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Pas de ménage

De entre todos os candidatos às eleições presidenciais que se apresentaram até agora, Ana Gomes é a única que partiu para a corrida sem apoio de qualquer partido político. Embora militante do PS e apesar de ter sido deputada e eurodeputada eleita em listas do PS, a candidata à Presidência da República tem muitos anticorpos no partido, um pouco por culpa da falta de misericórdia que revela quando tem de criticar a sua própria hierarquia partidária. Foi o caso do “choque” com Carlos César, por exemplo, quando este disse que o PS não se revia nas acusações da eurodeputada contra Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica. Na altura, Ana Gomes disse que pensava pela própria cabeça e que não era “apparatchik” de ninguém.

O cartoon de Hélder Dias.

Derrocada no Metropolitano de Lisboa

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As obras de requalificação da Praça de Espanha provocaram o desabamento de parte do teto da estação de Metropolitano que ali existe. Do acidente resultaram quatro feridos e um problema de todo o tamanho na gestão do tráfego no Metropolitano.

A linha azul está parcialmente cortada e todas as outras linhas estão igualmente afetadas. O troço da linha Azul que liga Laranjeiras-Marquês de Pombal não tem circulação, o que afeta as estações Jardim Zoológico, Praça de Espanha, São Sebastião e Parque. À superfície, a Carris reforçou as carreiras nas zonas servidas pela linha azul do Metropolitano, nomeadamente a carreira 746, que faz o percurso Marquês do Pombal – Sete Rios e a carreira 726, que faz o percurso Arco do Cego – Sete Rios – Pontinha.

A derrocada terá sido provocada por um erro de quem executava as obras à superfície. Na altura do acidente estavam cerca de 300 pessoas na composição que passava no local quando ocorreu o desabamento. Foi uma sorte não ter acontecido uma desgraça.

Agora, terão de ser criadas condições de segurança para a reabertura total da linha azul do Metropolitano, o que talvez demore um ou dois dias. Neste momento decorrem trabalhos para a remoção do comboio danificado, para depois ser possível retirar os escombros e, só então, iniciar obras de reforço da estrutura do teto que desabou.

A estrutura danificada tem cerca de 50 anos de existência.

Conselho de Estado reúne em Cascais

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O Conselho de Estado reúne-se hoje no Palácio da Cidadela, Cascais, com a participação da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como convidada, e tem como tema “a União Europeia, hoje e amanhã”.

A reunião de hoje do órgão político de consulta do Presidente da República, prevista para as 14:00, será a primeira presencial em período de pandemia, depois de dois encontros por videoconferência, em março e julho.

O local escolhido foi o Palácio da Cidadela, em Cascais, para “assegurar o devido distanciamento físico” conforme as regras estabelecidas, refere uma nota divulgada pela Presidência da República, na passada sexta-feira.

Ursula von der Leyen está em Lisboa desde segunda-feira, dia em que se reuniu com o primeiro-ministro, António Costa, naquela que é a sua primeira visita oficial a Lisboa. Hoje de manhã, estará na sessão de apresentação das prioridades dos Planos de Recuperação e Resiliência Europeu e Português, com o primeiro-ministro, na Fundação Champalimaud.

Hoje, antes da reunião do Conselho de Estado, a presidente da Comissão Europeia e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, almoçam no Palácio da Cidadela.

Normalmente, a Cidadela está aberta ao público, é igualmente possível visitar o Palácio, passear pelas muralhas e espreitar o trabalho dos artistas e artífices que têm ateliers na Cidadela, mas hoje isso não será possível, pelos vistos. Para quem não conhece, ficam aqui algumas fotografias para aguçar apetite para uma visita posterior, em dia sem figurões pelas redondezas.

Racismo em remissão

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Tenho notado que, desde o passado fim de semana, se multiplicam – nas redes sociais – as manisfestações de apreço em relação ao jornalista Cláudio França.

Dito assim, é normal que muitos leitores não saibam de quem se trata. No entanto, talvez se faça luz se vos disser que estamos a falar do “pivôt” negro que se apresenta como um dos novos rostos da SIC.

Na realidade, quando o vi (acreditem ou não) nem reparei no pormenor. O que vi foi um homem, como qualquer outro, a apresentar as notícias.

Espanta-me que, passadas poucas horas, num país que se diz não ser racista, se multipliquem as palavras de apoio à SIC por ter um jornalista negro. E o chocante é precisamente isto. Ainda precisamos de realçar que existe um negro a apresentar o noticiário. O facto de algo tão simples ser notícia e motivo de conversa, faz-me pensar que, provavelmente, estamos perante aquilo a que eu próprio apelido de racismo em remissão.

Para quem não sabe, a remissão é o período em que uma doença permanece sob controle, em que o doente não tem os sintomas, mas não pode ser considerado curado uma vez que a doença pode voltar. É isso que me preocupa na questão ligada a Cláudio França. Se estaremos ou não perante um racismo em remissão. Não se ofenda caro leitor. Não é objetivo deste artigo apontar o dedo ou acusar de racistas todos quantos têm manifestado o seu apoio. O que reflito aqui é sobre o facto dos aplausos dirigidos ao referido jornalista se poderem tornar numa forma racista de se manifestar o anti-racismo.

Enquanto não olharmos para as pessoas como pessoas, enquanto fizermos da cor um tema de conversa, enquanto não existir normalidade na evolução social daqueles que têm sido discriminados desde sempre, estaremos apenas a contribuir para a sua não integração já que estamos a marcar com um ferro em brasa o seu aparecimento no grande ecrã pelo facto de ser negro e não pela sua competência ou mérito.

Em suma, o que é verdadeiramente assustador, é que quer os racistas, quer os não racistas, todos viram o negro quando deveriam ter visto apenas o homem.

Portugal Não é Racista!

Depois do artigo publicado hoje no jornal britânico The Guardian, não sabemos se o deputado do Chega já reagiu ou se vai ainda reagir, acreditamos que calado não ficará e, por isso, antecipamos aqui a única reação possível. Vai uma aposta como há de ser algum regurgito semelhante a isto?

O cartoon de Hélder Dias.

– “Puta!”

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Desliguei a torneira do lavatório. Sr. Motard, o gato, já não bebe água da tigela. Não, tem de ser água corrente! Eu, fiel serva, levanto-me as vezes que forem precisas para cumprir o desejo de sua excelência.

Saí da casa de banho (virada para a cozinha) e dei de caras com ela. Repelente, grande, nojenta, asquerosa, horrível, terrível, horrorosa, medonha, feia, feia, feia, repugnante, engulhosa, pavorosa, ortóptera, feia, feia, feia! Por segundos ficámos frente a frente, não fosse o vidro do exaustor a separar-nos, morria ali de ataque cardíaco. Sr. Motard, o gato, voltou calmamente para a cama, ela escondeu-se no interior do exaustor.

Tenho uma genuína fobia por estas filhas da mãe, estas e outras do género, um medo incontornável e irracional que provoca reações incontroláveis. Não é trauma, não é “cenas à gaja”, é fobia.

Também não é falta de asseio, sou uma verdadeira fada do lar. Impecável, implacável! Mas vivo num rés do chão de uma casa antiga com canalizações antigas, é incontornável que, volta e meia, uma entre sem tocar à campainha.

Uso em toda a casa a mortífera bisnaga xpto, um verdadeiro revólver para as filhas da mãe. E ainda um spray xpto plus, amigo do ambiente, pessoas e animais, infalível para tudo o que é bicharada. Não brinco em serviço.

Tinha encomendado um sushi, era fim de semana, estava frio. Um filme, caminha quentinha, comida japonesa, o céu na terra, o Motard por companhia, damo-nos muito bem no silêncio. Chegou o sushi, luzes da cozinha e arredores acesas, a vassoura à entrada do quarto, não consegui comer sossegada. Antes de regressar ao quarto, pus de novo a bisnaga mortífera nas extremidades do exaustor. Nem sei como consegui fazê-lo, nem como consegui adormecer. A vizinha Ivone passou por cá e desdramatizou a coisa, disse que há muito a dita tinha ido para outras paragens, eu que não me preocupasse. Não me preocupasse? Em baixo, ao lado da placa vitrocerâmica estão os temperos e os talheres. E se fosse buscar um garfo e ela saísse por ali? E se tirasse um prato do armário superior e ela me saltasse para cima? É que as sacanas voam! Sabes que conseguem sobreviver a uma guerra nuclear??? Que exagero, disse a Ivone, e adiantou: amanhã passo por cá e abrimos o exaustor.

Fui buscar uma sopa de noodles feita na hora, comprada no chinês da avenida. Montei a sala de estar no exterior, comi no largo. Voltei a dormir com as luzes acesas, a vassoura à porta do quarto, os músculos do corpo tensos, tão tensos que qualquer posição para dormir me incomodava. A cozinha continuou na mesma, nunca mais lá entrei, ainda hoje não sei como consegui tirar o saco do lixo.

Reflecti. Não posso continuar assim. Não posso ter medo de viver na minha própria casa. As fobias não se resolvem, não desaparecem, mas se não enfrentamos o medo ele cresce desmesuradamente, faz-nos reféns, toma conta de nós. Há dois dias que não entro na minha cozinha. Não pode ser. É a minha casa, o meu exaustor, o meu medo. Enviei um sms à Ivone a agradecer e desmarcar a ajuda. Encomendei um caril de camarão do Aziz para o jantar. Respirei fundo, entrei na cozinha, voltei a usar a bisnaga e o spray, tendo consciência de que não se pode abusar do uso destas armas, mas em tempos de guerra não se limpam espingardas. Dei um tempo, lavei a loiça. Fiz uma pausa, fui mexer num texto, despachei emails. Regressei, tirei tudo da bancada, talheres, temperos, tachos, panelas e por aí fora. Esfreguei tudo com híper detergentes, sempre a espreitar pelo canto do olho. Parei, fui divagar um pouco pelo Facebook.

De pé numa cadeira, tive finalmente coragem para abrir o exaustor. Ufff, a sacana não andava por lá. Lavei-o, mudei o filtro. Num ímpeto, freneticamente, lavei a cozinha toda, arrastei o frigorífico, desmontei as prateleiras debaixo do lava-loiças, o coração sempre a bater ao ritmo de tecnho, não, de hardcore tecnho. Depois de um duche a ferver deitei-me exausta, mais tranquila, não totalmente. Sem cadáver não há crime.

Bem cedo, logo pela manhã, arrasei o resto da casa numa operação “total recall limpeza”. Exterminei duas traças e uma aranha pequena. (Não, não tive coragem de salvar a coitadinha da aranha que não faz mal a ninguém). Vesti-me para uma reunião, trabalhei o dia todo fora. O calendário lembrou-me que a minha diva ia cantar na Praça da Alegria, ao início da noite. Um serão perfeito! Assim que cheguei, a voz da diva levou-me para um cabaré de rua, animado, divertido, com boa música, perfeito. Dancei, bebi uma taça de champanhe, conversei, até flirtei. Deitei-me sem pensar em mais nada.

Na manhã seguinte, ainda de pijama, olhei para ela no meio do chão da cozinha. Inerte. Serenei. Varria-a para a pá do lixo com cabo de vassoura e saí de casa com o braço bem esticado. Plof! Sua puta, ias dando comigo em tonta!

Racismo em Portugal, no jornal The Guardian

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É uma vergonha para qualquer país decente, a imagem de Portugal está a degradar-se à medida que se espalham as notícias sobre atos racistas da extrema-direita.  O jornal britânico The Guardian dedica esta segunda-feira um artigo ao tema do aumento da violência racial em Portugal. No artigo são recordados vários episódios que levaram a Rede Europeia contra o Racismo – ENAR – a apelar, no início deste mês, a uma “resposta institucional urgente”.

O artigo começa com a referência à carta com ameaças à integridade física e à vida enviada a Mamadu Ba, onde se lê “o nosso objetivo é matar os estrangeiros e antifascistas e tu estás entre os nossos alvos”.

Ameaças que se estendem igualmente à família do ativista da organização SOS Racismo.

O artigo lembra os casos de Bruno Candé, morto à queima roupa e a sangue frio numa rua de Moscavide em pleno dia, o caso do futebolista Marega que se recusou a continuar em campo depois de ser alvo de insultos racistas, o caso de Cláudia Simões espancada por um polícia porque a filha viajou num transporte público sem o passe social gratuito e podia, ainda, ter mencionado o caso de Luís Giovanni linchado na via pública em Vila Real, mas este caso não foi mencionado.

O artigo cita declarações de ativistas, segundo as quais “tem havido um aumento muito preocupante de ataques racistas de extrema-direita em Portugal, confirmando que as mensagens de ódio estão a alimentar táticas mais agressivas que visam os defensores dos direitos humanos de minorias raciais”.

Para a Rede Europeia contra o Racismo, o aumento de episódios racistas começou a ser notório desde as últimas eleições legislativas, em outubro do ano passado, quando André Ventura, líder do Chega, conquistou um lugar no Parlamento. O caso mais recente que o artigo refere é o insulto proferido por Ventura quando alcunhou a candidata às eleições presidenciais, Ana Gomes, de ser “a candidata dos ciganos”.

O The Guardian recorda que André Ventura, conhecido por ter ligações com outros grupos extremistas de extrema-direita, nomeou ex-membros de grupos neonazi para posições de liderança no partido e desculpou-se, mais tarde, dizendo não ter conhecimento do passado político desses militantes, o que não é verdade, como se sabe.

O artigo inclui, ainda, declarações de Joacine Katar Moreira sobre a “normalização do discurso de ódio racista”.  No texto há também uma referência ao crescente número de denúncias de discriminação em Portugal, embora quase nenhuma tenha resultado em condenação. Entre 2014 e 2018, o número de condenações por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência é inferior a três, pode ser lido no artigo.

Covid-19: transportes públicos são veículo de contágio, diz infeciologista

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Os transportes públicos são veículos de contágio da pandemia covid-19, o infeciologista Jaime Nina não tem dúvidas quanto a isso e diz mesmo que era preciso “ter quatro vezes mais carruagens, autocarros, e quatro vezes mais motoristas e maquinistas”.

Numa entrevista à agência Lusa, o infeciologista do Hospital Egas Moniz afirmou que “os transportes públicos são um dos pontos nevrálgicos da transmissão”, e defendeu que “para manter o distanciamento, os autocarros, os comboios e o Metro deviam ter fila sim, fila não, com passageiros”.

Se esta solução tivesse começado a ser pensada em maio, tinha havido tempo para reforçar a frota e ter “maquinistas e motoristas suficientes”. “É caro? É, mas ter a economia fechada não é mais caro”, questionou Jaime Nina.

Para este médico, o problema vai agudizar-se no inverno. “Enquanto que no verão as pessoas evitam os transportes públicos, têm as janelas abertas, se estiver uma chuva desgraçada não estou a ver ninguém a andar de carro com as janelas abertas, nem a andar muito na rua quando pode andar de autocarro”.

O infeciologista saudou o aumento da testagem, mas considerou que tem sido “muito lentamente” e “muito longe daquilo que deveria ser feito”. Exemplificou com o que países como Singapura, Taiwan, Hong Kong e Coreia do Sul estão a fazer ao nível de testes para apanhar os casos ligeiros e cortar as cadeias de transmissão.

“Portugal fez cerca de dois milhões de testes, Singapura vai quase em 100 milhões para uma população um bocadinho mais pequena que a nossa”, disse, observando que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, Portugal tem mais de 1.900 mortes e Singapura tem 27, com um número de casos sensivelmente igual.

No seu entender, “há muita coisa que está a falhar no rastreio e no encaminhamento de casos” porque “o Ministério da Saúde está a utilizar quase exclusivamente os recursos próprios”. Em abril e maio, contou, “quando toda a gente estava aflita porque não havia capacidade de fazer os testes todos”, os laboratórios de biologia molecular da Universidade Nova estavam fechados com as pessoas em teletrabalho, apesar da faculdade os ter colocado ao dispor. Por outro lado, podiam chamar os estudantes de medicina: “Era bom para eles porque estavam a fazer um trabalho útil e relevante para o seu curso e, obviamente, era bom para o Ministério da Saúde porque triplicava ou quadruplicava a mão de obra necessária para fazer rastreio de casos”.

Jaime Nina, médico infeciologista

Jaime Nina é professor na Universidade Nova de Lisboa, no Instituto de Higiene e Medicina Tropical e na Faculdade de Ciências Médicas.

A longa história do Expresso

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O jornal Expresso comemorou esta semana a edição 2500.

Eu, que lá trabalhei 25 anos, participei em 1300 edições. O que demonstra que estive presente em mais de metade dos números saídos, para não referir o tempo em que fui editor multimédia.

Só refiro o meu caso, pois fazendo as contas, a actual redacção é composta por um corpo de jornalistas sem memória daquilo que foi o Expresso, nos anos em que era o navio-almirante da imprensa portuguesa, nem sabe o que era trabalhar num jornal que tinha orgulho numa redacção de primeira água, a fazer todas as semanas trabalhos de grande arrojo, quer na escrita, na fotografia, no grafismo, na criatividade da edição final. Ao mesmo tempo era um espaço de trabalho onde havia lealdade, independência. As instituições respeitavam quem era do Expresso, abriam portas e só não faziam o que não podiam para ajudar.

Sempre houve disputas entre os que estavam com José António Saraiva ou com quem preferia o estilo mais afoito de Joaquim Vieira, mas isso não se refletia no ambiente diário na redacção. Claro que há sempre cansaço quando se trabalha alguns anos no mesmo sítio. E durante uma entrevista a Belmiro de Azevedo, feita pelo Acácio Gomes e fotografada pelo Rui Ochoa, saiu logo ali a ideia de Belmiro querer fazer um diário, coisa que Balsemão já tinha recusado a Vicente Jorge Silva. E assim aconteceu o nascimento do Público.

Como se sabe, com a fuga da maioria dos jornalistas para o Público, no Verão de 1989, o Expresso teve umas semanas dramáticas, feito pelos poucos que ficaram, sendo que a resistência de Joaquim Vieira e da Clara Ferreira Alves, muito contribuíram para que o Expresso não ficasse a escrever sozinho.

No verão de 1989 entraram muitos jornalistas novos, entre eles eu, quase todos contratados pelo Joaquim Vieira, onde o critério terá sido a qualidade por um lado, ou a necessidade absoluta de encontrar profissionais que pudessem colmatar as falhas da redacção.

José Pedro Castanheiro e João Garcia foram dois dos convidados a entrar mas, segundo rezam as lendas da Duque de Palmela, eles terão imposto a entrada de Henrique Monteiro, então um jornalista discreto profissionalmente, conhecido pelo seu sentido de humor e por ter uma memória com tantos gigabyte que era chamado do Petit Larousse.

Quis o tempo, e as circunstâncias, que fosse o Henrique Monteiro a liderar um pequeno grupo que fez frente a José António Saraiva durante alguns anos, depois da saída de Joaquim Vieira e da equipa fiel a Saraiva, que foi fundar O Sol.

A partir dessa data a instabilidade tomou conta da redacção. Entrou a Innovation, uma consultora que cobrou milhares, para ajudar a sanear a redacção, impor um modelo gráfico, que é o mesmo ainda hoje, e que deu um contributo decisivo na escolha de editores e na forma de tratar os conteúdos. Era uma Troika para o melhor e para o pior.

Começaram a ser dispensados os jornalistas seniores, trocados por estagiários pagos a quinhentos euros, sem experiência, sem Mundo e com receio de tudo. Entraram também jornalistas que vinham do Correio da Manhã, alguns muito bons, mas sem a cultura do Expresso. Passou a haver outro Expresso, com gente diferente.

Entre Setembro e Novembro de 2010, Henrique Monteiro despediu vários jornalistas, antes de deixar o cargo “limpo” para Ricardo Costa. Entretanto, foi o mesmo Henrique Monteiro que foi dispensado mais tarde do quadro do jornal. As tiragens chegaram a cair para metade, e a gestão multimédia nunca foi um caso de sucesso.

Fica-nos a boa memória de um jornal extraordinário, que fez respeitar o jornalismo e os jornalistas. Obrigado Vicente Jorge Silva, Joaquim Vieira, José António Saraiva.

A propósito do “Concurso Miss Portugal”

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A notícia “correu mundo”. Na semana que passou, integrei o júri do Concurso Miss Alto Alentejo, uma “decisiva” etapa da corrida a Miss Portugal. E logo um amigo, a invejar o “harém do próximo”, me pediu que lhe cedesse um exemplar.

Entrados na brincadeira, informei-o então que, bom amigo dos amigos, já lhe deixara uma “encomenda” no caixote do lixo. Recebi resposta à altura: a sua “legítima”, por ali “à coca”, de imediato terá disparado porta fora, munida de fósforos e gasolina…

E foi assim, de bem comigo e com a vida, que resolvi analisar uma outra “corrida” que se aproxima, a das eleições presidenciais: uma “prova” que, é tradição, costuma atrair “pilotos sem escuderia” que, contrariando os desejos da “organização”, não raro revelam segredos ocultos e denunciam sérias violações. 

Desta vez, porém, é notório o atraso nos “treinos de qualificação” para esse “Grande Prémio”: as crises sanitária e económica podem justificar algum alheamento; mas a questão central parece residir na sensação de que, sem se ter criado uma alternativa consequente, a reeleição do atual Presidente está garantida.   

Quando, há cinco anos, entendi “penetrar” na prova anterior, três graves falhas registei numa “pista” que necessitava de urgentes “obras”: reparar o distanciamento da classe política face ao país real, “buraco” que, disfarçado com selfies e declarações erráticas, mas sem critério ou tradução prática, ainda mais se alargou; na correção do despesismo da Administração que, junto com o seu crescente nepotismo e desregulação económica, até já compromete o futuro do estado económico-social; e, por fim, implodir a dependência dos diversos poderes a interesses espúrios, a que se soma uma seleção de “mecânicos” inábeis, “ferrugem” que ameaça “gripar” o próprio Estado de Direito.

É hoje para mim claro que, nestes cinco anos, a “corrida a Belém” ainda se tornou mais desigual: basta atentar no silenciamento a que foram remetidos todos os especialistas que, com melhor preparação técnica e científica, procuraram corrigir a desastrada condução do combate à presente pandemia. Quantas mais denúncias terão de ser feitas, para se provar que o “autódromo” se encontra ciosamente controlado por uma classe política tão incompetente como irresponsável? Quantas mais mortes serão precisas, para se concluir que o atual sistema sabota qualquer “bólide” que ameace os lugares do pódio? 

Com Portugal mergulhado na sua pior crise desde 1929, urge dar uma olhada pela “grelha de partida”. Sobretudo porque, com a “pole position” ocupada por um “piloto” que se desvia de traçados difíceis, o melhor mesmo será pensarmos em trocar de “chaço”, no mínimo precaver amortecedores e pneus.  

Começo por Ana Gomes, uma “desafiante” que, tendo prestado relevantes serviços, esta semana voltou a exibir uma excelente preparação técnica e até mesmo uma afabilidade que se lhe ignorava. Acabaria, no entanto, por sofrer um grave despiste logo às primeiras voltas, ao designar um antigo PR por “múmia paralítica”: um forte indício de que, tendo mudado de oficina, mantém a “mecânica” MRPP de origem. Uma “falha diplomática” grave a que também associou uma escolha pessoal infeliz que, embora se respeite, compromete a aceleração que alguns temiam e muitos desejavam.  

Passo a Marisa Matias que, na última “corrida”, tripulando uma “máquina bem afinada”, soube aproveitar os erros alheios e congregar muitos votos de protesto. A candidata, contudo, nunca demonstrou preparação técnica ou capacidade de liderança. Acreditando que possa ter melhorado, talvez possa dar “boleia” a muita gente que, sem “controlo nas emissões de carbono”, anseia por ar puro. 

A merecer algum destaque, foco ainda João Ferreira, uma boa surpresa nas eleições europeias. Mas será este candidato capaz de aplicar as “transformações” num automóvel, servido por “putines e demais czarines”, “mecânicos” que nada acrescentam ao “Grande Prémio de Portugal”? Dito de outra maneira: Quando é que o PCP entende que a dialética da História há muito sepultou a clássica luta de classes, hoje centrada no aprofundamento da igualdade entre os cidadãos e numa atenta distribuição da riqueza?

Reservei André Ventura para o fim, um “fenómeno” de popularidade que acaba de revelar singular mestria, ao vencer em toda a linha o difícil “rally de Évora”. É ainda cedo para saber se este candidato optará pelo extremar de posições ou por uma marcha de estadista: uma incógnita que incomoda sobretudo o candidato que, sem oposição à direita, evidencia terríveis falhas na condução do nosso país.

Restam os candidatos ditos “folclóricos”, sem aparelho organizado ou suporte económico. Talvez um deles, o “sempre-em-pé” Tino de Rãs, que não morre de amores por Marcelo, concentre o “buzinão” popular e encha o depósito de “gasolina normal”.

Termino com uma revelação muito íntima. Confesso que aos setenta anos, e depois de ter passado por tudo o que passei, me é muito mais fácil votar na Miss Portugal do que no Presidente da República.