A Volvo está com problemas de produção na fábrica de Gent, na Bélgica. A origem desses problemas está no bloqueio marítimo no Mar Vermelho. O movimento político-religioso Ansar Allah, que controla parte do Iémen, em retaliação contra o genocídio dos palestinianos na Faixa de Gaza, decidiu bloquear navios mercantes de armadores judeus ou que se dirijam a portos israelitas.
Já mais de 20 navios foram atacados, um deles foi mesmo sequestrado. O Galaxy Leader foi o primeiro.
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Com o pretexto de proteger a livre circulação marítima e o comércio interncional, os EUA e o Reino Unido já estão a bombardear as bases militares do Ansar Allah, vulgarmente conhecidos por Hutis, mas isso não elimina o perigo para os navios mercantes. Provavelmente, esse perigo até aumenta.
Apesar da Volvo ser detida pela chinesa Geely e da China estar longe de apoiar Israel no extermínio de palestinianos, a verdade é que a empresa Volvo decidiu parar a produção e não arriscar a passagem de navios pelo Mar Vermelho.
A Volvo tem várias fábricas de montagem de automóveis na Europa. A única a parar é a da Bélgica, por enquanto.
VOLVO VENDE FÁBRICA DE VEÍCULOS MILITARES
As consequências de uma guerra são, por vezes, as mais inesperadas. Um dos ramos da Volvo é a produção de material militar, nomeadamente veículos blindados. Quando se esperaria que o negócio florescesse, eis que a Volvo anunciou a venda da unidade de defesa Arquus à Cockerill Mechanical Industries, empresa belga que também se dedica ao negócio do armamento.
A Arquus tem a sua fábrica em França, onde trabalham cerca de 1200 operários. Mas a unidade apenas representa 1% das receitas do grupo Volvo. Era um ativo pouco interessante. Sendo assim, os chineses livraram-se dele e, assim, deixam de ter este conflito de interesses, uma vez que o armamento produzido pela Arquus está todo destinado às guerras na Ucrânia e na Palestina, sendo que a China não apoia nem a Ucrânia nem Israel.
“O meu nome é Youssef Abu Saeed, sou fotojornalista, vivo em Gaza.
Comecei o tratamento de quimioterapia apenas um mês antes do início da guerra.”
documento hospitalar com relatório sobre o cancro de Youssef / fotomontagem Duas Linhas
“Agora, a minha casa foi bombardeada, ruiu a casa e ruíram os sonhos, a esperança. Nunca sei onde vou passar a próxima noite. Não tenho nada. Corro de um lado para o outro, para fotografar a situação em que todos vivemos.”
fotomontagem Duas Linhas
“Continuo doente, faço os possíveis por não pensar nisso. Foi bombardeado o único hospital em Gaza que tratava pacientes com cancro. Há mais de 90 dias que não recebo tratamento.
Todas as noites, quando fecho os olhos para dormir, não sei se vou morrer da guerra ou da doença.
O protesto começou junto à embaixada dos EUA e terminou junto da embaixada de Israel. Pelo caminho, uma longa fila de gente gritou pela paz na Palestina e por um Estado independente palestiniano.
Palavras de ordem incluíam mensagens contra o apartheid implementado por Israel e mensagens contra o apoio assumido dos EUA e alguns aliados à repressão genocida israelita, numa alusão a que Israel mata palestinianos com bombas americanas.
Finalmente, Lisboa foi palco de uma grande manifestação pela paz na Palestina, depois de inúmeras manifestações que já decorreram em todas as grandes cidades à volta do mundo.
O protesto de Lisboa acontece 3 dias depois de ter tido início o julgamento de Israel no Tribunal Internacional de Justiça (TPI), no caso apresentado pela África do Sul que acusa Israel de genocídio na Faixa de Gaza.
Israel é acusado de provocar uma crise humanitária sem precedentes, destruindo hospitais, escolas, áreas residenciais, provocando a fuga de 2 milhões de pessoas e a morte de mais de 20 mil civis, metade dos quais se estima serem crianças.
Há inúmeros casos de fuzilamentos sumários de palestinianos, de assassinatos perpetrados por snipers militares, de morte de prisioneiros palestinianos nas cadeias israelitas. E há a matança sistemática de jornalistas palestinianos, com 118 mortos em 3 meses de conflito.
Israel diz que a África do Sul espalha mentiras, os EUA dizem que a iniciativa do país africano é “contraproducente”. Mas quem tem acompanhado a invasão de Gaza tem assistido a atos sucessivos de vingança cruel e desmedida.
O executivo sul-africano tem sido historicamente um forte apoiante da causa palestiniana e o Congresso Nacional Africano, partido no poder, tem frequentemente associado a causa à sua própria luta contra o regime segregacionista do apartheid que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994.
No TPI, o caso está a ser julgado por um coletivo de 15 juízes.
O novo secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, tem tido discursos de autocrítica e de compreensão pelo descontentamento que existe em muita gente.
Tem sido um discurso a tentar passar uma imagem de serenidade, mesmo perante o avanço da extrema-direita empolgada pela Convenção Nacional do Chega que decorre por estes dias. Quando Pedro Nuno Santos diz que é preciso perceber “quem acha que a solução são partidos populista, xenófobos ou racistas”, o PS já fala diretamente para franjas eleitorais próximas do Chega.
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Podemos dizer que já começou a campanha eleitoral para as eleições antecipadas de março. Entretanto, o partido Chega reelege André Ventura como se estivesse na Coreia do Norte, os 98,9% dos votos mostram bem que não há espaço para vias alternativas ou oposição interna.
O discurso que vem da convenção do Chega não tem novidades: é contra a imigração, é contra os movimentos de igualdade de género, o discurso dos “velhos do restelo” como lhes chama o novo secretário-geral do PS.
Um homem do norte que viveu na Grande Lisboa, onde se distinguiu como professor, historiador, ativista, intelectual. Em resumidissimo descritivo, fez carreira como docente universitário na Faculdade de Letras de Lisboa, organizou o Sindicato de Professores da Zona da Grande Lisboa, publicou, colaborou com várias autarquias em projetos culturais.
Em 1993 foi eleito nas listas da CDU para a Câmara Municipal de Oeiras, tendo-lhe sido atribuída a gestão dos pelouros do Desporto e dos Centros Históricos, bem como responsabilidades no acompanhamento de projectos sobre a orla ribeirinha e a Fábrica da Pólvora de Barcarena. Representou também a Câmara Municipal de Oeiras na Direcção da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico e no Conselho Geral da Universidade Atlântica. A sua acção e dinamismo foram aí deveras apreciados. Nessa altura, apresentou ao Congresso «O Marquês de Pombal e a Sua Época / Colóquio O Século XVIII e o Marquês de Pombal» a comunicação «Pombal e os Jesuítas algumas notas para uma compreensão do anti-jesuitismo pombalino», publicada nas p. 269-277 das respectivas Actas (Oeiras/Pombal, 2001).
Permita-se-me um pormenor: o Dr. Arnaldo teve oportunidade de adquirir a Torre dos Laftat, no Carvalhal.
Como historiador, recuperou-a com todo o cuidado, respeitando a traça original e nela expôs, em lugar de honra, a cópia da coleira de escravo que, finalmente, se lograra encontrar, juntamente com outra, em Março de 2017, nas reservas do Museu Nacional de Arqueologia. A coleira ostenta a seguinte “Este preto pertence a Agostinho de Lafetá do Carvalhal de Óbidos”.
Deixa viúva a Doutora Helena Serôdio, catedrática de Germânicas pela Faculdade de Letras de Lisboa. À família enlutada, designadamente à sua filha, a Dra. Lídia Pereira, e aos seus netos, Matilde e Diogo, se apresentam os mais sentidos pêsames.
Que descanse em paz!
O corpo do Dr. Arnaldo Pereira estará em câmara ardente, este sábado, 13, na igreja de Linda-a-Velha, a partir das 16 horas; o funeral está previsto para as 12 horas de domingo para o crematório de Barcarena.
Ninguém quer comprar o edifício da igreja de Santo Amaro, em Castelo de Vide. O imóvel está mesmo no centro da vila, está barato (350 mil euros), mas nem assim aparece quem o queira. Nem a própria Câmara Municipal se mostra interessada.
Talvez o problema se prenda com o facto de o imóvel estar classificado como monumento de interesse público. Toda a gente sabe que isso traz problemas, sempre que for preciso fazer obras.
O edifício pertence à Santa Casa da Misericórdia de Castelo de Vide (SCMCV), que não lhe dá uso. Já há muito que deve ter sido dessacralizado e, assim, nem para missas serve. Estamos a falar de um prédio urbano composto por três andares, quintal e sótão, tendo uma área total de terreno de 1.350 m2 e uma área de implantação do edifício de 650 m2.
O que temos hoje é já uma reconstrução da ermida original, construída em 1494. No século XIX, a SCMCV construiu a igreja em cima da velha ermida. Em 2014, quando foi classificada monumento de interesse público, já a igreja tinha pouco uso. Mas trata-se de um exemplo do barroco alentejano e convém que seja conservado.
O anúncio da venda do edifício já foi publicado duas vezes e não apareceu nenhum interessado. A esperança da SCMCV está na autarquia. Mas será preciso que a autarquia tenha um projeto que justifique a aquisição. E será preciso que a SCMCV aceite negociar o “preço justo” pelo edifício. Não deve haver “fumo branco” e o negócio não se fez.
Se estivesse em Lisboa ou no Porto, os 350 mil euros seriam uma pechincha. Antigas igrejas têm sido vendidas por muito mais dinheiro. Mas em Castelo de Vide…
As declarações dos atuais e dos antigos administradores da Global Media têm sido interessantes de seguir. Chamados à Comissão de Cultura da Assembleia da República, os administradores da Global Media disparam acusações mútuas uns contra os outros. Todos consideram que pessoalmente são competentíssimos e que os nabos são os outros. As referências às interferências de Marcelo Rebelo de Sousa são relevantes para percebermos o que se passou.
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A questão do retorno da Agência Lusa à esfera do Estado revela a asneira que se cometeu quando se deu a agência noticiosa aos privados. Não só os privados não a querem, como o novo acionista, o fundo de investimento World Opportunity Fund (WOF) estaria a contar com a venda da agência ao Estado para garantir a sustentabilidade do negócio que pretende fazer em Portugal. Uma agência de notícias não tem de ser um negócio, mas é uma ferramenta fundamental para alicerçar as políticas de cooperação internacional do Estado e a unidade nacional.
Pelo que se percebe das declarações das pessoas que têm sido chamadas à Comissão parlamentar de Cultura, perdeu-se agora uma oportunidade de se conseguir esse regresso. A agência de notícias portuguesa está nas mãos de um fundo de investimento internacional, um tipo de organização pouco recomendável para qualquer Estado ter algum tipo de proximidade.
No passado dia 10, todos os trabalhadores da Global Media estiveram em greve, na tentativa de fazer gorar a ameaça de um despedimento coletivo de 200 trabalhadores dos vários títulos do grupo.
Em 6 de dezembro, em comunicado interno, a Comissão Executiva do Global Media, liderada por José Paulo Fafe, anunciou que iria negociar com caráter de urgência rescisões com 150 a 200 trabalhadores e avançar com uma reestruturação que disse ser necessária para evitar “a mais do que previsível falência do grupo”.
Na atual situação política, com o governo demissionário e eleições antecipadas marcadas para março, este problema nunca irá ser resolvido antes de haver um novo governo. E depois, tudo dependerá do resultado eleitoral. Se a direita formar governo, é bem possível que digamos adeus à agência Lusa.
Fomos experimentar um Polestar 2. A marca não consta na lista dos 10+ vendidos em Portugal, a não ser que os números da Polestar estejam incluídos nas vendas da Volvo. A Polestar é uma marca subsidiária da Volvo.
O Polestar 2 é um carro muito bom. Confortável e seguro, proporcionou sempre uma condução agradável em estrada, autoestrada e urbana, mesmo sob condições ambientais agrestes, com muita chuva e frio.
Fabricado na China, é um daqueles exemplos que desmente o preconceito de que a indústria chinesa só produz mediocridades. Aliás, já há muito tempo que isso não é verdade. Basta dizer que a Volvo foi comprada pelos chineses há décadas e não foi por isso que deixou de fazer bons carros. Ou bastaria dizer que todas as principais construtoras automóveis fabricam na China onde, por exemplo, a Tesla tem a sua principal fábrica.
O veículo vem equipado com eletrónica q.b., desde as ajudas ao estacionamento em 360 graus aos avisos sobre limites de velocidade na estrada ou rua em que se circula. Um dos aspetos mais bonitos (até um pouco distrativo, talvez) é a projeção no tablier do mapa de estradas. Muito bonito. Ao centro, um tablet de boas proporções serve de verdadeira consola de comandos, desde a sintonização de canais de rádio aos modos de condução mais ou menos desportiva.
Sobre o Polestar 2, apenas um reparo. Em dois dias fizemos um pouco mais de 300 quilómetros. Pegámos no carro com as baterias a cerca de 85% (autonomia um pouco acima dos 400 kms) e ao final do primeiro dia, com 200 kms feitos, a carga rondava os 40%. Carregou durante 8 horas, numa tomada caseira. Carregou até aos 75%. Na noite seguinte, esteve 10 horas ligado à corrente e carregou sensivelmente o mesmo. Ou seja, parece-nos que é um processo demasiado lento e que pode complicar a vida das pessoas se houver uma emergência. Para um carro que custa mais de 54 mil euros…
Claro que nada disto parece atrapalhar o sucesso dos veículos elétricos (EV). A venda de automóveis elétricos aumentou mais de 100% o ano passado, em Portugal. A estatística diz que foram vendidos 36.390 veículos ligeiros de passageiros elétricos durante os 12 meses do ano passado. Se aos EV somarmos os híbridos e híbridos plug-in foram matriculados 92.395 carros novos, em 2023.
As marcas mais vendidas foram a Tesla com 9329 unidades (+256,3% em relação a 2022); a BMW com 3480 (+137,9%) e a Peugeot com 2471 (+54%). Depois vêm a Mercedes-Benz, Volkswagen, Renault: 1686, Audi: 1624 (+92,4%), Volvo: 1353 (+114,1%), Dacia e, em décimo lugar, a Citroën.
O futuro é elétrico, com ou sem baterias de lítio. Esperemos que sem. Os veículos elétricos não podem ser uma agressão ambiental. É fundamental que o desenvolvimento tecnológico consiga evitar que a mobilidade esteja dependente da mineração de minérios.
Quando a Rainha Santa Isabel fez a sua peregrinação de Lisboa a Santiago de Compostela, no ano de 1325, recebeu do Arcebispo de Compostela um bordão de peregrina! Ainda existe, e em estado impecável, guardado no Tesouro da Rainha Santa, em Coimbra. Visto ser uma peça única e de grande peso histórico dei-me ao trabalho de o estudar.
A barra octogonal horizontal é esculpida de uma pedra muito invulgar, que não se encontra, em grandes dimensões. Normalmente, apenas existe como pequenas pedras polidas, incluídas em joias da Ásia, nas quais é frequente terem-se também usado pedras lápis lazuli. Como estas costumam ser do Afeganistão, negociavam-se na rota da seda, aparecendo em uso desde a China até ao Império Romano.
Analisando a qualidade do bordão, cheguei à conclusão de que a vara, em tubo de prata que mostra a Vieira de Peregrino, é a componente mais recente. Tanto pode ser do século XIV como uma substituição do século XVII, aquando da abertura do seu sarcófago.
Parece-me que o bordão apenas teve prata e pedra na parte superior. A vara original pode perfeitamente ter sido toda em madeira e por se ter desfeito desde o enterro até ao momento da reabertura do sarcófago, terá sido substituída por uma vara em prata.
As cabeças de leão nos terminais da pedra são extraordinárias e nitidamente do período românico. A sua origem ainda não me foi possível determinar por ausência de peças idênticas com as quais as possa comparar. Assim sendo, coloco a hipótese de se tratar originalmente de um bordão que terá pertencido a uma personalidade destacada, do mais alto nível social, que a recebeu no Oriente e que se fez a caminho de Santiago de Compostela, onde a ofereceu ao tesouro da catedral.
Sei que quando o Papa João Paulo II foi a Santiago de Compostela, fizeram uma réplica toda em marfim (sem metais), que lhe ofereceram e que se encontra no Museu do Vaticano.
Da Rainha Santa Isabel tenho um relicário em prata de alta qualidade. Na frente mostra a Rainha Santa com as suas rosas na mão. No verso tem uma tampa com o seu brasão. Foi um de seis feitos no século XVII para as seis rosas supostamente “encontradas incorruptas” quando se abriu o sarcófago. É uma peça linda, mas apenas de interesse secundário, por ser do século XVII.
Chamo a atenção de um pormenor francamente invulgar na configuração deste relicário. Debaixo do medalhão central, representa, na frente, a Rainha Santa com as suas rosas nas mãos e, no verso, a caixa que guardava a flor. Esta caixa tem uma tampa que mostra o brasão da Rainha Santa dividido ao meio. De um lado, as barras de Aragão, do outro as Armas Reais Portuguesas, que recebeu pelo casamento com nosso Rei Dom Dinis.
Na configuração da decoração da parte de frente, optou-se por juntar decoração seiscentista na sobreposição de duas cruzes. Uma com barra horizontal e vertical e a outra em posição da Cruz de Santo André. Esta mesma configuração já foi usada séculos antes pela mãe de D. Afonso Henriques, quando se intitulava “ Tarasia Regina” no seu selo rodado.
Um dia encontrei, perto de Lamego, um vale com uma capela de grande importância histórica nacional, infelizmente muito pouco conhecida. Penso chamar-se “Capela de São Pedro de Balsemão”. Possui (esculpido em pedra de Coimbra) a melhor de todas as representações de Nossa Senhora grávida (Nossa Senhora do Ó), com perto de um metro de altura.
imagem de Nossa Senhora do Ó, capela de S.Pedro de Balsemão
Na rocha da parede da entrada, tem esculpida a tomada de posse da capela pela mãe de Dom Afonso Henriques, com a mesma sobreposição da cruz cristã e da Cruz de Santo André, formando folhas de rosa imaginárias. Isto tem o significado da afirmação da pureza do sangue, algo muito precioso para Dona Teresa, visto ter sido filha do Rei de Leão, mas fora do casamento. Assim, compreendemos por que razão a mãe do nosso primeiro monarca fez tanta questão nisso, a ponto de o mandar colocar como sua assinatura numa capela importante, onde todos os anos imensos peregrinos se juntavam. Da sua meia irmã, nascida do casamento do seu pai, o Rei de Leão, apenas sabemos que casou com o Duque da Galiza, mas a história pouco mais nos conta. Nunca vi algo assinado por ela, nem tomadas de posse de fortalezas ou capelas de romaria.
Devo mencionar que os nossos soberanos desta época não sabiam ler nem escrever, deste modo, qualquer atitude que tomassem, tinha de estar rubricada pelo selo rodado e apenas quando este estava devidamente colocado em pergaminho ou pedra, se sabia que o conteúdo da mensagem era a vontade expressa do mesmo.
Tenho uma outra peça ligada a Santiago de Compostela. Data da 1ª metade do século XVIII. É um joelho de uma armadura em ferro repuxado em alto relevo, com uma grande vieira peregrina, indicando que o portador foi peregrino a Santiago de Compostela.
O nosso Dom João V (1706-1750), ficou radiante quando teve conhecimento que a sua mulher, Dona Maria Ana de Áustria, lhe deu o 1º filho. Ergueu o Convento de Mafra, como tinha prometido e foi também a Santiago de Compostela para agradecer. É perfeitamente possível que tenha levado meia dúzia de cavaleiros de guarda pessoal vestidos em armaduras ligeiras, feitas para esta ocasião. Estas bastavam ter a vieira em cada joelho e cotovelo para os indicar como guardas desta peregrinação. Nunca vi outra em parte nenhuma. A minha apareceu em Mafra e considero-a de grande interesse histórico.
Um pouco por descargo de consciência, perscrutámos o que havia de especial para ver nesse Sudeste londrino. E chamou-nos a atenção um estranho Horniman Museum and Gardens, em Forest Hill… O dia estava chuvoso, mas de autocarro não era longe.
Deparámo-nos com um edifício austero. Soubemos que fora encomendado em 1898, inaugurado em 1901, com projeto de Charles Harrison Townsend.
Passeámo-nos primeiro pelos jardins, pois, embora ligeiramente cacimbasse, muitas famílias por ali andavam também.
Aqui e além, um banco dedicado à memória de um benemérito. Estas instituições, em Londres, vivem muito da benemerência e, se a entrada no museu é gratuita, sugere-se que o visitante deixe um óbolo para a sua manutenção. Bancos em honra de beneméritos ou de simples cidadãos, este falecido de provecta idade, aquele ainda não chegara aos 40 quando a morte o surpreendeu… Memoriais, exemplos, testemunhos – que o banco de jardim consubstancia, de facto, eloquente convite à contemplação da Natureza, nomeadamente aqui onde houve o cuidado de reunir exemplares exóticos de plantas e de árvores, algumas de grande porte, devidamente identificados para que os visitantes os apreciem.
Admiravam os mais novos os galinheiros, os patos, os lamas (pessoalmente nunca vira um ao vivo…), pois a cidade-cidade não mostra galinhas ao vivo nem deixa ouvir o cantar do galo nem o gluglu do peru. Neste parque em pleno subúrbio urbano, bem arborizado, sentíamo-nos como que numa quinta rural…
Estando no topo duma colina, abarcava-se dali larga extensão da cidade, até as torres de algumas igrejas e da catedral se logravam identificar, assim como o famoso arranha-céus desenhado pelo arquiteto uruguaio Rafael Vinoly, concluído em Abril de 2014 e conhecido como o “Walkie-talkie”, eleito o “edifício mais feio do Reino Unido”, com os seus 160 metros de altura e 34 pisos. Um panorama impressionante sobre a vasta metrópole londrina.
Mas a curiosidade maior pendia, sem dúvida, para o Borboletário. Num ambiente meio tropical húmido, vagueámos mui devagarinho por entre borboletas dos mais variados tamanhos e cores. Cuidado, não pises aquela! Olha, tens uma nas costas! Adultos e crianças se maravilhavam. Em pratos com pedaços de fruta e outros gulosos acepipes, poisadas de asas fechadas, saciavam-se umas quantas, enquanto outras voavam por aqui e por ali e poisavam de asas abertas como a pedir para as fotografarmos. Que riqueza! Num recanto, o ‘puparium’, a creche onde havia larvas, casulos, lagartas, sob o título «All change!», tudo muda. A visão das metamorfoses. Bem ao vivo! E a recomendação de que, à saída, víssemos bem, não tivesse vindo alguma borboleta connosco…
Não resistimos depois e entrámos no museu, também ele bem concorrido nesse dia ainda de férias natalícias. E pasmámos. Era um museu de História Natural, pensado no bom espirito catalogador dos finais do século XIX, o que significa que ali encontras de tudo o que é animal embalsamado, desde a enorme lontra ao ratinho. Tudo classificado a rigor, nome comum e nome científico, zona do mundo em que predomina. As vitrinas da passarada, um mundo. Aves organizadas segundo o tipo de asa que têm e tu ficas pasmado com a envergadura de asa do condor ou de qualquer ave de rapina, que coisa enorme, nós que apenas os vimos lá no alto, planando…
Muito se fala em biodiversidade e na necessidade de a preservar, pois – com o chamado ‘progresso’ e a contínua invasão pelo Homem dos nichos ecológicos das espécies – muitas há em risco de extinção. E se já me deixara seduzir pela beleza e variedade das borboletas (é incrível o pormenor do seu revestimento, das suas antenas…), aqui, apenas em dois grandes salões do Horniman Museum, senti-me mesmo pequenino, ao tomar de novo consciência do que é, de facto, a biodiversidade.
Se é visita a fazer? Sem dúvida. Tanto mais que está afastado dos outros famosos museus e este é tão eloquente e rico como qualquer um deles. Pedes à Internet que te indique um Museu de História Natural em Londres e o que é que te aparece logo, em grandes parangonas? O NaturalHistory Museum, oficial, numa zona central, a Exhibition Road! Acontece que, afinal, também a periferia tem tesouros para mostrar!
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