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Joaquim Oliveira transfere protesto para S. Bento

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Montou a tenda no passeio mesmo em frente à escadaria do parlamento. Quando a Assembleia da República reabrir, com novos deputados e novos partidos, veremos quem se aproximará deste homem para o escutar, “para que aqueles que dizem que lutam contra a corrupção façam das suas promessas atos”, escreveu Joaquim Oliveira no seu Facebook.

Digamos que a “carapuça” serve a todos os grupos parlamentares e deputados únicos. Não há partido político que não venda ideias sobre como combater a corrupção.

Mais uma vez, a PSP revela uma atitude de grande respeito pelos direitos de manifestação deste homem, em protesto permanente contra várias personalidades e instituições do Estado que, segundo ele, se conluiaram para o espoliar de todos os seus bens, nomeadamente terrenos e casas que possuía em Albufeira, no Algarve.

Joaquim Oliveira diz que a polícia tem sido “do melhor, vem até aqui conversar e perguntam sempre se é preciso alguma coisa. Mandei um email para o primeiro ministro e um chefe disse que ia pedir ao comissário de serviço para que eu fosse atendido o mais rápido possível.”

Assembleia da República continua fechada

Depois de 85 dias acampado em frente ao Palácio de Belém, Joaquim Oliveira foi aconselhado a mudar o local do protesto, uma vez que o assunto poderá ter algum acolhimento junto de quem tem poder para intervir: Governo, grupos parlamentares ou deputados individualmente.

Para reabrir a Assembleia da República falta apurar, ainda, os resultados definitivos das eleições legislativas de 30 de janeiro. Isso só poderá acontecer depois de contados todos os votos dos emigrantes. Hoje, seis dias depois das eleições, o site da Comissão Nacional de Eleições ainda dava por contabilizar 27 consulados, sem especificar quais. Isto é, ainda faltam eleger 4 deputados.

Já há carros a energia solar

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Nunca nada é definitivo, os cientistas não dormem. Evidência disto é a comercialização prevista para o verão de 2022 do primeiro automóvel a energia solar.

Trata-se de um carro holandês, a empresa surgiu propositadamente para desenvolver este projeto. A empresa chama-se Lightyear e o carro de que falamos é o Lightyear One. Ou seja, quem viver há de ver o Lightyear Two e o Three e o Four…

Motor elétrico e 5 metros quadrados de painéis solares de última geração que cobrem praticamente todo o veículo. O carro tem muitos pormenores técnicos interessantes, deixamos isso para os coca-bichinhos da tecnologia. O que interessa dizer à maioria dos leitores é que a fábrica só vai produzir 946 veículos e que cada um custa 150 mil €. Como tudo o que é novidade e tecnológico, é coisa só para ricos. Ficamos com a esperança de que os chineses consigam copiar e fazer a 25% desse preço.

Com a bateria completamente carregada, este carro tem autonomia para 725 quilómetros, mas como a bateria é alimentada pelos painéis solares, em teoria a autonomia é de meses a perder de vista. Ou seja, é conveniente deixar o carro fora da garagem durante o dia. No site da Lightyear já se aceitam encomendas. Mas tem de pagar tudo logo no ato da reserva.  

O assaltante do quartel de Évora

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Hermínio da Palma Inácio foi um ousado combatente contra o regime de Salazar. Luís Vaz é o historiador que se tem dedicado a registar as ações e os ideais do dirigente da LUAR – Liga de Unidade e Ação Revolucionária, um dos movimentos antifascistas que mais se notabilizaram nas décadas de 60 e 70.

Palma Inácio foi quem em 1961 executou o célebre desvio do avião da TAP usado para lançar 100.000 panfletos contra a ditadura, sobre Lisboa e arredores. Um feito espetacular que correu mundo, mesmo se naquela época não havia redes sociais nem vídeos virais. Foi preso várias vezes pela PIDE, conseguiu sempre fugir das cadeias.

ficha da PIDE de Hermínio da Palma Inácio

Há dias, no centenário do nascimento de Palma Inácio (1922-2009), o historiador Luís Vaz apresentou o quarto livro sobre a vida de Palma Inácio, “A LUAR e a Operação Diana”. Tratou-se de um assalto ao quartel de Évora para obter armamento. Assalto executado por Francisco Seruca Salgado, oficial miliciano que teve um papel fundamental para o sucesso da operação e que, mais tarde, foi jornalista na RTP. Na altura do assalto, Palma Inácio estava detido em França, com um pedido de extradição da Justiça portuguesa. O assalto serviu não só para obter armas, mas para mostrar ao regime que não seria a prisão do dirigente que iria derrotar os combatentes da LUAR.

Levaram as armas e deixaram o quartel, depois de escreverem nas paredes da unidade militar “A LUAR vencerá”.

Seruca, assim era tratado na redação da RTP, foi sempre um homem sereno, simpático. Quem não conhecesse a história dele, jamais imaginaria que estava perante um tipo capaz de atos de grande coragem física. Morreu demasiado cedo, aos 62 anos.

O CDS-PP não deve “morrer”

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No rescaldo das eleições de dia 30, o facto relevante para mim é o “desaparecimento” do CDS das bancadas do Parlamento e, quiçá, da paisagem política do país. Acho péssimo.

Não partilho do pensamento político do CDS mas não aceito que um partido com a história deste na democracia portuguesa venha a desaparecer da vida política nacional.

O CDS faz falta – e mais agora, com a chegada de forças extremistas de direita – mais falta vai fazer.

Com um pensamento próximo da democracia cristã, o CDS, nos seus 47 anos de existência legal participou activamente na vida do país, fazendo parte de numerosos governos. Começou em 1978 no II Governo Constitucional em coligação com o PS. Depois esteve sempre activo na governação até 2015, com presença activa na AD (Aliança Democrática) em coligação com o PSD sob a presidência de Francisco Sá Carneiro. Chegou a ser a terceira força política no Parlamento quando obteve 24 deputados nas eleições de 2011.

O Partido assumiu-se sempre como católico, conservador e liberal. Ilustres personalidades nacionais tiveram a coragem de, em período de forte perturbação política e social no pós 25 de Abril de 74, darem vida a um novo partido de raiz católica e conservadora.

Nascido da acção de ilustres fundadores saídos do Estado Novo, em Julho de 1974, legalizado em Janeiro de 1975, foi um importante elemento estabilizador da vida política nacional por ocasião do negro período do PREC (Processo Revolucionário em Curso).

Nunca será demais relembrar os nomes desses corajosos homens: Freitas do Amaral, Amaro da Costa, Basílio Horta, Victor Sá Machado, Valentim Xavier Pintado, João Morais Leitão, João Porto.

E também aqueles que passaram pela cadeira da Presidência. Freitas do Amaral seria eleito o primeiro presidente do Partido. Seguiram-se Adriano Moreira, de novo Freitas do Amaral, Manuel Monteiro, Paulo Portas, Ribeiro e Castro, Paulo Portas outra vez, Assunção Cristas e, finalmente, Francisco Rodrigues dos Santos.

Importantes individualidades ligadas ao Partido produziram em Novembro do ano passado um documento apelando ao diálogo, à união, recusando que “o CDS-PP se autodestrua em guerrilhas de facção”. Não serviu de nada. Implodiu. Não é com atitudes paternalistas que se resolvem situações como a do CDS. É com vontade, trabalho e boa-fé.

Não se vislumbra para já no horizonte alguém com a firme intenção de “agarrar” no Partido e fazê-lo renascer. Isto é, sim, tal como no outro partido de quem foi “sócio” em alguns governos, apareceu alguém em fim de carreira “europeia”, disponível qual nadador-salvador vindo da fatigante vida de Bruxelas.

O país precisa de um partido assim, descendente de grandes figuras nacionais, com história, baluarte de bons costumes, barreira aos arrivistas que vão aparecendo no espectro político nacional.

O CDS faz falta à democracia deste país. Particularmente, agora, ainda que tenha de esperar quatro anos para regressar aonde pertence, ao Parlamento.

300 enfermeiros nas prisões

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Faltam 300 enfermeiros no sistema prisional, diz o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses. Num comunicado hoje divulgado através da agência Lusa, este sindicato diz que na grande maioria das cadeias portuguesas não há qualquer enfermeiro de serviço à noite.

“Face aos vários surtos de covid-19 a ocorrer nos estabelecimentos prisionais (EP) tivemos conhecimento que no período noturno os reclusos estão sem qualquer vigilância clínica”, afirma o sindicato na nota de imprensa.

“É ainda mais urgente agora a vigilância noturna e alguns acabam por ter de ser transferidos para outros EP onde há assistência noturna e enfermeiros que possam prestar essa assistência”, disse à agência Lusa o dirigente sindical Paulo Anacleto.

Segundo este sindicalista, está identificada a necessidade de serem contratados mais 300 enfermeiros para as prisões portuguesas.

A Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais não assume essa deficiência no serviço prisional, embora diga que está “prevista a abertura de concurso para pessoal de enfermagem a breve prazo”. A DGRSP não diz qual o número de vagas a preencher, mas diz que apenas existem no sistema prisional 195 enfermeiros, número manifestamente diminuto para as necessidades de 48 estabelecimentos prisionais.

As necessidades de cuidados de saúde não dizem respeito apenas à contenção da pandemia e tratamento de reclusos infetados. Essas necessidades são anteriores a esta circunstância, num sistema prisional sempre lotado ou com excesso de população e com uma elevada percentagem de reclusos de idade superior a 50 anos.

Pombos mortos

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Há pombos mortos nos passeios e estradas. Pombos adultos. O Inverno mata as aves. O frio. Quando encontro pombos mortos fico triste. Que solidão e que desamparo! E nobreza. Morrem sozinhos como aquele homem em França que caiu no passeio ao início da noite e na manhã seguinte tinha morrido de hipotermia. Aproximo-me sempre dos animais caídos para verificar se ainda estão vivos e posso socorrê-los. Quase nunca estão. Pergunto-me se me teria aproximado do francês que morreu de hipotermia. Ter-me-ia aproximado e indagado porque estava ali caído ou tê-lo-ia tomado como um velho bêbado caído? Caramba. Um velho bêbado caído não precisa de ajuda? Teria a obrigação de telefonar para o 112. É uma obrigação moral antes de ser cívica. Mesmo que estivesse na Rússia e não soubesse falar a língua.

René Robert morreu de hipotermia ao fim de 9 horas caído num passeio no centro de Paris

Não associo qualquer romantismo à cidade de Paris. Uma urbe enorme, fria, cara e onde reina a indiferença. Andei de autocarro sem pagar. Regalei-me a pisar as regras. Hei-de pisá-las sempre que puder e cada vez mais. Em França e em todo o lado.

No sábado, vi na 2 um doc sobre um músico sueco que se suicidou em 2018. Começou a destacar-se aos 18, afastou-se aos 26 e morreu aos 28. Uma década em que mal teve tempo para voltar a Estocolmo e quando voltou não se sentiu por lá bem. Avicii. Um daqueles músicos que sobem ao palco sozinhos, sem banda, para produzir música eletrónica nuns sintetizadores, nuns programas, numas máquinas. Seja o que for. O Obama referiu-o num discurso, pondo-o ao lado dos Abba. Nunca ouvi falar. Soube que Avicii existiu quatro anos após a sua morte. É provável que conheça os seus hits. Procurar no You Tube.

A semana passada S. disse que queria alcançar fama e sucesso. Falámos sobre o poder que a fama e sucesso conferem. Ao ver o doc sobre a carreira de Avicii relacionei-o com a conversa que tive com S. O músico suicidou-se após ter abandonado a carreira, num paraíso oriental qualquer, cortando os pulsos com estilhaços de garrafa de champanhe. Já não aguentava. Tinha o pâncreas rebentado. As entranhas. Sofria de ansiedade. Sobretudo sofria de pressão para realizar concertos e garantir fundos para alimentar uma enorme máquina produtora. Não é fácil dizer não. Perde-se dinheiro, perdem-se oportunidades e sofrem-se retaliações.

O agente diz no doc que ele não percebia o valor do dinheiro nem que havia muita gente a perdê-lo se ele não trabalhasse. Convém não ter muita noção do valor do dinheiro. Vive-se melhor. Mas não foi o caso do músico. Ele percebeu a desumanização implicada. Ele não queria continuar. Ele não queria uma vida que não é uma vida – é um palco. A vida não é um palco. Nem o palco é uma vida, por muito importante que seja uma carreira para a realização pessoal. Tudo mentira. O palco é trabalho e a vida existe fora dele. Isto é o que importa dizer a S.

Morrer com os pulsos cortados com estilhaços de garrafas de champanhe é uma bela explicação para o que realmente significa a fama.

vídeo – concerto de Avicii em Ibiza

(excerto do Diário da Revolta – 3 de Fevereiro de 2022, Facebook de Isabela Figueiredo)

322 reclusos com covid-19

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Um pouco mais de 2% da população prisional está infetada com covid-19. Concretamente, são 322 reclusos e 121 guardas prisionais e outros funcionários, segundo dados divulgados pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP).

Quanto à vacinação, a DGRSP diz haver 87,96% de funcionários vacinados e 92,42% de reclusos.

O problema quanto às medidas de contenção da pandemia no interior das prisões é a impossibilidade de os reclusos usarem máscaras, pelo que a solução encontrada tem sido o isolamento forçado de reclusos e a diminuição das visitas, quer na duração dos encontros, quer no número de visitas autorizadas semanalmente.

Em dezembro passado, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) considerou, em comunicado, que as medidas sanitárias aplicadas no sistema prisional eram incompreensíveis e discriminatórias, quanto mais não seja porque só os reclusos e familiares são alvo das restrições, sendo que “todos os outros elementos da comunidade prisional (guardas, funcionários, professores, médicos, etc.) entram e saem diariamente das cadeias, depois de poderem ter passado horas em discotecas, estádios de futebol e até igrejas onde estas medidas se não aplicam.”

Em alternativa, a APAR dizia preferir que nos estabelecimentos prisionais houvesse “desinfetantes para as celas, sanitas e espaços comuns” e que fossem distribuídas máscaras e álcool gel pelos reclusos.

Mas a DGRSP está contente consigo mesma, diz continuar hoje “apostada, em articulação com a saúde publica, em dar continuidade ao trabalho que permitiu, até agora e com os meios próprios do sistema, a evolução positiva (sem qualquer óbito entre internados e trabalhadores) dos casos até agora registados”.

Fora das cadeias

Fora das cadeias, os números impressionam: 50.447 novas infeções, 53 mortes associadas à covid-19, 2.440 pessoas internadas, 155 das quais em unidades de cuidados intensivos.

O número de casos ativos voltou a aumentar, havendo agora 642.113, mais 29.100 do que na quarta-feira.

Desde março de 2020 foram infetadas em Portugal 2.795.830 pessoas com o SARS-CoV-2 e foram declaradas 20.077 mortes associadas à covid-19.

Dos óbitos registados no boletim epidemiológico de hoje, um foi de uma pessoa com menos de 49 anos de idade e cinco foram de pessoas na faixa etária dos 60 anos. Os restantes eram mais velhos que 70 anos.

Televisão, o que está a mudar

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O telespectador não repara, não sabe (nem tem de saber), mas uma parte do que vemos em televisão já é captado com recurso a telemóveis. O tempo daquelas câmaras de vídeo grandes e pesadas, está a chegar ao fim. A miniaturização dos equipamentos que já se verificava há bastante tempo foi exponenciada com o surgimento dos telemóveis com tecnologia de ponta em objetivas e gravação de imagem, a par dos incríveis avanços na transmissão de dados.

Há cerca de 15 anos, quando o autor deste artigo trabalhou num canal de televisão em Paris, França, no edifício tecnológico onde estávamos instalados, na Rue Cognacq-Jay, existia um canal de televisão para telemóveis. Mas que recorria a equipamentos standard de broadcast. Hoje, não estou lá para ver, mas acredito que já o fazem com telemóveis, na maioria das situações.

Quem anda pelas redes sociais sabe e já experimentou que podemos gravar imagens e difundi-las ou fazer diretos, recorrendo a telemóveis comuns. Em 2015 entrei numa loja num centro comercial em Rio de Mouro onde funcionava a Saloia TV (web TV com site, Facebook e Youtube). Já então, o Guilherme Leite fazia reportagens e programas, gravados ou em direto, utilizando apenas telemóveis. Assisti a uma entrevista realizada com vários telemóveis e uma régie de televisão instalada num portátil. Fiquei a olhar para aquilo e pensei que estava a ver o futuro da televisão.

Estúdio da Saloia TV, debate realizado com 4 telemóveis

Creio que a maior dificuldade para a adopção dos telemóveis como ferramenta de trabalho efetiva pelas televisões é de índole corporativa ou sindical. O desenvolvimento tecnológico acaba por extinguir algumas atividades profissionais e os chamados repórteres de imagem estão em perigo, de facto.

Mas, ainda assim, o processo está em marcha. Por exemplo, a jornalista Rosário Salgueiro, da RTP, tem no Facebook algumas fotografias relativas à utilização de telemóveis no seu trabalho. Pelo que mostra, apenas em diretos.

Confinado na aldeia

João Pedro Mendonça, outro jornalista da RTP, fez um documentário sobre o quotidiano em tempo de pandemia, na aldeia de Monsanto.

vídeo

Foi um estrondo. Pela primeira vez, uma reportagem inteiramente realizada com um telemóvel foi emitida por uma televisão generalista e em sinal aberto. E valeu prémios de jornalismo. Achei que isto daria uma conversa interessante com João Pedro Mendonça.

As perguntas e as respostas dele.

– Fizeste a primeira reportagem com telemóvel premiada. Ou seja, o resultado final não podia ser melhor. Se tivesse sido feita com câmaras profissionais, que diferenças iríamos notar?

– Não tenho certezas. Não ter material profissional fazia parte da realidade que a reportagem retrata. Mais do que o material, aquele trabalho vive do modo de sobrevivência em que todos estávamos mergulhados. Improvisávamos as nossas vidas, fechados em casa, na cidade ou na aldeia. Tenho a convicção de que a noção de que nos valíamos – na cidade como na aldeia – do que tínhamos à disposição para estabelecer uma atmosfera de pseudo-normalidade nas nossas vidas, encontrar essas semelhanças num meio tão improvável como a aldeia, foi o único fator decisivo no sucesso daquela narrativa.

– Quando decidiste fazer esse trabalho, com o teu telemóvel, o que foi que te disseram na RTP?

– Nada. Ou melhor: eu não informei ninguém de que estava a fazê-la. Nem a mim próprio, de facto. Apenas fui registando, sem objetivo final, aquilo que testemunhava, para me manter activo e… não endoidecer. A meio desse processo, comecei a ter sinapses que podiam dar sinopse. Foi então que iniciei o processo de edição. Quando o terminei, um certo dia às 4:30 da manhã, fiz upload para o servidor da RTP e mandei duas mensagens as dois companheiros de trabalho: “achas que isto passava na televisão?” Acharam que sim.

– Hoje, os canais de televisão utilizam telemóveis para diretos. Mas não para reportagem. Trabalhos como o teu não foram ensaiados mais vez nenhuma, creio. Porquê?

– Posso especular, sem certezas em tudo. Uma tenho: os telemóveis ainda não são uma solução tão capaz para fazer sistematicamente reportagem, mas já o são – em determinadas condições – para os diretos sem entrevistado. Existindo boa rede, nos diretos, o plano é estático e a auto operação acessível. Para a reportagem, a limitação dos movimentos é enorme: se fazes uma panorâmica, perdes a melhor captação de som. Os telemóveis (acho que é protecionismo das marcas) não permitem vídeo entrelaçado, não admitem que escolhas gravar ficheiros nos melhores formatos sem compressão, não têm a possibilidade de trocar bateria, não asseguram facilidade de manobra imediata na escolha e mudança de foco e crominância, adaptabilidade à ausência de luz, no lusco fusco. E isto são apenas exemplos. És tu quem tem que contornar as limitações da máquina, o que condiciona IMENSO as tuas opções. A título de exemplo: Há naquela reportagem uma imagem de abelhas que dura 3,5 segundos. Demorei horas a obtê-la, tenho mais de uma centena de falhanços por limitação tecnológica. Quase um terço do MUITO tempo de pós produção foi gasto a disfarçar e compensar as limitações da captação de som.

– Quem viu a reportagem talvez tenha sentido que havia uma grande intimidade entre o texto e a imagem, o que só é possível quando o texto e a imagem são da mesma pessoa. Concordas?

– O factor diferenciador, mais do que o all-in-one foi o tempo disponível. Ter tempo é um luxo difícil de conseguir em reportagem. Estar a editar, precisar de um plano, sair para ir captar no dia em que a luz era ideal… quanto ao “match frame” entre vídeo e texto – agradeço teres reparado – é uma assinatura que tento exercer em todos os meus trabalhos de televisão. Detesto os concursos entre a mensagem da imagem, do texto e dos gráficos. Só há uma cabeça em cada espectador para receber, não há três…

– O que fizeste foi um atrevimento ou sabias que ia resultar bem?

– Foi um enorme atrevimento. E, até eu, que sou um “destravado”, desta vez temi mesmo ter exagerado. Era demasiada novidade junta e não tinha a certeza de estar são e suficientemente distante para julgar o tamanho da ousadia. E de assumir que tinha conseguido mesmo captar sem desrespeitar o nível dos meus companheiros, profissionais da área. Sofri muito até receber o retorno desses. É que são mesmo muitos e muito bons os exemplos, não mereciam uma ousadia mal medida.

– Depois disto, vais fazer outras reportagens ou a história não se repete?

– Sim, estou a captar em contínuo, antes e depois. Para mim… e eventualmente para os outros.

– Foi um trabalho precursor, uma espécie de visão do futuro no que diz respeito à produção de reportagens de televisão?

– Se o equipamento continuar a evoluir, é possível avançar neste rumo. Tenho orgulho no que consegui, mas fujo do estatuto de visionário como o Diabo da cruz…

Se depender apenas da evolução tecnológica, é quase certo que as mudanças serão rápidas. Mas como foi dito no início deste artigo, há travões corporativos e sindicais a ter em conta. Tem sido sempre assim, desde a invenção da roda.

Na verdade, o que este jornalista fez, muitos outros fazem todos os dias. Mas não têm um palco semelhante para apresentar os seus trabalhos. O jornalismo independente que se faz online perde-se no labirinto da net. Mas isso já é outra história.

Sim, não, talvez, tanto faz

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Não há nada pior para a vida das pessoas que uma doença. Se for uma doença nova, a situação complica-se muito. Os médicos não sabem o que fazer, não há tratamentos, não há protocolos hospitalares. O Governo não sabe como decidir, a oposição não sabe como criticar. É o caos. Tem sido o caos com esta pandemia.

No início era uma coisa da China, lá longe, não teríamos de nos preocupar. Mas veio de avião, entrou-nos pela casa dentro sem sequer bater à porta. Usar máscara não era aconselhável, depois foi obrigatório. Confinamentos de 14 dias, 10 dias, 7 dias, 5 dias. Vacina que não evita a doença. Mas tomamos três doses da vacina que não evita a doença. Uma loucura.

Na rua ou confinados em casa, ficámos quase todos bastante confusos. As contradições, as desorientações, o atabalhoamento, as ambiguidades, são compreensíveis mas resultam em equívocos para toda a gente. Quando o Governo decide uma coisa e o seu contrário, deixa os cidadãos perdidos.

Regras contraditórias para clientes desta papelaria em Odivelas. Não pode entrar com a cara tapada, mas é obrigatório usar máscara…

Xicão perdeu o partido

Francisco Rodrigues dos Santos perdeu o CDS. Pela primeira vez na história deste partido político, não conseguiu eleger qualquer deputado. O desaparecimento do CDS tem implicações complicadas, uma delas é que a receita proveniente das subvenções diminui drasticamente. Ou seja, os restaurantes gourmet deixam de ser opção.

O que sobra ao CDS, para além do palacete no Largo do Caldas? Quase nada. Mas o palacete deve valer um balúrdio. Se não fosse o descalabro da hotelaria à conta do covid-19, seria fácil encontrar quem lá quisesse instalar uma unidade hoteleira de luxo. Mas agora, não parece tão fácil… Lisboa está cheia de hotéis fechados.

Sobram, ainda, cerca de 86 mil votos. Sendo certo que cada voto vale quase 13 €… fazendo as contas, dá 1.118.000 €. Não é nada mau, afinal… Xicão, não percas o partido, pá!

Cartoon alusivo ao drama do Xicão da autoria de Hélder Dias.

cartoon de Hélder Dias