A propósito do “Concurso Miss Portugal”

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A notícia “correu mundo”. Na semana que passou, integrei o júri do Concurso Miss Alto Alentejo, uma “decisiva” etapa da corrida a Miss Portugal. E logo um amigo, a invejar o “harém do próximo”, me pediu que lhe cedesse um exemplar.

Entrados na brincadeira, informei-o então que, bom amigo dos amigos, já lhe deixara uma “encomenda” no caixote do lixo. Recebi resposta à altura: a sua “legítima”, por ali “à coca”, de imediato terá disparado porta fora, munida de fósforos e gasolina…

E foi assim, de bem comigo e com a vida, que resolvi analisar uma outra “corrida” que se aproxima, a das eleições presidenciais: uma “prova” que, é tradição, costuma atrair “pilotos sem escuderia” que, contrariando os desejos da “organização”, não raro revelam segredos ocultos e denunciam sérias violações. 

Desta vez, porém, é notório o atraso nos “treinos de qualificação” para esse “Grande Prémio”: as crises sanitária e económica podem justificar algum alheamento; mas a questão central parece residir na sensação de que, sem se ter criado uma alternativa consequente, a reeleição do atual Presidente está garantida.   

Quando, há cinco anos, entendi “penetrar” na prova anterior, três graves falhas registei numa “pista” que necessitava de urgentes “obras”: reparar o distanciamento da classe política face ao país real, “buraco” que, disfarçado com selfies e declarações erráticas, mas sem critério ou tradução prática, ainda mais se alargou; na correção do despesismo da Administração que, junto com o seu crescente nepotismo e desregulação económica, até já compromete o futuro do estado económico-social; e, por fim, implodir a dependência dos diversos poderes a interesses espúrios, a que se soma uma seleção de “mecânicos” inábeis, “ferrugem” que ameaça “gripar” o próprio Estado de Direito.

É hoje para mim claro que, nestes cinco anos, a “corrida a Belém” ainda se tornou mais desigual: basta atentar no silenciamento a que foram remetidos todos os especialistas que, com melhor preparação técnica e científica, procuraram corrigir a desastrada condução do combate à presente pandemia. Quantas mais denúncias terão de ser feitas, para se provar que o “autódromo” se encontra ciosamente controlado por uma classe política tão incompetente como irresponsável? Quantas mais mortes serão precisas, para se concluir que o atual sistema sabota qualquer “bólide” que ameace os lugares do pódio? 

Com Portugal mergulhado na sua pior crise desde 1929, urge dar uma olhada pela “grelha de partida”. Sobretudo porque, com a “pole position” ocupada por um “piloto” que se desvia de traçados difíceis, o melhor mesmo será pensarmos em trocar de “chaço”, no mínimo precaver amortecedores e pneus.  

Começo por Ana Gomes, uma “desafiante” que, tendo prestado relevantes serviços, esta semana voltou a exibir uma excelente preparação técnica e até mesmo uma afabilidade que se lhe ignorava. Acabaria, no entanto, por sofrer um grave despiste logo às primeiras voltas, ao designar um antigo PR por “múmia paralítica”: um forte indício de que, tendo mudado de oficina, mantém a “mecânica” MRPP de origem. Uma “falha diplomática” grave a que também associou uma escolha pessoal infeliz que, embora se respeite, compromete a aceleração que alguns temiam e muitos desejavam.  

Passo a Marisa Matias que, na última “corrida”, tripulando uma “máquina bem afinada”, soube aproveitar os erros alheios e congregar muitos votos de protesto. A candidata, contudo, nunca demonstrou preparação técnica ou capacidade de liderança. Acreditando que possa ter melhorado, talvez possa dar “boleia” a muita gente que, sem “controlo nas emissões de carbono”, anseia por ar puro. 

A merecer algum destaque, foco ainda João Ferreira, uma boa surpresa nas eleições europeias. Mas será este candidato capaz de aplicar as “transformações” num automóvel, servido por “putines e demais czarines”, “mecânicos” que nada acrescentam ao “Grande Prémio de Portugal”? Dito de outra maneira: Quando é que o PCP entende que a dialética da História há muito sepultou a clássica luta de classes, hoje centrada no aprofundamento da igualdade entre os cidadãos e numa atenta distribuição da riqueza?

Reservei André Ventura para o fim, um “fenómeno” de popularidade que acaba de revelar singular mestria, ao vencer em toda a linha o difícil “rally de Évora”. É ainda cedo para saber se este candidato optará pelo extremar de posições ou por uma marcha de estadista: uma incógnita que incomoda sobretudo o candidato que, sem oposição à direita, evidencia terríveis falhas na condução do nosso país.

Restam os candidatos ditos “folclóricos”, sem aparelho organizado ou suporte económico. Talvez um deles, o “sempre-em-pé” Tino de Rãs, que não morre de amores por Marcelo, concentre o “buzinão” popular e encha o depósito de “gasolina normal”.

Termino com uma revelação muito íntima. Confesso que aos setenta anos, e depois de ter passado por tudo o que passei, me é muito mais fácil votar na Miss Portugal do que no Presidente da República.

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