O AMIGO BRASILEIRO

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“Hospital de Santa Maria abriu uma auditoria para perceber como é que duas gémeas brasileiras que residem no Brasil fizeram um tratamento de quatro milhões de euros em Portugal. Chegaram com consulta marcada e vários médicos foram contra. Há suspeitas de influência do Presidente da República, mas Marcelo nega. Contudo, apesar de um parecer desfavorável de todos os neuros pediatras do hospital, o tratamento avançou mesmo.

À TVI, Daniela Martins – mãe das crianças – confirmou que as bebés entraram no Santa Maria em finais de 2019 para serem tratadas, após terem conseguido obter a naturalização portuguesa justamente e só para esse fim. A progenitora precisou ainda que a nora e o filho do Presidente da República tinham interferido a seu favor. Entretanto, uma carta de indignação dos clínicos desapareceu dos registos hospitalares, tal como o dossiê de admissão das crianças.”

A noticia que estou a citar, apareceu nos jornais deste fim de semana. Levanta-se a suspeita sobre o mais alto magistrado da nação, através de familiares seus, residentes no Brasil. O Presidente nega, claro. Não havendo provas cabais, e ele sabe-o, mesmo que porventura tenha existido uma “mãozinha” sua, só tem de o negar. A moralidade é um conceito abstracto em politica. Só a legalidade faz parte dos cânones desta actividade.

Todos nós sabemos que a cunha nunca fica escarrapachada num papel. Basta retirar um requerimento do lugar certo e, por exemplo, colocando-o em segundo ou terceiro lugar, no monte dos papeis que terão despacho e provimento pela mão de alguém investido do poder de decisão, que ninguém vê. Tudo legal. Não deixa rasto e pode ser uma ajuda impressionante. Para muitos é a diferença entre sobreviver e morrer, numa cirurgia com meses de atraso. A este tipo de selectividade, que não o assente em critérios jurídicos e no caso em apreço, médico científico, chama-se cunha.

Dirão alguns: Temos de ser humanos. São crianças. Claro que temos de ser humanos. Não pode é haver humanos de primeira e humanos de segunda, ainda por cima com dinheiro público.

Independente do nosso mais alto magistrado da nação estar ou não envolvido, há algo que deixa os portugueses perplexos. Como é que alguém não residente no país, isto não significa que não tenha a nacionalidade portuguesa, chega aqui, já com consulta marcada, e vai tratar-se aos hospitais do SNS, sem que alguém, nomeadamente da tutela, questione se estes doentes estão elegíveis para esse tratamento e se há disponibilidade financeira. É que ao consumir-se um tratamento médico com estes custos, fica em falta a reposição de um novo stock, para outros que venham a seguir.

A CUNHA MOÇAMBICANA

Em Março de 2022 o Professor Marcelo Rebelo de Sousa fez uma visita a Moçambique. Nessa altura ocorreu um episódio, que só se veio a saber mais tarde, com o seu regresso a Lisboa. Supostamente ter-se-á tentado atrasar um voo comercial de Maputo para Lisboa, com claro prejuízo para os restantes passageiros, fazendo coincidir essa viagem com agenda presidencial. Uma daquelas ingenuidades de bajulador, coisa típica de certos ministros e secretários de estado. Em especial os mais incompetentes. Como o PR se dava bem com o governo, era preciso não criar atritos. Os outros que se lixem. Que esperem por sua Majestade.  

Em 2019 estávamos no último ano da Geringonça, altura em que estas crianças se deslocaram a Portugal para serem tratadas. Esta coligação partidária tinha corrido bem, sob o olhar “ternurento” do Presidente, uma espécie de antítese de Cavaco Silva. O PM e o PR ocultavam as suas divergências, punham-se de acordo em diversas matérias, e a sensação com que todos ficávamos era a de que ambos estavam comprometidos com as mesmas causas, pese embora os partidos à esquerda do PS, colocarem algum travão nessa colagem oportunista. Não me admira, pois, que, alguém dentro do governo, porventura à revelia do Presidente, numa tentativa de o comprometer no futuro, se tenha sabujado, aceitando fazer este jeito aos seus familiares, a residir no Brasil, com prejuízo para terceiros, residentes cá, e utilizadores do SNS.

Aquela auditoria do Hospital de Santa Maria acabará como centenas de outras com uma mão cheia de nada. Nunca saberemos quem meteu a cunha. Nunca se saberá se isto não foi uma armadilha ao irrequieto Professor Marcelo. Talvez nem consultando o oráculo, algum Deus nos saiba responder. Até porque género politico português é da família do Diabo.

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