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O 10 de Junho de António Costa

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uma caricatura à caricatura

Desumanizar um ser humano é retirar-lhe as características que o identificam enquanto tal. Na Alemanha nazi os judeus eram frequentemente desenhados em cartazes de propaganda com se fossem ratos ou porcos e também eram protagonistas de histórias infantis em que raptavam ou maltratavam e matavam as crianças louras arianas. No Estado Novo tivemos os comunistas que comiam as criancinhas.

A indignação do primeiro-ministro num primeiro tempo contra o mau gosto e acto contínuo contra o racismo tem suporte ideológico porque os cartazes são racistas e a associação não é de hoje. Expressões como “porco de Goa” são comuns nas redes sociais sempre que há referências a António Costa e os cidadãos, supostamente professores, que empunhavam os cartazes têm consciência disso. Processos nazis de atuação em público devem ser condenados, mas uma vez mais vamos ficar a inquinar o debate sobre aquilo que é ou não é racismo.

O racismo não se define pelas nossas convicções pessoais, mas sim pelas convicções do ofendido. Se Costa sentiu racismo, então foi racismo.

Desumanizar para poder odiar, desumanizar para poder diabolizar, desumanizar para poder ostracizar, são etapas para a negação do outro e permitem destruir a solidariedade. Foi assim que o nazismo conseguiu colocar pessoas normais, vizinhos, a trabalhar nos campos de concentração e a guiar calmamente milhões de pessoas para a morte.

Não estamos no Carnaval, ou num qualquer arraial, era o dia 10 de Junho em que foram levantados cartazes idênticos aos nazis, por supostos professores.

A liberdade não tem preço, mas custa muito a manter.

O CARTAZ DA POLÉMICA

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Uma caricatura é um desenho que pode realçar de modo exagerado alguma característica física da pessoa, mas sempre com humor. A caricatura também pode ser uma representação do pensamento ou dos atos dessa pessoa. A caricatura é um exercício mordaz, de humor sarcástico.

O desenho em questão é na verdade uma coisa abjeta, por mais razões de queixa que aquelas pessoas possam ter do primeiro-ministro. António Costa sentiu-se injuriado e alvo de um ato racista. Tem razão quanto à injúria e ao resto. Chamar “porco” a alguém é um insulto evidente, uma ordinarice. O cartaz tem uma notória inspiração nos clichés racistas usados desde sempre para caricaturar africanos, embora o primeiro-ministro não tenha nada de africano (é de ascendência asiática). Um equívoco (esclarecedor) do cartonista motivado pela cor da pele de António Costa. Nem nisso foi original, infelizmente.

António Costa reagiu aos insultos do cartaz

Esta cena teve o mérito de confirmar a pulsão racista cada vez mais evidente na sociedade portuguesa. Aliás, o primeiro-ministro sabe que é frequente ser apelidado de “monhé”, até mesmo por adversários políticos.

O Sindicato de Todos os Profissionais de Educação – STOP foi interpelado no sentido de justificar a intenção do cartaz, mas não deu resposta. O que é sintomático. Pessoas decentes não conseguirão justificar aquilo.

António Costa é um democrata e não deverá reagir ao insulto. Na verdade, neste caso, a caricatura é mais prejudicial ao autor (será um professor de desenho?) e a quem a encomendou (o sindicato STOP) do que ao caricaturado. Mas há antecedentes, em Portugal, de políticos que não gostaram de se ver em caricaturas. Recordamos o caso do Presidente da República, Ramalho Eanes, que acionou os tribunais e conseguiu a apreensão de dois livros de Augusto Cid. “O Superman” e “Eanito, el Estático” talvez tenham sido os primeiros livros proibidos em Portugal depois do 25 de abril de 1974.

PORQUE FOGEM OS MÉDICOS DO SNS

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Ficou sem médicos, o Centro de Saúde de São João das Lampas, em Sintra. O último médico que lá trabalhava foi-se embora, à beira de um esgotamento físico e psicológico.

Pedro Simões explicou as suas razões, numa entrevista à Saloia TV, que aqui apresentamos numa versão resumida.

vídeo – gravação de direto da Saloia TV

Ficam as alusões aos interesses privados que estarão a ser beneficiados por conluio de quem devia decidir em benefício do SNS.

O desmantelamento do SNS irá obrigar o Estado a pagar avenças aos privados, de modo a que as pessoas continuem a ter assistência médica nos cuidados de saúde primários e hospitalares. Mais barato ao erário público não ficará, mas sempre se engordam os empresário do setor.

OITO QUEREM CONTINUAR A QUEIMAR DIESEL E GASOLINA

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A indústria automóvel quer anular a adaptação do setor às regras antipoluição da União Europeia e ameaça com aumento dos preços dos veículos.

O aviso vem na mais recente edição da revista do ACP, onde se reconhece que a indústria automóvel rejeita as regras antipoluição e apela à revogação da norma Euro-7. Esta norma da União Europeia deverá entrar em vigor dentro de 2 anos e afeta principalmente os motores diesel. A norma impõe maiores restrições às emissões poluentes dos motores dos veículos automóveis e, para ser respeitada, obrigaria a investimentos brutais que iriam ter reflexos no preço dos veículos. Em média, 2 mil euros em veículos ligeiros, 12 mil nos pesados.

A indústria diz que a norma não faz sentido, no momento em que todas as marcas construtoras já estão empenhadas na produção de veículos elétricos. Na Europa, a partir de 2035, deixará de ser possível comprar carros novos com motores que queimem combustíveis fósseis.

O próprio presidente do ACP, Carlos Barbosa, diz que “os burocratas da Comissão Europeia ainda não perceberam o que é a vida real, porque nunca geriram nada, foram políticos toda a vida, e não conseguem perceber que, efetivamente, os construtores não têm capacidade para mudar de 3 em 3 anos as regras dos automóveis…”

Barbosa diz que mesmo a meta de 2035 para os carros elétricos “é um sonho que muitos países não vão cumprir”.

Para já, oito países europeus formaram uma frente unida para obrigar a Comissão Europeia a revogar a norma Euro-7. São eles a França, Itália, Polónia, Hungria, Roménia, República Checa, Bulgária e Eslováquia, que não querem aplicar as novas regras antipoluição da UE.

O QUE PAULA VIU NA CADEIA

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Chama-se Paula Pinto e trabalhou no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo.

“Trabalhava como auxiliar. Sim, tinha contacto com os reclusos, uma vez que são as auxiliares que ajudam a limpar as instalações, celas incluídas”, começa por nos explicar. Paula trabalhou três anos na prisão de Santa Cruz do Bispo. Não hesita em confirmar muitas das queixas que têm sido denunciadas aqui.

Por exemplo, quando Maria nos diz que é sempre arroz, todos os dias, Paula diz que “quanto às queixas com as refeições, era por ser sempre arroz com peixe ou carne, o peixe a cheirar mal, a carne escura”.

O testemunho de Paula não é crítico em tudo. Diz ela que nunca viu “nada demais” quanto a abusos de poder por parte dos guardas prisionais. “Até pelo contrário, os guardas eram por vezes como pais e ajudavam no que podiam”, garante-nos. Paula diz mesmo que, por vezes, eram os guardas prisionais a providenciar “tabaco, roupa, porque alguns não tinham família, então eles, os guardas, ajudavam.”

Paula Pinto guarda na memória situações que testemunhou de solidão, de carências de toda a ordem. “Um episódio que me marcou foi, num dia de muita chuva e frio, chovia dentro de algumas celas, algumas janelas não fechavam, os colchões encharcados,” e os reclusos não tinham outro sítio onde ficar.

Paula confirma que muitas celas precisavam de obras de manutenção. Sanitas partidas, lavatórios a verter água,” seriam as situações mais recorrentes no tempo em que Paula trabalhou neste estabelecimento prisional. É quase certo que nada mudou muito, desde então.

Há demasiados relatos negativos sobre as condições de vida nas cadeias portuguesas, mas o caso da cadeia de Santa Cruz do Bispo é capaz de ser o exemplo mais negativo no universo dos 49 estabelecimentos prisionais portugueses. Já aqui dissemos que o Comité para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa (CPT) escreveu nos seus relatórios, serem chocantes “as condições em que os pacientes são mantidos e com o clima prisional que prevalece nesta cadeia, recomendando que Santa Cruz do Bispo seja fechado e os reclusos transferidos para uma instalação prisional adequada.”

PARA DECIFRAR CÓDIGOS, FALAS E ESCRITAS ANTIGAS

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Foi solenemente apresentado, no passado dia 13 de Abril, a 1ª edição digital do Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa. que está disponível em acesso aberto: https://dicionario.acad-ciencias.pt/ . Ou seja, para se tornar, cada vez mais, o repositório real da nossa língua, aceita, devidamente documentadas, palavras do quotidiano que nela ainda não figurem. «Garreia» e «empencer» foram umas delas.

A fuga para o campo

Depois de uma vida como docente na área de História, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o doutor João Lourenço Roque optou, ao aposentar-se, por largar da mão esse mester e vive agora em Calvos, pacata aldeia da freguesia de Salzedas, concelho de Castelo Branco. Escreve crónicas para o jornal Reconquista, de Castelo Branco, crónicas que já reuniu em três volumes, sob o título Digressões Interiores.

No mais recente (Palimage, Coimbra, 2021) incluiu cinco intituladas «Linguagem à moda antiga», onde dá conta de vocábulos e expressões típicas da região. Não serão todas exclusivas de lá (escarrapachado e mascarrado, por exemplo), mas acontece que a pronúncia difere e, por vezes, só no contexto é que se capta o seu real significado. E João Roque faz questão em escrever como se pronuncia: ‘escarrapatchado’, ‘mjer’ (mijar)…

Veja-se lá se se percebe isto:

«Aquela estouveda passou por mim numa gáspea, toda escarrapatchada em cima do burro, que parecia que levava fogo no rabo até aboava…»

Mas voltemos à questão das falas e da sua cada vez maior disseminação. Vale-nos o mencionado recurso ao tradutor informático e valem-nos, sobretudo, os intérpretes, não apenas da língua gestual mas de todos os que procuram, através das legendas explicar-nos o que dizem, em estranhas línguas, os senhores que falam nas televisões.

E não é apenas a fala em si. É que o alfabeto, inventado pelos Fenícios há um ror d’anos, nunca chegou a ser universal e por toda a parte se multiplicam os signos linguísticos. Estaríamos nós ainda aflitos com os hieróglifos egípcios, não fora Champollion ter decifrado o que dizia a Pedra de Roseta. Mas estamos aflitos para compreender o que dirão as estelas epigrafadas pré-romanas descobertas por esses Alentejos e Algarves!…

Estelas pré-romanas encontradas em Portugal

De pensativo queixo na mão, perguntamo-nos: «Que mal fizemos ao Criador para tal acontecer?». A Bíblia explica: foi a inveja! Essa bendirá palavra com que Camões, mui eloquentemente, quis terminar Os Lusíadas: inveja!

Conta-se no Génesis, o primeiro livro da Bíblia (capítulo 11, versículos 1 a 9), que os homens decidiram construir uma cidade e uma torre cuja extremidade atingisse os céus». «Assim, tornar-nos-emos famosos».

A Torre de Babel, ilustração de José Luís Madeira

No fundo, o que pretendiam era – como já acontecera com a história da maçã!… –­ era serem iguais ao Criador! Mas este, ao ver aquilo, confundiu-lhes a linguagem, eles deixaram de se compreender uns aos outros e a torre não foi avante. (Que o Senhor me perdoe, que, mesmo assim, não se percebendo agora uns aos outros, eles, os homens, acharam uma língua comum, a das armas, e andam de ‘construção’ em ‘construção’!…).

Tramámo-nos! Quem nos manda querer dar um passo maior do que o tamanho da perna?!…

MUSK NAMORA NA EUROPA

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O fabricante de carros elétricos Tesla vai montar uma nova fábrica na Europa. Falta decidir onde, precisamente.

A disputa trava-se entre a França e a Espanha. Em França, as negociações com Elon Musk envolveram o próprio Presidente Macron. Em Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez, usou o Twitter, do qual Musk é proprietário, para reafirmar que a Espanha aposta com convicção na indústria automóvel como motor para o desenvolvimento.

A Espanha é o segundo maior produtor de automóveis da Europa e está a usar os fundos de recuperação da pandemia de COVID da União Europeia para atrair mais indústrias do setor automóvel, principalmente para investir na fabricação de baterias e veículos elétricos.

Se a opção de Musk for a Espanha, será provavelmente para a região de Valência, onde já existem muitas outras indústrias que poderão fornecer produtos e peças para a Tesla. É em Valência que está localizada uma fábrica de automóveis Ford, que já anunciou a intenção de produzir ali veículos elétricos. Os alemães da Volkswagen anunciaram um investimentode 10 mil milhões de euros para construir uma fábrica de baterias de 40 GWh em Sagunto, perto de Valência, com produção para começar em 2026.

Atualmente, a única fábrica de automóveis europeia da Tesla situa-se na região de Brandemburgo, na Alemanha.

Fábrica da Tesla, muita tecnologia, muitos robots, poucos operários.

Olhos Verdes

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Devia falar da turba de patos bravos que se digladiam pelo melhor lugar ao sol…

Talvez do Ensino que põe crianças a brincarem com tecnologias digitais, antes de serem devidamente alfabetizadas.

Colocar em causa a Política Internacional, que sempre colou no topo das prioridades a disputa de território pela posição geoestratégica, pelos recursos energéticos não renováveis.

Desancar a podridão dos líderes que decidem a morte de jovens seres humanos nos teatros de guerra, para alcançarem os torpes objectivos.

No fundo aleijados mentais agachados nos tapetes dos salões palacianos de Estado, a julgarem  que brincam com soldadinhos de chumbo.

Tanta ambição, incompetência e desprezo pelos outros seres humanos, revolve as entranhas do mais passivo, já causticado pelas injustiças internas, pela elevação dos medíocres ao estatuto de génios.

Só um “mandamento”, ou um preceito de vida, chegaria para evitar o descalabro em que a humanidade se afunda: não faças aos outros o que não desejas para ti. Mas não alcançam…

Quem o aprendeu muito cedo entre gente de bem, é inevitável ir ao encontro das raízes que fortalecem a sanidade mental.

Os valores, conduzidos pela sensibilidade e empatia, ajudam a estruturar a coluna vertebral de um  ser humano. E não é preciso nascer em berço de oiro – como se todas as mães não parissem da mesma forma – para saber que o outro deseja para si, o mesmo que desejamos para nós.

No emaranhado de sentimentos contraditórios, prefiro deixar uma memória de infância.

Cresci em Santa Clara, perto do convento “novo”…

Infância calma, vizinhança pacata, gente de trabalho e missa domingueira. Aventura era descer a ladeira três vezes por semana, visitar a casa da avó Carolina, só para lhe dar um beijo e passar umas horas a ouvir a prima Laura contar-me histórias de fadas.

As fadas dela estavam todas transformadas em rãs muito grandes, como a de louça pousada no chão da sala. Quando a tentação me conduzia o indicador para lhe tocar, a prima Laura era persuasiva sem levantar a voz: “ nunca lhe toques, que ela pode morder-te o dedinho”. E assim me mantinha afastada da preciosiade que não queria ver partida.

Era  de um verde tão bonito quanto o da cor dos seus olhos. Viera da fábrica de cerâmica onde o primo Machado vigiava a secção de embalagens, para que chegassem perfeitas ao destino. Longe…

Gostava tanto de ambos! Ele só falava com o sorriso tímido, olhando-a com veneração…Ela era uma explosão de alegria a disfarçar a meiguice. Tinha os olhos a transbordarem estrelas e o sorriso como um regato que, engrossando, havia de cantar pelo caminho. Era o sorriso da felicidade.

Ficava com ela três dias por semana, enquanto a minha mãe tentava aprender a profissão de enfermeira, que o regime proibira a quem quisesse casar. Mas a Rosa, prima do meu avô como a Laura, era enfermeira do médico mais conhecido de Coimbra e conversara com ele. Sim…durante três dias pode vir. E com uma bata de imaculada brancura, a minha mãe recebia os pacientes, apendia a dar injeccções e a fazer pensos, seguindo os conselhos do médico e da Rosa.

Nunca me lembro do almoço em casa da prima Laura, só do sorriso, das estrelas nos olhos verdes e do lanche…

Fazia-me um leite com café de “carapuço”, dizia eu, e aquecia vianas trazidas da Nacional por um homem ainda novo. Comidas com manteiga a peso e compota de ameixa do quintal, eram a melhor refeição do mundo. Depois íamos de mão dada até ao Portugal dos Pequenitos pelo passeio da direita, para eu brincar o resto da tarde.

“Sempre caminhar pela direita…sempre dar esmola com a mão direita”.

Nessa coisa de direita e esquerda a prima Laura e a minha avó Carolina não se entendiam.  A última perguntava-lhe sempre se a esquerda era aleijada, se a esmola com essa mão valia menos.

Nada tirava o sorriso à prima Laura, que dizia o que sentia sem segundas intenções, só levada pelo Catecismo. Ninguém abalava a convicção da minha avó Carolina, que no dar a mão a toda a gente, da esquerda ou da direita, na fortuna e na desgraça, se encontrava a solução de bem viver.

E foi com ajuda de ambas que “o rapaz” que trazia as vianas conseguiu emprego…

Um dia assaltava a casa da prima Laura pela janela do quintal. Denunciado por uma vizinha do lado oposto, acabava por ser preso. Quando saía ninguém lhe queria dar trabalho…era perigoso.

A prima Laura e o Machado perdoavam. Se ele tinha crianças pequenas e necessidades…A minha avó conhecia pessoas na padaria mais famosa da cidade. E foi assim que o estabelecimento ganhou um funcionário cumpridor e eu comia as melhores vianas do mundo que ele trazia quando deixava o trabalho.

Ainda hoje lhes sinto o sabor do afecto.

OS DONOS DISTO TUDO

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Há em Portugal uma parte da classe média cada vez mais exígua, diga-se, que canaliza uma parte das suas poupanças para produtos financeiros com taxas acima das que são oferecidas pelo sector bancário, cujo garante dessa poupança e dessa rentabilidade é o próprio Estado. São esses produtos, os Certificados do Tesouro e os Certificados de Aforro. Existem ainda os PPR. Não são produtos emanados do Estado, já têm algum risco, são Planos de Poupança Reforma, os quais têm, no entanto, algumas benesses fiscais, o que os torna atrativos, com o fim de incentivar a poupança, podendo ser resgatados a partir do final do prazo definido na contratação. Por norma acima dos 60 ou 65 anos.

A poupança mais popular e mais aliciante ao longo de décadas, por motivos que não me cabe a mim explicar, até por não dominar o assunto de forma sapiente, foram os Certificados de Aforro. Este não é mais que um título de dívida pública emitido pelo Estado Português, unicamente para particulares, com o valor nominal de 1€. Cada pessoa pode adquirir um montante máximo de 250.000€. Esse dinheiro para além de render um juro, capitaliza automaticamente.

Dentro da classe média, os maiores consumidores destes produtos de poupança são as pessoas que usufruem de reformas e empregos estáveis, com previsibilidade nas suas vidas. As pessoas que têm muito dinheiro investem mais no imobiliário e noutros produtos financeiros de maior risco, e os que não têm dinheiro, tomaram eles terem um mês mais curto, para que o seu ordenado chegue ao fim dos trinta dias.  Desta forma o Estado endividou-se cá dentro, ficando com o nosso dinheiro, com a garantia de quando o resgatarmos dentro dos prazos previstos, teremos um montante superior ao que lá depositámos. É justo e equilibrado.

 Qual é a vantagem desta poupança feita em títulos da dívida pública?

Para além de seres mais bem remunerado do que nos depósitos a prazo oferecido pelos bancos, na maioria das vezes mais de 1%, quando não mesmo acima desse valor, este mecanismo do Estado, através da sua agência financeira, o IGCP, funciona como um desincentivador à cartelização da banca. Isto porque pagando juros bastante mais altos, leva a que os depositantes prefiram comprar nos CTT, até há pouco a única entidade que podia vender estes produtos ao balcão, por exemplo, Certificados de Aforro.

Durante toda a minha vida, desde muito novo fiz certificados de aforro. Ainda me lembro bem do período em que ao fim dos cinco anos de permanência, o meu dinheiro aplicado em certificados de aforro duplicava. Estávamos no período da nossa antiga moeda, o Escudo, e as taxas de inflação tinham dois dígitos ou perto disso.

Qual a razão para a banca se enfurecer com altas taxas de juro pagas pelo Estado, nos Certificados de Aforro e nos Certificados do Tesouro?

Os bancos não passam de usurários. Toda a vida foi assim e não é agora que vão mudar. Daí ser necessário termos uma regulação eficaz, o que não acontece. Aliás, em boa verdade nunca existiu, apesar dos rios de dinheiro que se gastam com a CMVM e Banco de Portugal. O único que se atravessou diante da sua desmesurada ganância, foi o ditador Salazar, já lá vão mais de 50 anos, quando este se sentiu ameaçado no seu poder de mandar no país, com António Champalimaud. Fora disso, a banca viveu sempre em circuito fechado.

Acresce que taxas de juro generosas em títulos da dívida pública retiram depósitos à banca. E os principais aforradores são a classe média, que não é suficientemente rica para investir no imobiliário, cada vez mais especulativo, e tem algum receio nos produtos financeiros de risco, com um historial de perdas de rentabilidade, isto já para não falar de perdas totais no investimento feito. O papel comercial do BES foi um bom exemplo.

Recordemo-nos que após a Crise Financeira de 2008, o governo de José Sócrates, pela mão do seu ministro das finanças, Teixeira dos Santos, aplicou um rude golpe na rentabilidade dos títulos da dívida pública, apenas com o fim de obrigar os aforristas a canalizar as suas poupanças para o financiamento do sector bancário, que, veio a verificar-se depois, estava quase falido.

Eu até era capaz de aceitar que o Estado tomasse essa medida, alterando as maturidades e os juros dos certificados de aforro para 2,5%, se andasse a pagar no mercado, lá fora, taxas de juro nesse valor, para se endividar. Ao que sabemos o Estado tem vindo a financiar-se a 10 anos, com taxas que andam muito próximas das que pagava há dois meses pela Série E dos Certificados de Aforro, que, como sabemos, era de 3,5%.

Alguma coisa mudou, entretanto?

Mudou sim. As ameaças do sector bancário, do qual o governo tem mais medo, do que do Diabo. 

7 MINUTOS PARA ISRAEL

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O Irão divulgou imagens de um teste de uma nova arma. Trata-se de um míssil que representa um sério desafio para os inimigos do Irão, nomeadamente Israel.

Ao míssil deram o nome de “Fattah”, que é o nome da organização palestiniana Al-Fattah, o Movimento de Libertação Nacional da Palestina, fundada nos anos 50 por Yasser Arafat.

Os nomes têm a importância que têm, chamar “Fattah” a um míssil que voa a uma velocidade 13 vezes superior à do som e que tem um alcance de 1400 quilómetros, diz muito sobre a intenção do Irão. De notar que, a partir de agora, qualquer ponto de Israel fica a 7 minutos de distância do Irão…

Temos, portanto, mais um míssil hipersónico, difícil de abater porque voa muito rápido e porque, segundo foi também divulgado pelo Irão, pode ser manobrado a meio do voo para atingir outro alvo que não aquele para onde foi apontado inicialmente.

O vídeo tem apenas 6 segundos de duração:

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Cartazes celebrando o novo míssil “Fattah” estão por todo o lado, em Teerão, a capital do Irão.