Televisão, o que está a mudar

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O telespectador não repara, não sabe (nem tem de saber), mas uma parte do que vemos em televisão já é captado com recurso a telemóveis. O tempo daquelas câmaras de vídeo grandes e pesadas, está a chegar ao fim. A miniaturização dos equipamentos que já se verificava há bastante tempo foi exponenciada com o surgimento dos telemóveis com tecnologia de ponta em objetivas e gravação de imagem, a par dos incríveis avanços na transmissão de dados.

Há cerca de 15 anos, quando o autor deste artigo trabalhou num canal de televisão em Paris, França, no edifício tecnológico onde estávamos instalados, na Rue Cognacq-Jay, existia um canal de televisão para telemóveis. Mas que recorria a equipamentos standard de broadcast. Hoje, não estou lá para ver, mas acredito que já o fazem com telemóveis, na maioria das situações.

Quem anda pelas redes sociais sabe e já experimentou que podemos gravar imagens e difundi-las ou fazer diretos, recorrendo a telemóveis comuns. Em 2015 entrei numa loja num centro comercial em Rio de Mouro onde funcionava a Saloia TV (web TV com site, Facebook e Youtube). Já então, o Guilherme Leite fazia reportagens e programas, gravados ou em direto, utilizando apenas telemóveis. Assisti a uma entrevista realizada com vários telemóveis e uma régie de televisão instalada num portátil. Fiquei a olhar para aquilo e pensei que estava a ver o futuro da televisão.

Estúdio da Saloia TV, debate realizado com 4 telemóveis

Creio que a maior dificuldade para a adopção dos telemóveis como ferramenta de trabalho efetiva pelas televisões é de índole corporativa ou sindical. O desenvolvimento tecnológico acaba por extinguir algumas atividades profissionais e os chamados repórteres de imagem estão em perigo, de facto.

Mas, ainda assim, o processo está em marcha. Por exemplo, a jornalista Rosário Salgueiro, da RTP, tem no Facebook algumas fotografias relativas à utilização de telemóveis no seu trabalho. Pelo que mostra, apenas em diretos.

Confinado na aldeia

João Pedro Mendonça, outro jornalista da RTP, fez um documentário sobre o quotidiano em tempo de pandemia, na aldeia de Monsanto.

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Foi um estrondo. Pela primeira vez, uma reportagem inteiramente realizada com um telemóvel foi emitida por uma televisão generalista e em sinal aberto. E valeu prémios de jornalismo. Achei que isto daria uma conversa interessante com João Pedro Mendonça.

As perguntas e as respostas dele.

– Fizeste a primeira reportagem com telemóvel premiada. Ou seja, o resultado final não podia ser melhor. Se tivesse sido feita com câmaras profissionais, que diferenças iríamos notar?

Não tenho certezas. Não ter material profissional fazia parte da realidade que a reportagem retrata. Mais do que o material, aquele trabalho vive do modo de sobrevivência em que todos estávamos mergulhados. Improvisávamos as nossas vidas, fechados em casa, na cidade ou na aldeia. Tenho a convicção de que a noção de que nos valíamos – na cidade como na aldeia – do que tínhamos à disposição para estabelecer uma atmosfera de pseudo-normalidade nas nossas vidas, encontrar essas semelhanças num meio tão improvável como a aldeia, foi o único fator decisivo no sucesso daquela narrativa.

– Quando decidiste fazer esse trabalho, com o teu telemóvel, o que foi que te disseram na RTP?

Nada. Ou melhor: eu não informei ninguém de que estava a fazê-la. Nem a mim próprio, de facto. Apenas fui registando, sem objetivo final, aquilo que testemunhava, para me manter activo e… não endoidecer. A meio desse processo, comecei a ter sinapses que podiam dar sinopse. Foi então que iniciei o processo de edição. Quando o terminei, um certo dia às 4:30 da manhã, fiz upload para o servidor da RTP e mandei duas mensagens as dois companheiros de trabalho: “achas que isto passava na televisão?” Acharam que sim.

– Hoje, os canais de televisão utilizam telemóveis para diretos. Mas não para reportagem. Trabalhos como o teu não foram ensaiados mais vez nenhuma, creio. Porquê?

Posso especular, sem certezas em tudo. Uma tenho: os telemóveis ainda não são uma solução tão capaz para fazer sistematicamente reportagem, mas já o são – em determinadas condições – para os diretos sem entrevistado. Existindo boa rede, nos diretos, o plano é estático e a auto operação acessível. Para a reportagem, a limitação dos movimentos é enorme: se fazes uma panorâmica, perdes a melhor captação de som. Os telemóveis (acho que é protecionismo das marcas) não permitem vídeo entrelaçado, não admitem que escolhas gravar ficheiros nos melhores formatos sem compressão, não têm a possibilidade de trocar bateria, não asseguram facilidade de manobra imediata na escolha e mudança de foco e crominância, adaptabilidade à ausência de luz, no lusco fusco. E isto são apenas exemplos. És tu quem tem que contornar as limitações da máquina, o que condiciona IMENSO as tuas opções. A título de exemplo: Há naquela reportagem uma imagem de abelhas que dura 3,5 segundos. Demorei horas a obtê-la, tenho mais de uma centena de falhanços por limitação tecnológica. Quase um terço do MUITO tempo de pós produção foi gasto a disfarçar e compensar as limitações da captação de som.

– Quem viu a reportagem talvez tenha sentido que havia uma grande intimidade entre o texto e a imagem, o que só é possível quando o texto e a imagem são da mesma pessoa. Concordas?

O factor diferenciador, mais do que o all-in-one foi o tempo disponível. Ter tempo é um luxo difícil de conseguir em reportagem. Estar a editar, precisar de um plano, sair para ir captar no dia em que a luz era ideal… quanto ao “match frame” entre vídeo e texto – agradeço teres reparado – é uma assinatura que tento exercer em todos os meus trabalhos de televisão. Detesto os concursos entre a mensagem da imagem, do texto e dos gráficos. Só há uma cabeça em cada espectador para receber, não há três…

– O que fizeste foi um atrevimento ou sabias que ia resultar bem?

Foi um enorme atrevimento. E, até eu, que sou um “destravado”, desta vez temi mesmo ter exagerado. Era demasiada novidade junta e não tinha a certeza de estar são e suficientemente distante para julgar o tamanho da ousadia. E de assumir que tinha conseguido mesmo captar sem desrespeitar o nível dos meus companheiros, profissionais da área. Sofri muito até receber o retorno desses. É que são mesmo muitos e muito bons os exemplos, não mereciam uma ousadia mal medida.

– Depois disto, vais fazer outras reportagens ou a história não se repete?

Sim, estou a captar em contínuo, antes e depois. Para mim… e eventualmente para os outros.

– Foi um trabalho precursor, uma espécie de visão do futuro no que diz respeito à produção de reportagens de televisão?

Se o equipamento continuar a evoluir, é possível avançar neste rumo. Tenho orgulho no que consegui, mas fujo do estatuto de visionário como o Diabo da cruz…

Se depender apenas da evolução tecnológica, é quase certo que as mudanças serão rápidas. Mas como foi dito no início deste artigo, há travões corporativos e sindicais a ter em conta. Tem sido sempre assim, desde a invenção da roda.

Na verdade, o que este jornalista fez, muitos outros fazem todos os dias. Mas não têm um palco semelhante para apresentar os seus trabalhos. O jornalismo independente que se faz online perde-se no labirinto da net. Mas isso já é outra história.

1 COMENTÁRIO

  1. Carlos, só uma achega. A Rosário Salgueiro tem com ela um repórter de imagem que “monta” o sistema todo (não te consigo garantir que seja 100% das vezes, mas é fácil chegar a essa informação) e portanto a relevância e importância destes profissionais está garantida, e deverá sempre estar, porque ao jornalista redactor não lhe pode ser exigido ainda ser profissional da imagem. Um vez vi que o parlamento inglês, ao fundo numa imagem que esta jornalista utilizava para apresentar a peça, não tinha o horizonte direito, e isto não é admissível numa televisão. Talvez dessa vez não tivesse com ela o repórter de imagem, e na falta de qualidade se vê a importância de um profissional. Bom trabalho.

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