Artesãos voltam ao terreno para reconquistar o público

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Decorreu este domingo no Jamor, concelho de Oeiras, o primeiro Mercado Jamor com Arte, iniciativa do colectivo Artistas da Linha, que congrega dezenas de artesãos de Oeiras, Cascais e Sintra. Depois da iniciativa Paço d’Artes (ocorrida no dia 15 de Maio no Jardim de Paço de Arcos), o palco passou a ser a zona de lazer e desporto do Jamor, próxima do Estádio Nacional e da zona de canoagem.

Como recorda Cristina Lopes, uma das artesãs, “o colectivo surgiu em Dezembro de 2020, quando tomaram conhecimento que algumas pessoas estavam a passar dificuldades”. “Nós propusemos o projecto à Câmara Municipal de Oeiras. Eles gostaram da ideia, e em Dezembro a autarquia cedeu o espaço, nós cedemos o trabalho, o Mercado Solidário de Natal aconteceu… a Câmara ficou tão satisfeita que nos pediu para continuarmos com este projecto”, recorda. Para nascer esta feira, “foi outra carolice nossa: nós tentamos, junto da direcção, criar aqui alguma coisa. A direcção do Jamor também estava interessada em que este espaço fosse dinamizado, porque estava muito pobre, não acontecia aqui nada, tirando eventos que aconteciam pontualmente, e estão muito satisfeitos”. De tal forma que está prevista a continuação desta iniciativa: todos os terceiros sábados do mês, será em Paço de Arcos (ou Paço d’Artes) e nos quartos domingos mensais, Jamor com Arte, no horário das 09h às 18h.

Mas que áreas são abrangidas pelos Artistas da Linha? “Vai desde cerâmica, a têxtil, a joalharia, sapataria, tudo feito pelos próprios, e outras artes manuais: feltragem, aguarelas, temos vários ramos das artes”, esclarece Cristina Lopes, ela própria artesã do burel.

Recorda que para a feira acontecer, tiveram de pagar um valor pelo espaço, inserido no acordo a que chegaram com a entidade responsável com o Jamor; valor esse que acaba por ser simbólico uma vez que a pandemia do coronavírus implicou uma quebra forte nos rendimentos dos artesãos. No caso do Mercado de Natal, o espaço foi cedido de forma gratuita pela autarquia, mas “agora já não há mais cedências, agora todos os espaços são pagos, de qualquer forma tentamos manter uns valores muito simbólicos… porque estivemos praticamente um ano e meio fechados e foi complicado”.

Cristina Lopes trabalha desde 2014 com burel de ovelha bordaleira, da Serra da Estrela. Descreve-o como sendo um “tecido ancestral, é dos tecidos mais antigos que nós temos. Supõe-se que as capas dos reis na Idade Média já eram feitas deste tecido, mais grosseiro, não era tão trabalhado. Mas é um tecido que se perpetua por gerações. E é nosso, natural, ecológico, sustentável, extremamente durável e impermeável, tem tudo de bom”, esclarece.

“Quando apresentei o projecto, em 2014, havia pouco conhecimento do burel e só associavam a vestuário. Eu vim com uma nova abordagem: tapetes, almofadas, malas mochilas, quadros, porta-chaves,…”, recorda a artesã, que até tem um catálogo próprio e lembra que o custo por metro deste tecido nobre é muito alto, pelo que todas as sobras podem ser um novo produto.

A peça mais inusitada que já fez a pedido de um cliente foi um quadro com moldura décapée, com técnicas de patchwork. “Levou-me dois meses a fazer. tem todas as cores do arco-íris e é uma espécie de bola de espelho”.

A artesã de burel acredita que as pessoas têm cada vez mais interesse nos produtos artesanais e com materiais portugueses. “As pessoas gostam desse bocadinho com o artesão, que explica a técnica como é que é feito, de onde vem, que materiais existem, quanto tempo demora a fazer”, o que também ajuda a explicar o porquê dos preços.

Afirmou que o feedback tem sido muito interessante, porque as pessoas ficam a saber que é a primeira edição do Mercado no Jamor (gerido pelo Instituto Português da Juventude e do Desporto), e foi dada autorização e participação do Centro Desportivo Nacional do Jamor. “É engraçado que hoje de manhã esteve aqui um senhor que nos disse ‘há trinta anos que eu venho aqui e nunca vi aqui um mercado’”.

Uns metros mais à frente, entre famílias e curiosos, encontramos Paula Pão Alvo. “Eu sou compositora de sapatos”, explica com um sorriso. “Eu sonho e faço sapatos”, diz esta optimista assumida, enquanto os curiosos observam o resultado dessa arte. “Sou mesmo apaixonada e auto-didacta. E fui aprendendo, ao longo do tempo… neste meu percurso, que já tem 35 anos a compor sapatos, eu também me cruzei com uma pessoa que esteve numa escola a aprender a fazer modelação de sapatos, e fizemos uma joint-venture”.

Explica com que materiais faz os sapatos. “Eu trabalho com couro, com curtimento a vegetal, não são usados produtos químicos. Chamam-se peles de atanado, normalmente de vaca, ovelha ou cabra. São muito orgânicas e biodegradam-se com muita rapidez”. Na altura era uma coisa inovadora, mas com as actuais preocupações com o ambiente e a sustentabilidade, Paula reconhece que está muito na moda. Esta artesã já participou em “muitas feiras e muitos mercados ao longo da minha vida” mas no Jamor assume que é a primeira vez.

“As pessoas hoje em dia têm um pouco mais de receio”, mas com a possibilidade de fazer negócio pelas redes sociais, Paula virou-se para essa via por conselho dos filhos e “revelou-se uma alternativa muito interessante. “Hoje em dia todos nós que vendemos online fazemos um esforço enorme para satisfazer completamente os nossos clientes”, frisa. Diz que querem superar as expectativas dos clientes e que isso acaba por ser o segredo para se conseguir algum sucesso nas vendas pela Internet.

“Nós através das vendas online abrimos muitas portas. As pessoas estão também muito sensíveis a essa possibilidade das compras e vendas pela internet. Quando estamos num espaço de feira, temos acesso a um determinado nível de público. Quando estamos nas vendas online, esse espectro de público alarga-se infinitamente, ou quase, porque a Net é uma rede”.

O passa-palavra entre clientes e potenciais clientes pode fazer a diferença. No caso de Paula, chegou mesmo a vender para os EUA, algo que apelida de “fantástico”. Um mercado que a “compositora de sapatos” almeja alcançar é a Austrália mas está em negociações por causa dos custos dos portes de envio.

De São Paulo para Lisboa, duas irmãs (uma da área da psicologia e outra na área da informática), após anos a viver em terras lusas, decidiram escolher um novo caminho; foi em pouco tempo que optaram pelo hobby que sempre as motivou: transformar louça, azulejos, mosaicos partidos em obras de arte. Thaís e Valéria Delboni comandam a Building Art. Como diz uma canção, nem luxo, nem lixo: “Nós nascemos numa família muito ligada à arte”. O projecto começou através de uma conversa com uma amiga, que lhes pediu para cobrirem com mosaicos a barriga de gesso de gravidez, e acabaram por fazê-lo com mosaicos de espelhos. Daí a dedicarem mais tempo a esta arte foi um passo. “Eu sempre fiz muito isso: reciclei alimentação, o lixo, peças… faz parte da minha forma de ser e de estar”, revela Thaís. “Quando pensamos em fazer mosaico em Portugal, faltava material: aqui não existem revendedores de material de mosaico”, lembra, e Valéria acrescenta que até as ferramentas tiveram de ser importadas. “Foi aí que nos ocorreu: porque não aproveitar o que existe em Portugal, que é o azulejo português que é a coisa mais linda que existe aqui? E que vai ser deitado fora: porque está partido, porque saiu com defeito do forno, porque foi retirado de uma construção e vão deitar para o lixo”.

Valéria recorda que numa ocasião “participámos num concurso no centro de Cascais. Foram seleccionadas algumas pessoas para decorar um farol de um metro e meio e decorámos um farol todo com azulejos portugueses. Todinho!”. Na época, foram a uma fábrica em Bicesse, no concelho cascalense, para obter o material, e a pessoa responsável reagiu com risos, acabando por aceitar o pedido. “Ela tudo bem, mas houve pessoas na rua que ficaram zangadas, disseram que estávamos a estragar património. Mas não senhor, não é o azulejo novo, mas o que estava estragado”, frisam.

Estas artesãs adquirem os azulejos danificados nas sucatas às caixas. Encontram-se nas fábricas de cerâmica, mas “não são todas que nos deixam entrar, que querem vender para nós. Não querem, às vezes preferem deitar para o lixo do que vender!”, espanta-se Thaís. Elogiam a fábrica de Bicesse que já é parceira. Lembram que vão também a Alcobaça procurar louça partida às fábricas e nem resposta têm. Porém, ao colocarem anúncios para procurar pratos já partidos, conseguem obter o material de que necessitam para as várias peças finais.

São quase estreantes em feiras e mercados porque só fazem esses negócios há um ano, pelo que já apanharam os tempos de pandemia. O facto de se assumirem como optimistas e de riscarem a palavra “desistir” do dicionário leva-as a acreditar que vão conseguir conquistar público. “Acho que a arte é uma coisa que faz bem à alma das pessoas. e na pandemia, as pessoas começaram a perceber os lugares vazios de suas casas, as paredes brancas onde faltava alguma coisa… para trazer conforto, aconchego, alegria. É nessa lacuna que nós entramos”. Ainda assim, o mundo dos sites e redes sociais é aquele onde mais trabalham, porém, Valéria observa que o site é mais uma montra, porque considera que o público português é táctil: gosta de tocar e sentir as peças.

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