União Audiovisual luta contra a adversidade

Os trabalhadores independentes da cultura, cuja sobrevivência tornou-se mais difícil com a pandemia, aguardam por apoios mais transversais do Estado. Na sequência da divulgação do Estudo do Sector Artístico e Cultural em Portugal, levado a cabo pelo Observatório Português das Actividades Culturais, o Duas Linhas falou com Inês Sales, responsável pela União Audiovisual, uma associação nascida no dia 11 de Abril de 2020, fruto da vontade de quatro técnicos do audiovisual, durante o primeiro confinamento geral resultante da pandemia do coronavírus.

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“Neste momento estamos a preparar cerca de 350 cabazes mensais, que apoiam cerca de 1000 pessoas. São 350 famílias em que pelo menos 1 dos agregados é técnico ou artista de audiovisual. Estamos espalhados de Norte a Sul do país, incluindo São Jorge, nos Açores. Estamos distribuídos por 8 Polos UA: Porto/Gaia, Oeste, Coimbra, Lisboa, Margem Sul, Alentejo, Algarve e Açores”, revela a representante, que acrescenta: “Recebemos apoios através de bens alimentares e de 1ª necessidade, cartões de supermercado com que fazemos compras e também apoios monetários (donativos)”. Lembra ainda que entre as várias profissões que fazem parte do conjunto dos chamados técnicos do audiovisual e cultura, estão os operadores e assistentes de áudio, imagem e iluminação, bem como produtores, realizadores, cabeleireiros, equipas de guarda-roupa, anotadores e responsáveis operacionais, cujo papel é tornar realidade projectos nas áreas do espectáculo, televisão e cinema.

Este leque de profissões ainda é considerado um “mundo de homens”, mas o panorama está a mudar: “sou mulher e trabalho na área faz quase 17 anos. Mas talvez seja por ser um trabalho de muito esforço físico ou por se estar muito tempo fora de casa. Mas neste momento, essa questão já não se põe, pois nas equipas técnicas temos cada vez mais mulheres e mesmo nas escolas técnicas, vemos cada vez mais mulheres como estudantes”, frisa Inês Sales. No campo da situação profissional e financeira, antes da pandemia, “era igual a todos os freelancers, uma realidade instável”. “Parece-me que com a pandemia, houve um “descortinar” de uma realidade que há muito tempo deveria já estar organizada e preparada para uma eventualidade destas ou de outro calibre. Houve um despertar, uma vontade de alterar as bases e de reação no presente”. Um dos aspectos mais comentados é o facto de não existir um sub-sistema de segurança social para estes trabalhadores, como existe noutras profissões. Inês Sales acredita que “é uma das fragilidades que terá de ser resolvida”.

Por vezes, os comentários nas redes sociais versando notícias sobre a precariedade e algumas situações de risco de pobreza sobre estes profissionais demonstram uma percepção algo negativa: ainda há quem creia que na vida artística é muito raro alguém tomar medidas para acautelar situações destas, que se trata de uma vida onde práticas de poupança, por exemplo, não são levadas a cabo, que é uma vida “boémia” onde “não se pensa no futuro”. “É uma perceção de quem não vive e trabalha no sector, de quem não tem noção das fragilidades do mesmo. Mas o que interessa, é que essas pessoas começam a compreender as nossas dificuldades e esses comentários, tenderão a alterar”, revela Inês Sales.

O relatório da OPAC, revelado em finais de Março, parece desmistificar essas ideias: o documento (que analisou uma amostra de 1727 profissionais independentes com dados relativos a 2019, ano pré-pandemia) revela que quase 70% dos inquiridos declararam auferir um rendimento líquido anual inferior a 10800 euros.

“Estimando a média mensal a partir da anual, verifica-se que 18% tem rendimento mensal líquido até 150 euros e que para metade dos inquiridos esse rendimento não supera os 600 euros. São valores muito baixos, associados a fraca atividade remunerada, ou a atividades com baixa remuneração, ou mesmo não remunerada (voluntariado), que não garantem uma autonomia no setor”, afirma o relatório da equipa coordenada pelo docente e investigador José Soares Neves, do ISCTE, citado pelo jornal ECO. O relatório revela ainda que boa parte destes trabalhadores tem uma actividade profissional paralela para complementar os rendimentos, seja no próprio sector artístico e cultural, seja noutros sectores.

A União Audiovisual, garante a entrevistada, não vai parar: “Temos muitas ideias em cima da mesa. Neste momento estamos a produzir um festival no Algarve, “Algarve é União”, nos dias 8 e 9 de Maio. Continuaremos a fazer recolhas de alimentos nos nossos pontos fixos que estão no site www.uniaoaudiovisual.pt , iremos preparar várias iniciativas como concertos e leilões, entre outras surpresas”.

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