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CASCAIS CHORA VELHO AMIGO

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Natural de Alvide, onde nasceu a 20 de Julho de 1936, Fernando de Almeida Henrique, depois da prestação de serviço militar em Moçambique, ingressou na Tipografia Mirandela, em Lisboa, onde então se imprimia o Jornal da Costa do Sol e aí assistiu ao nascimento do jornal Expresso, mantendo, por isso, ampla colaboração e amizade com os mentores desse jornal, nomeadamente Francisco Pinto Balsemão e Marcelo Rebelo de Sousa.

Integrara, antes, a equipa do jornal A Nossa Terra,  sob a direcção de João Martinho de Freitas, e com toda essa equipa (desavinda com o proprietário do jornal, o Dramático de Cascais) veio a fundar, a 25 de Abril de 1964, o Jornal da Costa do Sol, em que ocupou os mais diversos cargos, tanto na redacção como na direcção: subdirector, a partir de 18 de Março de 1972; director interino, a partir da edição de 21 de Julho de 1973 até 2 de Março de 1974; director, nesse ano, de 9 de Março a 1 de Junho, altura em que – como se lê na nota publicada a 25 de Maio – «por ter sido nomeado para a comissão administrativa que, interinamente, gerirá os destinos do Município do concelho de Cascais» –  apresentou o seu pedido de demissão. Não voltou, porém, a ocupar funções de direcção.

Almeida Henrique participara, de facto, em reuniões preparatórias da criação do MDP-CDE local e acompanhara de perto a formação da SEDES; daí o facto de o Tenente-Coronel Melo Machado, representante em Cascais da Junta de Salvação Nacional, o ter incluído na lista de «pessoas idóneas disponíveis e não comprometidas com o antigo regime para formar a comissão administrativa provisória». Dela fizeram parte, além de Almeida Henrique, o Dr. António Henriques de Oliveira (para exercer as funções de presidente), e os vogais: Joaquim Cabeças Padrão, José Borges Mendes, Adelino Martins de Albuquerque, Luis Ferreira Ralha, Maria Celestina Silva, António da Silva Lino e Luís Coelho de Aguiar». O Jornal da Costa do Sol de 25 de Maio de 1974, que dá a notícia, inclui a foto do início da actividade dessa Comissão; Almeida Henrique, de óculos, está sentado à esquerda do presidente da Comissão no uso da palavra.

Pela sua experiência e pelos seus amplos conhecimentos dos problemas concelhios (a que não era alheia a sua acção num órgão local de informação, Almeida Henrique acabou por ter, no seio da referida Comissão Administrativa papel de relevo, nesse conturbado período pós-revolução de Abril, chegando mesmo a exercer as funções de seu presidente interino durante curto espaço de tempo, enquanto a situação se não regularizou.

Pouco dado a mostrar-se, de Almeida Henrique só logrei encontrar outra fotografia: quando falava, como director, no almoço de confraternização dos colaboradores do Jornal da Costa do Sol, em Abril de 1974, no restaurante «Redes do Mar», na Torre.

Pertencia a uma das famílias mais notáveis de Cascais, no âmbito sobretudo da actividade comercial. Era neto, por exemplo, de António Casimiro de Almeida, um dos fundadores da Cooperativa A Luta, conhecido como «António de Alvide», justamente por daí ser oriundo. Aliás, Fernando de Almeida Henrique tinha muito orgulho em ser considerado natural da freguesia de Alcabideche e tudo o que era história dessa localidade o interessava muitíssimo. Depois da aposentação, criou, no sítio de uma das lojas da sua família, na Rua Visconde da Luz, a Garrafeira FAH.

Profundo sabedor das tradições cascalenses, não teve, porém, incentivo bastante para as dar a conhecer, limitando-se, uma vez por outra, na qualidade da membro da equipa do Jornal da Costa do Sol, a proporcionar-nos algumas das suas sempre apreciadas recordações acerca da vila que sempre procurou servir de alma e coração, não se privando de, oportunamente, verberar o que lhe parecia menos correcto, sobretudo quando feito por iniciativa de quem, vindo de fora, escamoteava a lídima tradição cascalense e as suas características urbanas, sobretudo no domínio da circulação rodoviária.

Raramente assinava o que escrevia, inclusive porque se partia do princípio que artigos não assinados eram da responsabilidade da direcção. E se, já por alturas de 1974, não deixou de intervir publicamente contra a pretensão da Autodril de urbanizar os terrenos em torno do Autódromo (aliás, a questão da posse do autódromo foi polémica que animou durante algum tempo as hostes cascalenses e as tomadas de posição camarárias), não se eximiu a explicar em pormenor quanto se prendia com o saneamento da Costa do Sol, um dos pontos quentes da administração; assim, há que revisitar, a esse propósito, os seus dois exaustivos contributos (não assinados) publicados ainda sob o antigo regime, nas edições de 17 e 24 de Junho de 1972, sob o sugestivo título «A Costa do Sol e a poluição. Do alarme desnecessário ao silêncio nefasto. Uma tentativa de esclarecimento para a melhor compreensão de ineficiência do sistema de saneamento da Costa do Sol».

À família enlutada, nomeadamente à sua viúva, Zélia, os nossos mais sentidos pêsames. Cascais perde um dos seus filhos que mais lutou pela sua identidade!

DEPUTADOS CHAMAM DIRETORES DEMISSIONÁRIOS DA GLOBAL MEDIA

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Quatro dos 11 diretores demissionários na Global Media estiveram na Assembleia da República, chamados pela Comissão de Cultura para responderem a questões relacionadas com o que se passa naquele grupo de comunicação social: os problemas financeiros, as ameaças de despedimento coletivo, o risco de falência.

Pelo que ali se ouviu, há histórias que estão a ser mal contadas pelos novos administradores. Por exemplo, foi dito que o Jornal de Notícias continua a dar milhões de lucro, que o jornal O Jogo é autosustentável e que o site Dinheiro Vivo também não dá prejuizo.

O grupo mudou de mãos recentemente, passou a ser controlado pelo World Opportunity Fund, um fundo de investimento registado nas Bahamas e que não se sabe bem a quem pertence.

Não se percebe como é possível que novos acionistas tenham mudado de opinião em duas semanas, passando do anúncio de investimentos para os anúncios de despedimentos.

O que está a acontecer é típico da atuação de grupos capitalistas selvagens, aqueles que não respeitam direitos de trabalhadores nem reconhecem a validade do serviço público que as empresas de comunicação social têm obrigação de prestar.

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Para os deputados, há dois mistérios que deveriam ser respondidos. O primeiro é a origem do World Opportunity Fund e o que os motivou para virem aqui comprar um grupo de media, e o segundo mistério é a escolha de José Paulo Fafe para a administração, dúvidas que estes quatro diretores não souberam esclarecer.

A empresa deve 7 milhões e meio de euros à segurança social. Permitir que este tipo de dívidas se acumulem é uma questão da responsabilidade política, que prejudica a sociedade em geral, principalmente aqueles que mais precisam de usufruir do SNS ou dos apoios da segurança social.

OS INVASORES QUE AMAMOS

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Já aqui se falou da herança árabe em termos complacentes. E admiro-me sempre quando penso na estranha atitude de Nicolae Ceauşescu, presidente romeno, ao apoiar a construção, em Adamclisi, da réplica do Troféu que o imperador romano Trajano mandou erguer, nos primórdios do século III, para comemorar a sua vitória sobre os Dácios. Ora, os Dácios são os antepassado dos actuais Romenos, tal como nós dizemos serem os Lusitanos em relação aos Portugueses. Mas há lá jeito em o vencido querer replicar o monumento símbolo da sua derrota?

Afinal, porém, bem vistas as coisas, a atitude talvez acabe por não ser tão estranha assim. Não respeitamos nós o templo romano de Évora? E não foram os Romanos que mataram Viriato e Sertório, chefes dos guerreiros lusitanos, os símbolos da nossa vontade de autonomia, para se apoderarem do que não era deles? Não foi isso uma… invasão, do género daquelas que, hoje, amaldiçoamos? Foi. Foi uma invasão. E só podemos agora, de certo modo, aceitá-la – que não justificá-la – por daí terem resultado benefícios e, queiramos ou não, deles hoje usufruímos e os consideramos nossos e dignos de conservação e reabilitação os vestígios dessa ocupação. Pois é, comentaria Camões, «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»!…

Surgiram-me estas reflexões, ao ver o enlevo com que Gonçalo Pereira Rosa programou e concretizou a edição do número especial (nº 43, 2023) da revista National Geographic, dedicado à Hispânia Romana.

Bem andou, afinal! Porque, na verdade, ao tomarmos conhecimento dos importantes vestígios, ora em fase contínua de descoberta, acabamos por sentir o nosso ego titilado: «os Romanos somos nós!» – quase apetece proclamar, tamanha foi a herança recebida: na língua, no direito, na administração publica, na cultura!…

Profusamente ilustrado, este volume de 140 páginas recebeu a prestimosa colaboração de conceituados investigadores peninsulares, especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento histórico, os quais, em linguagem acessível, sem menosprezarem, contudo, o rigor científico, se referem às descobertas mais recentes. As manifestações da religiosidade, o cultivo da terra, a criação de gado, a vida publica, os monumentos mais significativos… são, pois, temas aqui tratados, para que se tenha uma ideia de como então se vivia.

Apeteceria comentar, uma a uma, cada uma dessas contribuições. Na impossibilidade, vamos cingir-nos apenas a um domínio que, embora aparentemente fúnebre, muito nos ajuda a compreender a vida desses nossos antepassadas: o mundo da morte, aliás, hoje tão em voga por via das centenas de vidas que as guerras e as doenças estão ceifando.

Assim, um domínio cujos resultados ora estão a ser alvo da maior atenção é o meticuloso estudo das ossadas. Lê-se, no título da p. 129: «As histórias de vida gravadas nos ossos». E, de facto, é verdade: os dentes, por exemplo, além de indicadores da idade, denunciam o tipo de alimentos que prevaleceu.

E se as imagens dos mosaicos retratam instantâneos da vida quotidiana (o regresso do caçador, a pisa da uva…), as inscrições permitem-nos penetrar ainda mais fundo nesse dia-a-dia de outrora. Não deixaremos, assim de sorrir, ao ler o epitáfio achado em Porcuna, na Andaluzia, em que o defunto, Marco Pórcio, determina que os herdeiros «vertam vinho sobre os meus ossos para que a minha alma revolva sobre eles ébria como uma borboleta» (p. 125).

Por outro lado, os recursos informáticos propiciam verdadeiros milagres, como a reconstituição virtual duma quinta, a partir das estruturas meticulosamente postas a descoberto, como, até, a reconstituição da possível fisionomia duma pessoa a partir do crânio que se encontrou.

E assim: «Num passeio por uma villa ou uma cidade romana, ficaríamos certamente impressionados com a diversidade de rostos e cores de pele. Os estudos biométricos dos esqueletos de sítios arqueológicos como Carissa Aurelia, em Cádis, apontam para um intenso movimento de pessoas, provenientes dos confins do Império – do Norte da Europa à África Subsaariana. Talvez fosse uma sociedade tão diversificada como a que hoje encontramos em Lisboa ou em Madrid» (p. 135).

No fundo, uma inesperada viagem, esta, a um passado de há mais de dois milénios.

SOLIDARIEDADE ENTRE JORNALISTAS

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No primeiro dia de 2024, o Sindicato dos Jornalistas anunciou uma greve geral solidária com os jornalistas do grupo Global Media que estão sem salário, sem subsídio de Natal e com um despedimento coletivo para os próximos dias.

“A administração do GMG incumpre, de forma reiterada, os mais elementares deveres e obrigações legais para com os seus trabalhadores e prestadores de serviço”, acusa o Sindicato dos Jornalistas (SJ).

“A administração do GMG tem como única solução para os alegados problemas do grupo promover revogações de contratos de trabalho, despedir trabalhadores, incumprir prazos de pagamento, ao arrepio dos mais elementares princípios e normas laborais”, nota ainda o SJ.

O que a administração deste grupo faz, muitas outras fizeram antes. Mas, desta vez, vai haver uma greve solidária, marcada para o próprio dia em que os jornalistas e demais trabalhadores dos vários títulos da Global Media já tinham antes marcado uma greve.

Veremos qual é efetivamente a solidariedade que os jornalistas de outros órgãos estão dispostos a demonstrar. Nos termos do pré-aviso, poderão fazer greve todos os jornalistas (se assim quiserem), “independentemente do órgão de comunicação social para o qual prestem serviço, no período compreendido entre as 14 horas e as 15 horas do dia 10 de janeiro de 2024, para que possam expressar a sua solidariedade para com os colegas do GMG e, também, de modo a alertar o poder político e a sociedade civil para a situação do setor.”

Aceitam-se apostas sobre a adesão à causa.

Nós e os Outros

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O final de ano que agora termina foi rico em perceções. Uma mistura de sentimentos confusos e raiva nas nossas mentes, mas pouco abonatórios para a classe politica, os quais nos levam a desconfiar da existência dum grupo restrito de cidadãos que vive numa bolha de favores mútuos, escondidos num certo anonimato, sob a capa da sabujice, entre servidores do Estado e elites.

Não falo de ilegalidades. Mas há a perceção clara duma realidade distinta da dos demais cidadãos, como por exemplo, os que esperam meses a fio por uma consulta da especialidade no SNS, ou aqueles que, para obterem um licenciamento de obras na sua casa, levam meses com os projetos a percorrer várias chafarricas, até que alguém se lembre de o aprovar. Quando corre bem.

A ideia não é olhar para isto como se vivêssemos sob domínio da ilegalidade ou da corrupção, nada disso, mas apenas e só, como a proximidade com o poder politico, facilita o acesso a tudo e mais alguma coisa. Uma espécie de Nós e os Outros.  

Demitiu-se um primeiro-ministro por suspeita deste ter ajudado a desbloquear uma série de investimentos importantes para o país, que nunca veriam a luz do dia, pelo menos com a rapidez com que foram aprovados, não fosse o investidor ter solicitado a ajuda de um amigo de faculdade do chefe do governo. 

Suspeita-se que o filho do Presidente da República terá usado a sua relação familiar para ajudar uma família luso brasileira não residente em território nacional, a beneficiar de um tratamento caro, o qual foi recusado ser administrado no Brasil, por ser muito dispendioso e sem provas cientificas de eficácia.

Suspeita-se que o principal líder da Oposição, terá beneficiado de forma indevida de incentivos fiscais, na construção da sua habitação, na cidade de Espinho, como se a mesma fosse uma mera reabilitação.

As intervenções de reabilitação para efeitos de aplicação da taxa reduzida do IVA (6% em vez de 23%) implicam a comunicação prévia ou o pedido de licença das operações urbanísticas aos municípios nas quais se inserem. E, assim, nos casos das empreitadas de reabilitação urbana, os munícipes têm de requerer à câmara, antes de darem início às obras, uma certidão em como o prédio está localizado em Área de Reabilitação Urbana – ARU. Luís Montenegro não o fez nestes moldes porque a ARU não existia na data em que arrancaram as obras.

A maioria dos portugueses nem os fundamentos mais importantes da nossa Constituição da República conhece, quanto mais a legislação que o afeta no seu dia a dia, como por exemplo, o Regime Jurídico da Propriedade Horizontal, que regula os direitos e deveres do titular de fração independente, num edifício com mais do que um proprietário, ou a Lei de Defesa do Consumidor, que lhes confere o direito a reclamação e ressarcimento, quando sejam mal servidos. No fundo somos todos uns pacatos ignorantes, com exceção de uns quanto autodidatas que procuram informar-se.

Já a maioria dos nossos governantes está rodeada de funcionários públicos e caciques locais, que lhes fazem a papa toda, até conhecem os buracos da lei, sem que estes tenham de se expor, a não ser quando a comunicação social descobre algo nas suas vidas pessoais, em que não bate a bota com a perdigota.

Nesse dia erguem-se para defender a sua honorabilidade. Sonsos!

RECLUSOS DENUNCIAM CADEIA SEM CONDIÇÕES

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“Às 8 horas da manhã temos de tomar banho com água fria”, lê-se no documento manuscrito que os reclusos fizeram sair da cadeia. Explicam que a infraestrutura tem apenas dois cilindos de 200 litros cada para aquecer água para os duches, o que é manifestamente insuficiente para o número de reclusos naquela cadeia. Só os primeiros 20 conseguem ter água quente, os restantes enrijam as carnes com a água gelada deste inverno rigoroso.

Frias são também as refeições que lhes põem à frente na mesa, além de mal confecionadas, segundo dizem.

A sobrelotação das celas é outra queixa. Neste EP vivem 8 reclusos em celas de 16 metros quadrados e não há dispositivos de alerta para situações de emergência.

Dizem ainda que não há a mínima privacidade na hora das visitas. “Os familiares sentados num banco comprido, uns a seguir aos outros, os reclusos sentados em cadeiras em frente aos familiares, ouvem-se as conversas uns dos outros”, explicam no documento.

As queixas não terminam aqui, são três páginas A4 preenchidas com letra miúda. No final, falam em discriminação, uma vez que as instalações dos guardas têm aquecimento e nas celas gela-se. Aparentemente, o quadro elétrico não aguenta todas as necessidades de aquecimento do edifício e quem paga são os reclusos.

O documento foi assinado pela maioria dos reclusos do EP de Guimarães.

EM GUILEDJE, O FIM DO IMPÉRIO COLONIAL

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A primeira paragem foi perto da fábrica de Caju São Francisco da Floresta. A razão da paragem foi procurar um pneu sobressalente, mas na verdade foi a minha oportunidade de visitar uma fábrica de caju e de perceber um pouco o processo.

São Francisco é uma pequena plantação de cerca de 160 hectares, que produz 80 toneladas de caju, processadas na totalidade nesta fábrica que tem cerca de 80 trabalhadores. A confiar nestes números, cada hectare produz cerca de meia tonelada e cada trabalhador processa 1 tonelada por época. Não sei apreciar estes números.

Todo, ou quase todo, o caju aqui processado é destinado à exportação para Itália e é de alta qualidade. Isto sei apreciar, provei lá na fábrica e trouxe algum, pouco, comigo.

A segunda paragem foi em Guiledje, onde existe um pequeno museu comemorativo da vitória do PAIGC no âmbito da grande ofensiva militar e política designada “Operação Amílcar Cabral”. Amílcar Cabral tinha sido assassinado meses antes.

Corria o mês de maio de 1973 e este foi o primeiro quartel português sob fogo do PAIGC a ser abandonado pela tropa portuguesa. E é mesmo nas instalações do antigo quartel que funciona o museu. Infelizmente estava fechado e o guia não estava por perto, mas tive oportunidade de me sentar na mítica “estrela”.

Pelo que investiguei depois, foi a arma que mudou o curso da guerra na Guiné. Desta máquina se lançavam os misseis terra-ar Strela-2M de fabrico soviético que causaram as primeiras baixas de aviões na Guiné, o abate de dois caças Fiat G.91 da Força Aérea Portuguesa.  Até aí a força aérea era o grande trunfo dos portugueses na Guiné.

A queda de Guiledje foi determinante para a independência da Guiné-Bissau e contribuiu para a queda do regime ditatorial de Marcelo Caetano, menos de um ano depois. Guiledje foi o princípio do fim do Império colonial português.

CHEIRA A PASSOS COELHO

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Sei que o advogado Luís Montenegro teve ajustes directos na prestação de serviços jurídicos a algumas autarquias do PSD. Aliás o comum na maioria delas, e cada uma com trabalhos adjudicados a gente próxima politicamente do partido do Presidente da Câmara, no poder.  Seja ao nível das empreitadas ou aquisição de bens e serviços.

Como também já percebi, o líder do PSD tem um casarão à beira mar plantado, na cidade de Espinho, não fosse ele um produto das nossas elites, por ascendência directa ou por via matrimonial. Tudo isto faz parte do dia a dia desta terra frágil, em que nem os ricos dispensam as ajudas do Estado, mesmo que de forma indirecta, como parece ser o caso de Montenegro. Quanto mais os pobres e remediados, à rasca, com um SNS subfinanciado, cada vez mais curto e demorado, ou uma Escola Pública cada vez mais desinteressante nos objectivos a que se propôs alcançar na Constituição de 1976. Mas nada disso é crime.

Daí a eu achar que o líder do PSD é uma pessoa desonesta, e que subverteu a Lei para obter benefícios fiscais, vai uma grande distância. Para mim o Dr. Luís Montenegro usou apenas as prerrogativas que a Lei lhe confere, até nas lacunas que esta tem, em face do verdadeiro espirito da mesma. Mas isso não é culpa dele. É do legislador.  

Tudo isto é pratica comum nos nossos governantes, e já no passado Miguel Cadilhe, Cavaco Silva e Fernando Medina com as célebres permutas de património predial, entre outros com manigâncias de outro género, aproveitaram as incongruências da Lei.

Dito isto, qual a razão para esta investigação do Ministério Público (MP) sobre a legalidade do processo construtivo da moradia de Luís Montenegro vir agora a público?

Só concebo uma plausível. O MP anda há anos a dar tiros em falso. Tiros esses que alimentam o populismo e fazem perpassar a ideia de corrupção generalizada na classe política.  O facto é que grande parte dos processos de investigação tornados públicos, não dão sequer em acusação. E uma boa parte dos que são acusados acabam sem condenação, ainda que por razões diversas.

Estou, mas é com a sensação de que este MP acabou por ficar refém da sua decisão de tornar pública uma investigação ao ainda primeiro-ministro, sem ter suspeitas suficientemente sólidas sobre o pretenso tráfico de influências exercido por António Costa, na aprovação de vários projectos de investimento, contribuindo dessa forma para a demissão do governo, agora em gestão. E quem sabe, para um cenário de ingovernabilidade, no futuro.

Ao deixar escapar para o exterior, nesta altura, a informação sobre uma investigação à forma como Luís Montenegro adquiriu a sua habitação na localidade de Espinho, com a suspeita de benefícios fiscais ilegítimos, o MP parece estar a fingir equidistância, para que fiquemos com a sensação de que não há aqui escolhas politicas, mas apenas a verdade e a legalidade.

Não me convencem. Nem eles, nem quem fez a denuncia. Aliás perece-me mais que alguém na direita está com vontade de que tudo corra mal ao líder do PSD, desacreditando-o na sua honorabilidade pessoal, para que as coisas falhem no plano eleitoral, e, afastando-o pela fraca prestação, estejam as portas escancaradas para um regresso de Passos Coelho.

André Ventura agradece. Ele e o Dr. Passos Coelho são a cara e a coroa da mesma moeda.

INTERESSES DOS EUA DESTROEM UCRÂNIA

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Robert F. Kennedy Jr., advogado, filho do senador assassinado Robert F. Kennedy e sobrinho do ex-presidente John F. Kennedy, também assassinado, é um político controverso e um dos candidatos mais interessantes às eleições presidenciais dos EUA.

Aparentemente, Kennedy conta com poucos apoios institucionais. O que ele diz é sempre bastante incómodo para o regime político e os interesses instalados.

Por exemplo, sobre a guerra na Ucrânia, Kennedy diz que não há negociações para um acordo de paz, porque a continuação da guerra interessa aos EUA.  

Entre as muitas iniciativas que têm gerado controvérsia, a causa ambiental é a mais abrangente. Robert F. Kennedy é co-fundador de um escritório de advocacia ambiental, tem patrocinado muitas lutas contra empresas poluidoras e políticas permissivas, o que ajuda a não ter muitos amigos na área empresarial. Ainda antes de confirmar a candidatura, fez as primeiras promessas eleitorais.

Muito menos concensual são as opiniões sobre as vacinas. Embora o ceticismo de Kennedy sobre vacinas seja muito anterior à covid, encontrou novos seguidores durante a pandemia, quando denunciou lucros escandalosos de laboratórios e organizações que montaram o negócio das campanhas de vacinação mundiais.

Kennedy será candidato independente, não contará com as máquinas de propaganda partidária. Apesar de ter um problema nas cordas vocais que lhe afeta a voz, é pela palavra que terá de convencer o eleitorado.

UCRÂNIA CONDENA JORNALISTA

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Um tribunal na Ucrânia condenou à revelia Yuriy Podolyaka, um jornalista, blogger, comentador político-militar, fundador do projeto InfoDefense. Foi considerado culpado por “justificar as ações da Rússia contra a Ucrânia”. Trata-se de um delito de opinião. E talvez também de um excesso de liberdade de expressão, se o termo se pode utilizar.

Podolyaka foi condenado a 12 anos de prisão. Como já não vive na Ucrânia desde 2014, está livre de ser levado acorrentado para a cadeia, mas ao comentar a decisão tribunícia, disse que o tribunal se esqueceu de referir que “tentaram eliminar-me fisicamente várias vezes”. A sentença implica, ainda, o confisco de todos os bens em nome do condenado.

Podolyaka ganhou notoriedade quando se refugiou na Crimeia, após a chamada Revolução Maidan, golpe de Estado que levou ao derrube do Governo eleito considerado pró-russo. Desde a Crimeia, o jornalista lançou vários projetos nas redes sociais, todos sobre a evolução do conflito que opunha o Governo da Ucrânia aos separatistas russófonos do Donbass.

A partir de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia em apoio dos separatistas, Yuriy Podolyaka criou o projeto InfoDefense que tem maior expressão na rede Telegram. O Infodefense presta um serviço em 26 idiomas, entre as quais o português.

Podolyaka tem em permanência um apelo ao voluntariado, principalmente de tradutores e jornalistas que queiram participar no esforço de furar o bloqueio imposto à informação produzida naquele lado da guerra. “Queremos dizer às pessoas aquilo que os grandes meios de comunicação preferem manter escondido”, diz Podolyaka, que se afirma contra “mentiras, censura e manipulação.”

Seja como for, o projeto Infodefense tem hoje cerca de 3 milhões de subscritores registados. O reverso da moeda para Yuriy Podolyaka é ver o seu nome no rol de personalidades abrangidas pelas sanções decretadas pelos inimigos da Rússia.

a ficha com o nome e foto de Yuriy Podolyaka na lista de personalidades sancionadas