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A GORJETA

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De cá estabeleci contacto com um taxista, de origens turca e arménia, um pouco antes de escolher alojamento. Uma amiga tínha-me dado boas referências do “rapaz” e talvez ele indicasse um hotel de confiança e barato na zona que eu preferia.

Lá estava ele à saída do aeroporto, com um cartão de razoáveis dimensões e o meu nome escrito com caneta de feltro: HELENA, como tínhamos combinado.

Era um jovem alto e bonito, de tez morena num rosto iluminado pelos olhos verdes e pela inegável simpatia. Durante a longa, e cara, corrida até ao centro da cidade, nunca se calou. Não a fazer perguntas indiscretas, mas a revelar as origens, as experiências de vida, a itinerância até chegar a Paris. Depois as informações que me interessavam: sim, garantia que o hotel, gerido por uma família de paquistaneses, era de confiança.

Reparei logo, na modéstia do hall de entrada, que não podia contar com muito conforto, mas como o jovem condutor dissera, era o que tinha melhor relação qualidade-preço para aquela zona de Paris.

Mal abri a porta do número…não sei qual, vi a casa de banho em frente. Duvidei se lá caberia, mas estava impecavelmente limpa. O quarto twin tinha porta com varanda para a rua, camas estreitas demais para o meu gosto e colchas de algodão azul desmaiado. Pouca mobília. Afinal nada mais podia ter um quarto pouco maior do que a casa de banho, mas a vista para a rua principal, valia alguma coisa….

Foi o recepcionista, já de meia-idade, que além do mapa indicou, no segundo dia, um restaurante na Rua de Mouffetard com boa comida francesa, como eu pedira. Ao almoço uma refeição volante e ligeira, enquanto fazia, sem pressa, o reconhecimento da rua.

Estava encantada com o mercado ao ar livre, com os produtos frescos que oferecia. E foi num carro de petiscos lá mesmo, que pedi pão com tomate e queijo fresco, salpicados de ervas secas e regados com azeite.

Passei pelo restaurante para onde me remetia. Tinha bom aspecto, uma sala ampla e arejada, uma lista de pratos típicos da cozinha francesa e outros comuns a muitos países. Estava decidido: seria lá o jantar.

Hesitei entre carne e peixe. Queria experimentar o pato à não sei quê…mas lembrando as más experiências da pele pouco tostada, acabei por escolher linguado acompanhado com batatinhas inteiras coradas e uma verdura salteada. Tão português, afinal. No fim uma sobremesa da irresistível doçaria francesa, e um copo de vinho bom, que deixo sempre quase cheio, mas de preço razoável.

Quando veio a conta, acrescentei umas moedas ao total, destinadas ao empregado, também de meia-idade e pouco sorridente. Enquanto ele virava costas, reparei que ia resmungando, em voz audível: “não sei para que deixam mais do que a conta…fica tudo para o patrão”.

Por cá sempre funcionou a gorjeta, quando o atendimento o justificava e a pessoa entendia dar. Ninguém sugeria que acrescentássemos algum valor à conta. Pasme-se que agora, em certos restaurantes mais “finos”, vem uma percentagem perfeitamente indicada na factura, embora o funcionário lembre, com certo constrangimento, que é facultativo.

Aconteceu duas vezes na vila de Cascais, a primeira no restaurante de um chefe famoso que lá abriu/remodelou um espaço. Se a comida estava boa? Tudo perfeito. A segunda vez teve lugar, no dia do meu aniversário, num restaurante implantado num complexo histórico e dependente de um grupo conhecido. E que tal a comida? Boa, sem ser excelente, os pratos com um preço quase igual aos do anterior restaurante.

As perguntas: se é facultativo, porque o lembram ao cliente? Com preços de pratos à volta de 24 €, sem contar com a sobremesa e bebida, precisam as pessoas e grupos importantes de sugerir a gorjeta? O que devemos pensar de tudo isto? Que os empregados são mal pagos e têm de complementar o vencimento com mais uns pós? Mas se a percentagem vem incluída na factura, será que têm liberdade para exigir o montante adicional? E sobre que rendimento incide o pagamento do IRS ?

Garantiram as pessoas presentes no “meu” almoço, que era um procedimento já usado em outras capitais da Europa e que estava a “pegar” em Portugal nos restaurantes mais famosos.

Tanto me dá a classificação. Considero uma vergonha a sugestão da gorjeta. E recomendo a quem assim procede, que olhe para o exemplo de outros espaços de restauração por todo o país. Há centenas com oferta igual, ou melhor, que sobrevivem dos preços indicados e que respeitam dois tipos de liberdade: a do cliente quanto à decisão de dar…e a do funcionário recolher para si e para os colegas (ou não) o reconhecimento compensatório da excelência do atendimento.

Chama-se Nour

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Nour Ibrahim. Vive em Gaza, na Palestina.

Como tantos jovens por esse mundo fora, Nour usa as redes sociais para se dar a conhecer, para passar mensagens. Nas atuais circunstâncias, para mostrar que está viva. E que há mais gente viva, ainda, naquele inferno em que o território foi transformado.

Os sonhos de Nour são tão simples e tão difíceis de concretizar…

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No Instagram, apresenta-se como uma pessoa que gosta de escrever, cantar, que gosta de poesia. Abriu a página há pouco, ainda tem poucos seguidores.

ALDRABÕES ONLINE

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Atenção, muita atenção. Os trambiqueiros andam em grande atividade e esforçam-se na criação de novos truques para enganar os mais distraídos.

Se receber alguma mensagem do género desta que apresentamos aqui, não responda sem verificar bem todos os pormenores.

Neste caso, nem o visado tem qualquer dívida com quem fornece água em casa ou na empresa, nem ele é cliente de quem remete a mensagem.

Parece fácil esquivar estes truques, mas a verdade é que se eles os utilizam é porque funcionam. Talvez numa percentagem baixa, mas basta que alguns caiam na esparrela e já ganharam o dia. Sem trabalhar…

Último conselho, remetam a mensagem para a polícia No site da Polícia Judiciária (PJ) tem todos os contactos possíveis, independentemente do local onde esteja ou resida. Veja neste link, onde tem um número de telefone e vários emails.

Infelizmente, a PJ não tem um modo expedito para receber queixas por via eletrónica. O procedimento existente obriga a uma autenticação através do cartão de cidadão, só possível para quem tenha um leitor de cartões. Ora, a maioria dos cidadãos não tem esse recurso.

PORTAGENS + CARAS PARA VEÍCULOS DE COMBUSTÃO

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A Autoridade Mobilidade e Transportes (AMT) aconselha o governo a castigar os automobilistas que não utilizem veículos não poluidores em termos de libertação de dióxido de carbono. Os castigos preconizados são vários. Por exemplo, portagens mais caras ou interdição de circulação em zonas classificadas de “baixas emissões”.

Estas ideias foram apresentadas recentemente por Ana Paula Vitorino, presidente da AMT. À revista do ACP, esta especialista em mobilidade afirmou que, para promover a transição ecológica nos transportes, “pode existir uma componente que tem a ver com a poluição. E portanto, veículos mais poluidores podem ter uma portagem maior do que veículos menos poluidores. Isto é, pode haver deduções à portagem em função de se tratarem de veículos limpos”.

Ana Paula Vitorino na apresentação do estudo da AMT

O pensamento é mais profundo, com nuances que vão desde a originalidade das empresas se imiscuírem no modo como os seus funcionários chegam ao local de trabalho, até à criação de mais postos de carregamento para carros elétricos, incentivos não especificados para o uso partilhado de automóveis. Enfim, um rol de ideias que constam no estudo da AMT e que, supostamente, foi entregue ao governante da tutela para apreciação.

Do ponto de vista do cidadão que tem de se deslocar de um lado para o outro, seria muito mais interessante que a transição ecológica tivesse apoios financeiros para a troca de viaturas de combustão, isenção de impostos na aquisição de automóveis não poluidores. Facilidades em vez de multas e proibições.

MAS HÁ MAIS…

Mas a palavra “proibir” parece estar na moda. Dizem notícias vindas de Bruxelas que a União Europeia (UE) está a ponderar impedir reparações de carros mais antigos.

De modo a eliminar rapidamente os carros mais antigos, mais poluentes, a Comissão Europeia tem uma proposta, ainda não aprovada, para proibir as oficinas de reparar carros que apresentem determinados problemas mecânicos no motor, na transmissão, nos travões ou na direção, avarias mais comuns em veículos acima dos 15 anos de utilização. Esses veículos serão classificados como “residuais” e encaminhados para a sucata.

A motivação da UE é uma redução de 55% em veículos com motores de combustão até 2030, relativamente aos níveis de 1990. Há quem diga que é uma boa intenção, mas que carece de mais “vaselina”.

A memória Ephemera

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Outro dia, decidi guardar um pequeno parafuso no boião dos parafusos. E diz-me a Lucinda: «Pois, vai guardar; mas, quando precisar, é capaz de não saber onde guardou e corre à drogaria comprar, porque é mais fácil do que tentar saber onde é que está».

Assim acontece, mas não resistimos a ir guardando, até ao dia em que nós – ou os nossos herdeiros (quando os há) – decidimos dar volta ao sótão ou à arrecadação e a maior dos ‘guardados’ vai para o lixo.

Lembro-me do Mariguta da minha infância. Nunca lhe soube o nome. Adorava ouvi-lo apregoar ‘Ferreveeelhe!’. Meus pais davam-lhe ou vendiam-lhe trastes que não usavam já. Hoje, a profissão de ferro-velho não é comum, nada comum, a não ser para o ramo automóvel. Prefere-se arranjar uma banca, montá-la na Feira da Ladra ou numa dessas que vão surgindo como cogumelos por toda a parte. Em Cascais, por exemplo, no Jardim Visconde da Luz aos sábados (creio), no Jardim da Parada, no próprio recinto da feira (em redor do mercado municipal)… O pessoal lá vai sabendo quando e onde há esses mercados (ai, o Marché aux Puces de Paris!…) e tenta desenvencilhar-se.

O busílis está nos livros e revistas e outros papéis. Não há espaço em casa nem debaixo da cama ou por cima dos móveis. Depois, os livros são pesados e a gente ou já os leu ou já não tem tempo para os ler, que o Facebook e as «redes sociais» preenchem satisfatoriamente os momentos livres do dia. Não há pachorra para ler uma ou duas páginas no metro ou no autocarro; o telemóvel supre bem.

Portanto, tudo o que é livro ou jornal ou revista ou papel antigo arquivado em dossiês tudo corre sério risco de ir para junto de um contentor e quem quiser que aí se avie.

E é aqui que surge o milagre da Ephemera, a luminosa ideia de José Pacheco Pereira! Tudo o que é ‘efémero’, ou seja, quase momentâneo, serve hoje e amanhã já não, no domínio sobretudo da papelada, tem acoito nesse ‘arquivo de tudo’ que Pacheco Pereira em boa hora inventou.

Recordo-me que andei meses à procura de alguém que quisesse ficar com uma colecção de revistas de bom nível que uma entidade bancária adregara editar. Mensagens nas redes sociais, conversas com amigos… nada! Ninguém estava interessado! Até que alguém me perguntou: «Já tentaste a Ephemera?». Não tentara. Tentei. Fiquei com o problema resolvido.

Aliás, já aqui houve oportunidade de falar nesse assunto de guardar a memória e se disse como se salvara o espólio de Giacometti.

Em entrevista concedida à utilíssima 30 Dias, a agenda cultural (também em papel) do município de Oeiras, deste mês de Janeiro de 2024, conta José Pacheco Pereira como é que tudo apareceu, o que será bom fazer de futuro e ilustra com algumas histórias deveras elucidativas:

«Encontrámos uma correspondência entre dois namorados, que é, aliás, o nosso maior sucesso editorial, que se chama ‘Amorzinho’. É uma correspondência amorosa e é muito interessante sobre a condição feminina, porque ela é uma rapariga que começa a namorar com 15 anos, não sabe nada da vida, ele sabe de mais e ela vai aprendendo, vai ganhando manha». «É um conjunto de quase 600 cartas e nós temos as dele e as dela, o que também não é comum, e estavam metidas na gaveta de um móvel que ia para o lixo».

«Recuperámos todo o arquivo da sede do CDS em Coimbra, quando ele foi deitado ao lixo. Uma senhora aqui de Oeiras, por acaso, acordou de manhã, abriu a porta e viu um monte de dossiês que a vizinha tinha deitado fora, Chamou-nos, a gente foi lá buscar, era todo o arquivo da história da agricultura de Angola dos anos 50, 60».

Duas sugestões, portanto:

  1. Tente ler a entrevista em que José Pacheco Pereira fala dessa «obra de loucura mansa». Aceda, se não tiver a edição impressa, a: https://www.oeiras.pt/-/agenda-roteiro-cultural-30-dias-edicao-247-janeiro-24
  2. Consciencialize tudo quanto ali se diz e faça-nos um favor: quando não tiver já lugar para pôr os livros e/ou revistas e jornais, panfletos e quejandos, e a biblioteca ou o arquivo municipal da sua residência não os quiserem, entre em contacto com a Ephemera (935551816; ephemerasecretariado@gmail.com). Estou certo que o seu problema deixará de existir.

3 ANDARILHOS

cartoon de Hélder Dias

A nova Aliança Democrática (AD) repesca a coligação PSD – CDS – PPM (1979-1983) mas, nas atuais circunstâncias políticas, trata-se de uma frente eleitoral para tentar travar o avanço da extrema-direita protagonizado pelo partido Chega. O PSD precisa mais de estancar a hemorragia de quadros e eleitores que se sentem atraídos pelo Chega, do que vencer o PS.

Os líderes do CDS e PPM não têm nada a perder. Sabem que se Montenegro se desequilibrar, eles caem junto, mas caídos já eles estavam. CDS e PPM são partidos com reduzida expressão eleitoral, mas talvez consigam congregar alguns nostálgicos da velha AD e da direita que não suporta os modos truculentos do Chega.

Da velha Aliança Democrática sobrou uma espécie de sebastianismo com o trágico desaparecimento de Sá Carneiro. E algumas “traições” políticas. Freitas do Amaral derivou de fundador do CDS e vice-primeiro-ministro de Sá Carneiro para ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates e Basílio Horta que fez uma deriva ainda mais ampla (começou como dirigente do partido único da ditadura salazarista) terminando como presidente da Câmara Municipal de Sintra eleito nas listas do PS.

Um tema delicado

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Nordsøen Oceanarium

Sejamos pragmáticos, o que leva um caixa d’óculos que adora tubarões – e os estuda há 30 anos – a metê-los em cativeiro? Recordemos que o sonho do dito caixa d’óculos era ser o “Mr. Hooper”, o personagem do Jaws que é cientista e especialista em tubarões.

Dei essa resposta à Ana Daniela Soares quando teve a amabilidade de me entrevistar no programa ‘Todas as Palavras‘ (a partir do minuto 7’) em 2019, por ocasião do lançamento do ‘Tubarões Voadores’.

E voltei a responder (em inglês) a essa questão na palestra que dei nas Diving Talks, ‘When Divers become Collectors and/or Veterinarians‘.

E não esqueçamos que já a tinha respondido quando escrevi o capítulo ‘Marine Animals and Human Care Toward Effective Conservation of the Marine Environment‘ para a Encyclopedia of the UN Sustainable Development Goals.

Mas eu bem sei que a rapaziada moderna tem o attention span de uma crisálida, por isso aqui fica o resumo rápido, caso não tenham pachorra de ler/ver/ouvir as palavras sábias que partilhei nos três links anteriores:

1) Durante largas décadas os aquários públicos (e zoos) foram efectivamente locais deploráveis, que se destinavam unicamente a exibir animais selvagens a um público que não tinha outra forma de os ver. As condições em que eram mantidos foram, na triste maioria dos casos, deploráveis. Num ponto estamos todos de acordo: esse modelo meramente expositivo é obsceno e deve ser proibido. Ponto.

2) Felizmente que esta filosofia reformista tem imperado e os aquários / zoos modernos estão muito distantes dessa visão perturbadora de outros tempos, motivo pelo qual uma das principais queixas do público de zoos modernos é, frequentemente, “Não conseguimos ver bicho nenhum!” precisamente porque os espaços em que são mantidos são tão próximos do ambiente real que a bicharada se perde na vastidão do habitat artificial que foi criado para a acolher.

3) Pensemos agora que aproximadamente 100 milhões de tubarões são chacinados anualmente para abastecer a indústria das barbatanas (para a famosa “sopa de barbatana de tubarão”), já para não falar dos desgraçados que são mortos acidentalmente por barcos de pesca comercial que se focam em espadartes, atuns ou outras espécies.

4) Agora puxemos pelos miolos: será que retirar dez (ou 20, pronto) indivíduos do mar e colocá-los num espaço gigante, com excelentes condições e ambiente 100% controlado, livre de poluição/pesca/etc., com cuidados veterinários 24/7 e alimentação adequada…

5) …para ajudarem a passar uma mensagem que chega a centenas de milhões de pessoas que depois vão votar em dirigentes que travem a chacina que ocorre no mar, para além de pressionarem esses mesmos dirigentes a abolirem esse calvário…

6) …faz sentido? Na minha cabeça, definitivamente sim. Uma dúzia de animais mantidos em excelentes condições para ajudarem a salvar largos milhões de organismos selvagens através de programas de educação e conservação, faz sentido.

Termino referindo que os zoos e aquários são, actualmente, os principais contribuidores para programas de conservação in situ. Isso quer dizer que são quem mais dinheiro injecta no financiamento desses programas que visam proteger os orangotangos no Bornéu, rinocerontes e gorilas em África, tigres na Malásia e tantas – mas tantas – outras espécies seriamente ameaçadas.

Na minha cabeça isto faz sentido. O que não faz sentido nenhum é exigir a libertação de todos os animais em cativeiro, sem se fazer puto de ideia do que se está a falar.

O carniceiro Biden e a genocida Von der Leyen

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Clare Daly é uma espécie de Joana D’Arc dos tempos modernos. Não enverga a espada, mas usa a palavra como arma letal.

Eurodeputada pela irlanda desde 2019, está no lado esquerdo do Parlamento Europeu, integrada nos ‘Independents 4 Change’ (Independentes pela Mudança).

Todas as suas intervenções políticas ficam marcadas pela irreverência e alguma brutalidade verbal. Ontem, referiu-se ao carniceiro Biden e à genocida Ursula, a propósito do que se passa na Palestina e do apoio que Israel tem beneficiado dos EUA e da Alemanha.

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Quero é viver

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Cada vez mais, e ainda bem, as pessoas falam dos seus derrapanços. Tiveram de engolir a vergonha e uns comprimidinhos supostamente milagrosos. Têm de ter amigos e/ou familiares por perto. Regra geral conseguem voltar à casa da partida. É quase sempre um conjunto de circunstâncias que as fizeram derrapar: desilusões amorosas, o ordenado que nem desfiado em esparguete chega, a rotina, o ritmo de vida a sprintar, a lista é interminável.

Mas algumas descem pelo buraco negro. Como é? É o domínio da indiferença, a incapacidade de falar sobre que o que quer que seja. Estás em coma mas de olhos abertos. E há uma heroína, má, muito má mesmo, sempre disponível a ir a jogo. Tem o poder de te mudar, adora jogar cartas, faz sempre batota. Atua na tua cabeça,  governa todo o teu corpo, o teu ser, quem tu és. Vais a jogo mas perdes tantas vezes que te perdes a ti. E lá vais descendo pelo buraco negro.

E não, “não vou perguntar ao mais vidente se o meu destino será sorridente”. Nada nem ninguém te consegue salvar, ninguém sabe “que solidão é essa que te põe a falar sozinho”.

O buraco negro não tem paredes, janelas, não há luz ao fundo do túnel, antes labirintos  intermináveis. É como estar na solitária da prisão. Não tens nada, não vês nada, paras de gritar porque a determinada altura, quase enlouqueces. Estás em coma de olhos fechados. Tudo é uma ilusão que inventas para sobreviver mas a cabeça, apesar de estar fechada num saco de serapilheira, continua a mil.

A heroína má, muito má mesmo, põe-se à vontadinha, toda contente, e dá-te um assunto sério para pensar. Cada vez que tentas sair dele, ficas ainda mais presa.

Os pensamentos ganham força, cada um é mais rebuscado do que o anterior, a solução é evidente, já sabes como vais sair, vai ficar tudo resolvido! E continuas a elaborar a coisa como se fosses assaltar um banco. Pensas em todos os pormenores, não podes falhar, só queres sair dali para fora, custe o que custar. Queres dizer adeus a tudo e todos mas não há luz ao fundo do túnel, tudo é dark. “Diz-me que tristeza é essa que levas no teu olhar. Que ansia e que pressa queres alcançar?” .

Os outros preocupam-se, entendem ou fazem por entender o autismo. “Que viagem é essa em que te diriges em todos os sentidos, andas em busca dos sonhos perdidos.” Percebi que era capaz de levar em diante a decisão dark, gritei pela ajuda dos amigos, chamei um treinador, vi finalmente uma luz ao fundo do túnel e o corpo, sempre em estado negro-depressivo, dorido, relaxou. Deixei de sentir o cansaço extenuante, o sofá aparou-me durante três dias. A cabeça também abrandou e, tirando uma das minhas circunstâncias que ficou resolvida, as outras ficaram todas no mesmo lugar, por resolver.

A heroína má, muito má mesmo, deixou-me dormir 16 horas seguidas. Não conseguiu acabar com o cansaço que ainda se estica no sofá.  Ela, a heroína má, muito má mesmo, ao quarto dia deixou-me levantar para fazer um café, só para me enganar, baixar a guarda pois, pensava ela, que eu acreditava que estava tudo bem. Não está nada tudo bem! E sou uma heroína, estou à tua espera, sua puta do caralho!

Venci uma batalha, não a guerra, mas saí do buraco, venci o dark side, pelo menos desta vez.  E “aqui estou mesmo que só até amanhã, mesmo que saiba como o tempo foge”.

Fui parar duas vezes (contando com esta) ao buraco negro, jurei que nunca mais ia acontecer mas não contei com a heroína má, muito má mesmo, que continua à espera de uma oportunidade.

“É para amanhã mas podias fazer hoje, porque amanhã não sabes se vais  cá estar”. Sim, mas a recuperação do buraco negro não se pode apressar. O corpo e a cabeça trabalharam desenfreadamente. Precisam de dar vagar ao vagar. No entanto tem de se ir andando para a frente, devagarinho, mas para a frente.

Por falar nisso, consegui montar e descobri o lugar ideal para o candeeiro alto. Uma façanha! Consegui ler um pouco, enviar emails e documentos da agenda. A minha boss é uma querida e deu-me espaço.

Fiz uma canja e, sem forças para tal desejei arroz doce, precisava do vagar. Fi-lo e comi-o todinho! E hoje até fui jantar com um amigo.

Estou a sair do buraco negro e quero acabar com a Estrela da Morte do Star Wars. Afinal tinha um ponto fraco, e a Resistência inteira que a conseguiu destruir. Quem me dera estar lá. O sacana do Darth Vader safou-se, desta vez. Não serão todas as vezes,  há-de morrer, por amor, esse sabre letal.

Não gosto de tocar nestes assuntos, só a mim dizem respeito, mas talvez ande alguém por aí que só consiga ouvir esta música perfeita: “vem que o amor não é o templo que o faz. Vem que o amor é o momento em que eu te dou, em que te dás. Tu que buscas companhia, eu que busco quem quiser, ser o fim desta energia, ser um corpo de prazer”. Espero que ajude, que seja uma luzinha, o amor salva, tudo e todos.

Eu… eu “tenho um anjo da guarda que me protege de noite e de dia”. O meu António!!!! Como me esqueci dele???

Corri para a sala, ele sentado no sofá. Agarrei-me ao meu verdadeiro herói, chorei eternamente, sem derramar uma lágrima, o corpo ainda não tem forças para tanto.

Convenceu-me a deitar na cama, abraçou-me. Quando estava quase a adormecer cantou em surdina.

"Vou viver até quando eu não sei,
que me me importa o que serei, quero é viver.
Amanhã espero sempre um amanhã 
e acredito que será e acredito que será mais um prazer."
Dedicado à Alexandra Quesada e ao amigo de sempre.
(Citações e música de António variações)

PETIÇÃO PARA BANIR ISRAEL DO DESPORTO

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A ofensiva israelita em Gaza já custou a vida a mais de 26 mil civis, incluindo cerca de 11.400 bebés e crianças. Noventa por cento dos palestinianos estão deslocados internamente e vivem em condições desumanas, “sem eletricidade, sem comida, sem água, sem combustível” tal como prometeu o primeiro-ministro israelita quando mandou avançar as tropas. Não há hospitais para tratar sobreviventes dos bombardeamentos. Não há mesquitas nem igrejas para serenar a angústia. Não há bibliotecas para ajudar a “viajar para longe” daquele inferno. Não há escolas nem padarias. Todos os aspetos da vida em Gaza estão já destruídos.

Os estádios de futebol servem de prisão. Despidos, amarrados, vendados, os detidos permanecem no relvado imóveis ao frio, à chuva, ao sol, num desafio em que não têm qualquer hipótese de vencer.

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Se o YouTube bloquear ou eliminar o vídeo (o que é frequente com vídeos relativos aos crimes de Israel na Faixa de Gaza), a opção é seguir este link para a rede Telegram.

ver o vídeo em https://t.me/duaslinhas/998

Apesar disto, a maioria das democracias ocidentais continuam a apoiar Israel. O slogan “Israel tem direito a defender-se” pegou de estaca, sem um olhar crítico. Estamos a dar o direito à defesa a um Estado que invadiu e ocupou o território de outros. E não reconhecemos o direito à defesa do oprimido.

Nem uma só sanção foi erguida contra Israel. Uma só. Israel continua a ser olhado como a “única democracia” do Médio Oriente, mesmo se extermina o povo vizinho. Mesmo se os snipers militares matam crianças e mulheres, civis de qualquer idade e género. Mesmo se a tropa quando avança leva consigo não apenas armamento, mas também retroescavadoras para destruir ruas e casas.

Surgiu agora a primeira petição internacional para que se imponham sanções a Israel. Os promotores escolheram sugerir o banimento de Israel das organizações desportivas mundiais. Pedem os peticionários a “suspensão imediata da participação de Israel em todos os desportos internacionais”. Tal como aconteceu com a Rússia, depois de ter invadido a Ucrânia. Isto significaria “a proibição de Israel competir nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, no Campeonato da Europa da UEFA e no Campeonato do Mundo da FIFA.”

A petição é proposta pelo DiEM25, um movimento transnacional internacionalista pan-europeu. Se quiser assinar, siga este link.