O QUE PAULA VIU NA CADEIA

Na sequência dos trabalhos que temos vindo a publicar sobre as condições de vida nas cadeias portuguesas, considerámos importante ter um testemunho de quem não pertence ao grupo dos reclusos nem tem vínculos corporativos com grupos profissionais que prestam serviço no sistema prisional.

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Chama-se Paula Pinto e trabalhou no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo.

“Trabalhava como auxiliar. Sim, tinha contacto com os reclusos, uma vez que são as auxiliares que ajudam a limpar as instalações, celas incluídas”, começa por nos explicar. Paula trabalhou três anos na prisão de Santa Cruz do Bispo. Não hesita em confirmar muitas das queixas que têm sido denunciadas aqui.

Por exemplo, quando Maria nos diz que é sempre arroz, todos os dias, Paula diz que “quanto às queixas com as refeições, era por ser sempre arroz com peixe ou carne, o peixe a cheirar mal, a carne escura”.

O testemunho de Paula não é crítico em tudo. Diz ela que nunca viu “nada demais” quanto a abusos de poder por parte dos guardas prisionais. “Até pelo contrário, os guardas eram por vezes como pais e ajudavam no que podiam”, garante-nos. Paula diz mesmo que, por vezes, eram os guardas prisionais a providenciar “tabaco, roupa, porque alguns não tinham família, então eles, os guardas, ajudavam.”

Paula Pinto guarda na memória situações que testemunhou de solidão, de carências de toda a ordem. “Um episódio que me marcou foi, num dia de muita chuva e frio, chovia dentro de algumas celas, algumas janelas não fechavam, os colchões encharcados,” e os reclusos não tinham outro sítio onde ficar.

Paula confirma que muitas celas precisavam de obras de manutenção. Sanitas partidas, lavatórios a verter água,” seriam as situações mais recorrentes no tempo em que Paula trabalhou neste estabelecimento prisional. É quase certo que nada mudou muito, desde então.

Há demasiados relatos negativos sobre as condições de vida nas cadeias portuguesas, mas o caso da cadeia de Santa Cruz do Bispo é capaz de ser o exemplo mais negativo no universo dos 49 estabelecimentos prisionais portugueses. Já aqui dissemos que o Comité para a Prevenção da Tortura do Conselho da Europa (CPT) escreveu nos seus relatórios, serem chocantes “as condições em que os pacientes são mantidos e com o clima prisional que prevalece nesta cadeia, recomendando que Santa Cruz do Bispo seja fechado e os reclusos transferidos para uma instalação prisional adequada.”

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