A longa história do Expresso

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O jornal Expresso comemorou esta semana a edição 2500.

Eu, que lá trabalhei 25 anos, participei em 1300 edições. O que demonstra que estive presente em mais de metade dos números saídos, para não referir o tempo em que fui editor multimédia.

Só refiro o meu caso, pois fazendo as contas, a actual redacção é composta por um corpo de jornalistas sem memória daquilo que foi o Expresso, nos anos em que era o navio-almirante da imprensa portuguesa, nem sabe o que era trabalhar num jornal que tinha orgulho numa redacção de primeira água, a fazer todas as semanas trabalhos de grande arrojo, quer na escrita, na fotografia, no grafismo, na criatividade da edição final. Ao mesmo tempo era um espaço de trabalho onde havia lealdade, independência. As instituições respeitavam quem era do Expresso, abriam portas e só não faziam o que não podiam para ajudar.

Sempre houve disputas entre os que estavam com José António Saraiva ou com quem preferia o estilo mais afoito de Joaquim Vieira, mas isso não se refletia no ambiente diário na redacção. Claro que há sempre cansaço quando se trabalha alguns anos no mesmo sítio. E durante uma entrevista a Belmiro de Azevedo, feita pelo Acácio Gomes e fotografada pelo Rui Ochoa, saiu logo ali a ideia de Belmiro querer fazer um diário, coisa que Balsemão já tinha recusado a Vicente Jorge Silva. E assim aconteceu o nascimento do Público.

Como se sabe, com a fuga da maioria dos jornalistas para o Público, no Verão de 1989, o Expresso teve umas semanas dramáticas, feito pelos poucos que ficaram, sendo que a resistência de Joaquim Vieira e da Clara Ferreira Alves, muito contribuíram para que o Expresso não ficasse a escrever sozinho.

No verão de 1989 entraram muitos jornalistas novos, entre eles eu, quase todos contratados pelo Joaquim Vieira, onde o critério terá sido a qualidade por um lado, ou a necessidade absoluta de encontrar profissionais que pudessem colmatar as falhas da redacção.

José Pedro Castanheiro e João Garcia foram dois dos convidados a entrar mas, segundo rezam as lendas da Duque de Palmela, eles terão imposto a entrada de Henrique Monteiro, então um jornalista discreto profissionalmente, conhecido pelo seu sentido de humor e por ter uma memória com tantos gigabyte que era chamado do Petit Larousse.

Quis o tempo, e as circunstâncias, que fosse o Henrique Monteiro a liderar um pequeno grupo que fez frente a José António Saraiva durante alguns anos, depois da saída de Joaquim Vieira e da equipa fiel a Saraiva, que foi fundar O Sol.

A partir dessa data a instabilidade tomou conta da redacção. Entrou a Innovation, uma consultora que cobrou milhares, para ajudar a sanear a redacção, impor um modelo gráfico, que é o mesmo ainda hoje, e que deu um contributo decisivo na escolha de editores e na forma de tratar os conteúdos. Era uma Troika para o melhor e para o pior.

Começaram a ser dispensados os jornalistas seniores, trocados por estagiários pagos a quinhentos euros, sem experiência, sem Mundo e com receio de tudo. Entraram também jornalistas que vinham do Correio da Manhã, alguns muito bons, mas sem a cultura do Expresso. Passou a haver outro Expresso, com gente diferente.

Entre Setembro e Novembro de 2010, Henrique Monteiro despediu vários jornalistas, antes de deixar o cargo “limpo” para Ricardo Costa. Entretanto, foi o mesmo Henrique Monteiro que foi dispensado mais tarde do quadro do jornal. As tiragens chegaram a cair para metade, e a gestão multimédia nunca foi um caso de sucesso.

Fica-nos a boa memória de um jornal extraordinário, que fez respeitar o jornalismo e os jornalistas. Obrigado Vicente Jorge Silva, Joaquim Vieira, José António Saraiva.

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