Um largo que virou bairro

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Sinto um aperto no coração, no estômago, na garganta ao abrir a página. As palavras até estão ordenadas na cabeça, os sentimentos não, volto a fechá-la.

Para ultrapassar a angústia tenho de ir por partes, não escrever de uma só vez . Ficaria contente, sim, mas sem um bocado de mim.

Morei durante uns anos no Largo Conde Ottolini, em São Domingos de Benfica. Em 2011 decidi que, ou arranjava um namorado, ou um cão. O destino deu-me o namorado, o namorado estilhaçou-me o coração.

Pensei então num cão, uma amiga incentivou-me a adoptar. “Terás sempre alguém à tua espera em casa”. Fomos ao Canil Municipal de Lisboa, sou veementemente contra a compra de animais. Pedi para ver dois: uma cadelinha e um cão de maior porte. Não fiz clique com nenhum, nem um bocadinho, pensei até que adoptar um cão  seria um capricho.

Vi no Facebook uma foto da União Zoófila e resolvi espreitar o mural. Na capa o cão mais lindo do mundo. Nariz cheio de personalidade, umas orelhas macias em forma de triângulo, uns olhos de amêndoa. “És mesmo tu. Rufia e meigo q.b.” Apaixonei-me ainda antes de o conhecer, adoptei-o. Puseram-mo nos braços embrulhado numa toalha branca, parabólica à volta do pescoço, completamente anestesiado da esterilização. Tornei-me mãe.

Tão doce, uma alegria inesgotável, uma energia maior e, tal como suspeitava, um belo rufia. Trela curta! Passámos a fase do roer tudo e mais alguma coisa, perdi uns bons quilitos nos passeios por Monsanto. Mas os meus horários instáveis eram incompatíveis com a rotina de o levar à rua. Precisávamos de um pátio.

Encontrei uma casa bem maior, com um pátio que tinha vista para a Senhora do Monte e passámos a morar na rua de meu nome: Rua Andrade. Grande pinta! O sítio era óptimo. Metro à porta, farmácia do outro lado da rua, o LIDL a dois passos. Por mero acaso fui à inauguração do “O das Joanas”, um café com esplanada por baixo do gabinete de António Costa, presidente da CML à altura que, depois das obras no largo, fez algo inédito e trocou os Passos do Concelho por um gabinete no Intendente. Era preciso mudar a má fama (justificada) do bairro, ele deu o exemplo.

Durante um ano “O das Joanas” foi a única esplanada do largo. Começou a ser frequentada por vizinhos que viviam ali há 30, 40, 50 anos. Juntaram-se os novos, uma série de gente que ali se cruzou e onde nasceu um espirito bairrista. Passámos a ser “bizinhos”.

Um ano depois, no centro da praça, o café “Largo Residências”, entrou em obras e foi a segunda esplanada a abrir. Enquanto as obras decorriam, estava uma “miúda” franzina sempre à porta. Não consegui descortinar o que fazia ali à entrada, (aparentemente nada) enquanto os outros trabalhavamPassei várias vezes pelo lado oposto do largo, tinha curiosidade mas não tive a coragem de passar por ela. Um dia passei. A Leonor Clara, a primeira gerente do espaço, perguntou se queria beber um chá ou um café. Aceitei o café, aceitei-a para o resto da vida, abracei a sua filha Madalena, a minha “abelhinha mais doce”. Apaixonei-me incondicionalmente desde o dia em que ousei passar o meu set “Abelha Maia Sound System”. Como decorria durante o dia incluí crianças. Foi tão bonito, tivemos direito a uma ovação de palmas e tudo!

Não vi muitos dos mil concertos, os festivais “Intendente em Festa” pois passei a  ter um cargo muitíssimo importante. Era a BabySitter Rock Star tomava conta  da abelhinha enquanto a mãe trabalhava.

A tarefa era muito fácil. Ela e o Pirata perdiam-se de amores e brincavam o tempo todo. Eu apenas ia espreitando os dois e fazia um jantar recheado de brincadeiras e gargalhadas. Sempre fiz justiça ao meu título!

O café do Largo  (assim ficou conhecido) foi a entrada para a integração, a cultura, a animação, e outra vez a integração. Um desafio permanente que se desdobrou em espectáculos, exposições, debates, jantares…a lista é infinita. E lá andava a Marta Silva, sempre de um lado para o outro, sempre em reuniões, sempre a organizar eventos, um furacão! E ainda a Ana Jaleco, a Raquel Fernandes e outros na produção de mil tarefas. O Augusto sempre de máquina na mão fotografava tudo. Houve tanta gente que passou e ficou por ali que me perco ao recordar. Que me desculpem aqueles a quem não faço referência. São muitos, tantos!

Lembro-me do aniversário de um dos maiores símbolos de resiliência e paz no mundo. Ajudei a fazer um caril muito especial. A Leonor descobriu a receita do caril que a mulher do advogado de Nelson Mandela levava às escondidas para a prisão. Houve um jantar oficial em sua memória e depois um concertão do Carlos Barreto que ouvi no pátio. Como cenário uma instalação gigante do rosto desse ídolo, feito com tampas de garrafas de água recolhidas e entregues no café. Mais uma vez, um acto de comunhão, com os bizinhos sempre a fazer parte, sempre em sintonia.

A Luísa Martins, uma moradora da velha guarda, com uma vida bem dura que não lhe conseguiu roubar a alegria ou a capacidade de rir e… refilar, (Possa que a mulher não se cala!) organizou, logo no primeiro ano, um almoço de Natal ao ar livre para os sem abrigo, aberto a toda a gente. Virou tradição e aumentou exponencialmente de ano para ano. Nunca choveu apesar de ser Dezembro, São Pedro sempre apadrinhou esta iniciativa que exemplificou o verdadeiro espírito de Natal. Com muito orgulho ajudei a fazer a tradicional feijoada na Cozinha Popular da Mouraria, quase todos os anos. Era um clássico. Nunca falhámos o deadline, nunca faltou comida. Os ingredientes eram oferecidos pelos comerciantes da zona e toda a gente levava mais alguma coisa. Tanta que num fim de ano, com a comida que sobrou, fizemos uma jantarada de fim de ano onde nada faltou. Eu, orgulhosamente fiz um panelão de bacalhau à brás. Fiquei toda vaidosa e houve ainda outro panelão de alho francês à brás. Comida para o menino e para a menina.

Foi uma festa de arromba onde não entraram doutores ou prostitutas, ricos ou pobres, canalizadores ou arquitectos, desempregados ou profissionais de sucesso. Fomos elitistas, ali só entraram pessoas.

Numa noite a magia instalou-se em grande no Intendente. Um concerto improvisado por dezenas de músicos, dois dias depois da morte do consagrado Lou Reed. Todas as ruas foram dar ao Intendente. Em tempo recorde os artistas traçaram um alinhamento de músicas onde cada um cantava um tema dele. Foi perfeito. Mágico. Uma ovação final interminável, uma celebração da vida, a multidão em plena harmonia. Minutos depois do final, João Menezes, Coordenador do Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção Prioritária, pegou no microfone e informou que a CML nos deu mais tempo. Perguntou se queríamos que se repetisse o concerto, uma vez que cada artista só teve tempo para ensaiar uma canção. A multidão entrou em delírio! Eu, encantada, deslumbrada, fui para o camarote real do largo, a janela do Sport Club do Intendente. Outro sítio emblemático do antigo e do novo bairro, entretanto encerrado, como tantos outros….

De uma forma espontânea um núcleo duro de amigos formou-se. O Adam Mathew Barton-bates baptizou-nos como “Os bandidos”, sempre gostei do nome. Depois do café fechar ficávamos pelo Kit Garden (obra de Joana Vasconcelos) a bebericar imperiais, sempre a rir. Às vezes saímos à noite, atenção! E lá íamos a pé pela rua do Benformoso fora até ao bar “Anos 60” na Mouraria. Aqui existia um melting pot  enorme formado por gente caucasiana, negra, velhos e novos, gente às bolinhas amarelas e outras às riscas azuis. Pessoas.

Para além da Luísa Martins, que se tornou uma espécie de bandeira do bairro, e alguns outros que o tornaram icónico, havia a Rock Star das Rock Stars! Pirata, o meu rafeiro arraçado de podengo, a quem chamavam piri-piri,  arranca-corações, comandante das tropas, organizador de festas, amor à primeira vista, pinga-amor, rebelde, um doce. Conhecia toda a gente, era perito a sacar festas e hiper-perito a sacar tostas! Ficava envergonhada quando o via, com olhos de quem não comia há 20 dias, parado em frente a alguém com uma tosta na mesa. E conseguia sempre, sempre, um bocado. Às vezes mais do que um bocado.

Além disso, assim que via determinada pessoa a entrar pela rua do Benformoso, corria a ladrar, a ladrar. Ficava furiosa, ia buscá-lo mas quando chegava perto, percebia que aquela pessoa ou estava bêbada, drogada, enfim, alterada. Claro que voltava arreliada, trela curta, mas a Rock Star das Rock Stars regressava muito senhor de si, de nariz empinado, muito satisfeito como quem diz, “pessoal já tratei disto, podem estar na boa”. Um clássico muito apreciado pelos bizinhos que se riam e me deixavam ainda mais furiosa. Mas… era o guardião do largo.

Morreu precocemente e a dor atingiu toda a gente. O largo ficou mais pobre, não me desfiz em pedaços porque tive os amigos, em particular os bizinhos mais próximos, que me levaram ao colo. Ninguém ficou indiferente, ninguém deixou de me dar uma palavra amiga. Foi tristemente bonito.

Com “O das Joanas” abriu entretanto a “Vida Portuguesa” e também a “Casa Independente” que se tornou uma referência de música, num casarão lindíssimo, mas onde o conceito de integração não foi prioritário. E a esplanada “Josephine” e depois mais uma, e depois mais outra, e ainda outra esplanada, e cumpriu-se o objectivo de António Costa: pôr o Intendente no mapa de Lisboa, torná-lo numa zona de turismo que, não obstante a sua elegância, não tem alma. “Um largo que virou bairro” como disse, e muito bem, o bizinho Dinis Beringuilho, desapareceu.

No passado dia 16 de Abril o Café do Largo fechou portas, ao fim de 11 anos, mas em festa, pois claro! Os bizinhos da velha e da nova guarda marcaram presença. Por ali fiquei entre abraços, sorrisos fraternos, reencontrei com emoção pessoas que não via há anos. “No Intendente é tudo boa gente”, costumava dizer.

Sentei-me para beber um café e, de repente, o Pirata passou por ali a correr! Foi dar uns beijos às Madalenas, duas amigas inseparáveis, agora adolescentes, fez pose para a câmara do Augusto (nunca fez tal coisa para mim), deu um abraço ao Zé Mendes, encheu a Carlota de lambidelas, saltou para o colo da madrinha Sílvia que tinha por hábito comprar sempre dois gelados: um para ela outro para a Rock Star… Refilava muito zangada e, mesmo assim, sorrateiramente, o Pirata lá engolia o seu Rol e… rissóis, pastéis de bacalhau, bolachas…Com a madrinha comia de tudo, às minhas escondidas, claro!

Continuei a vê-lo a correr por ali, aparecia e desaparecia, muito ocupado, pois havia muita gente para cumprimentar.  Era um puro relações públicas, era o Rei. Foi a alma daquele bairro.

Deixei de o ver, espreitei e espreitei mas nunca mais o encontrei. Fui para casa e não consegui voltar. Não quis perder um bocado de mim, preferi guardá-lo.

O aperto no coração, no estômago e na garganta saíram de fininho. Ficou a saudade. Saudade não é um sentimento triste. Saudade é sentir à flor da pele todo o amor que os outros plantaram em nós.

Até sempre Intendente!

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