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CARRO ELÉTRICO SÓ PARA COLECIONADORES

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O pequeno veículo na fotografia acaba de ser vendido. Quem o comprou teve de pagar mais de 13.400 € por ele. Foi num leilão da Sotheby’s, em Londres.

O carrito é um Zagato Zele 1000, um elétrico fabricado há 50 anos. Na época não teve um grande sucesso comercial, mas hoje é considerado um “tesouro” para quem gosta e pode colecionar automóveis. Foram vendidos apenas cerca de 500 exemplares. Os que sobreviveram ao tempo, são muito procurados por colecionadores.

O Zagato Zele era um veículo feito por encomenda, desenhado pela famosa casa italiana Zagato. Tem um motor Marelli de 1000 watts. Usava 4 baterias de 12 volts que lhe permitiam uma autonomia acima dos 80 quilómetros e uma velocidade máxima de 40 kms/h. O carregamento faz-se através de uma tomada doméstica, utilizando um transformador. O exemplo do Zagato Zele revela que este tipo de veículo elétrico talvez não precise necessariamente de baterias de lítio.

O Zagato Zele original tem uma carroceria em fibra de vidro. Hoje seria construído em plástico, mais leve e, portanto, o carro seria um pouco mais veloz.

Era perfeito para o trânsito urbano. Continuaria a ser. Hoje, mais do que nunca.

A ÁRVORE DA VIDA, de David Inácio

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Vamos falar de um livro e do seu autor. É um livro de rimas, de uma poesia de sabor popular, de um cantarolar puro sobre as coisas da vida. O autor é um antigo maçon, na verdadeira acepção da palavra. David Inácio ganhou a vida a talhar pedra das pedreiras de Cascais. Reformado e viúvo, descobriu que as mãos que dantes pegavam no martelo e no escopro, podiam pegar na caneta e desenhar poesia.

O livro leva o título A Árvore da Vida. Ao historiador José d’Encarnação faz-lhe lembrar “o papel dos jograis medievos, vozes que se faziam eco de vidas, anseios, alegrias e dissabores. Como aqui, em toda a simplicidade de quadras de pé quebrado,” conforme afirma no prefácio aos poemas de David Inácio.

“David Inácio nasceu, a 29 de Abril de 1932, em S. Brás de Alportel, no Barrocal algarvio. Na década de 50, veio – com muitos outros, canteiros, cabouqueiros, trabalhadores… – para as pedreiras de Cascais. Descobrira-se a importância do azulino cascalense para as grandes obras públicas de então e, por outro lado, o chão são-brasense não se oferecia tão dadivoso quanto os subúrbios da capital… Nunca o abandonou, decerto, esse hábito barrocalense do rimar quotidiano, a pretexto de tudo e de nada, mormente – como os demais – perante o azougue feminino. A Árvore da Vida constitui, pois, em despretensiosa singeleza, o seu tributo à alegria de viver!” José d’Encarnação

90 anos depois de ter nascido em S. Brás de Alportel, David Inácio diz-nos que «Os poemas vou escrevendo / Porque escrever faz-me bem». E a nós há de nos fazer bem ler o que lá vem.

Oásis foi o concerto do Rui Massena

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Há momentos em que nos assalta o desconforto de – por ignorância – termos de nos declarar incapazes de compreender cabalmente uma cena, um espectáculo, um fenómeno, porque não estudámos, não temos luzes bastantes… O concerto de Rui Massena foi um deles.

Também é verdade, porém, que nos resgatamos com a beleza duma flor, a sinfonia dos tons. Agrada-nos, extasia-nos, desperta em nós um sentimento de felicidade e de bem-estar, ainda que não lhe saibamos o nome – o comum e, muito menos, o científico – nem se é originária do Brasil ou do Cabo da Boa Esperança ou se, ao invés, é tipicamente endógena… Extasia-nos e… pronto!

Essa (devo penitenciar-me?) a sensação que ora ainda tenho, passados que foram alguns dias sobre o concerto que Rui Massena e o seu conjunto deram no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, na noite de 29 de Abril. Permanece a sensação boa proporcionada. Permanece a visão daquela atmosfera sombria, com suaves jorros de luz aqui e além. Intimidade. Reflexão. Um acorde agora, outro só daqui a um ou dois segundos. Aquele grupinho ao canto, como que em conluio, mal iluminado, donde vêm sons esparsos, a sublinhar a voz, também ela recatada, do piano… quem serão? Senhoras? Senhores? Violinos parece que tocam, pelo gemido das cordas… Vem agora, meio na penumbra, o vulto que se senta na percussão. Mais tarde, outro aparecerá, numa guitarra. Só larguíssimos minutos depois de o concerto ter começado (às 22 e 45 minutos) é que ensaiámos um aplauso (quase nos íamos esquecendo…) e começámos a vislumbrar o ensemble, o tal conluio apenas sugerido no início. Conluio forte, conspiração a acarretar atrás de si longuíssimas horas de ensaio, para nos proporcionar, assim miniaturizados estranhos sons, de facto; estranhos, mas propiciadores de uma viagem onírica, guiada por um senhor de cabelos em pé, despenteados, que nem jeito tem para falar – ou que não quer falar com a sua voz humana…

Seduziu-me, há dias, a frase dum amigo a evocar viagens de infância em bolinhas de sabão. Sensação idêntica tive, na noite ímpar do concerto. Viagem. Percurso por plagas inóspitas, ora dolentes, ora de ridentes cachoeiras, ora de folhagens sussurrantes…

Tivera eu erudição musical, entreter-me-ia a ver se era andante ou allegro o movimento; se os violinos eram todos de som igual ou se havia violetas pelo meio (estaria ali algum stradivarius?). Interrogar-me-ia acerca da designação daquele singular teclado sobre o piano, que mais parecia órgão em miniatura…

Tivera eu preocupação de jornalista consciente e, além do rol dos trechos tocados (se é que os trechos tinham nome e autor que não fosse Rui Massena); daria boa conta dos nomes de todos os componentes do grupo, que, aliás, Rui Massena, teve o cuidado de apresentar, mas tão extasiados estávamos que não houve jeito de anotar. Faltou um programa escrito; à entrada, só nos deram bónus para ir jogar nas máquinas; mas, se calhar, isso foi de propósito e não por falta de dinheiro para imprimir o programa. Assim ficamos melhor, no mundo das sensações boas. Sem etiquetas, sem a peia das etiquetas.

E por esse sonho navegámos, sem baixios nem escolhos d’ansiedade. Ficou bem longe o estrondo das explosões e o choro contido dos meninos órfãos. Oásis foi – para melhor conseguirmos, agora, enfrentar a dureza do deserto!

ESTADO PORTUGUÊS VAI INDEMNIZAR RECLUSOS

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O Estado português foi, mais uma vez, condenado pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Desta vez, o Estado terá de pagar uma indemnização a três reclusos que apresentaram queixa pelas condições de detenção a que foram sujeitos.

O montante das indemnizações não é elevado, mas o Tribunal Europeu considera que estão na linha de outras indemnizações em casos semelhantes, pelo que os reclusos terão de se contentar com os 28.500 € que irão sair dos cofres estatais.

Segundo nota divulgada na página do Facebook da Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR), o advogado Rodrigo Mendes Martins é citado ao afirmar que “estas indemnizações provam que as condições de detenção nos estabelecimentos prisionais portugueses são desumanas”.

Segundo informa a APAR, “Rodrigo Mendes Martins é o defensor de Fábio Rodrigues, jovem de 22 anos, que foi detido na cadeia de Coimbra. Nesta prisão partilhou uma pequena, húmida e fria cela com diversos reclusos e todos tiveram de utilizar a mesma retrete.”

Neste caso, o Estado “reconheceu as condições inadequadas de detenção” e propôs, sem julgamento, o pagamento de uma indemnização de 13.750 euros. Fábio Rodrigues recusou a proposta, demandou o TEDH mas este tribunal internacional considerou que o valor “é coerente com os montantes concedidos em casos semelhantes” e arquivou o processo.

Em casos semelhantes, decididos em simultâneo com o de Fábio Rodrigues, ficou decidido que Vítor Rodrigues, de 33 anos, e Liam Handley Neely de 37, irão receber, respetivamente, 6750 euros e 8000 euros de indemnizações.

“Temos um problema nas nossas cadeias que não é resolvido pelo Estado e que leva os reclusos a lutarem pelos seus direitos no TEDH”, afirma o advogado Rodrigo Mendes Martins, refere a nota da APAR.

OUTRAS GUERRAS

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Enquanto se desenrola o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, outras guerras se aproximam. As notícias provenientes de zonas do globo mais afastadas da Europa alertam para a deterioração da situação. Mas como é lá longe, não sentimos o perigo da mesma maneira. O PCP também ainda não se manifestou sobre o caso e, então, ainda não se deram as reações que o russo Ivan  Pavlov tão bem documentou.

Mas a verdade é que, por exemplo, a China invadiu hoje o espaço aéreo de Taiwan. As incursões da Força Aérea chinesa têm sido cada vez mais frequentes. Já eram, mas desde que eclodiu a guerra na Ucrânia intensificaram-se. O Ministério da Defesa de Taiwan precisou que a incursão incluiu 12 aviões de combate J-11 e J-16 e dois bombardeiros H-16.

Este ano, já houve 370 invasões chinesas no espaço aérea de Taiwan, ilha que se separou da China, mas cuja independência nunca foi reconhecida pelos chineses. Perante a ameaça de invasão chinesa, o Governo de Taiwan está a fazer um esforço para equipar as suas forças armadas com armamento de tecnologia de ponta que os EUA lhe queiram vender. Os americanos prometem ajudar a defender Taiwan, mas não lhes dão armamento. Vendem e caro. Tão caro que, segundo a agência Reuters, Taiwan desistiu de comprar 12 helicópteros MH-60R para luta antissubmarina.

BASE MILITAR CHINESA NAS ILHAS SALOMÃO

A China celebrou um tratado de segurança com as Ilhas Salomão e a Austrália teme que esse acordo sirva para a instalação de uma base militar chinesa nesse arquipélago.

As Ilhas Salomão estão mais próximas da Austrália do que da China e já expressaram preocupação com uma eventual invasão australiana, caso a China avance com a instalação de uma base militar.

CHEGA ESTÁ PARTIDO

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Problemas e divergências internas levaram o líder do Chega a demitir o seu chefe de gabinete. Nuno Afonso, que foi eleito vereador para a Câmara Municipal de Sintra nas recentes eleições autárquicas, foi despedido sem explicações públicas.

Dizem que Nuno Afonso queria ter sido deputado, mas não foi incluído nas listas do partido. Isto, apesar de ser o militante nº2 do Chega e, naturalmente, um dos fundadores do partido. Ou seja, as querelas entre Ventura e Afonso não são de hoje. Nem de ontem. Nem se percebe bem a razão de Ventura ter nomeado Nuno Afonso seu chefe de gabinete. Se o homem já não prestava… Mas a política tem razões que a razão desconhece e os equilíbrios internos no Chega devem ter levado a isso. Mas quando um dos lados tem mais força, acontecem coisas destas.

Nuno Afonso aguentou-se um mês no cargo de chefe de gabinete. Tudo isto acontece uma semana depois de, também no Parlamento, ter sido conhecida a demissão de um assessor do partido.

Manuel Matias, pai da deputada Rita Matias, fora nomeado por André Ventura. Foi levado a renunciar depois legalidade da sua nomeação ter sido questionada.

Com o nº1 a repudiar o nº2, é evidente que o Chega está partido. Por enquanto, Ventura parece dominar a situação, mas as perdas são evidentes e as críticas internas já chegaram ao conhecimento público.

Em conversa com Daniela Anghel

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«A palavra definitivo, nos tempos apressados de hoje, parece, se não uma utopia, um insulto».

Decorreu com o natural entusiasmo a inauguração, no passado dia 23, da exposição «Desfiguração da Utopia», da artista romena-lusa Daniela Anghel, na galeria do Casino Estoril, onde ainda pode ser visitada até ao próximo dia 23.

Os visitantes ficam estupefactos – é o termo! – não apenas pelas dimensões das obras ali patentes, mas, sobretudo, pelo realismo da multiplicidade das imagens que para cada uma das telas são convocadas.

«As expectativas utópicas humanas, a falta da água, a fome a e pobreza em África, a guerra na Síria e a perda da fé como crítica do presente» – constituem, na opinião da artista. os temas ali dominantes.

Aliás, há toda uma mensagem de intervenção a perpassar pela enorme beleza do que se vê. Daniela Anghel é, também, uma pensadora que faz da pintura uma arma. Impunha-se, por isso, uma conversa.

– Quem é Daniela Anghel?

É preciso um longo desvio para falar de nós mesmos.  Neste espetáculo, que é a vida, cada um de nós vive como Cristo por quinze minutos, como afirma Andy Warhol; e nem todos têm o contentamento de ser representados na eternidade como o próprio Cristo. Todos nós temos escondidos algures uma versão particular do calvário. Não estou interessada nos desastres que um pequeno calvário particular provoca, mas na força criativa indefinida em que este se exibe.  Pode ser que neste estado temporário intempestivo se possa falar de qualquer coisa como eu.    

– Sendo teu pai um diplomata, acabas por ser também tu uma artista itinerante. Expuseste na galeria do Casino, a mostrar-nos personalidades portuguesas retratadas em ponto grande. Que recordações tens dessa exposição?

O Doutor Nuno Lima de Carvalho apreciou, apoiou e divulgou muito a minha pintura ao longo dos anos. Claramente, estou entre aqueles que tiveram o privilégio de passar umas tardes com o Doutor Lima e a Doutora Clarinda na Galeria de Arte do Casino. Tenho muitas memorias bonitas com eles. Foi através deles que conheci também a escritora Agustina Bessa Luís e muitas outras personalidades portuguesas. Também foi ao seu apelo que fui desenvolvendo projectos de pintura que poderiam talvez não ter acontecido. Em 2004, por exemplo, o Doutor Lima, convidou-me para pensar numa exposição dedicada às Mulheres de Portugal. Embora, em muitos dos casos possam ter passado despercebidas, acredito que quase todas as mulheres que retratei tiveram um papel decisivo na história e na cultura portuguesas. A escritora e jornalista Maria Lamas, foi uma das figuras que mais lutou para os direitos das mulheres portuguesas. Na Europa, entre 1948-1950, quando ela escreveu “As Mulheres do Meu País”, foram publicadas outras obras também, sobre o conteúdo analítico de “género” na sociedade; nomeadamente “As estruturas elementares do parentesco” de Claude Lévi-Strauss e “O segundo sexo” de Simone Beauvoir entre outros. Foi uma mulher solidária e é essa pré-disposição para o outro que mais me interessou nelas.

– Foste depois para o Brasil: que novidades te trouxe, como artista, o contacto com as gentes brasileiras?

Vivi na capital, em Brasília DF. Uma cidade nova, moderna, a cidade criada pelos arquitetos Lúcio Costa, o Óscar Niemeyer e o engenheiro Joaquim Cardozo. Uma cidade viva com uma atividade cultural intensa. Um dos encontros mais interessantes que tive no Brasil foi através da arte. “A primeira Missa no Brasil” do pintor do imperador Pedro II, Victor Meirelles; o retrato autêntico e singular do povo brasileiro visto por Cândido Portinari, ele mesmo nascido numa fazenda de café; a pintura modernista da Anita Malfatti; os retratos dos africanos pintados pelo Arthur Timótheo da Costa; as obras “A Elevação da Cruz” e a “Fascinação”, pintadas por Pedro Peres; mostraram-me uma imagem totalmente nova sobre o Brasil. Era um Brasil que eu desconhecia e que, no fundo, como todas as coisas imensas que vale a pena ver, tocar, tentar compreender, continua cada vez mais desconhecido.

– Que significa este regresso a Portugal: mais uma passagem ou um regresso definitivo?

É uma passagem. Para sempre, como se costuma dizer, é muito tempo. A palavra definitivo, nos tempos apressados de hoje parece, se não uma utopia, um insulto.

– Que mensagem principal pretendes passar com a exposição que vais apresentar-nos?

Não procuro mensagens principais, respostas ou soluções, mas, sim, imagino a produção de ambiguidades geradoras de perguntas. A imagem nunca é uma realidade simples. “Para que a montagem ambígua dos corpos suscite a liberdade do olhar crítico ou lúdico, é preciso organizar o encontro” afirma Georges Didi -Huberman em O destino das imagens. As minhas pinturas mostram vários encontros de imagem/fantasma que revindicam novas forças.  

ACABAM QUASE TODAS AS TAXAS MODERADORAS NA SAÚDE

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A decisão de acabar com as taxas moderadoras na saúde é uma boa medida. Os portugueses só podem estar contentes, exceto aqueles que são acionistas de hospitais privados. Ou aqueles que são comissionistas de seguros de saúde. Todos os outros estão contentes.

É verdade que os ricos também ficam isentos do pagamento das taxas moderadoras, o que pode ser considerado uma injustiça. Ainda não é desta que os ricos pagam a crise. Mas dificilmente eles irão para a fila das urgências dos hospitais públicos. Não nos iremos cruzar com eles.

Há ainda uma nuance que implica o pagamento das taxas. Se formos à urgência sem aval prévio do SNS24, a taxa será paga. É o truque para aliviar a pressão nas urgências hospitalares. As pessoas serão obrigadas a passar pelo crivo dos centros de saúde. Esperemos que essas estruturas aguentem. Mas vão surgir problemas. Muitos centros de saúde funcionam com horário de escritório. Quem tiver uma dor depois das 18 horas vai ter de se agarrar ao telefone para falar com o enfermeiro de serviço no SNS24.

O fim das taxas moderadoras é uma decisão sensata e da mais elementar justiça. Afinal de contas, a taxa era uma espécie de duplo imposto. Porque tudo o que está no SNS foi com recurso aos impostos que todos pagamos.

A originalidade do nosso «obrigado!»

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Numa das vezes que passei por Castelo Branco, concretamente em 2010, a Dra. Clara Vaz Pinto, então directora do Museu Tavares de Proença, mostrou-me a vernaculidade do agradecimento à moda beirã: «Bem hajas!».

Desde então, passei a privilegiar essa forma, de tal modo que, em 17 de Novembro p. p., ao usá-la no restaurante «A Brasa», em Riachos, o dono me perguntou se eu era de Castelo Branco, porque ele vivera lá uns tempos e também ele ficara com esse jeito de agradecer, em vez do «obrigado!». Não me agrada, de facto, ouvir «obrigada!» ou «obrigados!», embora me enterneça o «obrigadinho!»…

«Bem hajam!» – o nosso desejo de que, em reconhecimento do que nos fizeram, as pessoas passem bem, tenham saúde e se concretizem os objectivos que fixaram para o seu viver! Todo um programa, portanto! Não mensagem apenas para o momento, mas projecção de futuro, como quem diz «haja saúde!».

Achei, por conseguinte, a expressão deveras adequada ao que um agradecimento pode consubstanciar.

Outro dia, porém, amigo meu enviou-me o vídeo em que o Professor António Nóvoa, por ocasião do III Encontro PIBID UNESPAR, realizado em Setembro de 2014, na Universidade Estadual do Paraná, no Brasil, sob o lema «Formar Professores para o Futuro», dissertou sobre o significado da gratidão.

Pegando no Tratado da Gratidão de S. Tomás de Aquino, explicitou que há três níveis de gratidão: o mais superficial, o cerebral, do reconhecimento intelectual; o 2º, o de dar graças a alguém; e o 3º, o mais profundo, o nível do vínculo, de nos sentirmos vinculados e comprometidos com a outra pessoa.

Assim, em inglês («thank you») ou em alemão, agradece-se no nível mais superficial da gratidão, estamos a agradecer no plano intelectual. Na maior parte das línguas europeias, agradece-se no nível intermédio, «merci» (em francês), «grazie» (em italiano), «gracias» (em castelhano): estou a dar-lhe uma mercê, uma graça. Só em português se agradece no 3º nível, o mais profundo: digo «obrigado!» para significar que «fico obrigado perante si, criei um vínculo, comprometi-me ao diálogo e a mantê-lo». Por isso, professor terminou dizendo «Obrigado!».

Lembrei-me de imediato daquela linda passagem do «Principezinho» de Saint-Exupéry, quando a raposa lhe diz «cativa-me!», porque cativar significar ‘criar laços’:

«Tu para mim ainda és só um rapazinho parecido com cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim, Eu para ti sou só uma raposa parecida com cem mil raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a ter necessidade um do outro. Tu serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo…».

Por isso, mais adiante na conversa, a raposa acrescentaria:

«Só se conhecem as coisas que se cativam. Os homens já não têm tempo para conhecer. Compram as coisas feitas nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me!».

Volto, pois, a usar o «obrigado!».

E digo-lhe ‘bem haja!’ por ter conseguido ler-me até ao fim!…

PS EXPULSA VELHO LUTADOR ANTIFASCISTA

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O PS acaba de expulsar um verdadeiro antifascista de longa data. Dos poucos que ainda por lá andavam. Dos poucos que sabem o que foi viver na clandestinidade, no exílio ou nas cadeias do regime onde sofreram degredos e torturas. Dos poucos que sabem o que foi preciso para pegar numa arma e atacar a ditadura salazarista. Maximino Serra foi expulso do PS.

E assim o PS assemelha-se cada vez mais ao partido de Basílio Horta e menos a um partido socialista.

A razão que levou à decisão de expulsar um velho militante de quase 90 anos de idade, foi ele ter integrado o último lugar dos suplentes de uma lista de outro partido nas últimas eleições autárquicas. Todos sabemos que o fez por amizade pelo cabeça-de-lista do Nós Cidadãos em Alcobaça, de resto um outro ex-militante do PS.

Por causa de um formalismo, o PS deita fora a memória viva do assalto ao quartel de Beja, da revolta da Sé e de outras ações armadas em que Maximino Serra participou ao lado de Henrique Galvão ou de Humberto Delgado.

Maximino é irmão do falecido Manuel Serra, outro histórico da luta antifascista e igualmente militante do PS. Ambos dedicaram a vida a combater o regime de Salazar, até ao 25 de abril de 1974.