Disco Moon

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A roupa tem de ficar estendida na cama antes do jantar. Senão depois surgem mil coisas, acabo por desistir da ideia, afinal estou muito ocupada. Mas se entro no quarto, visto-me num ápice, calço os ténis, coloco os phones velhinhos e saio sem destino.

Percorro esta Lisboa tão boa ao som da canção Sweet Jane, dos Cowboy Junkies, na versão do filme Natural Born Killers. Oiço-a uma e outra vez em repeat. É um mimo que ajuda o passo apressado, isto não é um passeio, é uma caminhada. Mudo de rua e dou de caras com o vento mas já tenho o casaco à coca, preso à cintura. Fresca esta noite de verão.

Atravesso o passeio e sigo atrás de dois PSP. Não vejo na policia uma postura negativa, por isso, nesta fase, agrada-me o reforço policial na rua. Nas costas dos agentes reparo, pela primeira vez, que a palavra “policia” brilha no escuro. Uau! Só mesmo a Lua para a polícia fazer um brilharete. Continuo em frente. Atravesso a rua com o sinal verde e… ponho o pé na discoteca!

Poderosa, enorme, espaço infinito numa pista marcada aqui e ali por traços cinzentos que lhe dão perspectiva. Espaço e mais espaço, prédios bonitinhos cor de laranja a contornar a disco, esplanadas com luzes, mas lá ao longe. Excepção para a estátua triste plantada no meio da pista de dança. Poderia ser o bar, sempre ganhava alguma dinâmica e luz.

Olhei para o Tejo e foi aí que a vi focada em mim. Se estava cheia ou quase cheia, não faço ideia. A Lua encheu-me toda, entrou pelos olhos adentro, espalhou-se pelo corpo, saiu pela pele em pós cintilantes. Sou uma minúscula partícula do luar. Mantive-me focada nela, tão elegante, com um raio de luz que mais parecia a fita de um chapéu de verão.

O You Tube fartou-se da Sweet Jane e, sem pedir licença, passou para a Temptation dos New Order. É a minha música top of the pops para dançar, dançar e continuar a dançar! Fechei o casaco e fiz o que me era pedido. Dancei! Mal reparei nas pessoas que por ali passavam, levavam os olhos pregados no chão e nas suas vidas. Continuei a dançar, a céu aberto neste mar de espaço, com o projector da Lua e o Tejo a provar que estava em Lisboa.

Dancei muito, mas com movimentos discretos, não dei pulos, como pede a música. Mas, mesmo assim, depois de tanto tempo a dançar no espaço finito de casa, foi avassalador dançar no espaço infinito!

Na Disco Moon os vírus, as máscaras, os beijos proibidos, as mortes, as estatísticas, a economia e presidentes energúmenos são barrados à porta. Fazem parte da interminável lista do lado negro da Humanidade. Não entram.

Ao som dos phones velhinhos entrego-me à Lua como se fosse ao homem que amo. Fico grata pela magia, ponho o capuz e regresso a casa devagarinho, leve, tão leve, como se pisasse algodão doce, como se eu fosse algodão doce.

Deixo as roupas e as preocupações caírem no chão, meto-me num duche fresco. Era boa ideia ir trabalhar, era mesmo. Mas sento-me cá fora a ver a rota do fumo do cigarro ir de encontro ao astro cintilante. Vou atrás dele, mergulho na Lua, nos milhões de voltas que deu à volta da Terra e chego ao meu carro parado em frente a um pinhal com o namorado alemão.

E agora? Como chegamos à festa? Atravessamos o pinhal a pé, diz-me. Estás louco, entrar naquela escuridão? Nem pensar! Sónia, it’s full moon, we have light all the way. Encolhi os ombros e contrariada lá entrei no pinhal supostamente negro. Não era, tinha aquele holofote gigante que tornava as árvores prateadas e nos indicava o caminho. Foi a primeira vez que senti a intensidade da Lua. O poder.

Quando chegámos ao prado gigante onde a festa de transe já mexia com toda a gente, abracei-me a ele e beijei-o. Thank you for the moon.

Entregámo-nos ao ritmo da festa. E, se já tínhamos decidido que nos casávamos naquela aldeia da roupa branca em Santa Clara-a-Velha, depois da família se retirar, ficou assente que era ali que íamos dançar com os amigos. Uma festa à séria com a Lua cheia do nosso amor. Depois esgueirávamo-nos para o farol que nos colocava mais perto da Lua, mais próximos um do outro.

Volto à poltrona à porta de casa. Apago o cigarro. Foco-me nela pela última vez. Assim que adormeço danço na Praça do Comércio, no prado alentejano, no Lux, no festival Boom, nas festas de miúdas onde replicávamos as coreografias das Doce. Danço onde, quando e como quiser. Estou com a Lua.

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