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Sonae toma conta de edifício histórico na Almirante Reis

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foto de Carlos Narciso

Por fora tem todas as características de um prédio abandonado. Muitos vidros partidos, paredes sujas. Excetuando o restaurante que funciona no rés do chão, tudo o resto está sem préstimo já há muito tempo.

Espreitando para o interior, o abandono é mais do que evidente, embora ainda possamos imaginar a azáfama que durante décadas animou este espaço, cheio de automóveis a necessitar de reparação ou manutenção.

interior da Garagem Liz

A Câmara lisboeta aprovou agora um projeto da Sonae que já alugou o edifício para ali instalar mais um supermercado. Nem todo o espaço está arrendado à Sonae. Além da cervejaria a empresa Garagem Auto Lis continua na posse de parte do espaço, embora já haja um acordo com o senhorio para sair. E acreditamos que a cervejaria também acabe por sair a troco de um reforço da indemnização. Os tempos não estão fáceis para o negócio.

O edifício está classificado como imóvel de interesse público, o que não impediu a aprovação de um projeto que vai mudar tudo no interior e que, segundo informações já disponíveis, vai alterar a cobertura e a fachada em alguns pormenores como, por exemplo, a caixilharia das janelas.

A Câmara Municipal diz que se trata de um projeto de relevância social e económica, mas o tema não é pacífico nem entre a vereação nem na população residente e agentes económicos locais.

O debate girou à volta do congestionamento de trânsito que o supermercado vai provocar naquele local, embora a grande preocupação dos pequenos comerciantes da zona seja a concorrência que uma grande superfície lhes vai mover. Depois do supermercado abrir, quantas mercearias vão sobreviver? Quantas lojas de pechisbeque? Quantas drogarias? Quantas lojas de roupa? Se a experiência passada noutros locais servir para alguma coisa, sabemos que a resposta é que pouco comércio local restará. Um supermercado é uma espécie de eucalipto económico, suga tudo à volta e seca a concorrência do pequeno comércio das redondezas.

Como sempre dizemos, tudo muda e nada fica para sempre. Neste local já existiu o Teatro Circo Real Coliseu de Lisboa (inaugurado em 1887), uma estação dos Correios e Telégrafos (inaugurada em 1917) e a Garagem Auto Lis (construída em 1933), com lojas diversas no rés-do-chão. Agora é a vez da Sonae.

Em Portugal: crianças “presas” em lares custam 80 milhões

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A maioria das crianças retiradas às famílias, está  “presa” em lares, 97 por cento. A denúncia foi feita em Genebra. Há dois anos. Foi publicada no Expresso. Mas parece que ninguém leu ou ouviu. O internamento de criança é o ganha pão de muita gente. Alguns  até acumularam funções em lares com as funções de juízes sociais. 

Beatriz Imperatori da UNICEF deu conta da tremenda falha: “está previsto que todas as crianças com menos de seis anos devam ser acolhidas em famílias”. Mas em Portugal acontece o contrário da totalidade dos países ocidentais. O último a inverter a tendência portuguesa foi a Irlanda. Passou a ter apenas 5 por cento de crianças em instituições e 95 por cento em famílias de acolhimento. 

Um lar recebe mais de mil euros por mês por criança. Enquanto uma família de acolhimento recebe apenas 365 euros por mês.

O alerta sobre a situação irregular portuguesa foi feito pelos 18 especialistas do comité, que questiona os Governos que ratificam a Convenção sobre os Direitos da Criança. São feitos relatórios detalhados a cada cinco anos sobre a situação dos direitos das crianças no seu país. A lei portuguesa foi alterada e estabelece o regime de execução do acolhimento familiar, enquanto medida de promoção dos direitos e de proteção das crianças e jovens em perigo. Mas faz de conta que não existe. A UNICEF  continua a frisar que esta situação “afecta o desenvolvimento das crianças”. Mas  Portugal  mantem milhares de crianças “presas” em instituições em vez de as libertar para famílias de acolhimento. Porquê?

Link para o Expresso

Nikita

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Sou fã do Lars Von Trier, dá-me sempre um soco no estômago, sempre, mas ontem estava preparada. Comecei a ver The House That Jack Build e… adormeci. Isso é quase impossível com este realizador mas a cabeça só quer fazer pause, se o filme me obriga a pensar e a penar a cabeça faz shout down.

Hoje o filme foi escolhido por um dos meus actores preferidos e o drama era garantido. Assim que o mar engoliu a terra, logo no início, rolaram umas lágrimazitas que a pele absorveu antes de chegarem à boca e sentir uma pitada de sal. O drama seguiu, a minha vida dramática  foi atrás.

No nosso primeiro tsunami fiquei nas montanhas, serena. Acreditei num final feliz até levarmos com outra onda esmagadora, ainda maior. Aí os problemas e problemazinhos da casa iam-me levando à loucura, o trabalho feito a custo, os projectos esconderam-se na gaveta, até o gato se escondeu na gaveta, os números, estatísticas e opiniões na tv, deram-me vontade de vomitar. E   apareceu  Nikita, o code name para o monstro que há em mim.

Numa viagem de Uber gerou-se uma discussão irreal com o condutor mas permaneci calma. Passei para o banco atrás dele, segurei-lhe a cabeça com as mãos e tráz, páz! Num movimento certeiro, limpo, parti-lhe o pescoço, vi-o tombar inerte no banco do pendura e assumi a condução, afinal estava atrasada.

Numa teima sobre uma consulta marcada e desmarcada, a oftalmologista de bata branca, óculos azuis, sentada à secretária de um consultório branquinho, disse-me com uma condescendência maternal: “Vá, vá, vamos lá marcar uma nova consulta”. Passei-me, peguei-lhe nos óculos, fechei-os na mão e, tal e qual como vi numa cena do Padrinho, espetei-os na garganta e fiquei a apreciar o  sangue a jorrar pelo consultório branquinho. “Vá, remarca lá agora a consulta!”

Mas é na indian street que Nikita encontra a zona de conforto. Uma saia rosa por cima de umas leggings pretas, botas, casaco de cabedal preto comprido, óculos escuros, luvas pretas, uma peruca rosa. Começo a andar pelo meio da rua devagar, revólver com silenciador na mão e, discretamente, com uma calma de morte, atiro a matar a todos os que por ali se passeiam, fumam, conversam sem máscaras como se o tsunami fosse um filme de ficção. Deixo um rio de cadáveres atrás, mando a saia e a peruca rosa para o caixote do lixo, deixo a arma cair no chão e ninguém me apanha.

Decido ir beber uma mini a casa de uma amiga, a minha guru do bom senso e harmonia,  confesso-lhe que sou uma agente secreta implacável ao serviço da saúde pública.

Ao contrário do que esperava ela ri-se, conta que viu uma estrangeira mandar um papel para o chão, com um caixote do lixo a dois metros. Teve vontade de pegar nela pelos cabelos, fazê-la apanhar o papel com a boca, obrigá-la a pôr o papel no caixote e, a seguir, metê-la a ela no lixo! Desatámos a rir às gargalhadas. Depois parámos. Yap, estamos todos avariados…

O tsunami, ao que parece, está a chegar ao fim, o filme verdadeiro também chegou com um final feliz. Sobreviveram e reencontraram-se todos. No helicóptero Ewan Macgregor diz à mulher: vai ficar tudo bem.

Sim, vai ficar tudo bem, claro que vai. Está a ficar tudo bem! Mas, pelo sim pelo não, saio apenas para compras e beber café na minha esplanada chinesa que está quase sempre vazia. Faço uma visita à minha modista, vou a casa de uma ou outra amiga, de vez em quando também recebo uma visita. E chega. Percebi que o melhor que posso fazer neste desconfinamento, por enquanto, é ficar semi confinada. Mas, cada vez que vou à net só me aparece pela frente publicidade a perucas laranja…

Covid-19: mais 5 mortes, coordenador quer acelerar vacinação

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O boletim epidemiológico indica que nas últimas 24 horas houve mais 424 novos casos de infeção, 5 mortes, estão internados 429 doentes, dos quais 113 em cuidados intensivos. Estes dados indicam uma descida no número de pessoas internadas e uma subida no número de mortes.

O índice de transmissibilidade (Rt) encontra-se em 1, enquanto a incidência de casos por 100.000 habitantes nos últimos 14 dias está em 71,8, segundo os dados divulgados na segunda-feira. O Rt diminuiu, sexta-feira passada estava em 1,05, mas a incidência teve um ligeiro aumento.

Os dados do Rt e da incidência são atualizados à segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira.

Acelerar vacinação

Duzentos e oitenta postos de vacinação rápida estão a ser criados em todo o país para se conseguir vacinar 100 mil pessoas por dia, disse o coordenador do grupo de trabalho da campanha de vacinação à agência Lusa.

O vice-almirante Gouveia e Melo acredita que as vacinas vão começar a chegar em grandes quantidades e não pretende que haja uma quantidade muito grande de vacinas em stock.

O coordenador da campanha de vacinação lembrou que numa fase inicial o “principal desafio” foi a disponibilidade de vacinas e agora o desafio será ter a capacidade para administrar os nove milhões de vacinas previstos para chegar a Portugal neste segundo trimestre.

“Nós temos que nos preparar para vacinar 100 mil pessoas por dia”, diz Gouveia e Melo.

Guilherme Leite, candidato em Sintra

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Ontem aconteceram dois factos políticos interessantes, em Sintra. O primeiro, foi o anúncio do vereador Marco Almeida de não voltar a candidatar-se como independente nas próximas eleições autárquicas. O PSD voltou a preterir Marco Almeida em favor de um político mais integrado no partido e Marco Almeida acaba por abandonar uma carreira de autarca de muito mérito, como todos lhe reconhecem. O segundo facto tem a ver com este, foi o anúncio de Guilherme Leite quanto à sua predisposição para substituir Marco Almeida nessa luta contra Basílio Horta.

Guilherme Leite é uma pessoa muito popular em Sintra, eu diria que ele é popular no país todo, mas há mais de uma década que se distingue na defesa das causas dos sintrenses através de um palco que montou na sua webtv que se chama Saloia TV…

Já muitos o desafiaram para a política, ele nunca aceitou, em parte porque prefere ser um homem livre e, nos últimos anos, porque tem apoiado abertamente as ações políticas de Marco Almeida.

Mas, agora, essa questão já não se coloca. Ou seja, coloca-se mas ao contrário, será Marco Almeida a ter de apoiar o amigo Guilherme Leite.

E o que promete Guilherme Leite aos sintrenses? Promete lutar em nome deles contra os interesses e vícios instalados no governo da autarquia. E promete uma campanha irreverente, feita na internet, a contar com a ajuda de todos os que acreditem que chegou a hora de fazer em Sintra o que já se fez, por exemplo, no Porto, em Oeiras ou em São João da Pesqueira… ou seja, eleger um presidente à revelia do sistema montado pelos partidos do arco do poder.

União Audiovisual luta contra a adversidade

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“Neste momento estamos a preparar cerca de 350 cabazes mensais, que apoiam cerca de 1000 pessoas. São 350 famílias em que pelo menos 1 dos agregados é técnico ou artista de audiovisual. Estamos espalhados de Norte a Sul do país, incluindo São Jorge, nos Açores. Estamos distribuídos por 8 Polos UA: Porto/Gaia, Oeste, Coimbra, Lisboa, Margem Sul, Alentejo, Algarve e Açores”, revela a representante, que acrescenta: “Recebemos apoios através de bens alimentares e de 1ª necessidade, cartões de supermercado com que fazemos compras e também apoios monetários (donativos)”. Lembra ainda que entre as várias profissões que fazem parte do conjunto dos chamados técnicos do audiovisual e cultura, estão os operadores e assistentes de áudio, imagem e iluminação, bem como produtores, realizadores, cabeleireiros, equipas de guarda-roupa, anotadores e responsáveis operacionais, cujo papel é tornar realidade projectos nas áreas do espectáculo, televisão e cinema.

Este leque de profissões ainda é considerado um “mundo de homens”, mas o panorama está a mudar: “sou mulher e trabalho na área faz quase 17 anos. Mas talvez seja por ser um trabalho de muito esforço físico ou por se estar muito tempo fora de casa. Mas neste momento, essa questão já não se põe, pois nas equipas técnicas temos cada vez mais mulheres e mesmo nas escolas técnicas, vemos cada vez mais mulheres como estudantes”, frisa Inês Sales. No campo da situação profissional e financeira, antes da pandemia, “era igual a todos os freelancers, uma realidade instável”. “Parece-me que com a pandemia, houve um “descortinar” de uma realidade que há muito tempo deveria já estar organizada e preparada para uma eventualidade destas ou de outro calibre. Houve um despertar, uma vontade de alterar as bases e de reação no presente”. Um dos aspectos mais comentados é o facto de não existir um sub-sistema de segurança social para estes trabalhadores, como existe noutras profissões. Inês Sales acredita que “é uma das fragilidades que terá de ser resolvida”.

Por vezes, os comentários nas redes sociais versando notícias sobre a precariedade e algumas situações de risco de pobreza sobre estes profissionais demonstram uma percepção algo negativa: ainda há quem creia que na vida artística é muito raro alguém tomar medidas para acautelar situações destas, que se trata de uma vida onde práticas de poupança, por exemplo, não são levadas a cabo, que é uma vida “boémia” onde “não se pensa no futuro”. “É uma perceção de quem não vive e trabalha no sector, de quem não tem noção das fragilidades do mesmo. Mas o que interessa, é que essas pessoas começam a compreender as nossas dificuldades e esses comentários, tenderão a alterar”, revela Inês Sales.

O relatório da OPAC, revelado em finais de Março, parece desmistificar essas ideias: o documento (que analisou uma amostra de 1727 profissionais independentes com dados relativos a 2019, ano pré-pandemia) revela que quase 70% dos inquiridos declararam auferir um rendimento líquido anual inferior a 10800 euros.

“Estimando a média mensal a partir da anual, verifica-se que 18% tem rendimento mensal líquido até 150 euros e que para metade dos inquiridos esse rendimento não supera os 600 euros. São valores muito baixos, associados a fraca atividade remunerada, ou a atividades com baixa remuneração, ou mesmo não remunerada (voluntariado), que não garantem uma autonomia no setor”, afirma o relatório da equipa coordenada pelo docente e investigador José Soares Neves, do ISCTE, citado pelo jornal ECO. O relatório revela ainda que boa parte destes trabalhadores tem uma actividade profissional paralela para complementar os rendimentos, seja no próprio sector artístico e cultural, seja noutros sectores.

A União Audiovisual, garante a entrevistada, não vai parar: “Temos muitas ideias em cima da mesa. Neste momento estamos a produzir um festival no Algarve, “Algarve é União”, nos dias 8 e 9 de Maio. Continuaremos a fazer recolhas de alimentos nos nossos pontos fixos que estão no site www.uniaoaudiovisual.pt , iremos preparar várias iniciativas como concertos e leilões, entre outras surpresas”.

Jardineiros mutilam árvores

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Os cortes acontecem  perante a indiferença da vereação dos espaços verdes. Pelo que se vê! A mais recente poda radical aconteceu no Largo da Estrela, no jardim de uma casa religiosa. Um enorme plátano foi mutilado. Em Marvila sucedeu o mesmo. Em S. Vicente também, as fotos são de Chaterine Moriseau, a francesa mais lisboeta.

O arquitecto paisagista Ribeiro Telles explicou que as árvores não se podavam. E quando isso era necessário, a poda devia deixar a árvore com o aspecto de não ter sido podada. Ninguém o ouviu. Ele já se foi.

Lembramo-nos de quando se fez a poda radical na Avenida Guerra Junqueiro. Horrível. As podas actuais estão a assassinar as árvores de Lisboa, deixando-as com coutos permeáveis a fungos e ao apodrecimento por  causa das chuvas. Ou então são transformadas em espanadores que crescem de forma desmesurada para os céus.

A Assembleia da República irá em breve legislar sobre o assunto. Porque não existe bom senso, nem estética no poder autárquico. Que tristeza.

Técnicas da segurança social julgadas, seis anos depois de retirarem crianças à mãe

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Ana Vilma Maximiano ficou sem duas crianças, no bairro da Outorela, quando ia buscar uma delas à escola. O Ministério Público não deu como provadas as acusações de abandono de menores em relação à mãe e afirmou que as técnicas mentiram.

A mãe tinha deixado uma filha à guarda de uma amiga, quando a pulseira electrónica a avisou da aproximação do ex-companheiro condenado por violência doméstica. O Tribunal da Relação de Lisboa considera que existe motivo para a não arquivação do caso e mandou seguir para julgamento.

 A data do julgamento está marcada para 28 de Outubro. E tem como advogado de acusação Vitor Gameiro Fernandes que se tem dedicado a defender mães e pais a quem são injustamente retirados os filhos. A maioria dos casos alegadamente acontece com pessoas de fracos recursos.

Recorde-se que existem em Portugal 7030 crianças internadas em instituições de acolhimento como resultado de sentenças judiciais. O Estado paga às instituições uma média superior a mil euros mensais.

Lisboa, chão de mouros

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Francisco Martinho

Não é por ter nascido na Mouraria que gosto do bairro. Gosto de outros sítios igualmente. Curiosamente, há semelhanças entre todos eles. Do mesmo modo como gosto da Mouraria, gosto da Ilha de Moçambique ou de Bissau Velho, gosto de Zanzibar e de Mombaça, gosto de Salvador da Bahia e de Bolama. Gosto de muitos outros sítios que também tenham chão antigo, ruas estreitas, paredes brancas, portas pesadas, cheiros e sons que não se dissipam no vento.

A Mouraria tem tudo isso e mais um pouco. Tem a memória gravada nas paredes das casas. Pelas ruas do bairro descobrimos essa memória, as caras dessa gente que lá viveu ou que por ali se encantou.

Amália Rodrigues

Não é só para inglês ver que o bairro exibe a galeria dos mais famosos fadistas de Lisboa. É porque vive sinceramente a herança por eles deixada. E nem todos são fadistas, porque a Mouraria ama todos os que a amaram.

Vítor da Costa Pereira, fundador do Grupo Desportivo da Mouraria

Quando António Costa, autarca, foi à rua do Capelão inaugurar esta galeria ao ar livre provou que a portugalidade não depende da cor da pele, até porque a maioria dos portugueses tem mais melanina do que julga. Os velhos moradores da Mouraria sabem-no perfeitamente e não é por o barbeiro do bairro ter vindo do Bangladesh que deixam de lá ir cortar o cabelo e fazer a barba.

o barbeiro da Mouraria

Isto é que vai uma crise

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Comecemos pela duração dos contratos de trabalho. Gostava de saber quem consegue fechar um ano civil tendo emendado um contrato precário atrás do outro, sem períodos de desemprego ou com poucos dias de intervalo entre estes. Porque a esmagadora maioria dos contratos propostos nos portais de procura de trabalho são de curta duração: duas semanas, um mês, mês e meio a dois meses; claro, sempre com a “perspectiva de continuidade” que acaba por não se concretizar (sei-o por experiência própria).

“Quem precisa tem de andar” lá diz o povo, mas o mesmo povo esqueceu-se de avisar certas mentes iluminadas de que uma pessoa com várias experiências destas no currículo não é uma má pessoa “que não pára nos empregos”, mas se calhar alguém que os empregos/empresas não sabem valorizar e querer manter na equipa. Sem falar na profusão de empregos precários a recibos verdes, o que por si só dava não uma crónica mas uma tese académica; em certos trabalhos, o trabalhador “empresário em nome individual” acaba a trabalhar para o mesmo Estado que não se maça a tentar acabar com estes abusos…

No cômputo do regime horário, é no mínimo curioso ver ofertas de emprego que à partida são um desafio que leva o seu tempo a propor “part-times” de duas, três horas, ou até seis ou sete. Isso mesmo: sete. E isto em trabalhos que acumulam tarefas umas atrás das outras cuja experiência me permite afirmar que, obviamente, vêm aí horas extras que não serão pagas nem recompensadas com folgas.

Nos requisitos que esses anúncios solicitam, está para surgir uma explicação lógica para tanta esquizofrenia: anúncios que pedem o 12º ano para logo a seguir exigirem conhecimentos aprofundados em três ou quatro programas informáticos (quase sempre de contabilidade e facturação, mesmo que o anúncio seja apenas para recepcionista ou administrativa), carta de condução com viatura própria (quando se junta à exigência de orientação para o cliente e vocação comercial, isto significa que o/a trabalhador/a tem de andar a fazer prospecção ou visita a clientes com a própria viatura e pagando as despesas do próprio bolso…), autonomia e multitasking (mas atenção que as chefias podem confundir autonomia com o “passar por cima de hierarquias”, o que cai mal na mentalidade do patrão), disponibilidade imediata (mesmo que a empresa demore a responder semanas à candidatura da pessoa), experiência mínima de dois a cinco anos nas multi-funções preconizadas pela empresa (com a exigência do limite de idade que é praticada, querem alguém que começou a trabalhar aos quinze anos no mínimo…), licenciatura ou mestrado muito específicos, mesmo que depois ouçamos na entrevista de emprego que temos demasiada formação ou esta é demasiado específica; ou mesmo boa/excelente apresentação. Esta última é-me enigmática: isto significa que quem não se vista conforme a última moda ou nas lojas mais dispendiosas não é digno/a de um trabalho?

As empresas acham que todas as pessoas, mulheres sobretudo, dispõem de um Fundo De Emergência Para Vestuário e Cuidados de Imagem no valor de várias centenas de euros, para se assemelharem aos surreais ditames de estética e beleza impostos sem descanso pelos veículos de propaganda do costume? Quererão as empresas pagar-nos para isso, quando na esmagadora maioria das propostas de emprego pagam o salário mínimo em valor bruto e de má vontade, o qual terá de servir para o sustento mensal de uma casa?

Já nem entro pela cada vez mais descarada discriminação etária, ou seja, o famoso “a partir dos 35 anos é-se velho para trabalhar”, que sim, é exercido; veja-se pelas empresas que só querem contratar pessoas através dos Estágios do IEFP, os quais, como sabemos, têm um limite de idade.