícia.

“Não tenho para comer”

A maioria dos jornalistas da Lusa com quem falámos são evidentes casos de falsos recibos verdes. Dir-se-ia que facilmente poderão prová-lo em tribunal, depois de uma década de trabalho diário. Mas há sempre uma dose de incerteza que lhes rói a vontade. E quem abusa deles, aproveita-se disso. E sentem-se sós. Uma visita ao site do Sindicato dos Jornalistas revela a ausência de preocupação com a situação laboral destes trabalhadores. Nada de novo, também aqui.

As avenças de miséria que estes jornalistas recebem não chegam para viver. Quase todos são obrigados a recorrer a outras atividades, o que eleva a carga horária de trabalho diário a que ficam sujeitos. “Vivo de biscates, um dia de cada vez” confessa um desses jornalistas. “Não tenho para comer”, diz para fecho da conversa.

A agência de notícias LUSA é uma sociedade anónima sustentada pelo Estado através de um contrato de prestação de serviços. Através desse contrato, a LUSA tem a obrigação de assegurar a cobertura noticiosa em todo o território nacional e, ainda, dos acontecimentos relativos à União Europeia e às diversas comunidades de cidadãos portugueses da diáspora. É por isso que a LUSA tem correspondentes em todos os distritos de Portugal e em muitos países onde residem comunidades portuguesas relevantes.

A compensação indemnizatória contratualizada é, hoje, de 16.518.622,02 € (IVA incluído), segundo consta no contrato de prestação de serviço assinado pelos ministros das Finanças e da Cultura e a administração da Lusa. Parece muito, mas 23% voltam logo a entrar nos cofres do Estado. E o resto, talvez esteja mal distribuído. O dinheiro e a solidariedade.

UM ROL DE DISPARATES

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De 2009 a 2013 fui professor de Património Cultural na Licenciatura em Turismo, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, em Lisboa.

E, dada a minha vertente jornalística, não quis deixar de apresentar aos meus estudantes um trecho sobre a nossa capital e as suas potencialidades turísticas publicado numa revista brasileira de turismo. Dupla era a intenção: desafiá-los a descobrirem o que aí não estava certo e, por outro lado, a acautelá-los acerca da necessidade de usarem o seu espírito crítico acerca das informações que lêem e, além disso, a veementemente os esconjurar:

– Ai de vocês se me aparecem com textos destes, de vossa autoria, numa publicação séria! Se, para gozo, num panfleto para uso ‘da malta’, aceito, até me congratulo, porque também precisamos de exercitar o nosso sentido de humor!

– Mas, perguntar-me-ão, o que dizia, afinal, esse recorte?

Um momento! É que, antes de se ler, é preciso saber que foi publicado na revista “Turismo & Negócios”, editada em Maceió (Brasil), que circula em todo o espaço económico da América do Sul (Mercosul), existe também na internet e avisa na ficha técnica que “transmite informações aos jornalistas da imprensa especializada, agências de viagens, hotéis, companhias aéreas, operadoras turísticas e entidades de turismo em geral. E AINDA está presente em grandes eventos.”

Preparados? Aí vai:

Dispenso-me, obviamente, de comentar e de repetir aqui a demorada conversa que tive com os estudantes, esmiuçando cada um dos mui significativos pormenores.

Ora foi isto há mais de uma década e eu imaginei que textos desse teor jamais voltariam a aparecer. Puro engano!

Na sequência da crónica em que falo do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas, situado na freguesia de S. João das Lampas e que é, por isso, um dos locais históricos a visitar por quem por essas paragens adregue passar, fui levado, não sei bem como nem porquê, à página da autoria de Mariana Albano (é este o nome que aparece).

Itens a explorar nessa página:

– ‘Home’ (onde aparece o nome Museu Aquiologico de  Odrinhas [sic] e se fala das suas actividades (conteúdo retirado da página do Museu);

–  ‘Informações úteis’ (conteúdo retirado da página do Museu);

– ‘Apresentação’ (conteúdo retirado da página do Museu);

– ‘Contacto’ (fica-se, na dúvida, se será o do museu ou o de Mariana Albano).

Sim, bem sei, saltei o item «Odrinhas». Então, se me está a seguir e tem curiosidade, eu faço uma pausa. Vá lá. Clique na palavra! Eu mostro o que me surgiu:

«São Miguel de Odrinhas é um município localizado no norte de Portugal, no distrito do Porto. Está situado nas margens do rio Douro e é conhecido pelas suas exuberantes paisagens e monumentos históricos. A cidade tem várias atracções turísticas, incluindo a Igreja de São Sebastião, o Castelo de Odrinhas, a Capela de São Roque, as Ruínas do Convento de São Francisco, e o Palácio de São Martinho. Os visitantes podem desfrutar de vistas deslumbrantes da torre de San Sebastian ou explorar as ruínas do Convento de São Francisco. Há também muitos restaurantes à escolha, que oferecem pratos tradicionais portugueses, bem como cozinha internacional. São Miguel de Odrinhas é um óptimo lugar para visitar se procura um ambiente descontraído e muitas paisagens bonitas!».

‘Torre San Sebastián’ encontrei várias: em Benidorm, Barcelona, Vigo… ‘Capela de São Roque’ (não confundir com a conhecida igreja de S. Roque, do Largo da Misericórdia, em Lisboa, encontrei a que esteve ligada à Marinha, «construída em 1760, segundo projeto de Eugénio dos Santos, foi sede da Irmandade dos Carpinteiros Navais». ‘Ruínas do Convento de São Francisco’ atirou-me logo para Évora e a Capela dos Ossos,  mas há por esse País fora vários conventos de S. Francisco em ruínas; nenhum em Sintra. ‘Palácio de São Martinho’ só se for o dos Condes de São Martinho, que fica em Lisboa.

Quis saber quem era Mariana Albano. Além da referência «Mariana Albano, Author at Museu Arqueologico de Odrinhas», encontrei várias licenciadas que, nas redes sociais, se identificam com este nome. Achei melhor não contactar com nenhuma delas.

O QUE NOS DIZ MAMADOU BA

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Por causa da greve dos funcionários judiciais, o julgamento de Mamadou Ba foi adiado. O adiamento implica o prolongamento da campanha contra o ativista pelos Direitos Humanos, despoletada pela extrema-direita com o processo colocado pelo militante neonazi Mário Machado.

A decisão de levar a julgamento Mamadou Ba foi do mediático juiz Carlos Alexandre. Em causa está um texto de Mamadou Ba nas redes sociais a lembrar que Mário Machado terá participado no assassinato de Alcindo Monteiro na noite de 10 de junho de 1995. O juiz de instrução criminal considerou que Mário Machado já respondeu na justiça por esse caso, e que não será justo “uma pessoa carregar um anátema toda a vida imputando-se-lhe a participação, a qualquer título, num homicídio, cujo feito já foi introduzido em juízo e objeto de aturado julgamento e com acórdão do STJ, onde é absolvido desse concreto crime…”

O que ficou provado em tribunal foi que Alcindo Monteiro foi morto, linchado na via pública, por um grupo de skinheads (um bando de racistas) a que Mário Machado pertencia, quiçá liderava. Mas não se provou que tenha sido ele a matar, não constou no rol dos condenados por esse crime.

Ofendido na sua honra, Machado acionou os tribunais. E o justicialista Alexandre mandou Mamadou Ba para tribunal. Na instrução, a advogada Isabel Duarte, que patrocina Mamadou Ba, alegou que neste caso “não há honra suscetível de ser ofendida”, numa alusão ao longo cadastro de Machado, ao seu percurso político na extrema-direita e às ideias racistas que propaga.

A entrevista

Enviámos a Mamadou Ba, por escrito, as questões que considerámos pertinentes e às quais ele poderia responder sem risco de ferir a lei. E ele respondeu-nos assim:

Quando soube que ia ser julgado, o que lhe passou pela cabeça?

Fiquei estarrecido, mas sinceramente não surpreendido, quando soube que o MP decidira acompanhar a queixa particular de um criminoso neonazi que nunca demonstrou arrependimento das atrocidades que cometeu ao longo dos anos.

Fiquei ainda mais escandalizado quando, em sede de instrução por mim requerida, notei que o juiz Carlos Alexandre, numa curiosa e tão expeditiva decisão (em menos de 24H, contrariamente ao prazo de semanas que o próprio havia indicado) decidira confirmar as intenções do MP de me levar a julgamento.

Não fiquei surpreendido, porque não era a primeira vez que era alvo de tentativas de silenciamento politico através da manipulação da justiça por parte da extrema-direita. Mas, revolta-me que sujeitos como este, a quem tenho nojo de invocar o nome, possam gozar da mais ínfima das credibilidades para poder recorrer às instituições para sustentar a sua existência politica. Porque, não tenho dúvidas nenhumas que sujeitos como aquele que intentou esta ação, não só não têm honra nenhuma a defender, como reconhecer-lhes qualquer presunção honrosa é insultar a memoria das suas vítimas e aviltar a consciência democrática coletiva de qualquer sociedade que se preze.

Portanto, tudo isto é para dizer que espero tudo das estruturas sociais atuais, marcadas pelo racismo estrutural. Espero, inclusive, que haja um tribunal – ou vários – que decidam levar-me a julgamento por, segundo entendeu o Juiz de Instrução que apreciou este caso, uma frase minha ter prejudicado a boa reputação de Mário Machado, indivíduo que foi condenado ao longo de décadas, em penas efetivas por vários crimes de detenção de arma proibida, de dano simples e qualificado, de difamação agravada, de roubo simples e qualificado, de sequestro, de coação, de ameaça, de ofensa à integridade física qualificada e com dolo de perigo, de introdução em lugar vedado ao público, de extorsão, de tráfico de armas e de discriminação racial. Isto porque refiro, num texto em que identifico claramente o executor de Alcindo Monteiro, que ele é um dos principais responsáveis pela morte de Alcindo Monteiro, como, de facto, é, ainda que não tenha sido condenado por intervir diretamente nessa morte.

É possível que tenha de se cruzar com o Machado, em alguma das sessões do julgamento. Como antevê esse momento?

O sujeito em causa passa-me ao lado, mas pelo que representa, causa-me imensamente repulsa que possa conspurcar o espaço público pela sua presença. E, naturalmente, que encontrá-lo incomoda-me ética e moralmente, porque o seu lugar é nos calabouços e não na convivialidade de um espaço público democrático são e saudável.

Passei por ele há dias, aquando do adiamento da sessão. Repito que como pessoa, é-me indiferente. Como símbolo político, não. Por isso, esse indivíduo ter-me-á sempre como seu inimigo, seja num tribunal seja noutro sítio qualquer.

Tem havido manifestações de solidariedade consigo, de repúdio pela decisão do juiz de instrução. Esperava que fosse assim ou ficou surpreendido?

Não só esperava, como estou muito grato por elas existirem, porque comprovam que existe um cada vez maior alargamento da consciência coletiva de que o combate ao racismo não é uma aventura individual, nem pode ser nem é saudável que seja o folclore da fulanização das lutas. Estou bastante feliz por isso, porque sou daqueles que acredita que nunca ninguém mudou sozinho nada de substancial nas coisas mais estruturais nas sociedades, como o é o caso do racismo.

É por isso que considero que a decisão do juiz de instrução, é uma agressão à minha luta e à luta de todos que nela intervêm. A justiça não é a mera aplicação cega da lei, fornecida à medida em menos de vinte e quatro horas. Por a justiça ser muito mais do que isso, compreendo os movimentos de solidariedade que este processo gerou. Mas não sou eu que estou em causa. O que está em causa é um conceito de justiça e um conceito de sociedade.

Acha possível que o julgamento se transforme em algo mais? Quero dizer, num confronto de ideologias que ultrapasse a lógica da aplicação de justiça?

A partir do momento em que a extrema-direita faz da captura e infiltração das instituições uma estratégia politica, é claro que toda a sua atuação nos diferentes níveis de intervenção institucional releva da disputa ideológica. É por isso que este julgamento não é nada sobre defesa de honra (e diga-se, o reclamante não goza) nem sobre a minha pessoa. É o antirracismo que está sentado no banco dos réus.

Fui e sou alvo de inúmeras queixas vindas das extremas-direitas (a troglodita e a engravatada) e dos setores reacionários da direita, cujo proposito é a intimidação e a distração politica. Por que, porquanto existirem disputas judiciais, elas servirão de alavanca para legitimar a disputa politica e ideológica que pretende normalizar o fascismo e o racismo.

Olhando para o ambiente e o contexto políticos da nossa sociedade, não há qualquer possibilidade de este julgamento não ser um confronto ideológico, não só porque o indivíduo que me acusa não goza de reputação suscetível de ser ferida e, precisamente por isso, todo o estar dele foi, até agora, político, de forma clara, justificando-se os seus crimes por essa via, por assim dizer.

Pelo meu lado, sou adversário declarado e ativo desse estar político e foi esse o sentido da minha frase: esse indivíduo tudo fez, desde que foi conhecido, para levar à morte pessoas que não fossem cidadãos arianos, por assim dizer. Nunca baixarei os braços contra tal gente! Para mim, isso é que é a justiça.

PERSEGUIÇÕES POLÍTICAS

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A deputada Zooey Zephyr, eleita para a Câmara dos Deputados do Estado de Montana, nos EUA, está impedida de entrar nas instalações da assembleia e de participar nos plenários. Zooey Zephyr foi eleita pelo Partido Democrata, mas o Estado de Montana é governado por uma maioria do Partido Republicano.

A questão não é só política partidária. Acontece que a deputada Zephyr é uma pessoa transgénero. Montana acaba de aprovar legislação que impede o acesso aos serviços públicos de saúde a pessoas transgénero. Na discussão no plenário, Zephyr disse que os republicanos ao votarem numa lei deste tipo estavam a “manchar de sangue” as próprias mãos. A acusação foi o pretexto para ser votada a proibição de Zephyr entrar na assembleia e de participar nas discussões políticas. Poderá votar à distância.

Zooey Zephyr no momento em que foi exoulsa do parlamento de Montana, EUA

A votação registou 32 democratas a votarem contra a punição e 68 republicanos – dois terços da câmara – a votarem a favor.

TODAS AS MINORIAS PODEM SER PERSEGUIDAS

Este é o segundo caso em órgãos legislativos norte-americanos controlados pelo Partido Republicano em que deputados eleitos ficam proibidos de entrar nas instalações do poder legislativo local. No início de abril, no Tennessee, republicanos votaram pela expulsão de dois deputados democratas negros que lideraram iniciativas para limitar o acesso a armas.

Justin Pearson no exercício dos seus direitos políticos, antes de ser expulso do parlamento do Tennessee, EUA

Justin Pearson, um dos deputados expulso, declarou pretender “continuar a lutar por uma legislação justa. Continuar a lutar para garantir que não se perdem mais vidas na epidemia da violência armada.”

Isto aconteceu dias depois de uma mulher ter assassinado três crianças e três adultos numa escola em Nashville, utilizando armas legalmente adquiridas.

É espantoso como é possível expulsar quem o povo elegeu, por meras questões circunstanciais da política. Só na América.

Os letreiros mentirosos!

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Num mundo em que são diárias as notícias propositadamente forjadas para influenciar mentes e corações, certamente se pensaria que, em pedra, só a verdade ficaria definitivamente consignada. Boatos e falsidades só poderiam alimentar panfletos e pasquins, as pedras jamais! Que esculpir dá muito trabalho e não é fácil seguir as regras que a Epigrafia impõe.

Pois não é assim. Há mentiras gravadas na pedra, resultantes, boa parte das vezes, de contratempos que não houve meio de evitar!

Em Cascais

Deliberou a Câmara Municipal de Cascais vedar ao trânsito duas das mais significativas artérias da vila.

Decisão acertada, que o Povo acabou por cabalmente compreender, ainda que fosse ideia quase revolucionária na altura, posteriormente adoptada por toda a parte e em todo o mundo.

Encantados com a novidade e até para se concretizar no chão esse carácter pedonal, de imediato se mandaram esculpir marcos com o brasão da vila e a data de 1980. Só dois anos depois (se não erro) é que, no entanto, os marcos se implantaram e a decisão se tornou efectiva.

montagem fotográfica

A data de 1980 veicula, pois, uma formosa mentira!

Em Sintra

Outro acontecimento maior da Grande Lisboa foi, a 11 de Setembro de 1999, a inauguração do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas, freguesia de S. João das Lampas, Sintra.

Sonho longamente acalentado, projecto meticulosamente pensado, uma alegria imensa, com a presença de epigrafistas vindos de distintas universidades europeias, porque, no fundo, essa primeira fase do museu era principalmente destinada a mostrar os muitos e importantes monumentos epigráficos romanos da região.

Ocorreu, porém, um imprevisto: complicou-se a situação em Timor, na sequência de graves incidentes com os grupos pró-indonésios, que não aceitaram o resultado do referendo de 30 de Agosto de 1999, que votara a autodeterminação do território e, por isso, o primeiro-ministro, António Guterres, teve de ficar no seu gabinete, para tomar as decisões que, na oportunidade, poderiam ser necessárias e urgentes.

A placa, no entanto, estava feita. Não foi ele quem a descerrou nem ninguém, nesse dia, a ousou descerrar! Mas na pedra o seu nome ficou – para sempre!

Em Évora

O Convento do Bom Jesus de Valverde, também conhecido por Conventinho de Valverde da Mitra de Évora, foi mandado edificar no século XVI pelo Cardeal Infante Dom Henrique, primeiro arcebispo de Évora e futuro rei de Portugal, nos terrenos da Quinta do Paço de Valverde, para albergar uma comunidade de frades capuchos.

Encerrou as suas portas em 1834, como os demais, na sequência do decreto liberal que determinou a extinção das ordens religiosas, e, tal-qual outros edifícios, andou em bolandas, sem se saber que dele fazer, até que, a partir de 1924, o governo de Lisboa, mau grado a oposição de algumas cidades – como Santarém – que desejavam manter a exclusividade do ensino agrícola, decidiu reabilitar esta jóia da arquitectura quinhentista para nela instalar a Escola Agrícola de Évora.

Com as obras praticamente acabadas, não podia o regime da Ditadura Nacional deixar os seus créditos por mãos alheias e, de imediato, se encomendou a uma das oficinas do bom mármore de Estremoz/Vila Viçosa elegante placa comemorativa digna de ser descerrada com  a requerida pompa e circunstância.

Só que tudo apontava para 1933 e, entrementes, com a entrada em vigor da Constituição Portuguesa de 1933, que institucionalizou o Estado Novo, a Ditadura Nacional deixou de existir! A placa perdeu validade e não chegou a ser afixada!

Em 1980, o convento foi incorporado na Universidade de Évora, que ora o tem de renda para alojamento local. A placa andou, pois, por aqui e por ali e mostra-se hoje no Laboratório de Arqueologia do Palácio Vimioso, no gabinete do Doutor Jorge Oliveira, professor catedrático de Arqueologia, a quem mui penhoradamente agradeço, a gentileza de me haver posto ao corrente de mais este letreiro… mentiroso!

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS LUSA E A DESINFORMAÇÃO

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A agência de notícias Lusa realizou hoje uma conferência sobre desinformação, fakenews. A conferência, com transmissão online, sustentou-se num documentário americano sobre este tema. Seguiu-se uma troca de ideias entre especialistas na matéria, uns americanos outros portugueses.

Não percebemos bem qual o público alvo desta iniciativa. Por várias razões. Primeiro, porque a introdução e apresentação da conferência e do documentário foram feitas em inglês, sem tradução. O documentário teve legendas em português.

A conversa entre especialistas foi em português, mas a expert americana falou em inglês muitas vezes, apesar de ser lusodescendente. Não houve tradução, foi uma conversa algo confusa. Ou seja, a maioria do público foi afastado desta iniciativa, por impossibilidade de perceber o que se passava. Foi uma conversa bastante desinteressante, com algumas curiosidades como, por exemplo, o expert militar convidado afirmar não ter perfis em redes sociais, apesar de se mostrar conhecedor do que por lá se passa. Ou talvez por isso mesmo.

Malhar nos russos sem contraditório

Outro problema detetado foi a parcialidade do tratamento. O que vimos no documentário foram afirmações que incriminam divisões especiais dos serviços secretos russos na disseminação de fakenews pelo mundo fora e de informações falsas com vista a manipular as intenções de voto em eleições americanas. Fora disto, vimos exemplos do que aconteceu em casos específicos em países como a India (crime violento) ou a Nova Zelândia (rejeição de vacinas), na sequência da disseminação de rumores ou de mentiras.

Nesta fotografia, os americanos e os europeus ficam com a máscara de meninos bem-comportados. Ora, sabemos bem como isso não é verdade.

Nenhuma referência à situação de Julian Assange, jornalista e fundador do WikiLeaks, detido preventivamente desde 2019 numa cadeia inglesa, sob ameaça iminente de ser extraditado para os EUA, onde será condenado, certamente, por divulgar informações verdadeiras sobre política e defesa dos EUA.

LULA NO 25 DE ABRIL, A LUTA CONTRA OS FASCISTAS

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A personalidade que os brasileiros escolhem para Presidente é sempre bem-vinda no parlamento português, garantiu Augusto Santos Silva, na tentativa de suavizar o impacto da afronta que se sabia ir acontecer.

Santos Silva lembrou que a Assembleia da República já recebeu 4 presidentes do Brasil e que o próprio Lula já era a segunda vez que ali estava.

Depois sintetizou os méritos de Lula da Silva: o estadista que venceu eleições livres, o político que combate contra as injustiças sociais, o homem que defende sem hesitações a democracia no Brasil.

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O Presidente da Assembleia da República lembrou o modo como Xico Buarque da Holanda cantou o 25 de abril, lembrou como a revolução portuguesa ajudou o Brasil a libertar-se da ditadura militar fascista, concluindo que portugueses e brasileiros são irmãos na mesma luta pela democracia e lembrou, ainda, como é benéfico o bom entendimento entre os dois povos, na economia, na cultura, no desenvolvimento mútuo.

Mas a contestação da extrema-direita contra a presença de Lula da Silva no parlamento português tem motivações que não dizem respeito ao diálogo democrático. Foi um pretexto para tentar boicotar as celebrações do 25 de abril, foi uma chicana contra um político socialista, foi ainda um ato xenófobo contra um brasileiro.

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A cena repetiu-se sempre que se aplaudiu o discurso de Lula da Silva. Uma cena triste, indigna. No fim, Lula da Silva teve um comportamento exemplar de urbanidade e não mandou os arruaceiros para a puta que os pariu.