Era uma relação clandestina, permanentemente ameaçada de ser descoberta, com consequências imprevisíveis. Um risco de que tinham consciência e mesmo assim corriam, porque não há como proibir para que uma relação se fortaleça. À sexta feira, a ausência da “legítima” tornava possível um longo encontro. Num local familiar, longe dos olhares acusadores, sem risco de denúncia. Por isso lhe chamavam o amor que era sexta feira.
O riso ocasional, por certo de uma piada tola, talvez carnal, como ele costumava chamar às piadas dela, era, em certa hora, interrompido pelo silvo de um comboio, que suspendia a cena tão familiar das sextas-feiras. Ele pousava a colher, levantava o indicador e perguntava:
– Ouves? Ouves este som? Eu adoro este som.
E ela, encantada:
– O comboio? Eu também adoro. Traz-me muitas memórias!
Depois, o silvo do comboio tornava-se distante, ele voltava a saborear a comida e a cena continuava. Dentro dos dois circulavam comboios, ou talvez tivessem parado nalguma estação. Desciam da carruagem e voltavam à sombra do Pinheiro dos Abraços.
Eram quase nove horas da noite. Há várias horas que não ouvia a sua voz. Ia até à estação de serviço tomar um café, a escassos metros da linha do comboio. Voltava a ouvir o silvo. E voltava a magia da sexta feira! Entre a saudade, a ansiedade e a verdade das horas à espera de o ver, de o ouvir, de o ler, aquele comboio acordava nela estranhas memórias. De um passado vivido. De um futuro inventado no passado. (Como cantava Pedro Barroso: um homem fica parvo com força do futuro contida no passado).
O sinal sonoro de sms chegava com o som do silvo do comboio. Imaginava-se então num tempo sem tempo, viajando pelo espaço etéreo, desaparecendo num raio de luz.
Tentava muitas vezes dizer-lhe isto, em palavras a juntar à tarde de sexta-feira, passados vividos e futuros imaginados, num interminável texto que era urgente escrever. E escreveu. Três centenas de páginas, impressas, que vão amarelecendo numa gaveta, as palavras perdendo a cor e o sentido.
Vagueava pela noite, bebia gingerales no bar de sempre, ouvia histórias das mesmas pessoas de sempre, voltava a casa. Revisitava a vida que passara em comboios, em estações de chegar e de partir, em tempos e lugares próximos e distantes.
Assim se vivem amores proibidos, que na clandestinidade se fortalecem. Mais poderosos que as relações amorosas ditas legítimas, sexual e emocionalmente mais intensas e compensadoras. Os/as amantes ficam sempre com o melhor. Só porque não vivem o cansaço das rotinas e os muitos problemas domésticos. Diz quem sabe, porque na vida foi a e também a outra. Valem bem cada sobressalto, cada susto, cada ameaça. Mas também estas histórias acabam e já nem lembramos como nem porquê.
A vida continua, ainda há flashes de memórias, que de tão vagas se vão tornando esquecimento. Já nem ouve o silvo do comboio, que em tempos anunciava a cena familiar do amor que era sexta feira.
A destruição da barragem de Kakhovka faz lembrar os casos do gasoduto Nordstream, e os ataques à central nuclear de Zaporizhzhia e à ponte da Crimeia.
Em todos os casos, a Ucrânia recusou sempre qualquer responsabilidade e foi dito que a Rússia disparava contra as suas próprias infraestruturas para acusar a Ucrânia, uma teoria bastante tonta mas que, ainda assim, teve e continua a ter eco nos órgãos de comunicação social ocidentais.
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Nem de propósito, hoje soubemos que os serviços secretos americanos foram informados com 4 meses de antecedência da intenção da Ucrânia explodir o gasoduto Nordstream. É o que vem publicado no Washington Post… acredita quem quiser.
O jornal cita informações de vários documentos confidenciais publicados online pelo jovem soldado americano Jack Teixeira, antes do luso-descendente ter sido detido em meados de abril.
O ex-ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, esteve na Comissão de Economia para falar sobre a TAP.
Foi um requerimento do PSD que quis ouvir o antigo ministro sobre o que se passou na TAP entre 2015 e 2023.
A audição valeu pelos primeiros 15 minutos. Pedro Nuno Santos rebobinou a fita dos acontecimentos e, de improviso, recordou quem são os responsáveis por tudo o que tem acontecido na empresa.
A audição demorou mais de 3 horas, mas os deputados inquiridores limitaram-se a tentar não fazer má figura.
Dentro de uma semana, Pedro Nuno Santos estará noutra sessão sobre a TAP, para mais um episódio da “Central de Produção de Infotainment” (CPI), onde certamente lhe perguntarão pelos segredos que estão no computador que o SIS resgatou das mãos do amigo Francisco.
Se na próxima semana correr tão bem como hoje, o PS reencontra um dos putativos sucessores de António Costa.
Desculpem o título em “estrangeiro”, mas todos conhecem as palavras escolhidas: Zelensky não precisa de apresentações, “stand-up comedy” são os espetáculos de humor que estão na moda, onde os humoristas dizem piadas, contam anedotas, “show” significa espetáculo. Poderiamos ter escrito “o espetáculo de comédia de Zelensky”, mas isso poderia ter segundas leituras. Agora, somos nós a fazer graçolas.
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nota da redação: o vídeo está disponível nas redes sociais e autorizado pelo autor a ser reproduzido no youtube, conforme notificação que recebemos.
No dia em que os reclusos do Estabelecimento Prisional de Izeda souberam que António José ia vender um imóvel, a vida dele tornou-se um inferno. Passou a ter de aguentar uma pressão diária, a sensação de perigo iminente. Pelo assédio, bullying, ameaças, extorsão, já lhe levaram milhares de euros.
Numa prisão como a de Izeda, onde não há celas individuais e onde os reclusos vivem amontoados, não há como resistir. Estamos a falar de um ambiente onde as necessidades são muitas e a oferta não existe. Por isso, dentro de uma prisão, tudo tem um valor exagerado, principalmente o que se relaciona com toxicodependências, dívidas, cigarros e comida.
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Estamos a falar de um recluso diferente. Talvez não seja caso único nas cadeias portuguesas, mas um doutorado em Gestão Hoteleira, com uma licenciatura em Economia, é um recluso diferente. O que ele tem de semelhante com todos os outros é a condenação em tribunal pelos crimes cometidos. No caso de António José, foram fraudes informáticas.
Viveu vários anos em Inglaterra e em França. Nas redes sociais há ainda vestígios dessa vida, mas as páginas estão “mortas”, provavelmente desde que ficou detido. Na prisão, os reclusos não têm acesso à internet.
António José atingiu 1/3 do cumprimento da pena de 9 anos a que foi condenado. Tem mais 3 anos pela frente, pelo menos. Queria aproveitar esse tempo para estudar. O seu objetivo é conseguir mais uma licenciatura, desde vez em Estudos Europeus. Mas em Izeda não tem sequer uma mesa onde possa abrir um livro e ler.
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A cadeia de Izeda fica para lá de Bragança, em Trás-os-Montes. Para um recluso com raízes familiares na zona de Lisboa, ir para Izeda significa não só a normal privação de liberdade decretada pelo tribunal, mas também implica uma segunda condenação não lavrada de exílio. Para quem o queira visitar, são mais de 400 kms de estrada, para uma visita de alguns minutos.
Nova Iorque, em Donetsk, na Ucrânia. Trata-se de uma pequena localidade não muito distante de Bakhmut recentemente conquistada pelos russos, depois de meses de combates. Chegados a Bakhmut, outros alvos ficaram ao alcance do tiro da artilharia. Foi o caso de Niu-York (Нью-Йорк).
Em tempo de paz, o sítio não tinha muito mais de 9 mil habitantes. Hoje, não deve estar lá ninguém que não esteja disposto a combater.
fonte t.me/Slavyangrad (https://t.me/Slavyangrad)
Nas redes sociais russas, o bombardeamento de Nova Iorque está a ser comentado com ironia. Mas todos esperam que isso nunca venha a acontecer com a grande New Iork. Sabemos como a retaliação pode significar a aniquilação total.
fonte t.me/Slavyangrad (https://t.me/Slavyangrad)
Para já, não passa de um “pitoresco” acontecimento desta guerra. As imagens a que tivemos acesso, mostram meia dúzia de habitações destruídas. Nenhum corpo. Mas não sabemos se houve vítimas.
fonte t.me/Slavyangrad (https://t.me/Slavyangrad)
UM POUCO DE HISTÓRIA
Niu-York aparece pela primeira vez num mapa datado de 1846. Nesse tempo, era uma aldeia com 13 casas e 95 habitantes.
A industrialização que se seguiu à revolução de 1917, a chegada de imigrantes alemães, o desenvolvimento agrícola, o caminho-de-ferro, contribuíram para o desenvolvimento da região, não só ali mas em todo o Donbass.
Tudo foi arrasado durante a II Guerra Mundial. Niu-York resistiu, os soviéticos decidiram reconstruir e reindustrializar o território. Depois de 2014, o conflito entre a Ucrânia (independente desde 1991) e os separatistas russófonos do Donbass, voltou a colocar a pequena vila no fogo cruzado dos beligerantes. Desde 2014 até 2022, bombardeamentos ucranianos mataram 16 residentes em Niu-York.
A invasão russa em fevereiro de 2022 piorou a situação. A vila foi ocupada pelo exército da Ucrânia e, desde então, esporádicamente tem sido alvo da artilha russa. Foi o que voltou a acontecer agora, de novo.
A chamada Inteligência Artificial (IA) é um software que realiza desejos, contra pagamento. Os nossos pedidos podem ser para vídeos, fotografias ou simplesmente textos. Por exemplo, pago o desejo de ter uma fotografia do pintor Leonardo da Vinci com a amiga Mona Lisa. No século XV ainda não havia máquinas fotográficas, mas a IA não se atrapalha com minudências e satisfaz-me o desejo. Aqui está.
imagem gerada por Inteligência Artificial, simulando uma fotografia impossível
Se quisermos enganar eleitorado, também se faz. Pagando, peço ao software que ponha Hillary Clinton (ex-primeira dama e ex-candidata presidencial do Partido Democrata) a fazer um discurso de apoio a Ron deSantis, proeminente político do Partido Conservador. Um dia destes, vamos ver um vídeo com André Ventura a dizer bem de Mariana Mortágua, ou vice-versa, e vai parecer tão real como este de Hillary.
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O software em causa é um prodígio da tecnologia. A única certeza que podemos ter é que ainda não vimos nada. Os chineses, os russos, os iranianos, os norte-coreanos, os brasileiros também desenvolveram softwares semelhantes. Vamos ter à nossa disposição uma boa variedade de lâmpadas de Aladino prontas para nos satisfazerem desejos. Pelo preço adequado, podemos até pedir uma antevisão do fim do mundo.
NIGHTMARE: What if Joe Biden, the weakest president we’ve ever had, is re-elected? pic.twitter.com/b5HvY9GEr0
Como se regula uma coisa destas, acho que ninguém sabe. Depois da bomba atómica, só faltava IA para termos todas as condições para dar cabo disto tudo.
A mentira tornou-se uma questão íntima da política. O caso TAP (em todas as suas dimensões) é exemplo disso.
Resumindo, temos o assessor Francisco, despedido, que acusa o ministro Galamba de querer mentir e esconder documentos à Comissão Parlamentar de Inquérito à Tutela Política da Gestão da TAP (CPI). O mesmo assessor acusa o ministro de o ameaçar com dois sopapos e é acusado de agredir várias senhoras que trabalham no gabinete do ministro Galamba. Nenhum dos agredidos exibiu nódoas negras.
Temos os “serviços secretos” a manobrar na via pública para recuperar um computador com segredos de Estado, sem alguém que assuma a responsabilidade de ter pedido o serviço. Também não sabemos que segredos de Estado são esses, porque é segredo.
Temos o ministro Medina a dizer que o parecer jurídico sobre o despedimento da presidente da TAP não existe, depois do seu próprio Ministério ter informado o parlamento de que esse parecer não iria ser enviado à CPI por estar fora do âmbito de trabalho dessa mesma CPI. A existência desse documento tinha antes sido admitida implicitamente por outras duas ministras do Governo.
A oposição acusa o PS de manipular os trabalhos do parlamento, nomeadamente quando promove reuniões entre deputados socialistas e a presidente da TAP, quando toda a gente sabe que deputados de todos os partidos e ministros de qualquer Governo reúnem com quem querem, sejam administradores de empresas públicas ou privadas, quanto mais não seja para tratarem do seu futuro quando deixarem de ter funções políticas.
Antes destas barracas todas, a TAP estava um brinco, a dar lucro finalmente, depois de uma época de trevas. Resultados positivos de 65,6 milhões de euros em 2022. Ainda assim, despediram a senhora que presidia ao conselho de administração. E há quem diga que os tais lucros, afinal, resultam de benefícios fiscais e dos cortes salariais à pala do covid.
E há a questão de saber quem autorizou a indemnização de 500 mil euros à administradora Alexandra Reis, em que todos os elos da cadeia de comando apontam para o parceiro do lado, tipo “não fui eu, foi ele”.
Decorrente deste ensaio, o conceito mais popularizado, mesmo por não leitores de McLuhan, é o de Aldeia Global. Com efeito, estes meios de comunicação, ao mostrarem o mundo das muitas latitudes e longitudes, davam a impressão de que este estava cada vez mais pequeno, de que vivíamos afinal em relações de vizinhança. Também eu interiorizei esta conceção e seguramente a repeti.
E contudo, esta ideia entrava em choque com a perceção de mundo grande, lugares distantes e estranhos, que desenvolvi quando comecei a viajar.
Por mais “familiares” que me parecessem, lugares que “conhecia” das imagens televisivas, eu mantinha a noção do distante, do tempo que demorava a chegar, cruzando o céu a uma velocidade quase impercetível. Entretanto, os modelos socioeconómicos também iam tornando mais iguais as cidades, a ocidente e a oriente: a mesma arquitetura, os mesmos meios de transporte, os mesmos anúncios, as marcas, o vestuário, os restaurantes de fast food, a uniformidade da aparência, polvilhado aqui e ali por vestígios de outros tempos, de gentes e culturas diferentes.
Ser turista é uma condição cheia de contradições! Procuramos em todo lado as nossas zonas de conforto, mas também o genuinamente diferente, o exótico…
A Internet e tudo o que esta tornou possível em termos comunicacionais, suscitam-me também perguntas e respostas contraditórias. A galáxia de McLuhan pode parecer cada vez mais uma aldeia, mas a proximidade, a vizinhança, a amizade, e muito do que era genuinamente humano, torna-se cada vez mais artificial. Por outro lado, e apesar da transformação dos media tradicionais, impressos e audiovisuais, estes mantêm, na sua dimensão informativa, uma visão de proximidade artificial, construída pelos critérios de noticiabilidade.
Tudo nos indica que o critério audiências domina a agenda mediática. Mas como se define essa agenda? Dar ao público o que o público quer versus o público só pode querer o que lhe dermos, eis a história interminável desta polémica das audiências.
Maio de 2023 foi um mês prodigioso para a agenda mediática portuguesa
Começou com a peregrinação anual a Fátima, a comoção da fé dos milhares de pessoas, dramatizada na procissão das velas e nos lenços brancos a acenar em “oh Fátima, Adeus!”
Tivemos o caso Galamba, que era para ser sobre a TAP, mas que se foi tornando “O caso do computador do quarto andar” e daí passou para um diálogo monótono de perguntas sem resposta, sobre quem disse, o que disse, em que dia e a que horas, espremendo até já não haver mais sumo, no “caso das secretas”!
É um prodígio de duração em agenda, embora seja muito provável que já poucos estejam interessados em saber, exceção feita para os comentadores, que esperam ansiosamente que alguma resposta surja, para não repetirem diariamente os mesmos comentários, que, sejamos honestos, pouco ou nada acrescentam. São quase sempre redundantes. Mas é suposto servirem para nos ajudar a compreender melhor as notícias, como se as imagens e a fala dos jornalistas fossem linguagens obscuras. Ah! Dão credibilidade. O seu lugar de enunciação, de especialistas, credibiliza os factos. Há quem precise disso para ter opinião. As direções de informação sabem bem quanto valem os comentadores. Por isso os disputam e lhes pagam melhor do que à maioria dos jornalistas. No caso em apreço, estes atropelam-se e repetem as perguntas, cada vez mais desesperados por continuarem a não ter notícia. Já se contentavam com um sim ou um não, senhor Secretário de Estado, senhor Ministro, senhor Presidente.
Por ordem sabe-se lá de quem, voltou a ser não notícia o caso Maddie, o fenómeno mediático em duas décadas do século XXI.
Montou-se o arraial na albufeira da barragem do Arade, a 50 km da Praia da Luz, com tendas, dispositivo policial internacional, (polícia portuguesa, alemã e inglesa) cães pisteiros, pás e picaretas para procurar não sabíamos o quê e vários dias e serviços noticiosos depois, continuávamos a não saber.
É impressionante como o desaparecimento de uma criança de 4 anos, já lá vão 16, tenha tal capacidade de ressurreição ao longo de todos estes anos! Incompreensível o poder daqueles pais que moveram montanhas, quase chegaram a Deus (afinal foram ao Papa que é Deus na terra!) e comoveram o mundo.
Procuram a filha? É a dor da perda? Mas não têm sequer um remorso por terem deixado 3 crianças sozinhas à noite, com 2 e 4 anos? Ou será a sua expiação? Quem são estes pais? Por muito menos, na zelosa Inglaterra, já terão as instituições tirado muitos filhos aos pais!
Nestes 16 anos, quantas crianças desapareceram no Mundo? Quantas foram violentadas? Quantas morreram de fome? Milhares, de quem só os parentes próximos se lembrarão. A maioria dos vizinhos da aldeia global, não chegou sequer a saber que desapareceram.
A chegar ao fim, a agenda mediática do mês ainda nos presenteou com muitas horas de onda vermelha. No estádio, no Marquês, na Câmara Municipal e na Praça do Município de Lisboa, por todo o país e mesmo lá fora, a festa Benfica aproximou-se da insanidade.
Quis saber em que radica este fanatismo clubista, ou melhor, esta clubite. Fui ignorada, insultada, amigos zangaram-se comigo por não compreender o que é a paixão, por supostamente tê-los ofendido, chamando tribalismo à euforia da multidão, a roçar a insanidade.
Retirei-me para o meu canto, recordei “A tribo do futebol”, de Desmond Morris, a “Psicologia das massas” de Gustave le Bon, a “Psicologia de massas do fascismo” de Wilhelm Reich e fiquei na minha, que é também a deles: impulsividade, pobreza de razão, irracionalidade das massas em conjunto, estado de hipnose do inconsciente coletivo (…).
Os media apenas amplificam estes estados.
E entre “casos e casinhos”, as não notícias sobre a Maddie e a euforia benfiquista, fomos sabendo que a guerra Rússia /Ucrânia continua, contamos os mortos pelos dedos, percebemos o que são drones, sob orientação sempre zelosa dos comentadores da nossa praça. Fecham maternidades, faltam médicos no SNS, sobem os lucros dos bancos para valores obscenos, das empresas de comunicação e energia, grupos distribuidores/ hipermercados idem, milhões de portugueses vivem de dádivas alimentares, sobem as prestações da casa, os preços de tudo… Mas quem se importa.?! Nada desta causa indignação às massas, ainda que as bravas combatentes da esquerda bloquista não se cansem de denunciar. A política há muito que se tornou mais um entretenimento.
Não há causa política ou social capaz da mobilização de massas dum Benfica!
Afinal sempre houve ricos e pobres, como diria a minha prima Cremilde, do alto da sua sabedoria!
Não há mortos das guerras, das cheias, dos furacões, dos terramotos, de fome, capazes de nos arrancar uma lágrima tão sentida, como a dor daqueles pais que há 16 anos perderam a filha de 4, num instantinho, enquanto saíram para jantar com os amigos ali mesmo ao lado.
Fazemos zapping e é mais do mesmo, desistimos do grande ecrã e voltamo-nos para o minúsculo ecrã do telemóvel, procuramos, no mundo dos blogues, versões alternativas à narrativa única que as notícias diárias da TV nos impingem. Adormecemos cansados, anestesiados com tanto entretenimento.
Ou voltamos ao mundinho das nossas redes, a transbordar de narcisismo, dos nossos melhores ângulos, de como éramos há muitos anos, das fotos dos filhos, dos netos, dos amigos, das viagens de sonho, dos emojis, dos memes e dos textos pré feitos da famigerada IA (Inteligência Artificial): “que giro! que fofo! Linda! Parabéns! Adorável!…”. É esta agora a galáxia de McLuhan!
A saúde pública é altamente dependente de uma economia robusta, mas o pacote de medidas apoiado pela OMS para combater a Covid prejudicou a saúde pública, nomeadamente nos programas de imunização infantil de outras doenças, na saúde mental, segurança alimentar, mas também a economia, a redução da pobreza e o bem-estar educacional e social dos povos.
O UNICEF publicou o relatório “O estado das crianças no mundo 2023” no mês passado com a conclusão alarmante de que, nos últimos três anos, as interrupções induzidas pelos confinamentos na saúde resultaram em um total de 67 milhões a menos de imunizações infantis. Isso significa que “em apenas três anos, o mundo perdeu mais de uma década de progresso”.
Além disso foram feitos graves ataques aos direitos humanos, liberdades civis, autonomia individual e integridade corporal. Ao promover essas políticas, a OMS violou, sem fornecer qualquer justificativa além do exemplo da China, a orientação do seu próprio relatório em setembro de 2019, que resumia um século de experiência e ciência mundiais. Violou a sua própria definição de saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade”. As campanhas de vacinação ignoraram tanto os sinais de segurança acumulados sobre a escala das reações adversas, como a eficácia cada vez menor após doses sucessivas.
O TRATADO PANDÉMICO E O NOVO ESTATUTO DA OMS
Os esforços euro-americanos para alterar os regulamentos internacionais de saúde juridicamente vinculativos e adotar um novo Tratado Pandémico sobre “prevenção, preparação e resposta pandémica” vão conferir poderes extraordinários à OMS. Atuando por meio do diretor-geral e dos seis diretores (para África, Américas, Europa, Mediterrâneo Oriental, Sudeste Asiático e Pacífico Ocidental), a instituição passará a poder declarar emergências de saúde pública de interesse internacional/regional e instruir os governos a implementar as suas recomendações. Os inspetores da OMS passarão a ter o direito de entrar nos países sem consentimento e verificar o cumprimento das suas diretrizes.
Mas embora estas “reformas” surjam sobre a capa da OMS, que as tutela, respondem sobretudo aos interesses da Big Pharma e dos grandes doadores da instituição, conforme expus no artigo “Os Patrões da OMS”. Medidas altamente políticas passarão assim a ser definidas por burocratas e técnicos de empresas capitalistas, passando quase completamente por cima dos governos eleitos e do devido debate democrático.
Ao contrário do novo Tratado Pandémico proposto, que deve ser examinado pelo Parlamento antes de ser ratificado pelo Governo, o Regulamento Sanitário Internacional (RSI) de 2005 já é um instrumento de direito internacional juridicamente vinculativo para 196 países. Como tal, quaisquer emendas adotadas não exigirão escrutínio ou votação do Parlamento. Todas as emendas atualmente propostas (307 no rascunho de trabalho) serão simplesmente adotadas na 77ª reunião da Assembleia Mundial de Saúde (WHA) em maio de 2024 se a maioria dos representantes dos países votar “sim”.
COMO FICAM OS DIREITOS HUMANOS E A DEMOCRACIA?
A pressa para alterar os regulamentos internacionais de saúde existentes encontrou resistência significativa dos países em desenvolvimento, China e Rússia, na 75ª WHA, o corpo diretivo da OMS de 196 membros, em maio do ano passado. No entanto, esta questão vai ser discutida novamente. Um novo tratado exigiria a aprovação de dois terços dos estados membros da WHA (ou seja, 131 países) e estaria sujeito ao processo de ratificação nacional. Mas os regulamentos internacionais de saúde podem ser alterados por apenas 50% dos estados membros (98 países).
É extraordinário como não existiu praticamente nenhum debate público sobre as ramificações deste tipo de invasões de longo alcance na autonomia nacional, soberania do Estado e direitos humanos. Para dar apenas um exemplo, as emendas ao RSI propõem que a atual referência ao “pleno respeito pela dignidade, direitos humanos e liberdades fundamentais das pessoas”, no Artigo 3, seja substituída por “equidade, coerência, inclusão”. Isto vai alterar simplesmente o vocabulário padrão do movimento internacional de direitos humanos, conforme incorporado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Uma das grandes bandeiras da OMS é a defesa de uma “saúde global”. Mas o que é exatamente a saúde global?
Se a “saúde” em si mesma implica uma relação entre a vida e a morte, um conceito tão abstrato como “saúde global” pode englobar literalmente tudo o que toca a vida humana, desde questões como a mudança climática, violência armada ou mesmo o racismo. A OMS pode passar a ter atribuições em questões completamente fora da sua esfera atual e que estiveram na base da sua constituição.
A título de exemplo, a 2 de maio, o jornal The Guardian informou que a próxima cúpula climática da ONU (instituição onde a OMS se insere), em novembro no Dubai, pela primeira vez discutirá questões de saúde em profundidade.
Pandemias são eventos raros. A OMS listou apenas quatro nos 120 anos anteriores ao Covid-19: a gripe espanhola de 1918–19, a gripe asiática de 1957–58, a gripe de Hong Kong de 1968–69 e a gripe suína de 2009–10. Pandemias impõem uma baixa carga de doença em comparação com as doenças infecciosas e crónicas endémicas. Doenças cardíacas, cancros, derrames, doenças pulmonares, gripe e pneumonia são as doenças que mais matam no mundo. Além disso, como é bem conhecido e ao contrário das pandemias anteriores, cerca de três quartos das 6,9 milhões de mortes por Covid ocorreram em pessoas com comorbidades iguais ou acima da expectativa média de vida.
A Florida e a Suécia resistiram ao pensamento de grupo de confinamento e se saíram muito melhor no equilíbrio de benefícios versus danos. É por isso que a exigência de que cada país dedique um mínimo de 5% de seu orçamento de saúde à preparação para uma pandemia (artigo 19.1c do rascunho do novo tratado) não faz muito sentido.
UMA ESPÉCIE DE “GOVERNO SOMBRA” MUNDIAL
A mudança terminológica no RSI de uma “pandemia” para uma “emergência de saúde pública de interesse internacional” tornará mais fácil para a OMS assumir poderes extraordinários para crises de saúde que não sejam pandemias. No extremo, a nova estrutura regulatória prejudicará o direito dos estados soberanos de traçar os seus próprios caminhos independentes, assim como os confinamentos mudaram a responsabilidade e a agência dos indivíduos para o clero da saúde pública.
Não por acaso, também irá:
1- Consolidar os ganhos de quem lucrou com a Covid-19, concentrando a riqueza privada, aumentando as dívidas nacionais e desacelerando a redução da pobreza;
2- Expandir a burocracia internacional da saúde no âmbito da OMS;
3- Mudar o centro de gravidade de doenças endémicas comuns para surtos pandémicos relativamente raros;
4- Criar um complexo bio farmacêutico global autoperpetuado.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diz que uma prioridade urgente é “fortalecer a OMS como autoridade líder e diretora em saúde global”, pois: “Somos um mundo, temos uma saúde, somos uma OMS”. A crise da Covid “expôs sérias lacunas na arquitectura global de segurança da saúde”, o novo tratado seria “um acordo geracional” e “um divisor de águas” para a segurança da saúde global.
Ao mudar o foco da autoridade política de saúde (novo Artigo 13A.1 do RSI alterado), a tomada de decisões e recursos do Estado serão desviados para um corpo de tecnocratas internacionais, criando e capacitando um organismo internacional semelhante ao Estado e, assim, diluir as democracias nacionais. Surpreendentemente, a OMS será capaz de comandar os governos a direcionar recursos (bens e fundos) para si mesma e para outros governos (artigo 13.5, 13A.3–5 alterado do RSI);
Estamos a assistir à ascensão de uma burocracia internacional cujo propósito definidor, existência, poderes e orçamentos dependerá de surtos de pandemias. Quanto mais, melhor.