O sinal de paragem era acionado e o motorista parava em todas as paragens. Ninguém saía. Aconteceu uma vez, duas, três, quatro, cinco… até que o homem começou a desconfiar que alguém estava a gozar com ele. Seriam os miúdos, naquela idade em que se acham com muita graça quando fazem patetices?
O motorista começou a olhar com frequência pelo espelho retrovisor apontado para a galeria do veículo. Tinha de apanhar o engraçadinho. Mas o sinal soava, ele parava, ninguém saía. Até que olhou para o velhote que ia na primeira fila, encostado à janela do lado direito. E ouvimos ele dizer-lhe:
– O senhor tem de tirar o cotovelo do parapeito…
O velhote estremeceu ligeiramente, surpreendido. Tirou o braço e reparou no botão de “stop” que está colocado no parapeito, virado para cima.
Todos os outros botões estão colocados no “esqueleto” metálico que serve também para os passageiros se equilibrarem quando se levantam ainda com o veículo em andamento. Todos os botões, menos aquele.
Chamam-lhe rio, mas não passa de uma ribeira que só tem água quando chove. Nasce na Venda do Pinheiro, nos arredores de Lisboa e desagua na Ericeira. Logo à nascença, foi entubado, porque o autarca da época devia sonhar com a Amadora e o que ele queria era construir por todo o lado, até mesmo em cima do rio. Entubado, também não se via a lixeira em que foi transformado, onde desaguavam os esgotos urbanos e os despejos das oficinas.
Umas décadas depois, destaparam um curto trecho, porque o jardim que lá fizeram ficava mais bonito. Até chamaram à coisa “parque ecológico”, mas não passa de um relvado. Como bem sabemos, um relvado é uma espécie de “deserto verde”. Tem relva, mais nada. E o que ali cresça é mensalmente “decepado” pela jardinagem. O que lhes importa é ter tudo muito cortadinho, quase pela raiz, certinho, como se fosse um campo de futebol. Fica tudo como se fosse caldo verde, temperado com alguns caracóis e outras lesmas trituradas que tenham tido a má sorte de andar por ali.
Parque Ecológico e Intermodal da Venda do Pinheiro
Agora que deu em chover, era suposto a água correr límpida. Mas olhem só a cor do líquido (bem visível na primeira fotografia acima)… E felizmente que as fotografias não têm cheiro. E nos canaviais há agora ornamentos, embora o natal ainda venha longe.
Sacos de plástico, pedaços rasgados de plástico, esferovites, garrafas de plástico, baldes, ali estão para vergonha de quem polui o ambiente e da autarquia que não limpa o leito e as margens do rio.
Felizmente que o leito do rio está entupido com as canas, porque o destino do lixo seria o mar, que não precisa de mais porcaria do que aquela que já tem.
Face a este enquadramento importa, pois, perceber que medidas, do ponto de vista da preservação ambiental e de resposta às alterações climáticas, estão previstas no documento. A verdade é que ao olharmos para o documento, e tendo apenas por foco as principais medidas apresentadas pelo Ministério que deveria ser o principal dínamo de uma economia verde e sustentável, isto é, o do Ambiente e Ação Climática rapidamente se percebe que falta rasgo e ambição. Atente-se nas principais ações previstas.
A Gratuitidade dos Passes 4_18 e Sub-23 e reforma dos programas de apoios à redução tarifária e ao financiamento das autoridades de transporte, permitindo aumentar a procura de transporte público e a sustentabilidade as operações. Sendo uma medida muito positiva, no âmbito de uma mobilidade mais sustentável, deverá ser complementada com incentivos para o reforço dos sistemas de transportes coletivos, por todo o país, promovendo a aquisição de viaturas com emissões zero. Para tal importa acelerar a descarbonização dos sistemas de transportes coletivos, nomeadamente na execução dos programas de apoio à aquisição de autocarros sem emissões com financiamento do REPowerEU, bem como, alavancar o investimento na ferrovia que, no âmbito dos sucessivos planos estabelecidos, tem apresentado fracas taxa de execução.
A fixação de uma contribuição sobre as embalagens de utilização única e sacos de plástico muito leves. Incide sobre as embalagens de utilização única usadas em refeições prontas, sem distinção do material utilizado, e sobre os sacos de plástico muito leves, por norma utilizados no embalamento de frutas e vegetais. O objetivo desta medida passa por diminuir o consumo de embalagens de utilização única e incentivar à reutilização de embalagens. Sobre a Taxa sobre Sacos de Plástico Leves e Muito Leves, a iniciativa sendo adequada, mais não é mais do que uma angariação de receita onde 50% do valor obtido com esta medida vai diretamente para o estado e apenas 20% para o Fundo Ambiental, colocando ainda sob a responsabilidade das empresas privadas a promoção da utilização de embalagens reutilizáveis não sendo, no entanto, definido qualquer tipo de objetivo para a sua utilização, nem de incentivo à sua aquisição, repercutindo-se sobre o cliente final a totalidade da sua compra.
Incentivar o abate de automóveis ligeiros em fim de vida. É criado o Programa de Incentivo ao Abate para automóveis matriculados até 2007, com o objetivo de reduzir as emissões de GEE e a idade média do parque automóvel nacional, que se encontra atualmente nos 13,5 anos. Esta medida para além de constituir uma desvantagem para famílias com menor rendimento, podendo, no entanto, ajudar na redução de até 5% das emissões de CO2, trata-se mais de corrigir uma injustiça fiscal, no cálculo do IUC, do que propriamente uma medida ambiental até porque as contrapartidas, que passam pelo incentivo à aquisição de carro novo (elétrico ou híbrido) apontam para uma gama de viaturas de preço mais elevado e que não está ao alcance das pessoas com mais baixos rendimentos. Não só não resolve o problema da antiguidade do parque automóvel nacional, já para não falar da bizarria da opção de utilizar a verba obtida com o abate da viatura em Cartão da Mobilidade (para aquisição de serviços de transporte público e mobilidade partilhada).
Apoio extraordinário ao sistema elétrico nacional e garantia de deduções fiscais com despesas às empresas com consumo de gás e eletricidade. Este apoio tem como objetivo mitigar o impacto da subida dos preços da energia no mercado europeu, que tem sido impulsionada pelo aumento dos preços do gás natural, tendo permitido manter os preços da energia em Portugal em níveis mais baixos, o que tem reduzido o custo de produção para as empresas e, consequentemente, a sua pegada ambiental. A garantia de deduções fiscais com despesas às empresas com consumo de gás e eletricidade também é um incentivo para as empresas a reduzirem o seu consumo de energia. As empresas que investirem em eficiência energética podem beneficiar de deduções fiscais no IRS ou IRC, o que pode compensar o investimento inicial e, a longo prazo, reduzir os seus custos e a sua pegada ambiental.
Concluíndo, para que estes apoios sejam verdadeiramente benéficos para o ambiente, é importante que sejam acompanhados por uma aceleração nas medidas que promovam a evolução para uma economia descarbonizada, devendo incluir investimentos em energias renováveis, eficiência energética e políticas de combate às alterações climáticas, promovendo uma efetiva transição energética em Portugal, com o objetivo de reduzir a dependência de combustíveis fósseis e as emissões de gases de efeito estufa.
Numa leitura mais abrangente, verifica-se que a proposta de OE2024 pauta-se pela ausência de medidas efetivas que visem diminuir a poluição do ar e da água, de incentivos à proteção da biodiversidade, bem como, de adaptação às alterações climáticas. A desadequação da Lei de Bases do Clima, prevendo-se um investimento bem inferior ao necessário; a falta de compromisso para com a promoção de consumos sustentáveis; a taxa sobre embalagens de plástico colocadas no mercado sem destinatário; a revisão da cobrança da taxa de gestão de resíduos, que atualmente esta associada ao consumo de água, não promovendo a diminuição da produção de lixo nem da reciclagem; a ausência de incentivos à reutilização e uso eficiente da água; a falta de atualização da taxa de recursos hídricos, em que quem mais consome, agricultura e produção energética, menos paga; entre muitas outras medidas relegam o investimento em políticas que deveriam promover a preservação dos recursos naturais e a sua utilização eficiente para um plano secundário. Já estamos em tempo de colocar o combate às alterações climáticas no centro da decisão política. O nosso futuro depende disso.
Vamos dar o exemplo que a fotografia retrata. Em 1994, o governo israelita forçou o encerramento de 500 lojas que existiam naquela rua e proibiu o trânsito automóvel. No ano 2000, foi proibida a circulação pedestre a palestinianos. Passou a ser uma rua exclusiva para judeus e os palestinianos foram obrigados a vender as suas propriedades a preços ridículos.
É por cenas deste género que um antigo chefe da Mossad, os serviços secretos israelitas, diz que “a maior ameaça somos nós”, porque é evidente que este tipo de repressão gera sempre reação.
O crítico chama-se Tamir Pardo, foi o boss da Mossad entre 2011 e 2016. Foi escolhido para o cargo por Netanyahu, o primeiro-ministro. Depois de abandonar essas funções, tornou-se um militante político da oposição.
Tamir Pardo
ISRAEL PREPARA ATAQUE CONTRA IRÃO
Tamir assume que Israel pratica apartheid e tem sido uma das figuras em destaque nas manifestações de rua contra a reforma judicial, com a qual Netanyahu pretende subverter o Estado de direito israelita, através de um ‘golpe de estado’ por via legislativa.
Devido às funções que exerceu na Mossad, Tamir Pardo assegura que Israel se prepara há muitos anos para atacar o Irão. As atuais circunstâncias do confronto com os palestinianos poderão proporcionar a Israel a oportunidade de lançar esse ataque. Não será por acaso que os EUA enviaram dois porta-aviões para a região, no apoio às ações militares dos israelitas.
Israel já ultrapassou todos os limites do que se poderia considerar uma resposta adequada ao ataque do Hamas de 7 de outubro. O grau de destruição em Gaza e noutras localidades fora da Faixa de Gaza, o número de vítimas (o número de mortos palestinianos aproxima-se dos 5 mil, há 1500 crianças mortas) deveria ser avassalador para qualquer ser humano, incluindo dirigentes políticos ocidentais.
O e-C3 terá um preço a rondar os 23 mil euros. O modelo vai ser montado na fábrica da Citroen na Eslováquia e está programado para chegar ao mercado entre abril e junho de 2024.
O design exterior do carro é semelhante ao C3 com motor de combustão, não tem nenhuma novidade em termos tecnológicos. O fator diferenciador é mesmo o preço. Não há nenhum EV europeu novo a 23 mil euros, todos estão acima dos 30 mil, por enquanto.
Para sair barato, a Citroen fez contas não apenas à mão de obra eslovaca, mas também à bateria que escolheu, uma LFP de fabrico chinês que proporciona uma autonomia ao e-C3 a rondar os 320 km.
A Citroen diz que o carro não será uma “árvore de Natal tecnológica”, mas terá tudo o que é fundamental ter num automóvel, incluindo ligação Bluetooth para telemóvel.
Com isto, a Citroen é a primeira construtora europeia a reagir à invasão chinesa de EV, o que retira argumentos à Presidente da Comissão Europeia que, o mês passado, tinha anunciado uma investigação para apurar se os construtores chineses estavam a beneficiar de auxílio do Estado chinês e, com isso, a distorcer o mercado. Agora, ou a senhora Ursula von der Leyen desiste da investigação ou inclui a Citroen no rol das empresas suspeitas de concorrência desleal.
recorte de artigo publicado em https://duaslinhas.pt/2023/09/europa-nao-quer-eletricos-chineses-baratos/
A Citroen já antes tinha experimentado lançar um veículo elétrico muito barato, mas o Ami não é bem um carro. É apenas um veículo citadino. Uma espécie de cadeira de rodas. Um brinquedo para adolescentes.
A guerra tem múltiplas frentes de batalha e uma das mais importantes é a opinião pública. Os soldados são sacrificados sem remorso. Com maior ou menor dificuldade há sempre mais um para substituir o que morre. Controlar a opinião pública é uma preocupação maior.
Nos regimes políticos multipartidários, onde o futuro dos líderes se decide em eleições, a opinião pública tem, no dia do voto, um papel fundamental. Para que se “vote bem”, os partidos e as lideranças políticas precisam de orientar convenientemente o pensamento da população.
Em tempo de guerras declaradas, como as que decorrem hoje, por exemplo, no Iémen, na Ucrânia, na Palestina, assistimos a essa ânsia de controlar a informação. Por vezes basta que os media não noticiem os acontecimentos.
Se não passar na televisão, não existe. É o que acontece com a guerra no Iémen, de onde apenas chegam ecos ténues das atrocidades cometidas pela Arábia Saudita.
Quando estalou a guerra na Ucrânia, a Europa e a América tentaram silenciar os media russos, proibiram as emissões no cabo dos canais televisivos russos, bloquearam o acesso na internet aos sites com domínio .ru e fortaleceram a censura nas redes sociais.
Com a Palestina, o caminho mais fácil foi decidir que Israel tem o direito a se defender, negando esse direito aos palestinianos e aceitar sem penalizações políticas a matança que está em curso na Faixa de Gaza.
Para que tudo isto funcione sobre rodas, os media institucionais estão cada vez mais oficiosos, de um modo geral, e as empresas que detêm as principais redes sociais implementaram uma série de regras que se resumem a uma palavra: censura.
notícia do jornal online Observador em 20/10/2023
O que se passou com o boicote à Web Summit diz tudo sobre como Israel consegue influenciar globalmente a opinião publicada nos media. Através das grandes empresas globais de comunicação e IT, quase todas controladas por judeus, e do sistema bancário mundial, em boa parte controlado por judeus, do governo dos EUA igualmente dominado por judeus, compram o silêncio do resto do mundo e quando não conseguem comprar, isolam o atrevido, matam-no à fome se não puderem matá-lo de modo mais expedito. Foi o que aconteceu com Paddy Cosgrave.
Na Meta (Facebook, Instagram, Messenger, WhatsApp) foi criado um centro de operações especiais com profissionais fluentes em hebraico e árabe, para monitorizar as publicações. A Meta diz que é para “manter as nossas plataformas seguras, tomar medidas em relação a conteúdos que violem as nossas políticas ou a legislação local e limitar a propagação de desinformação”, segundo divulgou em comunicado. Mais uma vez, interesses particulares da empresa podem sobrepor-se ao interesse público, ninguém controla os censores da Meta.
Mensagem tipo que o Facebook envia aos utilizadores censurados.
Na mensagem que envia aos utilizadores censurados, normalmente acompanhada de ameaças de encerramento compulsivo da respetiva conta, o Facebook não especifica as razões do bloqueio, mantendo o “critério” secreto. Censurar porque o vídeo “pode conter” elementos que violem as regras da empresa é uma evidência da arbitrariedade. Tanto “pode conter” como não, mas não há nenhuma indemnização ou reparação, sequer um pedido de desculpas, para suavizar o prejuízo.
No TikTok (China), a plataforma usa algoritmos e outros filtros, ocupa 40 mil profissionais para moderar a plataforma e aumentou os “recursos dedicados para ajudar a prevenir conteúdo violento, odioso ou enganoso na plataforma”, segundo anunciado pela empresa. Os critérios são os da empresa, o que significa que conteúdos semelhantes podem ser apreciados de forma diferente, dependendo da fonte que o disseminou. Por exemplo, na Turquia o Tik Tok censura conteúdos relacionados com a luta dos curdos e em Espanha censura críticas ao rei… e noutros casos censura tudo o que possa ser prejudicial aos interesses geopolíticos da China.
As críticas ao Tik Tok tiveram um pico quando políticos dos EUA sugeriram que esta rede social deveria ser proibida. Mas, na verdade, as outras não fazem melhor nem diferente. Apenas são mais úteis para os interesses ocidentais.
publicado em Duas Linhas em 16 de março de 2023
No YouTube, propriedade da Google, há milhares de vídeos a serem colocados com restrições de idade, o que dificulta o seu visionamento. Também aqui, as políticas da empresa são a bitola para a censura, que em muitos casos não se coíbe de remover “milhares de vídeos prejudiciais”, não se sabendo bem quem são os prejudicados, para além dos autores. A experiência diz-nos que conteúdos desalinhados com os discursos oficiais são frequentemente censurados.
vídeo publicado no YouTube associado a https://duaslinhas.pt/2023/10/ursula-alvo-de-criticas-ferozes/
São jovens e são revolucionários, em pensamento e em ações. Inspiram-se em movimentos sociais semelhantes que surgiram um pouco por toda a Europa. Algumas ações são idênticas às performances reivindicativas do movimento inglês Just Stop Oil, por exemplo.
Partem vidros de fachadas de empresas que enriquecem à custa da degradação ambiental, cortam estradas para chamar a atenção para a poluição ambiental, juntam-se a manifestações pela defesa de espaços verdes, mas também lutam pelo direito à habitação, pela liberdade de expressão, contra o racismo. É malta que luta, que não fica no sofá.
Tanta irreverência paga-se. São detidos, levados a julgamento e condenados. Assumem que é um preço a pagar. “Ações pacíficas pela proteção da vida e pela luta por justiça social são condenadas. Temos a tranquilidade de saber que não é um crime lutar pela vida. Quem está a atacar, matar e destruir tudo o que amamos tem de ser travado”, dizem os ativistas da Climáximo.
Argumentam que as Nações Unidas alertam para a urgência climática em que o mundo já mergulhou e que a Organização Mundial de Saúde garante que milhares de pessoas morrem, todos os dias, devido a questões ambientais. Lembram que as cimeiras mundiais do clima começaram já há mais de 40 anos, numa manifestação de inutilidade absoluta, porque nada foi feito para impedir o estado a que chegámos. Cansados de protestos bem-comportados, radicalizaram-se. Começaram a partir vidros e a borrar pinturas (que nunca são as originais que estão patentes ao público).
Ativistas em ação no CCB, Lisboa
Mais uma vez, ações semelhantes são executadas em diferentes países. “Jovens têm-se manifestado em Lisboa e um pouco por toda a Europa. Já não recorrem às antigas manifestações multitudinárias que se têm demonstrado para este efeito pouco eficazes”, dizem. E de quem será a culpa por não terem sido escutados, enquanto se portaram bem?
“Para quebrar a falsa sensação de paz, é preciso quebrar a normalidade”, lê-se nas redes sociais da Climáximo. Quando partem um vidro, remetem-nos para o exemplo dado pelas sufragistas norte-americanas “que quebraram múltiplos vidros até conquistarem o voto.”
Sufragistas em luta no início do século XX
Escolheram um caminho difícil. Quando o Estado se sente ameaçado, por vezes apenas desafiado, aciona todos os meios ao dispor para repor a ordem. Há dias, 12 apoiantes do Climáximo estavam reunidos num jardim, quando foram abordados por polícias à paisana, levados para a esquadra para serem identificados, de onde só saíram passadas 5 horas. Foi um sinal de intimidação.
“Todos os momentos de crise necessitaram de desobediência assertiva”, dizem. Sem medo.
“Ao longo dos anos defendo aquilo que considero o mais correto para a minha terra, Angola. Consigo não agradar nem a gregos (MPLA) nem a troianos (UNITA)”, cita William Tonet no prefácio do livro “Eu e a UNITA” de Orlando Castro.
William Tonet, outro jornalista angolano da velha guarda que se transformou numa referência da irreverência. Outro teimoso.
Sobre Orlando, diz o próprio: “Sou angolano, nasci em Angola, lá estudei, brinquei, cresci e me fiz homem. Mesmo que tenha sido obrigado pelos acontecimentos históricos a abandonar o país onde nasci, e a utilizar a nacionalidade portuguesa dos meus pais, o meu coração esteve lá, está lá e estará sempre lá”. Uma declaração que fará muitos “portugueses de segunda” quererem ler esta espécie de autobiografia de um ‘retornado’, embora não seja esse o foco da escrita. Será mais um livro de memórias. “São vivências pessoais com a UNITA, desde 1974, incluindo Savimbi, em Angola, e depois em Portugal com os representates da UNITA”, explica o autor, referindo-se certamente à atividade de jornalista que exerceu durante décadas.
De “português de segunda” para “angolano de segunda”, parece ser a sina de Orlando. “Não se sabe, embora eles saibam, onde é que o regime do MPLA (por sinal no poder desde 1975) quis e quer chegar ao construir monumentos que enaltecem os contributos dos angolanos que consideram de primeira (todos os que são do MPLA) e, é claro, amesquinham todos os outros.”
“Eu e a UNITA” será parte da história de um homem e da terra onde nasceu. Adivinhamos algum desencanto e bastante irreverência. Uma leitura para novembro.
Orlando Castro nasceu em 1954 em Nova Lisboa, Huambo, Angola. Escreveu:
«Algemas da Minha Traição» (1975), «Açores – Realidades Vulcânicas» (1995) «Ontem, Hoje… e Amanhã?» (1997). «Memórias da Memória» (2001). «Alto Hama – Crónicas (diz)traídas» (2006). «Cabinda – ontem protectorado, hoje colónia, amanhã Nação» (2011).
Co-autor dos 16 volumes da colecção “Guerra Colonial – A História na Primeira Pessoa”, distribuída em 2011 pelo “Jornal de Notícias” e “Diário de Notícias”.
«António Marinho e Pinto – Mudar Portugal» (2015). «Egosismo» (2022). «Eu e a UNITA» (2023).
Metrópolis é uma cidade maquinalmente utópica – no sentido estrito do advérbio – , regrada, com 50 milhões de habitantes, organizada por castas, os usuários de Seda Branca (casta superior, aristocrática) e os de Linho Azul (castra inferior, trabalhadora), em que cada passo humano, cada pulsar de máquina, é orquestrado sob o olhar atento de Joh Frederson, o senhor de Metrópolis; exilado na Nova Torre de Babel, Joh Frederson controla o fluxo de Metrópolis: as máquinas sustentam a cidade, algumas semelhantes a divindades hindus, a utopia, tendo, porém, de ser alimentados pela força humana, pelo trabalho exaustivo da casta inferior, que habita numa infra-cidade, por onde passa o reservatório de água da supra-cidade, num sistema complexo de cavernas e túneis – eis a distopia!
A trama desenvolve-se em torno de um “despertar”. Freder, filho de Joh Frederson, senhor de Metrópolis, usuário da Seda Branca, inquieta-se aquando de uma visita inesperada no “Clube dos Filhos” de uma jovem pálida e de belos olhos, figura virginal, Maria, que se faz acompanhar de crianças “(…) pardas e envelhecidas como se se tratasse de anões. Eram pequenos esqueletos descarnados e espectrais que se sustinham em batas esfarrapadas e debotadas.” (pág.27). A frase de Maria foi simples e sagaz: “Vejam, estes são vossos irmãos!” (pág.28). A frase de Maria dá início ao caos dentro da ordem.
Tentando resumir uma obra tão rica como “Metrópolis” não é fácil: Von Harbou apresenta-nos um sucessivo quadro de imagens fortes. Assumo que desde a frase de Maria, tudo o que se segue é uma decadência de valores pré-estabelecidos e um heroísmo mordaz – Freder enamora-se de Maria e pretende descobrir mais sobre os mecanismos de Metrópolis e do seu alimento, as gentes de Linho Azul; naturalmente, as indagações de Freder não passam despercebidas ao pai, que tenta de tudo, desde a extorsão a perseguição de terceiros, para que o jovem se mantenha longe da realidade: as suas tentativas vão falhando até que, pactuando com Rotwang, um génio louco bem conhecido de Joh Frederson – cuja mulher, Hel, ele roubou para si –, decide aprisionar Maria. Rotwang tenta subtrair a alma de Maria para uma máquina – todavia, após vários acontecimentos, o plano fracassa e essa máquina decide iniciar a revolução, enchendo a cidade superior com todos aqueles que habitavam as cavernas, levando os Góticos, inclusive, a seita religiosa ortodoxa da cidade, a decretar “os fins dos tempos”, numa parada de autoflagelamento, comandada pelo monge Desertus.
O senhor de Metrópolis, Joh Frederson, vai paulatinamente perdendo a sua rigidez de caráter, admitindo o erro que foi gerir Metrópolis de tal maneira, dando primazia às máquinas e desdenhando uma parte do género humano: o seu entendimento disto envelhece-o, deixa os seus cabelos brancos; num ímpeto nervoso faz várias visitas à sua mãe: esta entrega-lhe uma carta de Hel, que o comove profundamente: Joh Frederson, um ser transfigurado: “(…) lançou-se de joelhos junto à mãe. Enlaçou os braços à volta dela e pousou a cabeça no colo, que o gerara. Sentia-lhe as mãos no cabelo, sentia como, cheia de medo de o magoar, o acariciava como se fosse a marca de uma ferida não cicatrizada perto do coração, e ouviu a doce voz dela dizer: «Meu pobre filho!»”.
Metrópolis termina num cenário sugestivo à reavaliação de todos os valores e à reconstrução da cidade: Freder, encarregado com o título de “mediador”, junto com Maria, são a nova luz, tão eminente como necessária, para a concretização deste plano – inserir, de novo, a utopia, na distopia corrente.
(Para a redação deste artigo foi usado Metrópolis, de Von Harbou, ed. Livro B, nº63, outubro de 2021)
Talvez as guerras também passem por estes pequenos detalhes e os indivíduos, alegadamente do sexo masculino, entre os 40-50 anos, que se infiltram por todos os poros do Facebook, queiram saber ainda mais do que já conseguem…
São sempre os mesmos, ou do mesmo género: de aspecto excelente, solteiros ou viúvos na ficha de apresentação, com sorrisos resplandecentes e vida desafogada,
Aparecem quase sempre sozinhos em meia dúzia de imagens sem texto nem sequência. Nada de senhoras por perto. Dizem sempre a mesma lengalenga sobre o mérito dos perfis que invadem e a elegância da aparência de quem os detém.
Gostariam de ser amigos. Eles, que tão facilmente conseguem interpor-se entre os comentários de um mural alheio, não conseguem enviar, dizem, um pedido de amizade…que sejam os detentores do perfil a fazê-lo!
Devem calcular que logo são descobertos. Mesmo com disfarces de barba, cabeleira ou dentadura, pouco mudam, mas depois de bloqueados milhares de vezes, insistem outras tantas junto das mesmas pessoas.
Reproduzem-se como cogumelos, quase com urgente desespero.
Atenção: só assediam senhoras!
Escolhem a profissão de médicos, com especial preferência pela Cirurgia Ortopédica e por outros ramos da Medicina. Não sei se agem sozinhos, ou se existe uma organização a dar indicações de que os médicos, sendo uma classe com respeitabilidade antiga na maioria das sociedades, se tornam especialmente atraentes para as damas. Profissões hoje de risco, como jornalistas e professores, não são mencionadas.
Podemos pensar em gente comum frustrada que quisesse divertir-se a ver quem caíria na tentação de aceitar. A fraqueza dos outros costuma compensar a própria debilidade.
Ocorre-nos que redes de pedófilos procurem entrar nos perfis, para descobrir a informação que lhes convém. Aparecem nos momentos mais inusitados, com frequência abraçados a crianças, talvez a fazerem supor que são excelentes pais, livres de qualquer suspeita.
Umas vezes dizem-se naturais de lugares remotos a viverem em sítios conhecidos. Logo a seguir são de perto, tão perto que podiam ser visitados. E nem os os nomes próprios e menos ainda os apelidos, condizem com a naturalidade.
Vivem hoje num ponto do mapa diametralmente oposto ao anterior.
Não temos a certeza de que sejam só homens, por isso dizia, logo nas primeiras linhas, “alegadamente do sexo masculino”. Por detrás do aspecto pode esconder-se uma identidade feminina.
O perfil dos falsos perfis é um assunto para ser estudado com especial rigor. A maior proliferação destas infiltrações nos últimos tempos, vai no sentido de anular a ideia da vaga de pessoas frustradas, e aumentar a possibilidade de outra hipóteses bem mais perversas e pouco consideradas.
É fácil vir à ideia a infiltração de terroristas pelo mundo inteiro. Não os conhecemos. Calculamos que alguns sejam excelentes figuras, insinuantes, talvez de miolo débil, para serem tão facilmente manobradas por cérebros maquiavélicos.
Importa repetir o que escrevia logo de início: o tempo é de enormidades, a maior das quais a ideia de implantação de um império mundial de terror, sem valor pela vida humana, sem projecto de desenvolvimento técnico ou científico, uma “realidade” distópica que ultrapasssaria a mais perversa das ficções.
Talvez a multiplicação da violência em tantos pontos do globo nos afecte o raciocínio e a imaginação queira emparelhar com a realidade. Mas seria tempo de o mundo “civilizado”, um perfeito campo de barbárie, aprender com os mais simples, sem o menor interesse pelas sociedades tecnológicas, o essencial da vida.
Os povos Xhosa têm o conceito de UBUNTU: sou, ou existo, porque tu és ou existes. E só nesta base da mais pura e solidária fraternidade, o mundo poderia ver-se livre das manobras que levam à destruição maciça.