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Cascais, estacionar legalmente é virtualmente impossível

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Cascais, bairro das Fontaínhas. Hoje mal se podia andar pelos passeios, mas é mais ou menos o mesmo em qualquer dia da semana. Depende mais da hora do que do dia da semana. De manhã e ao fim da tarde, é assim como as fotografias mostram. Muitos carros estacionados em cima dos passeios, alguns de modo a que quem quiser passar terá de ir para o asfalto e correr o risco de ser atropelado.

É evidente que há aqui culpas a repartir entre os moradores, a autarquia e a fiscalização. Os moradores param o carro onde podem e vão para casa, sentam-se no sofá a ver televisão, almoçam ou jantam, dormem até ao dia seguinte, quando voltam a retirar o carro para se deslocarem. A autarquia porque não cria condições para as pessoas poderem estacionar os seus veículos particulares. Os edifícios de habitação foram construídos e licenciados sem garagens. As pessoas precisam dos carros e não os podem levar para debaixo da cama. Estacionam à balda, quem tiver que passar que se lixe. Não é a primeira vez que pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas, invisuais, ou gente que vai carregada de sacos das compras têm dificuldade em passar pelos passeios das Fontaínhas. Por fim, a polícia sabe bem o que aqui se passa e fecha os olhos, talvez a pedido da autarquia ou talvez porque os próprios polícias percebam o drama de quem aqui vive no que diz respeito ao estacionamento.

Cascais, Fontaínhas

Mas tem de haver uma solução. Até porque não fazer nada apenas favorece aqueles que têm a obrigação de resolver os problemas dos munícipes. O estacionamento dos automóveis é um problema que tem de ser resolvido, a segurança dos peões é outro problema que tem de ser acautelado, o acesso aos estabelecimentos comerciais é um direito que não pode ser prejudicado, até porque os comerciantes pagam taxas municipais para terem porta aberta.

Adios Maradona

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Uma mulher rica nunca diz que é rica. Põe um colar de pérolas e pronto! Ou coloca a mala Hérmes em cima da mesa. Foi o que me disse a minha amiga rica. Ligou do seu novo telemóvel desdobrável. Abre e parece um livro.

“Estou em Nápoles, porque não podia perder a homenagem a Maradona, um deus nesta cidade cheia de colinas, onde ninguém respeita os semáforos. É tudo Avanti! . E o melhor é acelerar para não ser abalroada por trás.”

“Aluguei um Alfa Romeo 4C Spider descapotável de fazer inveja ao Rolls Royce de Herman José. Que é um carro fora de moda. E qual é a cor? Amarelo. A cor abençoada do Vaticano. Também combina muito bem com um vestido da Fátima Lopes. que agora tem uma loja giríssima na internet.”

“A Fatinha é uma jovem lindíssima que não esconde os 56 anos. Ninguém acredita. O seu corpo é perfeito e raramente vai ao Holmes Place da Avenida da Liberdade. Não conheço a família, mas o milagre é genético. De certeza. Com esta tirada já posso comer mais um pastel de nata. Infelizmente, os napolitanos não seguiram os conselhos do senhor ministro Alvarinho e pastéis de nata nem vê-los. Só pizzas e Camorra. A propósito tenho andado a perguntar onde ponho o lixo, porque aqui o lixo vale muito e é motivo de tiroteio. Pum! Pum! Vejam lá!”, papagueava ela que quando começa a falar não se cala…

“Deixemos as coisas tristes. Vou à Piazza del Plebiscito ver os cartazes do Maradona e desfrutar do meu lindo Alfa Romeu, nesta cidade que há 160 anos fazia parte do reino da duas Sicílias. Addio, pero ora, Maradona!”. E desligou.

Ramalho Eanes e a cimeira da NATO há 43 anos

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Ramalho Eanes tinha sido eleito Presidente da República em Julho de 1976 com 61% dos votos, contra 16% para a extrema-esquerda de Otelo Saraiva de Carvalho. O país borbulhava de acontecimentos políticos e ainda respirava o ambiente gerado pelo 25 de Novembro de 75, dia em que Eanes dá o peito à contrarrevolução. O General Costa Gomes tinha decretado o estado de sítio na Região de Lisboa, carros eram revistados por populares armados nas ruas, informação e contrainformação conviviam numa disputa para destabilizar o país e enervar as pessoas. Os americanos andavam nervosos com medo que os comunistas criassem um estado radical na ponta da Europa, virado para o Atlântico e que todo o seu trabalho de sapa em Portugal fosse … “por água abaixo”.

A NATO/OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) de que Portugal fora um dos países fundadores em 1949, cinco anos após o fim da II Grande Guerra, era um organismo ao qual Lisboa devia muito da ajuda em equipamento militar no início da chamada Guerra Colonial.

As coisas não andavam bem a nível internacional, a guerra-fria estava mais quente que nunca, Jimmy Carter subia à Presidência dos Estados Unidos em Janeiro de 1977, a Organização do Tratado do Atlântico Norte precisava de mostrar a força dos aliados ocidentais e pede ao Reino Unido para organizar a habitual reunião anual, em Londres, calendarizada para 9 de Maio, sob o tema “O futuro da NATO”.

Esta seria a primeira visita oficial do Presidente Ramalho Eanes ao estrangeiro. Visita muito importante na medida em que Portugal andava nas bocas do mundo e nem sempre pelas melhores razões.

Na RTP, ainda a preto e branco, vivíamos o frenesi dos dias quentes pós-revolução e ainda se respirava o famoso “olhe que não, doutor, olhe que não” que Álvaro Cunhal tinha usado para contestar a acusação de Mário Soares em como o PCP queria instituir uma ditadura em Portugal. Isto passou-se em 6 de Novembro de 1975 e estava-se a 19 dias do 25 de Novembro. Em Maio de 1977 já se funcionava com alguma normalidade na RTP.

Coube-me ser o jornalista indicado para acompanhar a visita do PR a Londres, que incluía uma recepção à comunidade portuguesa naquela cidade.

A BBC era a estação hospedeira, o Centro de Imprensa, perto do nº. 10 da Downing Street era a redacção provisória e confortável das centenas de jornalistas deslocados a Londres. Estávamos perto do local da Reunião da NATO e do Buckingham Palace residência da Rainha.

Os americanos tinham alugado um hotel inteiro para os seus enviados especiais ao evento e ali instalaram o seu Centro de Imprensa, um manancial de informação inesgotável durante todos aqueles dias de Londres. Isto porque, por motivos de segurança, só uma equipa de televisão é que era admitida para cobrir os trabalhos da Cimeira, ou a BBC ou uma cadeia americana que depois distribuíam pelas outras estações presentes.

Nós e todos os outros não fomos autorizados a estar presentes na cerimónia de abertura dos trabalhos coisa que me causava alguma angústia pelo facto de ter lá “o meu Presidente” na sua primeira viagem internacional.

Tínhamos de nos contentar com as imagens dos outros. E é aí que nós, os jornalistas portugueses enviados à Cimeira, damos conta da grande gaffe do Presidente Carter ao festejar a presença do general Ramalho Eanes, “presidente da Espanha”. Contaram-nos que Eanes, sempre com o seu ar sério e compenetrado, quase caía da cadeira com o sobressalto que teve. Carter tentou reparar a asneira mas o mal já estava feito.

Aliás, Jimmy Carter ficou conhecido como o “rei das gaffes”. Nesses dias de visita a Londres, num banquete oferecido pela rainha de Inglaterra Isabel II antes da reunião da NATO, Carter protagonizou, uma cena caricata na cerimónia de apresentação dos convidados à rainha e à sua mãe. Em vez da vénia protocolar, Carter beija a rainha-mãe na boca. O incidente perturbou seriamente as relações entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, que só viriam a normalizar-se com Ronald Reagan.

Os trabalhos da reunião da NATO deram aso a perceber-se que o Presidente Eanes era altamente considerado pela Organização e só não foi a vedeta porque Eanes é Eanes e o Presidente dos Estados Unidos estava lá. Na tradicional foto de família, Eanes figura na primeira fila ao centro ladeado pelo então Secretário-geral da NATO Joseph Luns e pelo primeiro ministro britânico James Callaghan o que constituiu um forte sinal da importância que lhe fora dada como representante de Portugal.

Na Argentina dizem que D10S morreu, o que é um exagero

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Diego Maradona marcou muitos golos com o pé esquerdo e tinha o coração à esquerda, igualmente. Dizemos isto porque há muitos que não têm o coração no lado certo. Mas Maradona tinha, coisa que não faz dele necessariamente uma pessoa melhor que outros. Certamente que foi um tipo com muitos defeitos e imperfeições, com toda a certeza que cometeu actos ilegais e impróprios, ninguém duvida de que errou ao longo da vida. Mas não é disso que falamos, aqui e agora.

Falamos das opções políticas do cidadão. O facto de ser uma figura pública em todo o Mundo, não o coibiu de revelar as suas ideias e ideais. Por alguma razão as tatuou na pele. Bem à vista de todos. Na perna esquerda uma tatuagem de Fidel Castro, o líder cubano que durante décadas fez de Cuba um problema insolúvel no “quintal” da poderosa América. No braço direito, o rosto icónico de Che Guevara, o guerrilheiro símbolo da esquerda durante a “Guerra Fria”.

Convicto esquerdista? Maradona garantia que sim e demonstrava-o nos apoios que prestava em público aos líderes sul-americanos que enfrentaram a hegemonia dos Estados Unidos. Lula da Silva, Hugo Chavez, Evo Morales, Fidel Castro. Não falhou nenhum.

No dia em que Lula saiu da prisão, Maradona escreveu no Instagram que “hoje fez-se justiça”, com uma foto onde estão os dois abraçados. O seu último gesto de solidariedade foi ter morrido no mesmo dia em que Fidel morreu: 25 de novembro.

Na escola EB 2 da Venda do Pinheiro, 3 casos e nenhum teste de rastreio

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Alunos, funcionários e professores da EB 2 da Venda do Pinheiro não serão testados para rastreio do covid-19 nem mesmo depois de terem estado em contacto com pessoas com essa doença. É o que tem acontecido nos últimos dias, com três casos de covid-19 durante esta semana que acaba agora.

A informação que chega a casa dos pais e encarregados de educação também é escassa. A comunicação da escola limita-se a referenciar que há mais um caso, sem acrescentar nada mais de substantivo quanto à situação que o surgimento de mais casos de covid-19 provoca na escola. A informação fornecida pela escola não especifica se se trata de aluno, funcionário ou professor infetado.  

Não há alunos nem professores testados, como se o uso de máscara fosse o suficiente para evitar contágios. Sob anonimato (para evitar chatices com a direção da escola), um funcionário disse que “parece que nem os professores têm direito a testes, porque, segundo a Delegada de Saúde de Mafra, estão sempre com máscara ao pé dos alunos” acrescentando que “acho que andam a brincar com a saúde dos professores, dos alunos e das famílias de todos.”

Em ambiente escolar a propagação do coronavírus está facilitada. As salas de aula continuam cheias como estavam antes da pandemia, nos recreios continua tudo à molhada nas brincadeiras habituais e nas jogatanas de futebol, imaginamos que nada mudou nas salas de professores onde eles se concentram nos intervalos e, muitas vezes, onde aproveitam para comer alguma coisa (e tiram a máscara).

Dentro desta escola estão mais de mil pessoas, entre alunos, funcionários e professores. Com três casos de covid-19 numa semana, talvez tivesse sido mais prudente rastrear pelo menos quem tenha estado em contacto direto com essas pessoas.

Covid-19: cuidados intensivos, lotação esgotada

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Todos os dias se alcança um novo patamar máximo de doentes internados em cuidados intensivos com a doença covid-19. Hoje estão lá 529 pessoas, nas UCI dos hospitais portugueses. Relativamente aos internamentos hospitalares, o boletim epidemiológico da DGS revela que estão internadas 3.155 pessoas, menos 53 do que na sexta-feira.

Os internamentos em enfermaria e o número de novas infeções estão com tendência para baixar, pelo que se tem visto nos últimos dias, o que pode significar que já atingimos o pico desta segunda vaga.

O boletim diário sobre a pandemia diz ainda que nas últimas 24 horas morreram 87 pessoas e que há  mais 4.868 novos casos de infeção com o coronavírus SARS-CoV-2.

Portugal contabiliza pelo menos 4.363 mortos num total de 290.706 casos confirmados de infeção, indica ainda o boletim da Direção-Geral da Saúde.

Das 87 mortes registadas nas últimas 24 horas, 42 ocorreram na região Norte, 29 na região de Lisboa e Vale do Tejo, 11 na região Centro, quatro no Alentejo, uma no Algarve.

O Norte continua a ser a região do país a contabilizar o maior número de casos e de novas infeções diárias, concentrando nas últimas 24 horas cerca de 51% dos novos casos de covid-19, seguido de Lisboa e Vale do Tejo.

A Saúde e as prisões

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Numa época muito especial em que, manda a tradição, se reflete sobre o ano que passa e se projeta o próximo, é uma triste evidência que ventos ciclónicos continuam a varrer a população prisional do nosso país, centro das preocupações da APAR desde há mais de trinta anos.

No entanto, apesar dos obstáculos e inércias com que deparamos, é também evidente que esta associação tem granjeado projeção, sendo hoje entidade reconhecida como credível e capaz de influenciar decisões.

A libertação de milhares de reclusos, numa operação que decorreu com tão bons resultados que até surpreenderam pela positiva, bem como a forma fácil como a APAR garantiu mais de vinte mil assinaturas em recente petição à AR, incentivam-nos a continuar pelo caminho traçado.

Desde sempre ignorada pela Presidência, mas tendo agora como pano de fundo uma pandemia que atinge excecional incidência nas prisões, com números muito superiores ao de qualquer outra comunidade, a APAR conseguiu, pela primeira vez, marcar uma reunião técnica com entidades oficiais ligadas à problemática da Saúde.

Depois de ter envolvido a Ordem dos Médicos nesta ação, é óbvio que se irá sublinhar a necessidade de se implementarem planos de contingência específicos e também um manual de boas práticas, comum a todas as prisões. E, também, não se deixará de abordar algumas falhas médico-sanitárias que urge reparar.

Também a denúncia de graves omissões, desvios e atropelos legais que penalizam reclusos e seus familiares e que, entretanto, se generalizaram e multiplicaram, será motivo de análise. Sobretudo quando, com a pandemia, até vigora uma lei de execução de penas que, aparentemente, seria mais humana e flexível.

Todos temos boa noção de que as prisões são locais de reinserção e de cumprimento de penas e não propriamente estâncias de lazer. Mas, numa sociedade moderna, digna e solidária, não podem persistir resquícios de campos de concentração, onde a tortura ainda é tolerada e o direito à vida menosprezado.

A APAR não deixará de apelar à consciência cívica e profissional dos nossos interlocutores que, tal como os reclusos, também atravessam tempos difíceis.

Pela dignificação da Justiça em Portugal, um dos países mais emblemáticos na defesa dos direitos humanos, logo no século XIX, iremos em frente…

A Lista de Pardal

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” Se a gente for a falar nos feridos.. aqui da nossa região e na companhia de que fiz parte, tivemos muitos feridos. Mortos, alguns. Mas feridos? Muitos mesmo. Um de Almoçageme ficou cego da vista e outro levou um tiro no peito que saiu pelas costas. Foi evacuado e morreu cá. A gente teve, na companhia cerca de 30 feridos, dez muito graves. Ainda hoje estão praticamente inutilizados, os que ainda não morreram.” Foi uma conversa pesada com Domingos Pardal. Muitas memórias tristes e um peso no coração.

Foi para a guerra contra vontade. Foi porque era obrigatório. Foi cumprir o que lhe diziam ser a obrigação de um cidadão português. Mas só iam os filhos do povo. Os filhos da elite conseguiam passar entre os pingos da chuva. “Quando o número de mortos e feridos aumentou muito, começaram a desertar. O sentimento de revolta era muito grande. Não havia aldeia em Portugal onde não houvesse filhos da terra mortos ou feridos”, diz-nos o senhor Pardal. Esteve dois anos na Guiné, entre 1964 e 1966. “Foi uma experiência infernal.” Diz fazer parte de uma “geração sacrificada” e não consegue compreender o abandono votado aos antigos combatentes. Nem apoio psicológico têm e muitos vieram com stress pós-traumático, como se sabe.

Era condutor e, dia após dia, sofreu a angústia de passar por cima de uma mina. Viu muitas explodir. Na memória guarda todos esses momentos, com uma exatidão impressionante: “Dia 28 de Fevereiro de 1966, uma viatura que eu conduzia explodiu numa mina e tivemos muito feridos. Um ficou sem uma perna e outros 7 foram hospitalizados. Dia 1 de Novembro de 1964, íamos buscar água e caímos numa emboscada. Eles viram-nos a ir e sabiam que tínhamos de voltar. O carro foi alvo de disparos com uma das balas a ficar a 10 cm do meu nariz. Lá nos conseguimos safar”. Numa outra vez, “a roda acionou a mina e ele desfez-se em bocados. Chegou com cerca de 70kg e entregaram-no com mais ou menos 2 kilos…”, é a memória que Domingos Pardal guarda de um rapaz do Mucifal que morreu depois de um ano de serviço militar.

Para Domingos a guerra foi um suplicio. A guerra na Guiné o exército português nunca venceria. Os “inimigos” estavam  bem preparados e tinham estudado metodologia portuguesa. Nem sempre se conseguiam cumprir os objetivos definidos pelos “cães grandes”.  “Para o mato, ia-se até capitão. Acima de capitão ninguém ia. O 2º comandante do batalhão ( que chegou a general) era comandante operacional do batalhão e mandou-nos fazer uma operação muito complicada. Não conseguíamos entrar. Foram enviadas três ou quatro companhias, cerca de 500 homens. O comandante operacional operava a 2000 metros de altitude num avião e disse: vocês tem de entrar, morra quem morrer Tínhamos medo mas, quando era preciso lá o ultrapassávamos. Agora. pedirem-nos para nos suicidarmos?? Não!. O capitão disse: vêm cá para baixo seu filho da puta e vamos os dois à frente. O capitão, destemido e corajoso, era amigo dos soldados mas só chegou a major”, conta Domingos Pardal. Lá conseguiram entrar a 15 de maio de 1965. Essa investida em Cufar Nalu durou 3 dias e só foi bem sucedida com a ajuda de duas bombas de 500 kg de napalm, confessa Domingos Pardal. “Os comandos foram ver como tinha ficado a situação… os aviões Dakota mataram toda a gente”.

Faltava um mês para acabar a comissão de serviço, “no dia 15 de Abril de 1966, calhou-me por escala ir numa escolta. Quando entrámos numa zona minada, os soldados iam à frente a pé, com varas de ferro, picar o solo à procura de minas. A adrenalina estava ao rubro. Não queríamos cometer qualquer erro que pudesse vir a traduzir-se fatal sendo que estávamos a um mês de regressar. Havia minas. O Pino começou a tirar as minas com uma faca de mata e eu sugeri-lhe, aos gritos, que pegasse numa granada e que explodisse aquilo tudo, não fosse uma das minas estar armadilhada e levá-lo com ela.” Safaram-se todos.

fotografias de Domingos Pardal

Saíu vivo e inteiro da Guiné, acompanhou a guerra pelas notícias que de lá chegavam. “Em 67, 68, 69, 70, os desgraçados levaram porrada e, no final da guerra, a Guiné estava na posse dos guerrilheiros do PAIGC.”

Lembra com saudade os comandos africanos, uma força de elite comandada por oficiais portugueses. Destemidos, conhecedores da tática dos seus compatriotas guineenses, foram deixados para trás quando Portugal saíu da Guiné. Poucos sobreviveram á vingança, às perseguições e aos fuzilamentos. Uma vergonha. “Uma página negra da descolonização. Devíamos tê-lo previsto; servimo-nos deles e depois virámos-lhes as costas”.

o desenho da estátua em honra dos combatentes naturais de Sintra mortos na guerra colonial

A guerra trouxe miséria e tristeza coletiva. Os que sobreviveram “somos hoje como irmãos”. Domingos desenhou e propôs que se erguesse uma estátua em Sintra pela memória dos que caíram em combate na guerra colonial. Uma proposta apresentada há cerca de 5 anos e que a Câmara Municipal de Sintra nunca aprovou (Basílio Horta, da elite salazarista, nunca foi à tropa). Seria uma estátua onde, nas três faces, estariam gravados os nomes de todos os sintrenses mortos na guerra. “Tenho uma lista com 33 nomes, mas podem ser mais”, diz Domingos Pardal.

RB/CN

a lista de Pardal

Porque é que a derrota de Trump não é a derrota do trumpismo

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A imensa satisfação com a vitória eleitoral de Joe Biden é inversamente proporcional  ao  profundo asco que nos inspirou a presidência de Donald Trump: a maneira descomplexada e despudorada como criminalizou os imigrantes, banalizou o racismo, negou as alterações climáticas e os estragos da pandemia, rasgou o acordo com o Irão,  cortou a ajuda humanitária à Palestina e duplicou o número de drones militares americanos no Iémen.

Sob este ponto de vista, podemos dizer com David Griscom (citado pelo filósofo americano Ben Burgis):  “Eis um show de que não gostaríamos de ver a segunda temporada”[1].

Dito isto, e passada a satisfação ou mesmo a euforia  da vitória -no fio da navalha, convém realçar  e com grandes perdas para o Partido democrata- temos de assentar os pés no chão. O homem recém-eleito para a casa Branca não vai unir uma América que teria sido dividida por Donald Trump. Não foi Donald Trump que dividiu a América. Foi a divisão da América que permitiu a ascensão de Donald  Trump ao poder. Uma coisa é ter exacerbado divisões, outra é tê-las criado.

Só a não  compreensão –por falta de clarividência ou oportunismo-   da(s) gigantesca(s) fractura(s) estaduniense(s)  ante-Trump, poderá alimentar ilusões sobre a sua reversão  na era Biden. Convém não esquecer, com efeito, que a eleição de Trump aconteceu em 2016,  após três décadas e meia de políticas neoliberais, inauguradas por Reagan no início dos anos 80,  e aplicadas com o mesmo fervor tanto pelos republicanos como pelos democratas que se foram alternando no poder, Obama incluído.

Tais políticas que se articulam em torno de três eixos –baixa da tributação das empresas e das classes abastadas,  livre-comércio no quadro da mundialização feliz e desregulamentação económica e financeira– levaram  à periferização das zonas desindustrializadas  pelas deslocalizações e à explosão das desigualdades, criando o viveiro onde se desenvolveram os  futuros eleitores de Trump: os brancos (muito) pobres, trabalhadores outrora eleitores democratas, que, desesperados com o desastre económico que se abateu sobre as suas regiões, e a incapacidade dos partidos mainstream de lhes darem resposta,   foram sensíveis ao apelo do candidato populista[2].

Os democratas não são, por conseguinte,  a solução ao  problema do populismo  nos Estados Unidos, já que são parte do problema. Como o disse em recente entrevista a um semanário francês  o  economista David Cayla[3], só o abandono dos tratados de livre comércio  e das políticas neoliberais poderia acabar com o populismo.

Ora, o eleito é a perfeita incarnação do neoliberalismo. Representante das elites  da mundialização feliz, Joe Biden  -como o seu par Kamala Harris, cuja nomeação foi saudada pelos meios financeiros[4]–   é tudo menos um amigo da classe trabalhadora, implicado que esteve -como veio lembrar há meses o jornalista e historiador Thomas Franck[5]– numa grande parte dos desastres que marcaram as últimas décadas de que destacamos, no plano económico, os acordos comerciais contrários aos interesses dos trabalhadores, e uma legislação cruel sobre as falências.

Refreado pelo actual contexto cuja gestão calamitosa o levou ao poder e os ventos de desglobalização  que têm vindo a soprar, Joe Biden poderá vir a conter o tempo necessário  os seus ardores neoliberais, tudo dependendo igualmente da pressão que sobre ele poderão exercer os inúmeros movimentos de cidadãos e de activistas, suscitados pela nova esquerda americana, cuja mobilização foi fundamental para o seu acesso ao poder.

Mas será a contragosto que este amigo dos ricos e da guerra, dos encarceramentos em massa, e das restrições às liberdades individuais, se desviará, mesmo de forma infinitesimal, das ideias neoliberais. Assim sendo, o mandato do  novo presidente dos EUA –como de resto da sua vice-presidente– terão servido para fortalecer o viveiro do trumpismo e favorecer a sua futura vitória eleitoral.


[1] Ben Burgis, No Honeymoon for Joe Biden, in Jacobin, 11/07/2020, retomado  por  Médiapart, em 9 novembre 2020; somos nós que traduzimos a partir da versão francesa

[2] Sobre este assunto, poder-se-á  ler com muito proveito o artigo da socióloga americana Arlie Hochschild, analisando os resultados  do inquérito que realizou no Estado da Louisinane, um dos mais pobres dos EUA, onde uma maioria da população votava pelos candidatos republicanos e que meses mais tarde daria a vitória a Trump; Pourquoi Donand Trump a séduit l’éléctorat  populaire, Anatomie d’une colère de droite, in Le Monde Diplomatique, versão francesa, Agosto de 2018, artigo adaptado do livro da autora “Strangers in Their Own Land: Anger and Mourning on the Americain Right , The New Press, New York, 2016 

[3] David Cayla, in entrevista a Marianne, 9 de Novembro de 2020 ; somos nós que traduzimos

[4] Como o revela  este  título de um artigo do Wall Sreet Journal « O entusiasmo de Wall Street indica que as reformas financeiras não constituiriam  a prioridade deste governo”, onde se escreve que   “Biden conseguiu conter a ala esquerda do seu partido”, in Nomination de Kamala Harris: la victoire des milieux financiers et de l’aile modérée du parti démocrate, in le Vent se lève, 16 de  Agosto de 2020; somos nós que traduzimos

[5] Thomas Franck, « Avec le démocrate Joe Biden la gauche américaine a le cafard, Aux Etats-Unis, rien ne changera fondamentalement » in  Le Monde Diplomatique, versão francesa,  Junho de 2020

Vagar

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Pus o sono em dia, acordei literalmente ao meio dia, fiquei na ronha como se estivesse em Lisboa, saí para cumprimentar o mar. O meu spot para comer um sargo acompanhado com uma vista perfeita está de férias, de maneira que me decidi pela marisqueira. No final da refeição cheguei finalmente à vila que há muitos anos tornei minha.

Depois de parar de procurar, encontrei os amigos daqui. Os três de uma só vez. Sentei-me à conversa com eles, aventurei-me num tirinho da aguardente da terra. É para homens de barba rija, por isso, com respeito, deixei o cálice de medronho a meio.

Perdi o pôr do sol, fui despedir-me do mar, voltei para casa. À porta estava a D. Fernanda. Conversámos sobre o pão delicioso, os enchidos, o irresistível queijo fresco de cabra. Deu-me a dica onde comprar os melhores. Pelo meio da conversa referiu-se mais do que uma vez ao marido, assim, ao de leve, como quem não quer a coisa. Coisa é uma palavra estranha para essa coisa tão estranha que é a morte. Falou do seu Joaquim. Do terreno que tratou com tanto amor em vez de ir ao médico tratar-se. O cancro levou-o num mês. Ela estava lá, a seu lado. Disse que foi melhor assim, que de outra forma iria revoltar-se com os médicos que não tinham feito tudo por ele. Fizeram, ela fez-lhe uma canja com uma galinha da criação, o último mimo que deu ao seu Joaquim. Há três anos. Na altura, conta, teve a neta por perto a dizer-lhe que estava ali, que os outros que a amavam estavam todos ali para ela. Falou com calma, sem dramatismos, eu contive as lágrimas por ambas.

Repeti a frase em catadupa. A morte do meu Pirata não se podia comparar à do seu Joaquim, as pessoas e os animais não estão ao mesmo nível. Contei-lhe que estava ali para conseguir acabar de contar a sua história, há tanto tempo atravessada. Repeti de novo que a morte do seu Joaquim e do meu Pirata não eram comparáveis até ela me interromper. Disse que percebia muito bem pois sempre houve cães pela casa e pelo terreno. Mas nenhum era como o Chico, os outros cães eram de toda a gente, o Chico era do seu Joaquim. Com um sorriso que nos amparou, repetiu de novo que compreendia e contou-me que o Chico mandou a alegria fora quando perderam o Joaquim dela. Morreu um mês depois, sem causa aparente. Disse-lhe que o amor nunca morre e ela repetiu: “O amor nunca morre. Obrigada, soube bem desabafar, deve estar cheia de frio”. “Não, não tenho frio algum, estou bem”. Toquei-lhe no braço, agradeci de novo, não fosse o maldito vírus tínhamo-nos abraçado.

Comi dois pratos de sopa, ataquei de novo o queijo de cabra e a chouriça picante enquanto via a série lamechas. Deixei cair umas lágrimas de consolo.

Desde que saí de Lisboa que vivo numa avalanche de emoções, boas, na sua maioria. O riso dos amigos que me trouxeram até aqui e o amor que sinto por esta terra têm-me levado ao colo. Sim, tenho uma avalanche de emoções à flor da pele, mas não é de agora. Vivi o confinamento, e a saga que se tem seguido, com imenso optimismo, vivi a morte do Pirata rodeada de amigos mas, em ambos os casos, passei ao lado da dor. Agarro-me ao optimismo quando ela me quer atacar, foi para lhe escapar que vim parar aqui.

Contava que o mar gritasse e desse murros nas rochas por mim. Mas não, só me devolve um doce embalar, oferece-me de mão aberta o rendilhado das ondas que se estende até a meus pés e morre na areia. Contava com o silêncio pesado da vila mas só consigo ver casinhas caiadas que os catraios contornaram a lápis de cor. Tão bonitas. Contava com um céu pejado de nuvens negras mas todos os dias as estrelas me acompanham ao café. Contava perder-me pela costa alentejana mas é precisamente no infinito da paisagem que descubro um caminho para me encontrar. Devagar, estou na terra do vagar.