Os letreiros mentirosos!

Autênticas fakenews gravadas na pedra!

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Num mundo em que são diárias as notícias propositadamente forjadas para influenciar mentes e corações, certamente se pensaria que, em pedra, só a verdade ficaria definitivamente consignada. Boatos e falsidades só poderiam alimentar panfletos e pasquins, as pedras jamais! Que esculpir dá muito trabalho e não é fácil seguir as regras que a Epigrafia impõe.

Pois não é assim. Há mentiras gravadas na pedra, resultantes, boa parte das vezes, de contratempos que não houve meio de evitar!

Em Cascais

Deliberou a Câmara Municipal de Cascais vedar ao trânsito duas das mais significativas artérias da vila.

Decisão acertada, que o Povo acabou por cabalmente compreender, ainda que fosse ideia quase revolucionária na altura, posteriormente adoptada por toda a parte e em todo o mundo.

Encantados com a novidade e até para se concretizar no chão esse carácter pedonal, de imediato se mandaram esculpir marcos com o brasão da vila e a data de 1980. Só dois anos depois (se não erro) é que, no entanto, os marcos se implantaram e a decisão se tornou efectiva.

montagem fotográfica

A data de 1980 veicula, pois, uma formosa mentira!

Em Sintra

Outro acontecimento maior da Grande Lisboa foi, a 11 de Setembro de 1999, a inauguração do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas, freguesia de S. João das Lampas, Sintra.

Sonho longamente acalentado, projecto meticulosamente pensado, uma alegria imensa, com a presença de epigrafistas vindos de distintas universidades europeias, porque, no fundo, essa primeira fase do museu era principalmente destinada a mostrar os muitos e importantes monumentos epigráficos romanos da região.

Ocorreu, porém, um imprevisto: complicou-se a situação em Timor, na sequência de graves incidentes com os grupos pró-indonésios, que não aceitaram o resultado do referendo de 30 de Agosto de 1999, que votara a autodeterminação do território e, por isso, o primeiro-ministro, António Guterres, teve de ficar no seu gabinete, para tomar as decisões que, na oportunidade, poderiam ser necessárias e urgentes.

A placa, no entanto, estava feita. Não foi ele quem a descerrou nem ninguém, nesse dia, a ousou descerrar! Mas na pedra o seu nome ficou – para sempre!

Em Évora

O Convento do Bom Jesus de Valverde, também conhecido por Conventinho de Valverde da Mitra de Évora, foi mandado edificar no século XVI pelo Cardeal Infante Dom Henrique, primeiro arcebispo de Évora e futuro rei de Portugal, nos terrenos da Quinta do Paço de Valverde, para albergar uma comunidade de frades capuchos.

Encerrou as suas portas em 1834, como os demais, na sequência do decreto liberal que determinou a extinção das ordens religiosas, e, tal-qual outros edifícios, andou em bolandas, sem se saber que dele fazer, até que, a partir de 1924, o governo de Lisboa, mau grado a oposição de algumas cidades – como Santarém – que desejavam manter a exclusividade do ensino agrícola, decidiu reabilitar esta jóia da arquitectura quinhentista para nela instalar a Escola Agrícola de Évora.

Com as obras praticamente acabadas, não podia o regime da Ditadura Nacional deixar os seus créditos por mãos alheias e, de imediato, se encomendou a uma das oficinas do bom mármore de Estremoz/Vila Viçosa elegante placa comemorativa digna de ser descerrada com  a requerida pompa e circunstância.

Só que tudo apontava para 1933 e, entrementes, com a entrada em vigor da Constituição Portuguesa de 1933, que institucionalizou o Estado Novo, a Ditadura Nacional deixou de existir! A placa perdeu validade e não chegou a ser afixada!

Em 1980, o convento foi incorporado na Universidade de Évora, que ora o tem de renda para alojamento local. A placa andou, pois, por aqui e por ali e mostra-se hoje no Laboratório de Arqueologia do Palácio Vimioso, no gabinete do Doutor Jorge Oliveira, professor catedrático de Arqueologia, a quem mui penhoradamente agradeço, a gentileza de me haver posto ao corrente de mais este letreiro… mentiroso!

4 COMENTÁRIOS

  1. O Dr. Orlando Sousa enviou-me, em jeito de comentário, uma imagem do castelo de Algoso, prova de maturidade política. Não se destruiu a placa comemorativa da visita de Américo Tomás e, ao lado, outra se pôs, relativas à visita de Mário Soares. Parabéns às gentes de Algoso por esta lição de democracia! Exemplar!

  2. Grata por mais este texto, José d´Encarnação.
    Estas mentiras não foram intencionais, mas permaneceram como infiéis à verdade.
    Mas fazem lembrar outras mais antigas, de séculos atrás, porque sempre a pedra fez perdurar, como suporte mais duradouro, a verdade dos vencedores.
    Os reis, depois de atrocidades ao súbditos, vangloriavam-se da sua nobreza de carácter e magnanimidade. E as gerações iam-se sucedendo prestando culto aos “heróis”.
    Mas sempre me lembro das palavras de Elias Canetti, o escritor nascido búlgaro, de origem judaico-sefardita, com duas nacionalidades, prémio Nobel de Literatura 1981, que dizia mais ou menos isto: ” Toda a palavra dita é falsa. Toda a palavra escrita é falsa. Todas as palavras são falsas, mas o que existe sem palavras?”.
    De facto são elas, verdadeiras ou não, que traduzem alguma coisa e levam a outras descobertas.

  3. Caro Prof. Encarnação,
    Obrigado por este artigo e por outros que leio sempre com muito agrado por serem bem escritos e pela sabedoria que encerram. Relativamente às placas afixadas no castelo de Algoso confirmo a informação (conheço bem porque é a minha terra). Contudo há que dizer que após o 25 de Abril a placa relativa à visita de Américo Tomás foi destruida. Eu não estava lá, mas contaram-me que, quando iam fixar a placa relativa à visita de Mário Soares, o povo exigiu a reposição da primeira placa. E, pelos vistos, assim se fez.O Castelo impressiona por estar construido em cima de uma rocha de cerca d3e 300 metros quase a pique para o rio angueira! É o centro da acção da novela ” A Camisa do Noivado” de Rebelo da Silva, onde D. Pedro (o justiceiro) vai fazer justiça com as próprias mãos. Chamou a atenção de outros escritores!
    Um abraço
    Eusébio Alves

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