Início Site Página 408

O julgamento de Evaristo, o racista

3

O assassino de Bruno Candé Marques já confessou o crime mais do que uma vez, no inquérito policial e no tribunal. Nem podia ser de outro modo, uma vez que Bruno foi morto na via pública, à luz do dia, numa das avenidas mais concorridas de Moscavide.

Bruno Candé Marques caído, depois de baleado na avenida de Moscavide

O julgamento, que decorre no Tribunal de Loures, apenas serve para a Justiça cumprir as regras e para a defesa do assassino tentar diluir a monstruosidade do ato cometido por Evaristo Marinho. Evaristo vai ser condenado, a questão é o tamanho da pena.

Pelo tribunal têm passado testemunhas oculares e testemunhas abonatórias. As primeiras contam o que viram e ouviram, os seis tiros disparados à queima roupa, a agonia da vítima, a tentativa de fuga do algoz, a chegada do INEM, a intervenção da PSP. As segundas falam da surpresa que tiveram, que nunca suspeitaram sequer que Evaristo tinha armas em casa, que sempre foi um tipo normal, etc.

Por exemplo, Maria Alice Costa, casada com Evaristo, garantiu ao tribunal que o marido não era violento, nem nunca lhe ouviu comentários racistas. Mas também disse que desconhecia que ele tinha uma arma em casa dentro de uma caixa com munições, o que revela uma de duas coisas: ou não conhece bem o marido ou está a mentir. E têm sido assim os testemunhos da defesa de Evaristo.

O Ministério Público não tem dúvidas sobre as motivações racistas do criminoso. O homicídio de Bruno Candé Marques foi determinado “por razões vãs” e “pela sua cor e origem étnica”, acusa Ministério Público. O tribunal irá decidir se foram estas as circunstâncias do crime ou se foi um ato irrefletido, uma demência momentânea. A defesa procura infiltrar esta dúvida, só assim Evaristo se livrará de ser condenado por homicídio qualificado.

Há ainda pormenores que têm sido silenciados no julgamento. Evaristo tinha consigo uma pistola ilegal, uma arma de guerra, uma Walther PP e um número não divulgado de munições. A Walther PP é uma pistola de polícia (é o que significa PP). Como e porquê essa arma foi adquirida por Evaristo são questões que todos esperamos que o tribunal venha a apurar.

O julgamento de Evaristo Marinho começou em 13 de maio, o tribunal já ouviu dezenas de testemunhos. A próxima sessão está marcada para 18 de junho, em Loures.

Um homem e a sua caixa de correio

1

Manuel Ildefonso vive na rua, desempregado e doente oncológico, espera há vários anos que a Câmara Municipal de Sintra lhe atribua uma casa social onde possa viver com a filha menor de idade.

Uma espera que só deverá terminar quando o atual presidente de Câmara for removido. Enquanto espera, Ildefonso protesta e explica a quem passa as razões do seu justo protesto.

O site Duas Linhas tem acompanhado, tanto quanto possível, o dia-a-dia de Ildefonso. Para quem tiver curiosidade, toda a história está nos seguintes links:

Mais do que só livros

0

Uma biblioteca já não é apenas um sítio com prateleiras cheias de livros. Hoje, uma biblioteca é muito mais do que isso e a Biblioteca Municipal de Oeiras é um exemplo.

Só para terem uma ideia e antecipar uma parte da entrevista com Gaspar Matos, diretor da biblioteca, os utentes podem ter acesso gratuito ao Press Reader, uma plataforma que reúne 6 ou 7 mil jornais e revistas internacionais, e à base de dados EPSCO onde existe informação sobre tudo e mais alguma coisa que exista no Mundo.

Livros, produção de vídeos, emissões culturais nas redes sociais, livros na praia, livros no EP de Caxias, livros oferecidos, livros por todo o lado. É a interessante dinâmica da Biblioteca Municipal de Oeiras.

Renovar cartão de cidadão, burocracia agravada pela pandemia

1

Muitos serviços públicos retornaram no tempo e na ineficácia e ineficiência, à pala de medidas de segurança sanitária que não fazem sentido.

Nas conservatórias de registo civil, por exemplo, só se atende por marcação. Como ninguém atende telefones e não há resposta para os emails enviados pelos utentes, as tentativas de marcação acumulam-se e o sistema não funciona.

Para tentar resolver o problema, o Governo atribuiu a outros serviços algumas competências do Registo Civil, como é o caso, por exemplo, da renovação dos cartões de cidadão. Para maiores de 25 anos, essa renovação pode ser feita nas juntas de freguesia. Ficou fácil renovar o cartão. O pior é levantá-lo. As juntas de freguesia não distribuem os novos cartões e é preciso ir à Conservatória para o levantar, onde só atendem por marcação. Como não atendem telefonemas e não respondem aos emails, imagino que os cartões renovados novos e reluzentes se acumulem nas gavetas dos funcionários das conservatórias à espera que os utentes descubram um caminho para lá chegar.

Há dias fui tratar de um outro assunto numa Conservatória do Registo Predial. Por sinal, fica no mesmo edifício da Conservatória do Registo Civil onde jaz o meu novo cartão de cidadão. Estive a dois metros dele e não mo entregaram. Uma funcionária do Registo Predial (onde também fazem renovação do cartão do cidadão) disse-me que se eu passasse por lá uns dias mais tarde que iria fazer um jeito de ir falar com a colega da conservatória vizinha e “sacar” o meu cartão. Voltámos, portanto, ao tempo dos “jeitos”.

No caso dos menores, a renovação dos cartões também roça a idiotice. Os menores de 25 anos não podem efetuar a renovação nas juntas de freguesia. Porquê? Ninguém sabe. Depois da milagrosa marcação numa conservatória qualquer (civil ou predial) a renovação faz-se meses depois do pedido. Mas os cartões caducados continuam válidos até ao fim deste ano. O pior, mais uma vez, volta a ser a distribuição do cartão. Para facilitar a vida às conservatórias, os CTT podem fazer a distribuição pelos domicílios, mas o bendito cartão só pode ser entregue ao próprio. Que é menor de idade, relembremos. Se a criança estiver na escola, como foi o caso, o carteiro não entrega o cartão. Nem mesmo aos pais do menor. Não entrega. Deixa um aviso para o menor ir pessoalmente à estação dos CTT levantar o cartão. Como é menor, o cidadão tem de ir acompanhado por um dos progenitores. Mas, a derradeira surpresa é que na estação dos CTT não há autorização para entregar cartões de cidadão a menores. Nem mesmo acompanhados pelo pai ou mãe. Nem mesmo se for acompanhado por toda a árvore genealógica. Não entregam. A não ser que a funcionária concorde com o pai da criança e considere que estamos num emaranhado de regras idiotas. Felizmente que há funcionários assim. Nem todos somos cegamente obedientes.

Há mas são verdes !…

0

Há pelo menos três países em Portugal.

Um país antigo onde existe 3 milhões de pobres, embora a maioria tenha emprego, e outra parte, está na reforma ou no desemprego de longa duração.

Há outro país que trabalha e paga impostos na proporção do que ganha, a tal classe média baixa que consome o pouco que ganha em crédito de consumo ou em pequenas vaidades que aliviam a repressão social de uma vidinha difícil de equilibrar. Uma classe envelhecida, sem emprego para a vida.

O Terceiro Portugal é aquele que vive numa realidade virtual que o crédito da Europa alimenta, e que as bazucas vão bombardeando em forma de dinheiro a ser pago mais tarde, pelas gerações vindouras, que já estão depenadas antes mesmo de terem começado a amealhar o nada.

Uma das teorias para esse êxtase é a economia verde que nada produz em termos de valor acrescentado.

O investimento que aí vem no domínio da economia verde vai estagnar ainda mais a indústria débil nacional, criar mais desemprego na meia idade dos trabalhadores.

Por exemplo: construir 300 milhões de ciclovias não vai acrescentar mais um cêntimo em matéria transacionável. Pelo contrário: vai criar mais despesas em manutenção, vindas dos impostos do trabalho, e não vão ser essas vias para meia dúzia de pataratas andarem a pedalar que vai tornar o negócio mais competitivo nas cidades.

Gastar 200 milhões num novo troço do metropolitano de Lisboa que vai ligar duas estações existentes no centro de Lisboa, não vai facilitar em quase nada os lisboetas que resistiram a viver numa cidade onde o negócio quase sumiu, a cultura fechou portas e a habitação passou a ser casulos de aluguer a turistas de chinelo.

Os carros eléctricos não vão resolver problema nenhum aos utentes, muito menos ao ambiente. A construção dum veículo eléctrico , segundo a autoridade sueca de mobilidade, corresponde a 8 anos de CO2 de um veículo a gasolina.

Há toda uma indústria que terá de ser mudada e milhões de operários vão ficar sem trabalho, por falta de adaptação, ou terão uma formação complexa que nada tem a ver com o modelo tradicional. Aí estará uma nova classe de excluídos.

A pensar na mudança, o governo do PS tem permitido a exploração do lithium que destrói a paisagem rural e contamina o ambiente. O Hidrogénio aí está para fazer deitar fora daqui a pouco os carritos eléctricos caros e com uma autonomia ridícula. Alguns autarcas rejubilam, principalmente do Alto Alentejo.

E nem vale já a pena falarmos das ventoinhas que foram plantadas por todo o país, destruindo a paisagem, afugentando as aves e trazendo um ruído doentio.

Estamos embalados pela Europa que pouco ou nada pensa na produção. Por exemplo, muitas empresas europeias continuam a deslocar as sedes para países onde possam trabalhar sem a ditadura dos eurocratas e com a ditadura do comunismo-capitalista.

A Europa tornou-se num monstro que não deixa crescer a economia e que alimenta uma casta que custa fortunas, com práticas abençoadas pela conversa verde, mas que na recente cimeira social do Porto, gastou sessenta mil euros em catering e cem mil euros em Mercedes S…eléctricos!

Mas que teve o cuidado de ir avisando que vai haver aumentos brutais para veículos tradicionais. Sempre o Estado a aturar em nome dos pecados ambientais.

Não sou economista, mas como cidadão pergunto como irão sobreviver as médias empresas portuguesas que asseguram o emprego e muitas exportações. O que vai ser do nosso talento para promovermos para fora o melhor que temos para criação de riqueza?

Comer relva, regada a água das pedras, não será decerto o nosso desígnio nacional.

Neste momento, verde vitorioso só o Sporting. Mas eu sou suspeito !!…

Tuk-Tuks de Sintra sentem-se discriminados pela autarquia

0

Em Sintra, a ANCAT – associação nacional de condutores de animação turística e animadores turísticos – tem dado que falar na contestação a alguns dos regulamentos municipais, nomeadamente no que diz respeito ao regulamento do trânsito na vila e na serra de Sintra.

Para além dos sinais de trânsito proibido que encheram as ruas de Sintra, o problema reside na proibição de acesso à Serra, nomeadamente no verão, que é quando está mais calor e há mais turistas… em dias mais quentes quando os serviços meteorológicos emitem alertas, a Câmara Municipal só permite a circulação aos autocarros de empresas licenciadas e os tuk-tuk ficam a vê-los passar… o argumento da autarquia é a necessidade de proteger a floresta das fagulhas que os tuk-tuk emitem pelo escape, coisa que nunca ninguém viu acontecer…

De qualquer modo, esta associação propôs a implementação em Sintra de uma estação meteorológica para evitar que as vagas de calor que não influenciam o microclima húmido da Serra, sejam argumento para parar com a atividade destes pequenos operadores turísticos.

A associação dos condutores de tuk tuks e animadores turísticos pretende que seja dada formação aos seus associados para que possam contribuir para a segurança da população e proteção ambiental. Eles andam por todo o lado, podem prestar primeiros socorros em caso de acidentes, podem ser vigilantes da floresta, podem ser guardiões do património, ao mesmo tempo que passeiam turistas. A própria associação apresentou ao governo esse projeto e espera, agora, por uma decisão.

Tribunal condena Ventura

0

O deputado Ventura foi condenado pelo Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. Em causa estavam declarações do deputado, quando foi candidato à Presidência da República, que chamou “bandidos” aos membros de uma família do bairro da Jamaica, fotografados na companhia de Marcelo Rebelo de Sousa.

Ofendidos pelo epiteto, os membros da família Coxi demandaram o tribunal, exigiram um pedido de desculpas. O tribunal condenou justamente o deputado Ventura a publicar esse pedido de desculpas em todos os órgãos de comunicação social que reproduziram a difamação por ele proferida. Por cada dia de atraso nesse pedido de desculpas, Ventura pagará 500 € de multa.

Claro que o deputado da extrema-direita vai recorrer. Ele tem todo o tempo do Mundo e outros advogados ao seu serviço, de modo que vai evitar a todo o custo ter de pedir desculpa a uma família pobre de origens africanas.

Artesãos voltam ao terreno para reconquistar o público

0

Decorreu este domingo no Jamor, concelho de Oeiras, o primeiro Mercado Jamor com Arte, iniciativa do colectivo Artistas da Linha, que congrega dezenas de artesãos de Oeiras, Cascais e Sintra. Depois da iniciativa Paço d’Artes (ocorrida no dia 15 de Maio no Jardim de Paço de Arcos), o palco passou a ser a zona de lazer e desporto do Jamor, próxima do Estádio Nacional e da zona de canoagem.

Como recorda Cristina Lopes, uma das artesãs, “o colectivo surgiu em Dezembro de 2020, quando tomaram conhecimento que algumas pessoas estavam a passar dificuldades”. “Nós propusemos o projecto à Câmara Municipal de Oeiras. Eles gostaram da ideia, e em Dezembro a autarquia cedeu o espaço, nós cedemos o trabalho, o Mercado Solidário de Natal aconteceu… a Câmara ficou tão satisfeita que nos pediu para continuarmos com este projecto”, recorda. Para nascer esta feira, “foi outra carolice nossa: nós tentamos, junto da direcção, criar aqui alguma coisa. A direcção do Jamor também estava interessada em que este espaço fosse dinamizado, porque estava muito pobre, não acontecia aqui nada, tirando eventos que aconteciam pontualmente, e estão muito satisfeitos”. De tal forma que está prevista a continuação desta iniciativa: todos os terceiros sábados do mês, será em Paço de Arcos (ou Paço d’Artes) e nos quartos domingos mensais, Jamor com Arte, no horário das 09h às 18h.

Mas que áreas são abrangidas pelos Artistas da Linha? “Vai desde cerâmica, a têxtil, a joalharia, sapataria, tudo feito pelos próprios, e outras artes manuais: feltragem, aguarelas, temos vários ramos das artes”, esclarece Cristina Lopes, ela própria artesã do burel.

Recorda que para a feira acontecer, tiveram de pagar um valor pelo espaço, inserido no acordo a que chegaram com a entidade responsável com o Jamor; valor esse que acaba por ser simbólico uma vez que a pandemia do coronavírus implicou uma quebra forte nos rendimentos dos artesãos. No caso do Mercado de Natal, o espaço foi cedido de forma gratuita pela autarquia, mas “agora já não há mais cedências, agora todos os espaços são pagos, de qualquer forma tentamos manter uns valores muito simbólicos… porque estivemos praticamente um ano e meio fechados e foi complicado”.

Cristina Lopes trabalha desde 2014 com burel de ovelha bordaleira, da Serra da Estrela. Descreve-o como sendo um “tecido ancestral, é dos tecidos mais antigos que nós temos. Supõe-se que as capas dos reis na Idade Média já eram feitas deste tecido, mais grosseiro, não era tão trabalhado. Mas é um tecido que se perpetua por gerações. E é nosso, natural, ecológico, sustentável, extremamente durável e impermeável, tem tudo de bom”, esclarece.

“Quando apresentei o projecto, em 2014, havia pouco conhecimento do burel e só associavam a vestuário. Eu vim com uma nova abordagem: tapetes, almofadas, malas mochilas, quadros, porta-chaves,…”, recorda a artesã, que até tem um catálogo próprio e lembra que o custo por metro deste tecido nobre é muito alto, pelo que todas as sobras podem ser um novo produto.

A peça mais inusitada que já fez a pedido de um cliente foi um quadro com moldura décapée, com técnicas de patchwork. “Levou-me dois meses a fazer. tem todas as cores do arco-íris e é uma espécie de bola de espelho”.

A artesã de burel acredita que as pessoas têm cada vez mais interesse nos produtos artesanais e com materiais portugueses. “As pessoas gostam desse bocadinho com o artesão, que explica a técnica como é que é feito, de onde vem, que materiais existem, quanto tempo demora a fazer”, o que também ajuda a explicar o porquê dos preços.

Afirmou que o feedback tem sido muito interessante, porque as pessoas ficam a saber que é a primeira edição do Mercado no Jamor (gerido pelo Instituto Português da Juventude e do Desporto), e foi dada autorização e participação do Centro Desportivo Nacional do Jamor. “É engraçado que hoje de manhã esteve aqui um senhor que nos disse ‘há trinta anos que eu venho aqui e nunca vi aqui um mercado’”.

Uns metros mais à frente, entre famílias e curiosos, encontramos Paula Pão Alvo. “Eu sou compositora de sapatos”, explica com um sorriso. “Eu sonho e faço sapatos”, diz esta optimista assumida, enquanto os curiosos observam o resultado dessa arte. “Sou mesmo apaixonada e auto-didacta. E fui aprendendo, ao longo do tempo… neste meu percurso, que já tem 35 anos a compor sapatos, eu também me cruzei com uma pessoa que esteve numa escola a aprender a fazer modelação de sapatos, e fizemos uma joint-venture”.

Explica com que materiais faz os sapatos. “Eu trabalho com couro, com curtimento a vegetal, não são usados produtos químicos. Chamam-se peles de atanado, normalmente de vaca, ovelha ou cabra. São muito orgânicas e biodegradam-se com muita rapidez”. Na altura era uma coisa inovadora, mas com as actuais preocupações com o ambiente e a sustentabilidade, Paula reconhece que está muito na moda. Esta artesã já participou em “muitas feiras e muitos mercados ao longo da minha vida” mas no Jamor assume que é a primeira vez.

“As pessoas hoje em dia têm um pouco mais de receio”, mas com a possibilidade de fazer negócio pelas redes sociais, Paula virou-se para essa via por conselho dos filhos e “revelou-se uma alternativa muito interessante. “Hoje em dia todos nós que vendemos online fazemos um esforço enorme para satisfazer completamente os nossos clientes”, frisa. Diz que querem superar as expectativas dos clientes e que isso acaba por ser o segredo para se conseguir algum sucesso nas vendas pela Internet.

“Nós através das vendas online abrimos muitas portas. As pessoas estão também muito sensíveis a essa possibilidade das compras e vendas pela internet. Quando estamos num espaço de feira, temos acesso a um determinado nível de público. Quando estamos nas vendas online, esse espectro de público alarga-se infinitamente, ou quase, porque a Net é uma rede”.

O passa-palavra entre clientes e potenciais clientes pode fazer a diferença. No caso de Paula, chegou mesmo a vender para os EUA, algo que apelida de “fantástico”. Um mercado que a “compositora de sapatos” almeja alcançar é a Austrália mas está em negociações por causa dos custos dos portes de envio.

De São Paulo para Lisboa, duas irmãs (uma da área da psicologia e outra na área da informática), após anos a viver em terras lusas, decidiram escolher um novo caminho; foi em pouco tempo que optaram pelo hobby que sempre as motivou: transformar louça, azulejos, mosaicos partidos em obras de arte. Thaís e Valéria Delboni comandam a Building Art. Como diz uma canção, nem luxo, nem lixo: “Nós nascemos numa família muito ligada à arte”. O projecto começou através de uma conversa com uma amiga, que lhes pediu para cobrirem com mosaicos a barriga de gesso de gravidez, e acabaram por fazê-lo com mosaicos de espelhos. Daí a dedicarem mais tempo a esta arte foi um passo. “Eu sempre fiz muito isso: reciclei alimentação, o lixo, peças… faz parte da minha forma de ser e de estar”, revela Thaís. “Quando pensamos em fazer mosaico em Portugal, faltava material: aqui não existem revendedores de material de mosaico”, lembra, e Valéria acrescenta que até as ferramentas tiveram de ser importadas. “Foi aí que nos ocorreu: porque não aproveitar o que existe em Portugal, que é o azulejo português que é a coisa mais linda que existe aqui? E que vai ser deitado fora: porque está partido, porque saiu com defeito do forno, porque foi retirado de uma construção e vão deitar para o lixo”.

Valéria recorda que numa ocasião “participámos num concurso no centro de Cascais. Foram seleccionadas algumas pessoas para decorar um farol de um metro e meio e decorámos um farol todo com azulejos portugueses. Todinho!”. Na época, foram a uma fábrica em Bicesse, no concelho cascalense, para obter o material, e a pessoa responsável reagiu com risos, acabando por aceitar o pedido. “Ela tudo bem, mas houve pessoas na rua que ficaram zangadas, disseram que estávamos a estragar património. Mas não senhor, não é o azulejo novo, mas o que estava estragado”, frisam.

Estas artesãs adquirem os azulejos danificados nas sucatas às caixas. Encontram-se nas fábricas de cerâmica, mas “não são todas que nos deixam entrar, que querem vender para nós. Não querem, às vezes preferem deitar para o lixo do que vender!”, espanta-se Thaís. Elogiam a fábrica de Bicesse que já é parceira. Lembram que vão também a Alcobaça procurar louça partida às fábricas e nem resposta têm. Porém, ao colocarem anúncios para procurar pratos já partidos, conseguem obter o material de que necessitam para as várias peças finais.

São quase estreantes em feiras e mercados porque só fazem esses negócios há um ano, pelo que já apanharam os tempos de pandemia. O facto de se assumirem como optimistas e de riscarem a palavra “desistir” do dicionário leva-as a acreditar que vão conseguir conquistar público. “Acho que a arte é uma coisa que faz bem à alma das pessoas. e na pandemia, as pessoas começaram a perceber os lugares vazios de suas casas, as paredes brancas onde faltava alguma coisa… para trazer conforto, aconchego, alegria. É nessa lacuna que nós entramos”. Ainda assim, o mundo dos sites e redes sociais é aquele onde mais trabalham, porém, Valéria observa que o site é mais uma montra, porque considera que o público português é táctil: gosta de tocar e sentir as peças.

Miroiços, villa romana abandonada

0

Conhecida desde 1895, quando Leite de Vasconcellos a descreveu pela primeira vez, a estação arqueológica de Miroiços foi alvo de várias campanhas de escavação arqueológica.

Classificada como IIP – Imóvel de Interesse Público, através do Decreto n.º 5/2002, DR, 1.ª série-B, n.º 42 de 19 Fevereiro 2002, está hoje praticamente perdida no meio de toneladas de entulhos diversos e engolida pelo mato.

A Villa Romana de Miroiços faz parte do Levantamento Exaustivo do Património Cascalense, editado no ano 2000 pela Fundação Cascais, no qual se integra uma proposta de recuperação, enquadramento e aproveitamento daquela importante estrutura para a requalificação de toda a área envolvente e para o aproveitamento do Vale da Ribeira de Caparide.

Intenções que nunca foram avante. A estação arqueológica está abandonada e o património deteriora-se e perde-se.


A boa vida dos “retornados” nas colónias

0

Com alguns bons assuntos para serem lidos e chamados à capa, a revista optou por destacar, passadas duas, três gerações, a ”boa vida dos “retornados” nas colónias”, mais especificamente em Angola e Moçambique. O trabalho é profusamente ilustrado com fotos de pessoas sorridentes em festas, nas praias, nas esplanadas, aparentemente retiradas de álbuns de memórias privadas.

Recorrendo às (boas) recordações de algumas pessoas, a peça desfia em paralelo elementos estatísticos do regime colonial português e o desenvolvimento económico de Angola e Moçambique – aliás disponíveis para leitura no Google – como que justificando “a “boa vida” com o progresso então registado, sobretudo nos 14 anos de guerra colonial.

A Sábado desenterra, fora do tempo, a despropósito, a palavra “retornados”. Palavra maldita, como se fosse uma fatalidade histórica, como escreveu Helena Matos. Não são (não somos) uma causa, somos um efeito.

A palavra casa mal com a memória e com a realidade. Boas memórias é uma forma de os “retornados” taparem as suas dores.

Retornados – os que regressaram às suas terras -, foram os militares que embarcados “para África e em força” regressavam a suas casas, ao sítio onde pertenciam, terminada a comissão.

Muitos dos “retornados”- da ponte aérea e de outras vias -eram nascidos nas colónias, mal conheciam a “Metrópole”.

E os que foram para o Brasil, Austrália, África do Sul? Eram “retornados” também?

A palavra continua a ferir cada vez que é proferida, como uma marca a ferro e fogo cravada na pele. É um rótulo estúpido. Posto à força na testa dos que desembarcavam em Lisboa nos idos de 75 e iam procurar os seus caixotes nas margens do Tejo. O regime não soube que nome lhes dar. Eram “retornadas” para não serem refugiadas.

É bom recordar que as pessoas que foram para as colónias ou lá nasceram não estavam de férias. A “boa vida” mostrada na revista não era mais do que o escape de quem trabalhava sem olhar para o relógio e criava riqueza e desenvolvimento. Radicavam-se, instalavam-se para o resto da vida. Investiam localmente. Não obedeciam às regras próprias dos emigrantes. Não pensavam em retornar a lado nenhum. E replicaram a receita ao virem para Portugal.

Um trabalho sobre as concretizações do espírito empreendedor dos “retornados”, que incomodou muita boa gente e o seu contributo para a economia do país é o que sugiro à Sábado.