A Lista de Pardal

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” Se a gente for a falar nos feridos.. aqui da nossa região e na companhia de que fiz parte, tivemos muitos feridos. Mortos, alguns. Mas feridos? Muitos mesmo. Um de Almoçageme ficou cego da vista e outro levou um tiro no peito que saiu pelas costas. Foi evacuado e morreu cá. A gente teve, na companhia cerca de 30 feridos, dez muito graves. Ainda hoje estão praticamente inutilizados, os que ainda não morreram.” Foi uma conversa pesada com Domingos Pardal. Muitas memórias tristes e um peso no coração.

Foi para a guerra contra vontade. Foi porque era obrigatório. Foi cumprir o que lhe diziam ser a obrigação de um cidadão português. Mas só iam os filhos do povo. Os filhos da elite conseguiam passar entre os pingos da chuva. “Quando o número de mortos e feridos aumentou muito, começaram a desertar. O sentimento de revolta era muito grande. Não havia aldeia em Portugal onde não houvesse filhos da terra mortos ou feridos”, diz-nos o senhor Pardal. Esteve dois anos na Guiné, entre 1964 e 1966. “Foi uma experiência infernal.” Diz fazer parte de uma “geração sacrificada” e não consegue compreender o abandono votado aos antigos combatentes. Nem apoio psicológico têm e muitos vieram com stress pós-traumático, como se sabe.

Era condutor e, dia após dia, sofreu a angústia de passar por cima de uma mina. Viu muitas explodir. Na memória guarda todos esses momentos, com uma exatidão impressionante: “Dia 28 de Fevereiro de 1966, uma viatura que eu conduzia explodiu numa mina e tivemos muito feridos. Um ficou sem uma perna e outros 7 foram hospitalizados. Dia 1 de Novembro de 1964, íamos buscar água e caímos numa emboscada. Eles viram-nos a ir e sabiam que tínhamos de voltar. O carro foi alvo de disparos com uma das balas a ficar a 10 cm do meu nariz. Lá nos conseguimos safar”. Numa outra vez, “a roda acionou a mina e ele desfez-se em bocados. Chegou com cerca de 70kg e entregaram-no com mais ou menos 2 kilos…”, é a memória que Domingos Pardal guarda de um rapaz do Mucifal que morreu depois de um ano de serviço militar.

Para Domingos a guerra foi um suplicio. A guerra na Guiné o exército português nunca venceria. Os “inimigos” estavam  bem preparados e tinham estudado metodologia portuguesa. Nem sempre se conseguiam cumprir os objetivos definidos pelos “cães grandes”.  “Para o mato, ia-se até capitão. Acima de capitão ninguém ia. O 2º comandante do batalhão ( que chegou a general) era comandante operacional do batalhão e mandou-nos fazer uma operação muito complicada. Não conseguíamos entrar. Foram enviadas três ou quatro companhias, cerca de 500 homens. O comandante operacional operava a 2000 metros de altitude num avião e disse: vocês tem de entrar, morra quem morrer Tínhamos medo mas, quando era preciso lá o ultrapassávamos. Agora. pedirem-nos para nos suicidarmos?? Não!. O capitão disse: vêm cá para baixo seu filho da puta e vamos os dois à frente. O capitão, destemido e corajoso, era amigo dos soldados mas só chegou a major”, conta Domingos Pardal. Lá conseguiram entrar a 15 de maio de 1965. Essa investida em Cufar Nalu durou 3 dias e só foi bem sucedida com a ajuda de duas bombas de 500 kg de napalm, confessa Domingos Pardal. “Os comandos foram ver como tinha ficado a situação… os aviões Dakota mataram toda a gente”.

Faltava um mês para acabar a comissão de serviço, “no dia 15 de Abril de 1966, calhou-me por escala ir numa escolta. Quando entrámos numa zona minada, os soldados iam à frente a pé, com varas de ferro, picar o solo à procura de minas. A adrenalina estava ao rubro. Não queríamos cometer qualquer erro que pudesse vir a traduzir-se fatal sendo que estávamos a um mês de regressar. Havia minas. O Pino começou a tirar as minas com uma faca de mata e eu sugeri-lhe, aos gritos, que pegasse numa granada e que explodisse aquilo tudo, não fosse uma das minas estar armadilhada e levá-lo com ela.” Safaram-se todos.

fotografias de Domingos Pardal

Saíu vivo e inteiro da Guiné, acompanhou a guerra pelas notícias que de lá chegavam. “Em 67, 68, 69, 70, os desgraçados levaram porrada e, no final da guerra, a Guiné estava na posse dos guerrilheiros do PAIGC.”

Lembra com saudade os comandos africanos, uma força de elite comandada por oficiais portugueses. Destemidos, conhecedores da tática dos seus compatriotas guineenses, foram deixados para trás quando Portugal saíu da Guiné. Poucos sobreviveram á vingança, às perseguições e aos fuzilamentos. Uma vergonha. “Uma página negra da descolonização. Devíamos tê-lo previsto; servimo-nos deles e depois virámos-lhes as costas”.

o desenho da estátua em honra dos combatentes naturais de Sintra mortos na guerra colonial

A guerra trouxe miséria e tristeza coletiva. Os que sobreviveram “somos hoje como irmãos”. Domingos desenhou e propôs que se erguesse uma estátua em Sintra pela memória dos que caíram em combate na guerra colonial. Uma proposta apresentada há cerca de 5 anos e que a Câmara Municipal de Sintra nunca aprovou (Basílio Horta, da elite salazarista, nunca foi à tropa). Seria uma estátua onde, nas três faces, estariam gravados os nomes de todos os sintrenses mortos na guerra. “Tenho uma lista com 33 nomes, mas podem ser mais”, diz Domingos Pardal.

RB/CN

a lista de Pardal

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