O ALFAIATE DO NADA

UMA CRÓNICA DO PAÍS A PRETO E BRANCO

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Portugal já teve grandes costureiros, mas nenhum como o Tartufo da Botaza. O homem não fazia fatos; fazia privações à medida. Olhava para o mapa e pensava: “Hum, este país está muito largo na zona da alegria, vamos apertar aqui os dentes ao povo”. O seu tecido favorito era o cinzento-autarquia e o corte era sempre o mesmo: curto no pão, comprido no medo.

O homem geria o país como quem limpa um jardim de cimento. Flor que crescesse com demasiada cor levava logo com a régua nas pétalas. Para o Tartufo, a felicidade era uma grave infração ao código das boas maneiras e o riso era um ruído que perturbava o silêncio sagrado dos seus queridos tostões. Passava os dias no gabinete, a contar moedas de cinco tostões com o pânico de quem acha que a modernidade é uma doença contagiosa que se apanha pelo ar.

O seu grande plano de marketing internacional era o “Orgulhosamente Sós”. Um génio da geopolítica: fechar as fronteiras, erguer o arame farpado e prometer aos portugueses o prémio de consolação de sermos os últimos da fila europeia. Se o mundo avançava, nós recuávamos com orgulho e de terço na mão. O “Exame da Quarta Classe” era o topo da carreira académica; mais do que isso já era pedir para pensar, e pensar dava direito a uma estadia prolongada com os rapazes da PIDE.

Mas o destino tem um sentido de humor refinado. O homem que controlava os destinos de milhões com um punho de ferro e um lápis azul bem afiado acabou derrotado pelo inimigo mais improvável da história universal: uma cadeira de lona. Nem uma revolução armada, nem um golpe palaciano. Um humilde objeto de mobiliário doméstico fez o favor de aplicar a gravidade ao ditador. O tombo foi tão monumentalmente ridículo que o país ficou anos em suspenso, a olhar para a cadeira e a ver se o fantasma ainda se levantava para confiscar mais um bocado de pão.

Hoje, o Tartufo é apenas uma peça de museu cheia de pó, guardada na mesma gaveta que o seu lápis de censura. O “Botas” bateu as botas, o azul da opressão desbotou e o vento finalmente levou o cheiro a incenso bento misturado com paranoia estatal. O cabrão foi-se, e a única coisa que resta dele é a certeza absoluta de que, por mais que tentem remendar a história, a liberdade não cabe em bicos de pés.

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