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Lisboa bebe água dos reactores nucleares de Espanha

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A água que Lisboa bebe anda a servir para arrefecer os reactores da central nuclear espanhola de Almaraz, mas ninguém fala disso. Pior, os reactores dessa central já deviam estar desligados porque ultrapassaram há muito o prazo de vida segura.

Dentro de dois anos essas gigantescas e perigosas turbinas, que fornecem 9% da electricidade do país vizinho, completam 40 anos.

A central de Almaraz pertence a um consórcio de 3 empresas, à Iberdrola, Endesa e  Unión Fenosa.

Os políticos ignoram Almaraz. E os jornalistas também não pegam no assunto, porque a central fica em Cáceres, longe das portas das redacções e, lá está, os orçamentos são muito curtos, a roçar a falência.

Em rigor, a água de Lisboa vem na maior parte da barragem de Castelo do Bode, onde se anda de barco e se toma banho. Os restantes 25% vêm da captação em pleno rio Tejo, em Valada. Está tudo explicado no site da EPAL.

A água que chega a Valada passa também pelas fábricas de celulose e pelos vinhedos e lagares de azeite da Beira Baixa e Ribatejo. A EPAL diz que, depois de tratada, é boa água, mas nunca se soube se é realizado algum teste de radioatividade. 

Quando olhamos para aqueles monstros nucleares tranquilos parece-nos tudo está bem. Em Chernobil também foi assim. Em Almaraz os pequenos acidentes e avarias sucedem-se recorrentemente, sempre com os espanhóis a dizer “no pasa nada”.

O bom senso e a prudência aconselham, no entanto, ao encerramento dos dois reactores já manhosos. É urgente pôr fim ao despautério de arrefecer centrais nucleares com água que depois se vai beber.

Um dia adormecemos e a meio da noite acordamos com a cabeça transformada em lâmpada de 25 watts. Ou não acordamos de vez.

António Félix da Costa, campeão do Mundo de Formula E

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A corrida foi ao fim da tarde, o sol estava no horizonte quando António Félix da Costa se sagrou campeão do Mundo de Formula E (motores elétricos).

Antes de se enfiar na cabine de pilotagem, o piloto cascalense escrevia no Facebook: “Fui 2º na qualificação, largamos da primeira fila para a corrida de hoje às 18h00 no Eurosport. Não há calculadora para fazer contas, a estratégia é atacar e dar tudo!”

Depois de cortar a linha de chegada, o texto foi: “CAMPEÕES DO MUNDO !!! Não tenho palavras… É nosso o titulo, é de Portugal!!! OBRIGADO 1000 x à minha familia, Amigos e todos os Portugueses que estão sempre lá!”

Entusiasmo e orgulho, tudo mais do que justificado, não há dois campeões mundiais no mesmo ano e em 2020 foi António Félix da Costa a chegar lá.

Partindo do segundo lugar da grelha, o português chegou a liderar durante várias voltas, mas acabou por ser ultrapassado pelo companheiro de equipa, o francês Jean-Éric Vergne, que venceu a corrida.

O segundo lugar foi suficiente para o piloto de Cascais festejar o título de pilotos, quando faltam duas corridas para o final do campeonato, com a DS Techeetah a festejar também o triunfo no campeonato de equipas.

Seguiram-se os cumprimentos do primeiro-ministro no Twitter e espera-se que Marcelo marque já dia e hora para a entrega da Medalha de Mérito Desportivo.

Ele deu uns açoites ao Rei!…

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Em Setembro de 1987, num dos momentos de pausa do IX Congresso Internacional de Epigrafia Grega e Latina, em Sófia, na Bulgária, a minha colega Zlatozara Gočeva entregou-me uma carta de mãe para a rainha Joana de Sabóia, que vivia exilada no Estoril. A mãe colaborara intensamente com a Rainha na Cruz Vermelha e o pai fora um dos braços direitos do Rei. Regressado a Portugal, tive ocasião de encontrar a Rainha e de lhe entregar a missiva.

Muitos de nós terão histórias para contar acerca destas presenças reais exiladas em Cascais e nos Estoris. Recordo o Rei Umberto II de Itália, que era uma simpatia e se dava com toda a gente; recordo como a população vibrou, em 1955, com a pompa do casamento, no Estoril, de sua filha, a princesa Maria Pia de Sabóia.

Não foi por causa da II Grande Guerra e das revoluções subsequentes que os Condes de Barcelona vieram para Portugal, como se sabe, mas em consequência da guerra civil espanhola. Fixaram-se numa vivenda no Alto do Estoril, a Vila Giralda, que tive o privilégio de visitar, em companhia de José Antonio Gurriarán, quando este andava a preparar o livro «Um Rei no Estoril», que viria a ser publicado, em 2001, pela Câmara de Cascais e pela D. Quixote.

Antes de contar dois casos, um que vem no livro e outro não, devo acrescentar que das minhas recordações uma das imagens mais fortes é a de toda a família dos Condes a assistir, nos primeiros anos da década de 60, a todas as cerimónias da Semana Santa, na igreja de Santo António do Estoril. Aliás, lembro-me que colegas meus que frequentaram a Escola Salesiana (então Asilo de Santo António) me dizerem que tinham jogado à bola com o Juanito, no oratório salesiano. Toni Muchaxo fala sempre do Juanito; e o Conde achava sempre muita piada quando – muitos anos mais tarde – ainda o tratavam assim, porque o nome lhe fazia recordar belos tempos.

Manteve-se em Portugal, após o regresso da realeza a Espanha, a irmã de Juan Carlos, Margarida de Espanha, Duquesa de Sória, cega de nascença, que era até há uns anos (agora não sei) presença habitual na piscina do Tamariz.

Vamos então às histórias.

Primeiro, a duma reacção à publicação do livro de Gurriarán. Um dos leitores do Jornal da Região, o médico veterinário Rui de Jesus Ribeiro achou por bem repor a verdade: é que, antes de a Família real, vinda da Suíça, se ter instalado no Alto Estoril, viveu na «Casa da Rocha», que Rui de Jesus Ribeiro – em carta à redacção do jornal, publicada a 22 de Maio de 2002 – informa ser «uma casa com fama por ter sido construída por Tertuliano Lacerda Marques para o Prof. Augusto de Vasconcelos e dada por concluída em 1924». E o que é que sucedeu? A senhora Condessa tinha um caniche castanho fulvo, o Rusti, que foi tratado durante algum tempo na clínica do Dr. Ribeiro; mais tarde, o Rusti desapareceu e foi o pranto que se imagina! Mas, recordando quão bem fora tratado, tendo sido eventualmente atropelado e com uma pata partida, o Rusti foi ter ao portão do quintal da clínica e, quando o Dr. Ribeiro, reconhecendo-o, lhe abriu o portão, ele logo correu, de pata no ar, para o local dos tratamentos!

Fica a história do Rusti, a completar o que Gurriarán conta, nas p. 267-269, acerca da estada da família na «Casa da Rocha», junto ao mar.

O livro de José Antonio Gurriarán foi elaborado à base de muita conversa com pessoas que haviam privado com o Rei. Uma delas foi António de Sousa Lara, cuja casa de família fica perto de Vila Giralda. Contou-lhe seu avô que os meninos jogavam à bola na rua e amiúde a bola lhe ia para o jardim e lhe estragava as roseiras. Tendo-se queixado ao Conde, este autorizou-o a dar-lhes uns bons açoites se tal voltasse a acontecer. Aconteceu! E os açoites fizeram-se sentir! E o mais curioso é que, reencontrando-se num restaurante em Madrid, já o avô de Sousa Lara tinha mais de 80 anos, el-rei assim o apresentou aos amigos:

«Sabem quem está aqui? O único homem vivo que pode orgulhar-se de ter dado uns açoites ao Rei de Espanha!» (p. 59-60).

E mais se não comenta agora, está bem de ver!…

Jornais “infetados” pelo covid-19

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O covid-19 afectou gravemente os quatro jornais diários portugueses obrigando-os a baixar as tiragens já bastante reduzidas e  mantidas em segredo para evitar pânico.

O fim anunciado da Imprensa escrita irá abalar o futuro do país, dos governos e dos políticos. Deixaremos de saber, por exemplo, como vai a Casa Pia, o juiz Rangel, o Tribunal da Relação, o BES, o Ricardo Salgado, as golas Anti-Fumo, o Rui Pinto ou o Angola Leaks. Para já não falar do Panamá Leaks ou outros leaks que por piada são entregues a certos sindicatos de jornais e depois “morrem”.

Os jornais diários estão afogados em despesas e não têm leitores suficientes. A culpa não é dos jornalistas e basta ver que denúncias de casos não faltam. Os jornais cumprem a sua função.

O problema é do modo de vida dos portugueses, penhorados por causa das casas onde vivem, dos automóveis onde se deslocam e sem paciência para jornais depois do tempo que perdem nos engarrafamentos no caminho de regresso a casa.

É a classe com rendimentos médios que mais abandonou os jornais. Vive hoje pendurada nos títulos rapinados por motores de busca na Internet. Ou seja, duas linhas e fica enfadada com o excesso de informação!

Preferem não saber. É mais cómodo. De certo modo, tudo começa na escola, onde os miúdos são habituados a decorar tudo em vez de serem estimulados a procurar o conhecimento pela leitura.

O método do “decoranço” é muito cómodo para os professores e dá jeito a Mário Nogueira da Fenprof, que assim se mantém rei-de-acomodados.

Esta é, aliás, a primeira pedra no sapato na inteligência emocional dos portugueses. Mata-se a curiosidade, a leitura, os jornais e depois será Democracia.

“Que azar os jornais também sofrem de Covid!” – comentarão os agarrados-ao-sofá, à espera do terço ou da novela onde se grita e nada aprende.

Hip Hop no comboio da CP

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Há dias mais difíceis que outros, embora todos os dias sejam difíceis. Para ele que pretende ganhar a vida a dar música e para os outros que o escutam sem grande empatia e sem disponibilidade para pagar, nem mesmo simbolicamente, o esforço e empenho do artista.

Disco Moon

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A roupa tem de ficar estendida na cama antes do jantar. Senão depois surgem mil coisas, acabo por desistir da ideia, afinal estou muito ocupada. Mas se entro no quarto, visto-me num ápice, calço os ténis, coloco os phones velhinhos e saio sem destino.

Percorro esta Lisboa tão boa ao som da canção Sweet Jane, dos Cowboy Junkies, na versão do filme Natural Born Killers. Oiço-a uma e outra vez em repeat. É um mimo que ajuda o passo apressado, isto não é um passeio, é uma caminhada. Mudo de rua e dou de caras com o vento mas já tenho o casaco à coca, preso à cintura. Fresca esta noite de verão.

Atravesso o passeio e sigo atrás de dois PSP. Não vejo na policia uma postura negativa, por isso, nesta fase, agrada-me o reforço policial na rua. Nas costas dos agentes reparo, pela primeira vez, que a palavra “policia” brilha no escuro. Uau! Só mesmo a Lua para a polícia fazer um brilharete. Continuo em frente. Atravesso a rua com o sinal verde e… ponho o pé na discoteca!

Poderosa, enorme, espaço infinito numa pista marcada aqui e ali por traços cinzentos que lhe dão perspectiva. Espaço e mais espaço, prédios bonitinhos cor de laranja a contornar a disco, esplanadas com luzes, mas lá ao longe. Excepção para a estátua triste plantada no meio da pista de dança. Poderia ser o bar, sempre ganhava alguma dinâmica e luz.

Olhei para o Tejo e foi aí que a vi focada em mim. Se estava cheia ou quase cheia, não faço ideia. A Lua encheu-me toda, entrou pelos olhos adentro, espalhou-se pelo corpo, saiu pela pele em pós cintilantes. Sou uma minúscula partícula do luar. Mantive-me focada nela, tão elegante, com um raio de luz que mais parecia a fita de um chapéu de verão.

O You Tube fartou-se da Sweet Jane e, sem pedir licença, passou para a Temptation dos New Order. É a minha música top of the pops para dançar, dançar e continuar a dançar! Fechei o casaco e fiz o que me era pedido. Dancei! Mal reparei nas pessoas que por ali passavam, levavam os olhos pregados no chão e nas suas vidas. Continuei a dançar, a céu aberto neste mar de espaço, com o projector da Lua e o Tejo a provar que estava em Lisboa.

Dancei muito, mas com movimentos discretos, não dei pulos, como pede a música. Mas, mesmo assim, depois de tanto tempo a dançar no espaço finito de casa, foi avassalador dançar no espaço infinito!

Na Disco Moon os vírus, as máscaras, os beijos proibidos, as mortes, as estatísticas, a economia e presidentes energúmenos são barrados à porta. Fazem parte da interminável lista do lado negro da Humanidade. Não entram.

Ao som dos phones velhinhos entrego-me à Lua como se fosse ao homem que amo. Fico grata pela magia, ponho o capuz e regresso a casa devagarinho, leve, tão leve, como se pisasse algodão doce, como se eu fosse algodão doce.

Deixo as roupas e as preocupações caírem no chão, meto-me num duche fresco. Era boa ideia ir trabalhar, era mesmo. Mas sento-me cá fora a ver a rota do fumo do cigarro ir de encontro ao astro cintilante. Vou atrás dele, mergulho na Lua, nos milhões de voltas que deu à volta da Terra e chego ao meu carro parado em frente a um pinhal com o namorado alemão.

E agora? Como chegamos à festa? Atravessamos o pinhal a pé, diz-me. Estás louco, entrar naquela escuridão? Nem pensar! Sónia, it’s full moon, we have light all the way. Encolhi os ombros e contrariada lá entrei no pinhal supostamente negro. Não era, tinha aquele holofote gigante que tornava as árvores prateadas e nos indicava o caminho. Foi a primeira vez que senti a intensidade da Lua. O poder.

Quando chegámos ao prado gigante onde a festa de transe já mexia com toda a gente, abracei-me a ele e beijei-o. Thank you for the moon.

Entregámo-nos ao ritmo da festa. E, se já tínhamos decidido que nos casávamos naquela aldeia da roupa branca em Santa Clara-a-Velha, depois da família se retirar, ficou assente que era ali que íamos dançar com os amigos. Uma festa à séria com a Lua cheia do nosso amor. Depois esgueirávamo-nos para o farol que nos colocava mais perto da Lua, mais próximos um do outro.

Volto à poltrona à porta de casa. Apago o cigarro. Foco-me nela pela última vez. Assim que adormeço danço na Praça do Comércio, no prado alentejano, no Lux, no festival Boom, nas festas de miúdas onde replicávamos as coreografias das Doce. Danço onde, quando e como quiser. Estou com a Lua.

“Esperamos por vocês e que este vírus maluco vá embora depressa”

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Filipa e Mário são outro exemplo de resistência às adversidades. Num tempo em que quase só as más noticias fazem os títulos da comunicação social, a Filipa e o Mário recusam-se a entrar na onda pessimista.

Eles sabem que as pessoas vivem com medo e também perceberam que é a existência de estabelecimentos como o deles que evita que as pessoas tenham de sair do meio onde se conseguem resguardar melhor.

Os pequenos restaurantes de bairros, vilas e aldeias, beneficiam dessa proximidade com as pessoas. Da confiança entre vizinhos. São pilares deste tipo de comunidades. É a vantagem do comércio local, algo que os hipermercados jamais conseguirão vender: amizade.

Durante o confinamento, a inspeção apenas uma vez verificou se estavam a respeitar todas as normas decretadas. Foi apenas requerido aos gerentes, bem como aos clientes, um sentido de responsabilidade de modo a não correr riscos desnecessários. Foi cumprido à risca, na porta colaram um papel que informava o seguinte:

“Boa tarde amigos e clientes, têm vindo várias pessoas perguntar se vamos fechar, espero que não. Por enquanto estamos cá para vos servir da mesma forma com amor e carinho. Só se nos deixarem de fornecer produto é que aí não há nada a fazer.

Temos planos de contingência como luvas, líquido desinfetante e só é permitido uma pessoa dentro da loja. Esperamos por vocês e que este vírus maluco vá embora depressa.

Obrigada a todos pela compreensão.

A Gerência.”

Sons de Cascais pelos anos 50…

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Mais atentos nos sentimos agora, com as restrições pandémicas, a quanto nos rodeia, até porque, para muitos de nós, ‘confinamento’ significou ficar-se preso entre quatro paredes. Tudo ganhou maior dimensão. Estranhámos a ausência de tráfego; já não há riscos brancos de aviões desenhados no azul; acabámos por perceber melhor que havia, todas as manhãs, um casal de rolas em mui dengoso despique; até o esvoaçar das moscas se ouvia…

Interroguei-me pelos sons de Cascais. Desta sua zona ocidental, sobretudo. Já a 28 de Maio de 2017, aquando do Concerto Acústico que o grupo cascalense «Cantares da Terra» levou a efeito no auditório da Casa das Histórias Paula Rego, fui desafiado a falar dos «Sons de Cascais». E aceitei, por me haver proporcionado mui salutar retorno à minha infância passada onde ainda hoje eu vivo. A pandemia trouxe tudo de novo à tona.

Pelas noites de Verão, havia sempre um grilo ou dois a despique com o ralo da esquina na terra em restolho. Um desafio para, no dia seguinte, tentarmos, mui sorrateiramente, descobrir onde é que o grilinho se escondia e, caso a paciência nos houvesse proporcionado a descoberta, armados de uma palhinha, esgaravatávamos na toca e fazíamo-lo sair para o mantermos depois em cativeiro, com a gaiola no prego da parede ao pé da porta, com folhinhas de alface para o alimentar. Grigri, grigri… Deliciávamo-nos.

Também ouvíamos o mocho. Ou dois. Geralmente, dois. Um, no alto do pinheiro bravo meio despido; o outro, não se sabia onde estava, só se ouvia além. Um piar triste, de mau agoiro – dizia-se, certamente por só se ouvir de noite, nesse tom de lamento.

Personagens a que se ligasse o som: três. As peixeiras, a Carolina ou «a menina Sara»: peche fresco! – era o pregão diário. Ou o mais comum, em todo o Portugal: Vivinha da costa, ó freguesa! O azeiteiro, de carroça armadilhada com toda a espécie de trastes para o azeite, o vinagre, o petróleo, o álcool desnaturado… Fazia-se anunciar, semanal ou quinzenalmente, por uma corneta, que eu admirava, toda luzidia no seu amarelo. Nunca fui capaz de lhe pedir para soprar nela. A terceira personagem vinha de vez em quando e eu tinha por ele uma ‘atracção’ especial (se calhar, por isso é que fui para Arqueologia!): era o Mariguta! Ferrevelhe!– apregoava ele, numa voz quase de falsete…

Então e motores não havia? Na quinta ao lado, o guincho compassado de um aeromotor a tirar água do poço. De vez em quando, um cocciolo. Já não me lembro do nome do dono, mas esse primeiro modelo das motorizadas era a admiração da pequenada! Chamava-se assim porque era a marca dele.

De carros lembro-me do Volkswagen da Quinta da Bicuda. Nem sempre queria pegar e lá ia o Sr. Joaquim dar duas ou três voltas à manivela à frente para o motor de arranque dar de si!

No ar só a “avioneta do Champalimaud”, que levantava voo da pista da Marinha. Por vezes, alguém se aventurava a fazer com ela o que hoje sei que se chamam loopings e ficava com um medo danado que aquilo caísse. Mas também sonhava como seria aventura guiar uma geringonça daquelas.

Não, errei, não era só a avioneta familiar, eram também os caças da Base Aérea de Sintra, que vinham roncar para os céus de Cascais em exercício.

E, por falar em exercício, ocorre-me sempre aqueles dois dias, creio que foram dois, em que tivemos fogos reais da artilharia antiaérea e de costa. Todas as baterias apontadas ao Guincho! As bombas zuniam pelo ar, que medo! Tinham dito que precisávamos de ter as janelas abertas, como na altura em que o canhão de Alcabideche fazia fogo e era um tiro a ribombar pelas quebradas! E os caças também desciam a pique sobre a zona da gurita ao pé do Guincho e largavam bombas. Um cenário de guerra, com os fios das comunicações estendidos ao longo das vias…

Guincho faz-me lembrar noites negras de Inverno. O vento soprava forte da serra, o aguaceiro tentava entrar pelas telhas vãs, roncava o farol do Cabo da Roca e ouvíamos o fragor da rebentação. «Que Nossa Senhora proteja os marítimos!» – balbuciava minha mãe. Ouvia-se bem em Birre, na Barraca de Pau e até no Cobre, porque a ausência do casario e a limpidez da atmosfera traziam-nos de mais perto o rugido das vagas, o angustiante clangor da «roca» da Roca… Nevoeiro no mar! Deus queira que não haja naufrágio, se não lá teremos a sirene a chamar os bombeiros.

A sirene ainda hoje nos acompanha. Dia em que não toque o meio-dia – em Cascais, nos bombeiros dos Estoris e nos de Alcabideche – mais ou menos em uníssono, é dia em que nos perguntamos porquê, que terá acontecido? O toque do meio-dia é sagrado, quase a lembrar o canhão que, ao meio-dia solar em ponto, disparava no Palácio Real da Pena. Há todo um código de toques: dois, acidente de viação; três, incêndio; quatro, desastre no mar.

A pandemia e o seu cortejo de reclusões a transportarem-nos, portanto, para… um outro mundo, em que os sons da Natureza bem se sobrepunham a um raro matraquear mecânico e os velhotes ainda longamente mantinham ouvidos ‘de tísico’, capazes de descobrir onde é que rato andava a fazer das dele!…

Félix da Costa prego a fundo

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O piloto António Félix da Costa voltou a vencer e classificou como um “recomeço de sonho” o facto de ter conseguido duas vitórias nas duas corridas do Mundial de Fórmula E, para carros elétricos, disputadas após o reatamento.

Num vídeo publicado no Facebook, o jovem piloto agradece “o apoio de toda a gente e os milhares de mensagens”, mas lembrou que “nada está decidido”, apesar de ter 68 pontos de vantagem sobre o segundo classificado do Mundial, a quatro corridas do fim.

O piloto de Cascais tem, agora, 68 pontos de vantagem sobre os segundos classificados, o brasileiro Lucas di Grassi (Audi) e o belga Stoffel Vandoorne (Mercedes), e pode sagrar-se campeão já no sábado.

Para isso, precisa de alargar a vantagem para os 90 pontos, já que, em cada corrida, um piloto pode fazer o máximo de 30 pontos (25 pela vitória na corrida, três pela ‘pole position’, um pela primeira fase dos treinos e um pela volta mais rápida em corrida).

Depois da paragem devido à pandemia de covid-19, o campeonato de Fórmula E reiniciou-se no aeroporto de Tempelhof, em Berlim, com as derradeiras seis corridas.

Duas delas já se disputaram e a vitória em ambas sorriu ao português, que espera, agora, maior equilíbrio pois os pilotos “já conhecem melhor a pista”.

Neste momento, ainda há seis pilotos que matematicamente estão na luta pelo título.

Covid-19 no lixo

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A questão do lixo complicou-se mais com o covid-19. Se antes da pandemia, a deficiente recolha de lixo já era um problema de saúde pública que preocupava muitas pessoas, agora o perigo aumentou de grau.

Em municípios onde o lixo de acumula dias seguidos, sem que a recolha se faça, como é o caso de Sintra, por exemplo, quem se responsabiliza pelas consequências dessa má gestão dos lixos em caso de contágio por covid-19?

A pergunta não é retórica e os munícipes deviam exigir resposta e, acima de tudo, responsabilização.

As indicações da Direção Geral de Saúde indiciam bem o cuidado que todos devemos ter com o lixo como veículo de contaminação e de propagação da pandemia.

Resumindo, os doentes de Covid-19 ou as pessoas em isolamento são aconselhadas pela Direção Geral de Saúde a utilizarem um caixote do lixo só para si, separando os seus resíduos do lixo dos restantes habitantes da casa. Segundo as mesmas indicações, o saco de plástico deve ficar apenas a 2/3 da sua capacidade e nunca se deve pressionar ou pisar os resíduos para que caiba mais lixo. Depois é preciso fechar bem o saco, usando um atilho ou um adesivo ou dando dois nós bem apertados. A DGS também aconselha a que não se retire o ar deste primeiro saco, que deve ser depois colocado dentro de um segundo saco. Este deve ser igualmente bem fechado. Os sacos devem ser colocados de imediato nos contentores do prédio ou da rua. Todas estas recom,endações não servem de muito se, depois, o lixo fica dias esquecidos nos contentores ou no chão porque já não cabem dentro dos contentores.

Os índices de contaminação relativamente altos que ainda persistem em vários municípios da Área Metropolitana de Lisboa podem ter, em parte, justificação neste “pormenor” do tratamento do lixo.