Sons de Cascais pelos anos 50…

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Mais atentos nos sentimos agora, com as restrições pandémicas, a quanto nos rodeia, até porque, para muitos de nós, ‘confinamento’ significou ficar-se preso entre quatro paredes. Tudo ganhou maior dimensão. Estranhámos a ausência de tráfego; já não há riscos brancos de aviões desenhados no azul; acabámos por perceber melhor que havia, todas as manhãs, um casal de rolas em mui dengoso despique; até o esvoaçar das moscas se ouvia…

Interroguei-me pelos sons de Cascais. Desta sua zona ocidental, sobretudo. Já a 28 de Maio de 2017, aquando do Concerto Acústico que o grupo cascalense «Cantares da Terra» levou a efeito no auditório da Casa das Histórias Paula Rego, fui desafiado a falar dos «Sons de Cascais». E aceitei, por me haver proporcionado mui salutar retorno à minha infância passada onde ainda hoje eu vivo. A pandemia trouxe tudo de novo à tona.

Pelas noites de Verão, havia sempre um grilo ou dois a despique com o ralo da esquina na terra em restolho. Um desafio para, no dia seguinte, tentarmos, mui sorrateiramente, descobrir onde é que o grilinho se escondia e, caso a paciência nos houvesse proporcionado a descoberta, armados de uma palhinha, esgaravatávamos na toca e fazíamo-lo sair para o mantermos depois em cativeiro, com a gaiola no prego da parede ao pé da porta, com folhinhas de alface para o alimentar. Grigri, grigri… Deliciávamo-nos.

Também ouvíamos o mocho. Ou dois. Geralmente, dois. Um, no alto do pinheiro bravo meio despido; o outro, não se sabia onde estava, só se ouvia além. Um piar triste, de mau agoiro – dizia-se, certamente por só se ouvir de noite, nesse tom de lamento.

Personagens a que se ligasse o som: três. As peixeiras, a Carolina ou «a menina Sara»: peche fresco! – era o pregão diário. Ou o mais comum, em todo o Portugal: Vivinha da costa, ó freguesa! O azeiteiro, de carroça armadilhada com toda a espécie de trastes para o azeite, o vinagre, o petróleo, o álcool desnaturado… Fazia-se anunciar, semanal ou quinzenalmente, por uma corneta, que eu admirava, toda luzidia no seu amarelo. Nunca fui capaz de lhe pedir para soprar nela. A terceira personagem vinha de vez em quando e eu tinha por ele uma ‘atracção’ especial (se calhar, por isso é que fui para Arqueologia!): era o Mariguta! Ferrevelhe!– apregoava ele, numa voz quase de falsete…

Então e motores não havia? Na quinta ao lado, o guincho compassado de um aeromotor a tirar água do poço. De vez em quando, um cocciolo. Já não me lembro do nome do dono, mas esse primeiro modelo das motorizadas era a admiração da pequenada! Chamava-se assim porque era a marca dele.

De carros lembro-me do Volkswagen da Quinta da Bicuda. Nem sempre queria pegar e lá ia o Sr. Joaquim dar duas ou três voltas à manivela à frente para o motor de arranque dar de si!

No ar só a “avioneta do Champalimaud”, que levantava voo da pista da Marinha. Por vezes, alguém se aventurava a fazer com ela o que hoje sei que se chamam loopings e ficava com um medo danado que aquilo caísse. Mas também sonhava como seria aventura guiar uma geringonça daquelas.

Não, errei, não era só a avioneta familiar, eram também os caças da Base Aérea de Sintra, que vinham roncar para os céus de Cascais em exercício.

E, por falar em exercício, ocorre-me sempre aqueles dois dias, creio que foram dois, em que tivemos fogos reais da artilharia antiaérea e de costa. Todas as baterias apontadas ao Guincho! As bombas zuniam pelo ar, que medo! Tinham dito que precisávamos de ter as janelas abertas, como na altura em que o canhão de Alcabideche fazia fogo e era um tiro a ribombar pelas quebradas! E os caças também desciam a pique sobre a zona da gurita ao pé do Guincho e largavam bombas. Um cenário de guerra, com os fios das comunicações estendidos ao longo das vias…

Guincho faz-me lembrar noites negras de Inverno. O vento soprava forte da serra, o aguaceiro tentava entrar pelas telhas vãs, roncava o farol do Cabo da Roca e ouvíamos o fragor da rebentação. «Que Nossa Senhora proteja os marítimos!» – balbuciava minha mãe. Ouvia-se bem em Birre, na Barraca de Pau e até no Cobre, porque a ausência do casario e a limpidez da atmosfera traziam-nos de mais perto o rugido das vagas, o angustiante clangor da «roca» da Roca… Nevoeiro no mar! Deus queira que não haja naufrágio, se não lá teremos a sirene a chamar os bombeiros.

A sirene ainda hoje nos acompanha. Dia em que não toque o meio-dia – em Cascais, nos bombeiros dos Estoris e nos de Alcabideche – mais ou menos em uníssono, é dia em que nos perguntamos porquê, que terá acontecido? O toque do meio-dia é sagrado, quase a lembrar o canhão que, ao meio-dia solar em ponto, disparava no Palácio Real da Pena. Há todo um código de toques: dois, acidente de viação; três, incêndio; quatro, desastre no mar.

A pandemia e o seu cortejo de reclusões a transportarem-nos, portanto, para… um outro mundo, em que os sons da Natureza bem se sobrepunham a um raro matraquear mecânico e os velhotes ainda longamente mantinham ouvidos ‘de tísico’, capazes de descobrir onde é que rato andava a fazer das dele!…

1 comment

  1. Mais um belíssimo texto de José D´Encarnação. A propósito de sons musicais de agora, leva-nos por uma viagem pelo Tempo até à velha Cascais, aos pregões das peixeiras, à chegada do azeiteiro anunciado por corneta, à cantilena do ferro-velho que fielmente passava. E os motociclos, os automóveis, a avioneta do senhor mais rico…O silêncio maior deixava ouvir até o arrulhar dos pombos, como na infância aquando da caça aos grilos. Deixava ainda que o coração ficasse constrangido com a passagem do vento que, vindo da serra de Sintra, ia soltar os brados no mar para adensar a sorte dos marítimos. E as sirenes que então anunciavam desgraça, mas ficaram até hoje como som de bom agoiro. É sempre uma delícia saborear os textos deste arqueólogo (e muito mais) que tão bem sabe analisar o pulsar do Tempo.

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