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O exército luterano de Dom Sebastião

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Vieram em 54 urcas, aos poucos, todos entre Fevereiro e Abril de 1578. Os dominicanos lisboetas organizaram uma encrenca entre eles e a população local, porque não queriam ver hereges e suas mulheres (800) e suas crianças (300), na baixa lisboeta. Dom Sebastião decretou, então, que essas urcas descarregassem todos nas praias do Dafundo e na Cruz Quebrada. As urcas foram juntas no Mar da Palha. Ordenou-se aos estrangeiros que fossem (a pé) do Dafundo até Cascais. Aí lhes foi negada a entrada, por “não serem católicos”. Tiveram de acampar em frente das portas da vila, onde hoje se situa a baixa cascalense, sobretudo à volta do Jardim Visconde da Luz junto às grutas do Poço Velho.

Em Janeiro de 1578, a cidade de Amesterdão, então católica, votou pacificamente para passar ao protestantismo. O senado ordenou aos prateiros que entregassem as suas chapas de prata para serem cortadas às fatias e esquartejadas em pequenas placas que serviam como a nova moeda de Amesterdão. Os cantos eram arredondados e levaram apenas punções de uma face. Era o punção das três cruzes de Amesterdão com a data de “1578”. O valor era apenas o seu peso em prata. Mas foi bem aceite.

Uma das “chapinhas de prata” encontradas em Cascais. Batidas apenas numa face com as armas de Amesterdaão e a data de 1578. Valiam pelo seu peso em prata e assim circulavam como moeda de recurso, por causa de a revolução desta cidade ter passado do Catolicismo para o Protestantismo (em Janeiro de 1578), apenas semanas antes da chegada dos primeiros grupos de cracas hanseáticas que se dirigiam a Lisboa.

Chegando, então, as primeiras urcas da Liga Hanseática a Amesterdão, resolveram os cambistas da cidade convencer os mercenários e suas famílias a trocarem as suas moedas de Hamburgo, Lübeck, Frankfurt, Bremen, Basileia e de muitos pequenos reinos ducados, principados e cidades, cuja conversão era um problema, por estas novas moedas de prata apenas valerem pelo seu peso de prata.

Assim entrou em Portugal o exército, chamado luterano, de Dom Sebastião, trazendo consigo as tais moedas holandesas de recurso momentâneo.

Esconderam as poucas moedas que tinham debaixo das tendas e, apenas meses depois, quando, de repente, se deu o toque para todos se apresentarem na praia de Cascais, foram embarcados nas urcas então reaparecidas, sem terem tido hipótese sequer de voltar às suas tendas e levarem as suas bolsinhas.

Claro é que foi tudo (ou quase tudo) saqueado! Tristes realidades sempre escondidas!

A secção da Germânicas da Universidade de Coimbra tem tido “a ousadia” ( e ainda bem) de publicar bastante acerca destes mercenários germânicos que, por ordem do Cardeal-Rei (Inquisidor-Mor), nem resgatados foram! Quem fora preso ou ferido era passado ao fio da espada; quem fosse saudável vendido para escravo. As mulheres vendidas aos bordéis do Magreb e as crianças aos bordéis no Egipto.  Mas houve sobreviventes que escreveram as suas memórias da batalha e as aventuras (via Grécia-Hungria) do seu regresso para o Norte dos Alpes. Estes relatos são fabulosos e bem diferentes de tudo o que nos ensinaram.

Desenho de Lima de Freitas (1957) intitulado: “A Ida para o Desastre”. Mostra o desembarque da artilharia e das bagagens a caminho de Tânger para Alcácer-Quibir.  Uma fila (duas léguas) de canhões e carruagens de bagagens  foram para o deserto passando por chuvas torrenciais – contaram os sobreviventes alemães e o nosso grande mestre setubalense assim os desenhou a tinta da China; mas ninguém lhe deu atenção

Acontece que eu tive quatro lojas de antiguidades em Cascais, algumas durante meio século. Neste espaço de tempo, assisti a duas grandes cheias na baixa de Cascais (perdendo uma das lojas com todo o seu recheio).

Através dos meus contactos com as ourivesarias de Cascais daquela época, que possuíam todas pequenas oficinas de restauro no seu interior, passei a ver diversas chapinhas de prata puncionadas “15 XXX 78” e apenas numa face. Os ourives compravam-nas aos jardineiros da Câmara que estavam a revolver as terras do antigo Jardim Visconde da Luz e da limpeza interior das grutas. Ninguém sabia que se tratava de moedas holandesas. Apenas as compravam para matéria-prima de pequenas soldaduras de prata que faziam em obras dos seus clientes.

Registo oficial da Casa da Moeda de Amesterdão da emissão das moedas quadradas em chapa de prata batidas em Janeiro de 1578

Achei “graça” e comprei! Mal sabia eu que a meia dúzia que já então tinha em meu poder me seria arrancada da “Sala das Armas” na próxima grande cheia. Felizmente consegui adquirir outras.

Também tinham aparecido algumas “moedas de cobre”, com o busto de Filipe II  de Espanha numa face e a nossa esfera armilar na outra. Estavam datadas de 1576 ou 1577. Vim a descobrir que se tratava de “contos para contar” do exército do Duque de Alba, usados nos Países Baixos. Não eram moedas, mas foram cambiadas como tais aos futuros colonos, pelo seu valor de cobre.

Acabei por possuir algumas delas também.

Verso do “conto para contar” de 1574, batido para o exército de Filipe II de Espanha nas suas campanhas nos Países Baixos. Uma vez apreendidos pelos holandeses, esses contos acabaram por ser trocados com os mercenários flamengos e alemães, como moedas de cobre, que depois seguiram para Lisboa e Marrocos.

UCRÂNIA A VER ESTRELAS

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O general Valério Zaluzhniy, chefe do Estado Maior General da Ucrânia, pediu mais 8 mil terminais de Starlink a Elon Musk. Os terminais Starlink permitem comunicações internet via satélite e têm sido fundamentais nesta guerra para a coordenação das operações militares ucranianas.

Terminal Starlink

Dito isto, é evidente que um prato ou um disco Starlink num qualquer telhado da Ucrânia é visto como uma arma pelos russos. E muitos já deverão ter sido inutilizados.

Normalmente, tudo quanto a Ucrânia pede, o mundo dá. Mas, agora, Elon Musk disse que alguém tem de começar a pagar a conta. E que a conta já ronda os 120 milhões de dólares e, com a continuação da guerra, estima-se que chegue aos 400 milhões dentro de 1 ano.

Musk é um homem de negócios. Vende bens e serviços que lhe custam dinheiro a desenvolver e a produzir. Portanto, o “boss” mandou dizer ao Pentágono que está na hora de começarem a pagar. Ou não haverá mais terminais de Starlink para Zelensky. Até agora, foram fornecidos à Ucrânia cerca de 20.000 terminais Starlink.

Existe uma forte interdependência entre Musk e o Governo dos EUA. O empresário é o principal suporte do programa espacial da NASA, através dos foguetões Space X que, entre outras tarefas, levam e trazem astronautas da Terra para a Estação Espacial Internacional que orbita o planeta.

Curiosamente, o outro parceiro da NASA é a Rússia. Apesar da guerra e das sanções contra a Rússia, esta parceria nunca foi posta em causa e continua a funcionar. Há cerca de três semanas, um foguetão Soyus russo levou um astronauta americano para a Estação Espacial. No dia 21 de setembro, os cosmonautas russos Sergey Prokopyev, Dmitry Petelin e o astronauta da NASA Francisco Rubio foram para a Estação Espacial, num voo que partiu de Baikonur, na Rússia.

vídeo da partida da Soyus

CRIMES EM NOME DA POLÍCIA JUDICIÁRIA

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Está em execução um esquema de burla que envolve a Polícia Judiciária. Os alvos da burla recebem um email aparentemente enviado pela PJ, assinado por Luís Neves, diretor nacional da Polícia Judiciária.

Os burlões utilizam não só o nome do diretor nacional da PJ, de uma ex-ministra e de um procurador-geral adjunto, como usam símbolos identificativos ou muito semelhantes aos da Europol, PSP e PJ.

O esquema é simples e provavelmente eficaz. Os burlões atiram barro à parede. Num documento anexado ao email, a potencial vítima é acusada de frequentar sites de pornografia infantil. No pressuposto de que isso é ilegal, a mensagem solicita uma resposta onde a pessoa justifique esse comportamento. A partir dessa resposta, o burlão sabe que há má consciência no interlocutor e a burla desenvolve-se, provavelmente extorquindo dinheiro à vítima.

Se repararem bem no email de abordagem, há vários erros que deveriam alertar as pessoas de que estão perante uma mensagem forjada. Primeiro, a menção ao nome da ministra da Justiça que já não é Francisca Van-Dunem. Segundo, a utilização de vários termos que são erros de português ou que não se usam no português falado em Portugal.

Se receberam alguma mensagem deste tipo, antes de a apagar reenviem-na para a PJ. Afinal, os bandidos estão a usar o nome da Polícia Judiciária para cometerem crimes.

DOS 0 AOS 100, ASSIM DE REPENTE…

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Verdadeiros Fórmula 1 elétricos? Sim, já existem. Têm acelerações impressionantes. Vejam o vídeo.

vídeo

REGRESSA A CASA UM JORNALISTA INTEIRO

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Bruno Amaral de Carvalho já não está no Donbass, em serviço de reportagem. Ao fim de 7 meses de trabalho, em condições muito difíceis, regressa a casa.

Nós aqui no Duas Linhas nem o conhecemos pessoalmente, mas aprendemos a admirar um trabalho feito com honestidade.  Bruno foi, até hoje, o jornalista português de maior importância na cobertura desta guerra. Foi o único a estar do lado de lá da guerra, o lado mais difícil, o lado mais perigoso, o lado mais odiado. Foi o único jornalista português a quem tentaram tapar a boca.

Na hora da despedida do Donbass, Bruno escreveu no Telegram que “a guerra é uma merda. Sobretudo para os que são obrigados a vivê-la. Para mim, foi uma opção e, por isso, nunca me queixei. Fui um dos repórteres ocidentais com mais tempo no terreno. Trabalhei para o Público, para a CNN Portugal, para a CNN Internacional, para o Nòs (Galiza), para o Gara (País Basco) e para A Voz do Operário. No total, cerca de uma centena de reportagens, crónicas e directos.”

Sabemos que ninguém lhe vai dar um prémio de reportagem. Mas tem o nosso aplauso.

Falando de baluartes reabilitados e a reabilitar…

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A propósito da história de Cascais no período filipino, ou seja, de 1580 a 1640, teceram-se considerações não apenas sobre as razões por que se perdeu a independência e foi fácil a invasão de Portugal pelas tropas do Duque de Alba, mas também sobre o clima de entusiasmo que, a dado momento, sugeria a vinda da Corte para Lisboa, porque a cidade era mesmo digna de ser capital de Portugal e de Espanha!…

O entusiasmo foi, no entanto, cedendo ao desânimo e um grupo de conjurados, aproveitando a ida das tropas espanholas para a Catalunha, onde a revolução pela independência rebentara, matou Miguel de Vasconcelos, que, embora português, era o esbirro do rei Filipe II. E tudo se começou a preparar para repelir os ataques que de Espanha não tardariam.

Por isso, na década de 40 do século XVII se levantaram fortificações em toda a orla marítima desde o Abano até Pedrouços, para defender a capital, pois se não havia esquecido que as tropas do Duque de Alba haviam entrado calmamente pela Laje do Ramil, ali ao pé do farol da Guia.

Esgotada, mormente após a Revolução de Abril de 1974, a função bélica desses equipamentos fortificados, o Estado depressa pensou em se libertar deles. Boa parte foi, pois, negociada com o Município de Cascais.

Entre os assistentes da conferência realizada no passado dia 7, precisamente num desses fortes, o de S. Jorge de Oitavos, estava o Coronel Alpedrinha Pires, da Associação dos Amigos da Artilharia de Costa, com quem, no final, tive oportunidade de trocar impressões, nomeadamente a propósito da recente entrega ao Município da bateria da Parede. Apesar dos estragos que o abandono permitiu, poderá essa bateria vir a ser um excelente lugar para se compreender o que, ao longo dos anos, se fez para a defesa de Lisboa.

E veio a talhe de foice, falar da bateria de Alcabideche, de que está hoje à vista um dos seus poderosos canhões, no logradouro do Hospital. E informou-me Alpedrinha Pires que Paula Moura Pinheiro fizera sobre o assunto um dos seus programas Visita Guiada. Fui ver e recomendo a quantos estejam interessados nesse tema. O endereço é: https://www.rtp.pt/play/p8647/e536716/visita-guiada.

Uma visita que, infelizmente, já se limitou a muito pouco, porque o demais jaz inacessível. Permita-se-me, pois, que recorte do livro Dos Segredos de Cascais um trecho descritivo da visita pormenorizada que me foi dado fazer em Outubro de 2004:

«Aventuramo-nos, como toupeiras. A retina, depois de longos minutos, começa a adaptar-se à escuridão mais completa. Minúscula casa-de-banho, aqui, logo à entrada. Depois, um corredor estreito. Álvaro Isidoro, o nosso fotógrafo de hoje, faz milagres para fotografar às escuras, com o fiozinho de luz que a pequena lanterna lhe proporciona.

Uma claraboia aqui, outra acolá. Pequeninas. Aqui é o paiol das cargas. Estas madeiras eram os suportes delas. Ali, os geradores: o grande, um monstro, e o alternativo; este, o hidráulico, para movimentar a peça. É de tacos o chão; estão forradas de madeira as paredes até meio (nada pode produzir qualquer faísca). Estamos junto ao elevador das cargas para a peça. Este é o bocal para as comunicações – um processo primitivo mas extraordinariamente eficaz. E ainda em excelente estado!

E de pronto sonhamos com o museu – claro está!».

MARO ESGOTOU-SE

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A cantora Maro é um dos equívocos do showbiz português. As letras das canções que ela compõe não são más, os arranjos musicais também não, mas ela não canta nada. Lamentamos, mas é a verdade.

Logo em março, quando venceu o Festival da Canção, o “sussurro” nos pareceu um artifício para disfarçar a falta de voz, mas demos-lhe o benefício da dúvida. Afinal, não se pode avaliar uma cantora só por uma canção.

Em agosto, tivemos a oportunidade de assistir a um concerto de Maro, em Évora. Confirmámos a opinião que tínhamos. Não canta nada. Não tem voz. Qualquer uma das convidadas de Maro, nesse concerto, lhe deu uma abada. Aliás, Maro não devia convidar ninguém para cantar nos seus espetáculos, porque perde na comparação.

Na nossa opinião, Maro devia ficar pela composição e deixar a interpretação para outros. Contentar-se em cantar no duche, ou em casa para os amigos. Não podemos ser bons em tudo, Maro.

Vem isto a propósito da cantora ter anunciado um interregno na atividade, cancelando concertos e uma tournée europeia. Pelo “tom” empregue nas suas páginas nas redes sociais, pareceu-nos estar um pouco desmoralizada, deprimida até. A fotografia escolhida também ajuda a transmitir uma sensação angustiante…

Instagram de Maro

Em inglês (não se percebe a opção pelo inglês, mas enfim…), a artista justifica os cancelamentos por estar triste e cansada, farta. Mas promete voltar…

QUEM COMBATE NA UCRÂNIA

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Na Europa, temos uma perceção distorcida da guerra na Ucrânia. Independentemente das razões do conflito, para lá da discussão de quem deu o primeiro tiro, a narrativa que se criou induz-nos em vários erros de análise.

Primeiro, é a farsa que fabrica super heróis nas fileiras do exército ucraniano. Eles são fantásticos e estão a derrotar os russos no campo de batalha, Zelensky fala deles quase todos os dias e faz vídeos de distribuição de medalhas com bastante frequência. Mas omite-se a verdadeira origem dos mercenários estrangeiros que combatem pela Ucrânia, assim como se esconde a dimensão dessa “legião” de estrangeiros.

Na verdade, a Ucrânia é um campo de batalha, quem lá combate é a Rússia e os EUA. Mas os americanos fazem-no de forma não assumida. Fornecem equipamento, treinam os ucranianos, recolhem e fornecem informação sobre o inimigo, planeiam a guerra. Não enviaram, ainda, tropas de combate para o terreno? Talvez já tenham enviado e não nos tenham dito.

Quando em abril o cruzador “Moskva” se afundou, a Ucrânia assumiu que tinha sido um ataque das suas forças a provocar o afundamento, mas nunca houve um relato fidedigno dos acontecimentos. Agora, depois do ataque contra a ponte Kerch, que liga a Rússia à Crimeia, foi divulgado um plano dos serviços secretos ingleses que, a ser verdadeiro, revela que está em curso uma guerra de guerrilha no Mar Negro e que não são apenas ucranianos a executá-la.

Nos Estados Unidos, o site Grayzone publicou documentos que alegadamente envolvem os serviços secretos ingleses e norte-americanos em ações concretas de sabotagem, no planeamento da guerra, no treino de forças especiais e de operacionais infiltrados na Rússia.

O plano vai muito para lá da ponte Kerch, mas esta ação serve de exemplo. Originalmente, o plano dos serviços secretos ingleses envolvia uma ação de sabotagem nos pilares da ponte e o ataque simultâneo ao tabuleiro utilizando mísseis de cruzeiro. Seis meses depois, o ataque foi executado recorrendo a um camião de transporte de combustível armadilhado. A investigação do Grayzone acredita que as condições práticas obrigaram a uma alteração operacional.

Segundo o site Grayzone, os ingleses optaram por implementar ações de guerrilha no mar. Ataca e foge, para evitar confrontação direta com uma força naval russa muito poderosa, mas ao mesmo tempo conseguir provocar erosão e desmoralização nessa força inimiga. O site divulga, ainda, correspondência trocada com diversos agentes secretos, e menciona o papel desempenhado por Chris Donnelly, um alto agente dos serviços secretos do Exército britânico e conselheiro da NATO.

Morrer por falta de assistência

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Anomalias patentes nas prisões de Portugal, de onde quase todos os dias me chegam notícias de “horrores” nos cuidados médico-sanitários, prestados a reclusos. Verdadeiros crimes contra a integridade física ou moral de seres humanos, que nem sempre a Ordem dos Médicos denuncia, como seria seu dever. A que acresce a “distração” da Entidade Reguladora de Saúde, pessoa de bem a quem pagamos e que tem por obrigação regular os direitos desta franja da população, servida por um “microssistema” de saúde aberrante e em total deriva.  

Quem quiser conhecer a nossa realidade, terá mesmo de mergulhar às prisões, porque todo este “mundo” está fora das agendas académicas e políticas. Durante todo o século XXI, que me recorde, só uma das 49 prisões foi visitada por um dos tais Supremos Magistrados da Nação.

No espaço europeu, na área da reclusão, todas as estatísticas demonstram que Portugal está hoje bem na cauda, na companhia do Azerbaijão, Bulgária e Moldova.

A pretexto da pandemia, piorou todo o “sistema” de saúde já “residual” nos 49 estabelecimentos prisionais portugueses. Muito mais do que o SNS, em geral: as consultas atrasaram, foram suspensos milhares de análises e exames complementares, adiadas centenas de intervenções e não tratadas patologias graves e urgentes. Muitos reclusos morreram e, impunemente, a desconfiança e as crispações não cessam de crescer, agravando toda a situação.  

A taxa de suicídios na população portuguesa em geral, está na média. Já no que toca às prisões portuguesas é das mais elevadas, mais do dobro da média europeia, tendo aumentado, brutalmente, em 2020. Com menos de dez suicídios/ano, em cada cem mil portugueses, atinge-se quase 190, nas prisões. Vinte vezes mais e continua a crescer…

Também a taxa de mortalidade é das mais altas de toda a Europa, só ao nível dos países já citados. Quanto a causas, pouco mais se extrai do que 72% das mortes se devem a “causas várias” e 28% a suicídios. Bem demonstrativo do desprezo pela vida humana, o número de autópsias realizadas é ridículo e, quase sempre, devido a pressão externa.

A saúde mental e o apoio psicológico quase nem existem, substituídos por uma sobredosagem inadmissível de medicação psiquiátrica. E perante o encerramento de manicómios, encontram-se hoje, sob prisão, centenas de cidadãos inimputáveis ou que nem cometeram qualquer crime e apenas necessitam de cuidados psiquiátricos. Uma atrocidade, também de ordem moral, quando é sabido que as prisões não têm vocação assistencial nesta área e que muitos reclusos abusam diariamente desses pobres doentes: desde o roubo, ao abuso sexual e à violência física.  

Também existe um numeroso grupo de toxicodependentes, que deveria ser referenciado para outros locais e que vai parar às prisões onde continua a consumir, lado a lado com perigosos psicopatas e pedófilos e inúmeros jovens detidos, por pequenas faltas ou por não pagarem multas.

Deixo-vos mais uma última reflexão no âmbito da saúde. Os detidos deixaram de cultivar os campos e de cozinhar as suas próprias refeições, sendo a comida, muitas vezes intragável e insuficiente, servida por empresas privadas. Quatro refeições diárias, num total de 3,2 €, enquanto se especula nos preços das cantinas, e se limita a entrada nas prisões de apoios familiares, incluindo agasalhos e alimentos.

(excerto da palestra em 8/10/22, em Matosinhos, na Biblioteca Florbela Espanca, a convite do Movimento de Cidadania Democrática)

Um espectáculo… diferente!

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Anunciou-se para a noite do passado dia 6, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, “As Canções que Ninguém Quis”, espectáculo desenhado por Bárbara Tinoco, moderado pelo autor Tito Couto e tendo como convidados especiais Agir e Carolina Deslandes.

Sublinhava-se, na nota de apresentação, que o espectáculo reuniria «as histórias e as canções que, por algum motivo, não foram aceites pelas pessoas para quem foram escritas». Esclarecia-se que «algumas chegaram a ser gravadas por outros intérpretes – com sucesso, inclusive – outras pelo próprio autor e outras não chegaram (ainda) a ver a luz do dia».

E acrescentava-se:

«Serão também convidados artistas que vão interpretar a canção que recusaram e dar uma oportunidade aos compositores e ao público de ver como ficaria afinal a canção na sua voz».

A expectativa, por isso, era grande.

Depressa os bilhetes esgotaram e o facto de mui significativa parte da assistência ser constituída por menores (acompanhados de seus familiares) e por jovens poderá derivado de se ter pensado que os três principais intervenientes, além de conversarem – sob a espicaçante tutela da voz quente do autor Tito Couto – iriam interpretar não apenas as canções rejeitadas, mas também, em jeito de ‘sobremesa’, algumas das mais conhecidas do seu repertório, nomeadamente para se obter a anunciada dinâmica, «baseada na constante comunicação e partilha, entre os compositores em palco e também com o público». Quiçá, nesse âmbito, «Sei lá!», de Bárbara Tinoco e «O meu avião de papel», de Carolina Deslandes, tenham sido os únicos momentos altos. Nem Gisela João, nem Sara Tavares, nem Mariza, nem António Zambujo, nem Ana Moura, nem Áurea – para citar alguns dos rejeitadores… – apareceram. Mesmo no final, com o público a aplaudir, maioritariamente de pé, os artistas não voltaram ao palco para uma esperada última canção que porventura reunisse os três. E os espectadores saíram, assaz silenciosos, o que contrastou com a algazarra entusiasmada que se sentira na plateia e nas patilhas antes de o espectáculo começar.

Presença constante no palco foi, porém, a de um senhor (senhor seria?) disfarçado de elefante de peluche, o simbólico elefante trombudo que já aparecia no cartaz. As crianças e as jovens entravam, abraçavam-no, faziam fotos, selfies, numa azáfama que terminou, mau grado as insistências, quando se chegou às 21 e 30, hora prevista para o começo do espectáculo. Mesmo no decorrer dessa tertúlia, o diacho do elefante não deixou sossegado o «Bichinho», o russo Feodor Bivol, namorado de Bárbara, que, à viola, acompanhou as actuações; fazia-lhe cócegas nas orelhas, beliscava-lhe as pernas…

Há que dizer que o cenário foi o de um supermercado. Aí pelas 21 e 39, uma voz anunciou «5 minutos para abrirmos a loja». Aí se consciencializou que os três adereços pendurados eram mesmo carrinhos de compras de supermercado. Bárbara (elegante no seu trajo de colegial) e Agir deram em carregar caixas com a palavra CANÇÃO na etiqueta, enquanto Carolina foi enchendo a grande prateleira branca, sita do lado direito da cena, onde o elefante também quis fazer bilharetas, mais tarde, roubando embalagens… Painéis pendurados anunciavam que no corredor 1 havia MELODIA, no 2 LETRA, no 3 HARMONIA.

Às 21 e 49, Carolina e Bárbara bateram palmas, e Agir foi ao cavalete e substituiu por ABERTO o cartaz que dizia FECHADO.

Garantiu-se, no decorrer do espectáculo (houve momentos divertidos, isso houve!), que Bárbara Tinoco nunca se deitava depois da meia-noite. Seriam para aí umas vinte e três e vinte quando as portas do Salão Preto e Prata se abriram para a saída. Também neste dia Bárbara pôde deitar-se antes da meia-noite! E nós também!