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JÁ NÃO SE PODE SER DE ESQUERDA

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A revista Visão interessou-se pela filiação política de Bruno Amaral de Carvalho e publicou a “novidade” de que ele foi eleito deputado municipal na Amadora, pela lista da CDU.

A Visão estabelece uma relação entre o jornalista, o PCP e o facto de Bruno ser o único jornalista português a reportar nos territórios ocupados pelo exército russo e as tropas separatistas da região do Donbass.

Sem assumir a intenção, o escriba da Visão faz alusões a “teses” alegadamente defendidas pelo jornalista e dá destaque às opiniões já expressas por figuras de alguma importância mediática que criticam o trabalho deste repórter, casos de Ana Gomes (comentadora na SIC) e de João Galamba (membro do atual governo). Tudo isto resulta numa tentativa de diminuir a qualidade jornalística do trabalho de Bruno Amaral de Carvalho. Mas é evidente que esta publicação da Visão transporta um processo de intenções.

O ativismo político de Bruno Amaral de Carvalho é um direito dele. Pode exercê-lo sem nenhum problema de incompatibilidade, à luz do regulamento da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. De resto, muitos jornalistas têm assumido as suas opções políticas e partidárias e nunca, até hoje, isso veio à baila, como está a acontecer agora.

Lembramos, a título de exemplo, o caso do jornalista Hernâni Carvalho (atualmente na SIC), cabeça-de-lista do PSD em eleições autárquicas em Odivelas e eleito vereador. A situação de Hernâni foi bastante mais delicada, uma vez que em cargos políticos executivos já existe incompatibilidade com o exercício da profissão de jornalista. Mas, não tendo sido eleito, a questão não se colocou.

E lembramos, ainda, a relação familiar existente entre o jornalista Vítor Gonçalves e Manuel Dias Loureiro, um dos mais destacados dirigentes do PSD até ter caído na desgraça da corrupção. Nunca essa proximidade familiar entre tio e sobrinho foi argumento para criticar o desempenho profissional de Vítor Gonçalves, nem mesmo quando ele assumiu igualmente a proximidade política com o partido do tio. Vítor Gonçalves escreveu “A Agenda de Cavaco Silva”, livro justificativo da candidatura de Cavaco à Presidência da República.

Nem Hernâni nem Vítor foram alguma vez “caçados” pelas respetivas opções políticas.

SEM VACINA, SEM AMOR

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“A companheira de um recluso do Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, depois de ter marcado uma visita íntima, viu a sua entrada ser barrada naquela cadeia por, apesar de ser portadora de um teste negativo à Covid, com menos de 24 horas, ter sido informada que só poderia entrar se tivesse certificado de vacina, com dose de reforço”, diz a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) em comunicado enviado às redações.

A senhora em questão, fez uma queixa pelo sucedido e a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) confirmou a receção da referida queixa. A DGRSP respondeu, justificando que a medida se insere na prevenção à pandemia covid-19, “dado o Estado de Alerta” que se mantém no país.

A APAR diz estranhar que a DGRSP possa sobrepor-se à lei, uma vez que não existe lei alguma que obrigue os cidadãos a serem vacinados, pelo que considera que “esta diretiva tem que ser considerada ilegal.”

Na verdade, o que diz a lei do “estado de alerta” é que ”para aqueles que não tomaram a dose de reforço da vacina contra COVID-19, o teste negativo para o coronavírus SARS-CoV-2 continua sendo obrigatório nas visitas aos lares de idosos e instalações de saúde.” Admitindo que os estabelecimentos prisionais se enquadrem nesta definição de lugares onde é obrigatório ter teste negativo para se entrar, não se entende qual o suporte legal dos serviços prisionais para exigirem outra coisa além do teste negativo.

As visitas íntimas nas cadeias estão consagradas na lei e destinam-se a contribuir para preservar os laços afetivos entre cônjuges, ou afins, ajudam ao bem-estar psicológico dos reclusos e, com isso, propiciam ambientais mais calmos, mais disciplinados e mais seguros dentro dos estabelecimentos prisionais.

FOTÓGRAFO DA VIDA

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Fernando Ferreira tem página no Facebook onde pode ver-se a imensa actividade a que, por carolice e amor à Natureza, se tem dedicado, mediante a fotografia de aspectos mui significativos da biodiversidade, com especial atenção à fauna endógena, alguma dela, como se sabe, em risco de desaparecer perante o avanço avassalador dos núcleos urbanos.

Está a dedicar-se a essa tarefa por conta própria, mas não dispõe de meios para a levar a cabo. Lançou para esse efeito – o “Projecto Biodiversidade na Nossa Terra” ­– uma campanha de angariação de fundos.

Permita-me, pois, que lhe sugira uma visita à página atrás citada e, caso lhe seja possível contribuir (o que também  eu agradeço, como apoiante do Fernando desde a primeira hora, ainda que a sua actividade se esteja a desenvolver no Norte e eu ande mais pelo Sul…), aí vão três possibilidades de o fazer:

IBAN: PT 50 0033 0000 4538 8641 1930 5 MBWAY 966 257848 https://www.facebook.com/donate/978889546076402

CRIMES INFORMÁTICOS AUMENTAM

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Os crimes informáticos têm vindo a aumentar exponencialmente, em Portugal. Não afetam apenas empresas, como foram os célebres ataques de piratas informáticos à Impresa, que afetaram os sites da SIC e Expresso, mas houve outros. Este tipo de crime também afeta os cidadãos comuns, simples utilizadores de serviços online.

O problema tem vindo a agravar-se. O Ministério Público diz que recebe cada vez mais denúncias deste tipo de crime. Em 2019 foram 193 queixas. Em 2020 recebeu 544 denúncias. Em 2021, foram 1160.

Agora, assistimos a uma onda de tentativas de invasão nos dados pessoais dos cidadãos. Os assaltantes utilizam cada vez mais o telemóvel. Aparecem inopinadamente chamadas de números localizados no estrangeiro ou mensagens com tentativas de engodo ou suficientemente inquietantes para nos levarem a responder. A resposta é sempre feita através de um link disponibilizado e se formos por aí acabaremos por cair na esparrela.

Os exemplos que aqui deixamos são algumas das formas de abordagem que estão a ser cada vez mais utilizadas.

Nunca atendam números que desconhecem, principalmente se provenientes do estrangeiro. Se for mesmo alguém que vos queira falar, vai tentar o contacto por outra via identificando-se.

No caso das mensagens com links, não caiam na tentação. Não acredite em prémios que lhe são oferecidos nem em “mensagens do chefe”. O chefe, se existir, sabe o seu número de telefone ou poderá esperar por si no local de trabalho. Enfim, parece fácil evitar estas armadilhas, mas a verdade é que elas funcionam.

O Ministério Público diz que durante o ano de 2021 foram remetidas para investigação criminal 195 das denúncias recebidas pelo Gabinete Cibercrime.

A atuação criminosa mais comum é o chamado phishing, que se destina a obter dados relativos a cartões de crédito ou acesso a contas bancárias. Quando o esquema funciona, as vítimas ficam “depenadas”.

Durante este ano de 2021 foram identificadas e denunciadas inúmeras formas de burla, relacionadas com vendas através de diversas plataformas online legítimas. Da mesma forma, foram identificadas burlas com vendas nas redes sociais (designadamente no Facebook e no Instagram).

A técnica utilizada, quer nas plataformas de vendas, quer nas redes sociais, foi idêntica e repetida: os agentes do crime criam contas específicas para disponibilizar produtos para venda, que efetivamente eram pagos pelas vítimas, mas nunca entregues. Em ambas as situações (plataformas de vendas ou redes sociais) conseguiam defraudar um grande número de vítimas num espaço curto de tempo, após o qual as contas eram subitamente encerradas, sem que mais nada se soubesse quanto ao seu titular.

Os bandidos têm imaginação fértil e a polícia anda sempre atrás do prejuízo. O melhor método para evitar este tipo de problemas é estar sempre com um pé atrás. E em caso de cair nestas esparrelas, denunciar. O Ministério público tem uma via dedicada para estes casos, através do email cibercrime@pgr.pt

NO CASO WILL SMITH CONTRA CHRIS ROCK

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A Academia de Cinema de Hollywood ainda tem um longo percurso a percorrer em termos de humanismo, de respeito pelos direitos humanos e pela inclusão. Não chega atribuir um óscar a um ator surdo. É preciso defender e praticar os direitos humanos e a inclusão nos seus atos e sempre! 

A violência psicológica é, segundo a lei, um crime em Portugal, nos Estados Unidos e no mundo!

Chris Rock fez troça, disse uma piada, à custa da doença de Jada, a mulher de Will. Ela ficou chocada, e Will não gostou. Segundo as notícias, parece que não a primeira vez que Chris ganha a sua vida metendo-se com o casal Will e Jada.

Jada tem uma doença do sistema imunitário que faz com que todo o cabelo, e os pelos do corpo, caiam incluindo as pestanas e as sobrancelhas. Ora isto não tem graça nenhuma para uma atriz! E Chris e Jada são colegas no mundo do espetáculo, ou seja, mais uma razão para Chris ser humano, respeitar o sofrimento de uma colega e os seus direitos humanos!

Nalguns países, esta doença é considerada uma deficiência, e em todos os países é considerada uma doença traumatizante, limitadora e debilitante.

Portanto Chris deve, no mínimo, um pedido de desculpa público a Jada e a Will.

E a Academia também! A Academia, com a sua decisão unilateral sobre este assunto – a de condenar apenas uma das partes – está a ser conivente com um ato de violência psicológica, ou seja com um crime! Por isso, também deve pedir desculpa ao público que estava presente, ou que assistiu à transmissão, tal como fez em relação à agressão de Chris por Will.

Com certeza que Chris sabe que o que fez é um crime, e por isso não apresentou, nem apresenta, queixa.

Também devia ser feita uma advertência a Chris por quem de direito, incluindo pela própria polícia que investigou o caso, de que não deve, nem pode, continuar a fazer referência ao sucedido, e muito menos durante os seus espetáculos! A violência psicológica é um crime!

ÉTICA, lição de António Costa

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António Costa falava aos jornalistas no Palácio de Belém, pouco depois de terminada a cerimónia de posse de Isabel Rodrigues no cargo de secretária de Estado da Igualdade e das Migrações, em substituição de Sara Guerreiro, que pediu a demissão do executivo por motivo de saúde.

Quando, de repente, surgiu a notícia do pedido de demissão da secretária de Estado da Igualdade e Migrações, arrebitaram-se as orelhas da oposição ao Governo e nas redações que anseiam pelo escândalo. Na mente de todos eles, a questão pungente dos russos com ligações ao Kremlin que pululam pelas autarquias e ONG que recebem ucranianos fugidos da guerra.

Um canal de televisão terá passado horas a especular sobre a demissão e a substituição da secretária de Estado. As notícias indiciavam uma causa para a demissão da secretária de Estado. Um exemplo? Este:

“No dia 8 de abril, a embaixadora da Ucrânia em Portugal tinha afirmado à CNN Portugal que, numa conversa telefónica, alertou a Secretária de Estado da Igualdade e Migrações para o facto de existirem associações com ligações a Putin a acolherem refugiados ucranianos.

Sara Abrantes Guerreiro foi exonerada como Secretária de Estado da Igualdade e Migrações. Numa nota publicada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa anuncia que aceitou, para o mesmo cargo, a nomeação de Isabel Maria Duarte de Almeida Rodrigues.”

António Costa veio pedir contenção e modos, a todos. Marcelo Rebelo de Sousa veio jurar que a demissão não tinha causas políticas, mas muitos desconfiam sempre do que ele diz. Mas, na verdade, trata-se de um problema do foro íntimo de Sara Abrantes Guerreiro.

Sara Abrantes Guerreiro

CARROS ABANDONADOS

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O estacionamento do aeroporto de Lisboa tem vários carros abandonados. Sinais de gente que partiu e não voltou. A maioria desses veículos estão fechados, mas nem todos. Alguns servem de dormitório a quem não tem outro lugar para dormir abrigado, como é o caso de um Toyota Corolla de matrícula francesa que ficou ali estacionado já há muitos meses.

Outros estão arrombados, de vidros partidos. Ou foram assaltados antes e aqui abandonados ou foi alguém que decidiu “espreitar” o interior.

O abandono é evidente. O tempo encarrega-se de tapar a cor da tinta, o pó torna tudo cinzento. E há quem se entretenha a ensaiar expressões artísticas ou mensagens para os vindouros. Alguns veículos têm inscrições datadas de há anos. Como o estacionamento tem teto, não há chuva que lave os automóveis.

As razões que levam alguém a abandonar um automóvel podem ser muitas, mas quando isso é feito num aeroporto pode significar que os automobilistas optaram por outro meio de transporte. Aliás, vários desses veículos abandonados têm matrículas estrangeiras. Vieram de popó e foram-se embora de avião. Não deixa de ser estranho, mas é o que deve ter acontecido.

Estranho é também a permanência destes carros durante tanto tempo num estacionamento pago. E caro. O facto de não serem rebocados pode significar que existe a esperança de aparecer alguém a querer retirar o carro e disposto a pagar a dívida. Mas é uma esperança vã. Há até um caso antigo de um veículo que esteve anos neste estacionamento, foi inclusivamente bloqueado. Até ser rebocado para um ferro-velho qualquer.

O abandono de veículos automóveis é bastante comum. As ruas das cidades estão cheias deles. Apodrecem ao sol e à chuva, até que os serviços que regulam o estacionamento resolvam agir. No estacionamento do aeroporto de Lisboa, caberá à ANA tirar os carros dali.

O CUSTO ASTRONÓMICO DA SINISTRALIDADE RODOVIÁRIA

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O Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) fez as contas e chegou à cifra estimada de 6 mil 422 milhões de euros por ano. É esse o custo da sinistralidade rodoviária em Portugal.

A equação matemática levou em linha de conta não só a “chapa” amolgada mas, fundamentalmente, os custos em vidas, os custos na ocupação hospitalar para a recuperação de feridos e o absentismo ao trabalho que os acidentes causam.

Outros dados interessantes revelam que os atropelamentos são o tipo de acidente que mais vítimas causam. Ou seja, 83,5 % das vítimas de acidentes rodoviários são casos de atropelamento.  Atropelamentos são o tipo de acidente que causa maior custo económico ao país. Por isso é tão importante reduzir o número e a gravidade dos atropelamentos. Por isso, a necessidade de reduzir a velocidade do tráfego automóvel citadino.

O custo de uma vida é enorme. O estudo do ISEG não atribui valor ao que é inestimável, mas fez as contas a tudo o resto que envolve a morte de alguém em idade produtiva e o número volta a impressionar: 3 milhões de euros, é o custo social por cada vítima mortal em acidentes rodoviários.

O estudo do ISEG baseou-se nos dados da sinistralidade verificada em Portugal durante 2019 e pode ser consultado AQUI.

MEMBRO DO GOVERNO ATACA JORNALISTA

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O único jornalista português a trabalhar atrás das linhas russas tem sido alvo de críticas e insultos, principalmente de gente que não sabe nada de jornalismo e que de política fala pela boca do dono. Neste caso, podemos considerar que o dono será o presidente dos Estados Unidos ou o secretário-geral da NATO. Eles que escolham qual o dono que mais lhes convém.

Jornalismo independente como o que o Bruno Amaral de Carvalho tem feito é, assim, mal recebido. O jornalista queixa-se disso mesmo ao revelar insultos que lhe dirige João Galamba, secretário de Estado do Ambiente e da Energia.

Se eu conhecesse pessoalmente Bruno Amaral de Carvalho dir-lhe-ia que insultos destes são medalhas. Aliás, são mesmo as únicas medalhas que jornalistas deveriam aceitar. Insultos de membros de qualquer Governo, gente enfeudada nos seus castelos político-ideológicos, transformam-se em elogios profissionais, Bruno. Significa que o teu trabalho é válido e que incomoda.

E porque se sentem os apparatchiks incomodados? Porque havendo um jornalista a reportar do outro lado da guerra, ficamos a saber que lá também caem bombas, que também destroem habitações e pequenos negócios, que morrem civis. E ficamos a saber que nem tudo o que se diz no lado de cá da guerra é verdade.

O trabalho de Bruno Amaral de Carvalho não desculpabiliza nem atribui culpas, relata o que acontece. Não tem nada a ver com política, tem tudo a ver com jornalismo. Isso é que se torna incomodativo.

Bruno Amaral de Carvalho tem carteira profissional de jornalista. Agressões vindas de membros de um Governo não podem passar impunes. A CCPJ tem obrigações a cumprir em casos como este. E o Sindicato dos Jornalistas idem.

Um largo que virou bairro

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Sinto um aperto no coração, no estômago, na garganta ao abrir a página. As palavras até estão ordenadas na cabeça, os sentimentos não, volto a fechá-la.

Para ultrapassar a angústia tenho de ir por partes, não escrever de uma só vez . Ficaria contente, sim, mas sem um bocado de mim.

Morei durante uns anos no Largo Conde Ottolini, em São Domingos de Benfica. Em 2011 decidi que, ou arranjava um namorado, ou um cão. O destino deu-me o namorado, o namorado estilhaçou-me o coração.

Pensei então num cão, uma amiga incentivou-me a adoptar. “Terás sempre alguém à tua espera em casa”. Fomos ao Canil Municipal de Lisboa, sou veementemente contra a compra de animais. Pedi para ver dois: uma cadelinha e um cão de maior porte. Não fiz clique com nenhum, nem um bocadinho, pensei até que adoptar um cão  seria um capricho.

Vi no Facebook uma foto da União Zoófila e resolvi espreitar o mural. Na capa o cão mais lindo do mundo. Nariz cheio de personalidade, umas orelhas macias em forma de triângulo, uns olhos de amêndoa. “És mesmo tu. Rufia e meigo q.b.” Apaixonei-me ainda antes de o conhecer, adoptei-o. Puseram-mo nos braços embrulhado numa toalha branca, parabólica à volta do pescoço, completamente anestesiado da esterilização. Tornei-me mãe.

Tão doce, uma alegria inesgotável, uma energia maior e, tal como suspeitava, um belo rufia. Trela curta! Passámos a fase do roer tudo e mais alguma coisa, perdi uns bons quilitos nos passeios por Monsanto. Mas os meus horários instáveis eram incompatíveis com a rotina de o levar à rua. Precisávamos de um pátio.

Encontrei uma casa bem maior, com um pátio que tinha vista para a Senhora do Monte e passámos a morar na rua de meu nome: Rua Andrade. Grande pinta! O sítio era óptimo. Metro à porta, farmácia do outro lado da rua, o LIDL a dois passos. Por mero acaso fui à inauguração do “O das Joanas”, um café com esplanada por baixo do gabinete de António Costa, presidente da CML à altura que, depois das obras no largo, fez algo inédito e trocou os Passos do Concelho por um gabinete no Intendente. Era preciso mudar a má fama (justificada) do bairro, ele deu o exemplo.

Durante um ano “O das Joanas” foi a única esplanada do largo. Começou a ser frequentada por vizinhos que viviam ali há 30, 40, 50 anos. Juntaram-se os novos, uma série de gente que ali se cruzou e onde nasceu um espirito bairrista. Passámos a ser “bizinhos”.

Um ano depois, no centro da praça, o café “Largo Residências”, entrou em obras e foi a segunda esplanada a abrir. Enquanto as obras decorriam, estava uma “miúda” franzina sempre à porta. Não consegui descortinar o que fazia ali à entrada, (aparentemente nada) enquanto os outros trabalhavam… Passei várias vezes pelo lado oposto do largo, tinha curiosidade mas não tive a coragem de passar por ela. Um dia passei. A Leonor Clara, a primeira gerente do espaço, perguntou se queria beber um chá ou um café. Aceitei o café, aceitei-a para o resto da vida, abracei a sua filha Madalena, a minha “abelhinha mais doce”. Apaixonei-me incondicionalmente desde o dia em que ousei passar o meu set “Abelha Maia Sound System”. Como decorria durante o dia incluí crianças. Foi tão bonito, tivemos direito a uma ovação de palmas e tudo!

Não vi muitos dos mil concertos, os festivais “Intendente em Festa” pois passei a  ter um cargo muitíssimo importante. Era a BabySitter Rock Star tomava conta  da abelhinha enquanto a mãe trabalhava.

A tarefa era muito fácil. Ela e o Pirata perdiam-se de amores e brincavam o tempo todo. Eu apenas ia espreitando os dois e fazia um jantar recheado de brincadeiras e gargalhadas. Sempre fiz justiça ao meu título!

O café do Largo  (assim ficou conhecido) foi a entrada para a integração, a cultura, a animação, e outra vez a integração. Um desafio permanente que se desdobrou em espectáculos, exposições, debates, jantares…a lista é infinita. E lá andava a Marta Silva, sempre de um lado para o outro, sempre em reuniões, sempre a organizar eventos, um furacão! E ainda a Ana Jaleco, a Raquel Fernandes e outros na produção de mil tarefas. O Augusto sempre de máquina na mão fotografava tudo. Houve tanta gente que passou e ficou por ali que me perco ao recordar. Que me desculpem aqueles a quem não faço referência. São muitos, tantos!

Lembro-me do aniversário de um dos maiores símbolos de resiliência e paz no mundo. Ajudei a fazer um caril muito especial. A Leonor descobriu a receita do caril que a mulher do advogado de Nelson Mandela levava às escondidas para a prisão. Houve um jantar oficial em sua memória e depois um concertão do Carlos Barreto que ouvi no pátio. Como cenário uma instalação gigante do rosto desse ídolo, feito com tampas de garrafas de água recolhidas e entregues no café. Mais uma vez, um acto de comunhão, com os bizinhos sempre a fazer parte, sempre em sintonia.

A Luísa Martins, uma moradora da velha guarda, com uma vida bem dura que não lhe conseguiu roubar a alegria ou a capacidade de rir e… refilar, (Possa que a mulher não se cala!) organizou, logo no primeiro ano, um almoço de Natal ao ar livre para os sem abrigo, aberto a toda a gente. Virou tradição e aumentou exponencialmente de ano para ano. Nunca choveu apesar de ser Dezembro, São Pedro sempre apadrinhou esta iniciativa que exemplificou o verdadeiro espírito de Natal. Com muito orgulho ajudei a fazer a tradicional feijoada na Cozinha Popular da Mouraria, quase todos os anos. Era um clássico. Nunca falhámos o deadline, nunca faltou comida. Os ingredientes eram oferecidos pelos comerciantes da zona e toda a gente levava mais alguma coisa. Tanta que num fim de ano, com a comida que sobrou, fizemos uma jantarada de fim de ano onde nada faltou. Eu, orgulhosamente fiz um panelão de bacalhau à brás. Fiquei toda vaidosa e houve ainda outro panelão de alho francês à brás. Comida para o menino e para a menina.

Foi uma festa de arromba onde não entraram doutores ou prostitutas, ricos ou pobres, canalizadores ou arquitectos, desempregados ou profissionais de sucesso. Fomos elitistas, ali só entraram pessoas.

Numa noite a magia instalou-se em grande no Intendente. Um concerto improvisado por dezenas de músicos, dois dias depois da morte do consagrado Lou Reed. Todas as ruas foram dar ao Intendente. Em tempo recorde os artistas traçaram um alinhamento de músicas onde cada um cantava um tema dele. Foi perfeito. Mágico. Uma ovação final interminável, uma celebração da vida, a multidão em plena harmonia. Minutos depois do final, João Menezes, Coordenador do Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção Prioritária, pegou no microfone e informou que a CML nos deu mais tempo. Perguntou se queríamos que se repetisse o concerto, uma vez que cada artista só teve tempo para ensaiar uma canção. A multidão entrou em delírio! Eu, encantada, deslumbrada, fui para o camarote real do largo, a janela do Sport Club do Intendente. Outro sítio emblemático do antigo e do novo bairro, entretanto encerrado, como tantos outros….

De uma forma espontânea um núcleo duro de amigos formou-se. O Adam Mathew Barton-bates baptizou-nos como “Os bandidos”, sempre gostei do nome. Depois do café fechar ficávamos pelo Kit Garden (obra de Joana Vasconcelos) a bebericar imperiais, sempre a rir. Às vezes saímos à noite, atenção! E lá íamos a pé pela rua do Benformoso fora até ao bar “Anos 60” na Mouraria. Aqui existia um melting pot  enorme formado por gente caucasiana, negra, velhos e novos, gente às bolinhas amarelas e outras às riscas azuis. Pessoas.

Para além da Luísa Martins, que se tornou uma espécie de bandeira do bairro, e alguns outros que o tornaram icónico, havia a Rock Star das Rock Stars! Pirata, o meu rafeiro arraçado de podengo, a quem chamavam piri-piri,  arranca-corações, comandante das tropas, organizador de festas, amor à primeira vista, pinga-amor, rebelde, um doce. Conhecia toda a gente, era perito a sacar festas e hiper-perito a sacar tostas! Ficava envergonhada quando o via, com olhos de quem não comia há 20 dias, parado em frente a alguém com uma tosta na mesa. E conseguia sempre, sempre, um bocado. Às vezes mais do que um bocado.

Além disso, assim que via determinada pessoa a entrar pela rua do Benformoso, corria a ladrar, a ladrar. Ficava furiosa, ia buscá-lo mas quando chegava perto, percebia que aquela pessoa ou estava bêbada, drogada, enfim, alterada. Claro que voltava arreliada, trela curta, mas a Rock Star das Rock Stars regressava muito senhor de si, de nariz empinado, muito satisfeito como quem diz, “pessoal já tratei disto, podem estar na boa”. Um clássico muito apreciado pelos bizinhos que se riam e me deixavam ainda mais furiosa. Mas… era o guardião do largo.

Morreu precocemente e a dor atingiu toda a gente. O largo ficou mais pobre, não me desfiz em pedaços porque tive os amigos, em particular os bizinhos mais próximos, que me levaram ao colo. Ninguém ficou indiferente, ninguém deixou de me dar uma palavra amiga. Foi tristemente bonito.

Com “O das Joanas” abriu entretanto a “Vida Portuguesa” e também a “Casa Independente” que se tornou uma referência de música, num casarão lindíssimo, mas onde o conceito de integração não foi prioritário. E a esplanada “Josephine” e depois mais uma, e depois mais outra, e ainda outra esplanada, e cumpriu-se o objectivo de António Costa: pôr o Intendente no mapa de Lisboa, torná-lo numa zona de turismo que, não obstante a sua elegância, não tem alma. “Um largo que virou bairro” como disse, e muito bem, o bizinho Dinis Beringuilho, desapareceu.

No passado dia 16 de Abril o Café do Largo fechou portas, ao fim de 11 anos, mas em festa, pois claro! Os bizinhos da velha e da nova guarda marcaram presença. Por ali fiquei entre abraços, sorrisos fraternos, reencontrei com emoção pessoas que não via há anos. “No Intendente é tudo boa gente”, costumava dizer.

Sentei-me para beber um café e, de repente, o Pirata passou por ali a correr! Foi dar uns beijos às Madalenas, duas amigas inseparáveis, agora adolescentes, fez pose para a câmara do Augusto (nunca fez tal coisa para mim), deu um abraço ao Zé Mendes, encheu a Carlota de lambidelas, saltou para o colo da madrinha Sílvia que tinha por hábito comprar sempre dois gelados: um para ela outro para a Rock Star… Refilava muito zangada e, mesmo assim, sorrateiramente, o Pirata lá engolia o seu Rol e… rissóis, pastéis de bacalhau, bolachas…Com a madrinha comia de tudo, às minhas escondidas, claro!

Continuei a vê-lo a correr por ali, aparecia e desaparecia, muito ocupado, pois havia muita gente para cumprimentar.  Era um puro relações públicas, era o Rei. Foi a alma daquele bairro.

Deixei de o ver, espreitei e espreitei mas nunca mais o encontrei. Fui para casa e não consegui voltar. Não quis perder um bocado de mim, preferi guardá-lo.

O aperto no coração, no estômago e na garganta saíram de fininho. Ficou a saudade. Saudade não é um sentimento triste. Saudade é sentir à flor da pele todo o amor que os outros plantaram em nós.

Até sempre Intendente!