CASCAIS CHORA VELHO AMIGO

Acabo de saber, por sua viúva, Zélia, que Fernando de Almeida Henrique deixou o nosso convívio no passado dia 23 de Dezembro. Estava há já bastante tempo na Residência Sénior Ofélia, de Alcoitão, atendendo às dificuldades de movimentação de que passara a padecer. Tendo piorado o seu estado de fraqueza, foi internado no Hospital de Cascais, onde acabaria por falecer.

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Natural de Alvide, onde nasceu a 20 de Julho de 1936, Fernando de Almeida Henrique, depois da prestação de serviço militar em Moçambique, ingressou na Tipografia Mirandela, em Lisboa, onde então se imprimia o Jornal da Costa do Sol e aí assistiu ao nascimento do jornal Expresso, mantendo, por isso, ampla colaboração e amizade com os mentores desse jornal, nomeadamente Francisco Pinto Balsemão e Marcelo Rebelo de Sousa.

Integrara, antes, a equipa do jornal A Nossa Terra,  sob a direcção de João Martinho de Freitas, e com toda essa equipa (desavinda com o proprietário do jornal, o Dramático de Cascais) veio a fundar, a 25 de Abril de 1964, o Jornal da Costa do Sol, em que ocupou os mais diversos cargos, tanto na redacção como na direcção: subdirector, a partir de 18 de Março de 1972; director interino, a partir da edição de 21 de Julho de 1973 até 2 de Março de 1974; director, nesse ano, de 9 de Março a 1 de Junho, altura em que – como se lê na nota publicada a 25 de Maio – «por ter sido nomeado para a comissão administrativa que, interinamente, gerirá os destinos do Município do concelho de Cascais» –  apresentou o seu pedido de demissão. Não voltou, porém, a ocupar funções de direcção.

Almeida Henrique participara, de facto, em reuniões preparatórias da criação do MDP-CDE local e acompanhara de perto a formação da SEDES; daí o facto de o Tenente-Coronel Melo Machado, representante em Cascais da Junta de Salvação Nacional, o ter incluído na lista de «pessoas idóneas disponíveis e não comprometidas com o antigo regime para formar a comissão administrativa provisória». Dela fizeram parte, além de Almeida Henrique, o Dr. António Henriques de Oliveira (para exercer as funções de presidente), e os vogais: Joaquim Cabeças Padrão, José Borges Mendes, Adelino Martins de Albuquerque, Luis Ferreira Ralha, Maria Celestina Silva, António da Silva Lino e Luís Coelho de Aguiar». O Jornal da Costa do Sol de 25 de Maio de 1974, que dá a notícia, inclui a foto do início da actividade dessa Comissão; Almeida Henrique, de óculos, está sentado à esquerda do presidente da Comissão no uso da palavra.

Pela sua experiência e pelos seus amplos conhecimentos dos problemas concelhios (a que não era alheia a sua acção num órgão local de informação, Almeida Henrique acabou por ter, no seio da referida Comissão Administrativa papel de relevo, nesse conturbado período pós-revolução de Abril, chegando mesmo a exercer as funções de seu presidente interino durante curto espaço de tempo, enquanto a situação se não regularizou.

Pouco dado a mostrar-se, de Almeida Henrique só logrei encontrar outra fotografia: quando falava, como director, no almoço de confraternização dos colaboradores do Jornal da Costa do Sol, em Abril de 1974, no restaurante «Redes do Mar», na Torre.

Pertencia a uma das famílias mais notáveis de Cascais, no âmbito sobretudo da actividade comercial. Era neto, por exemplo, de António Casimiro de Almeida, um dos fundadores da Cooperativa A Luta, conhecido como «António de Alvide», justamente por daí ser oriundo. Aliás, Fernando de Almeida Henrique tinha muito orgulho em ser considerado natural da freguesia de Alcabideche e tudo o que era história dessa localidade o interessava muitíssimo. Depois da aposentação, criou, no sítio de uma das lojas da sua família, na Rua Visconde da Luz, a Garrafeira FAH.

Profundo sabedor das tradições cascalenses, não teve, porém, incentivo bastante para as dar a conhecer, limitando-se, uma vez por outra, na qualidade da membro da equipa do Jornal da Costa do Sol, a proporcionar-nos algumas das suas sempre apreciadas recordações acerca da vila que sempre procurou servir de alma e coração, não se privando de, oportunamente, verberar o que lhe parecia menos correcto, sobretudo quando feito por iniciativa de quem, vindo de fora, escamoteava a lídima tradição cascalense e as suas características urbanas, sobretudo no domínio da circulação rodoviária.

Raramente assinava o que escrevia, inclusive porque se partia do princípio que artigos não assinados eram da responsabilidade da direcção. E se, já por alturas de 1974, não deixou de intervir publicamente contra a pretensão da Autodril de urbanizar os terrenos em torno do Autódromo (aliás, a questão da posse do autódromo foi polémica que animou durante algum tempo as hostes cascalenses e as tomadas de posição camarárias), não se eximiu a explicar em pormenor quanto se prendia com o saneamento da Costa do Sol, um dos pontos quentes da administração; assim, há que revisitar, a esse propósito, os seus dois exaustivos contributos (não assinados) publicados ainda sob o antigo regime, nas edições de 17 e 24 de Junho de 1972, sob o sugestivo título «A Costa do Sol e a poluição. Do alarme desnecessário ao silêncio nefasto. Uma tentativa de esclarecimento para a melhor compreensão de ineficiência do sistema de saneamento da Costa do Sol».

À família enlutada, nomeadamente à sua viúva, Zélia, os nossos mais sentidos pêsames. Cascais perde um dos seus filhos que mais lutou pela sua identidade!

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