A boa vida dos “retornados” nas colónias

A revista Sábado saiu esta semana com uma capa que me fez lembrar capas e reportagens de revistas publicadas em Angola antes da independência quando chegava a época quente, as praias eram o destino natural e havia sempre um outro bikini digno de ser mostrado.

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Com alguns bons assuntos para serem lidos e chamados à capa, a revista optou por destacar, passadas duas, três gerações, a ”boa vida dos “retornados” nas colónias”, mais especificamente em Angola e Moçambique. O trabalho é profusamente ilustrado com fotos de pessoas sorridentes em festas, nas praias, nas esplanadas, aparentemente retiradas de álbuns de memórias privadas.

Recorrendo às (boas) recordações de algumas pessoas, a peça desfia em paralelo elementos estatísticos do regime colonial português e o desenvolvimento económico de Angola e Moçambique – aliás disponíveis para leitura no Google – como que justificando “a “boa vida” com o progresso então registado, sobretudo nos 14 anos de guerra colonial.

A Sábado desenterra, fora do tempo, a despropósito, a palavra “retornados”. Palavra maldita, como se fosse uma fatalidade histórica, como escreveu Helena Matos. Não são (não somos) uma causa, somos um efeito.

A palavra casa mal com a memória e com a realidade. Boas memórias é uma forma de os “retornados” taparem as suas dores.

Retornados – os que regressaram às suas terras -, foram os militares que embarcados “para África e em força” regressavam a suas casas, ao sítio onde pertenciam, terminada a comissão.

Muitos dos “retornados”- da ponte aérea e de outras vias -eram nascidos nas colónias, mal conheciam a “Metrópole”.

E os que foram para o Brasil, Austrália, África do Sul? Eram “retornados” também?

A palavra continua a ferir cada vez que é proferida, como uma marca a ferro e fogo cravada na pele. É um rótulo estúpido. Posto à força na testa dos que desembarcavam em Lisboa nos idos de 75 e iam procurar os seus caixotes nas margens do Tejo. O regime não soube que nome lhes dar. Eram “retornadas” para não serem refugiadas.

É bom recordar que as pessoas que foram para as colónias ou lá nasceram não estavam de férias. A “boa vida” mostrada na revista não era mais do que o escape de quem trabalhava sem olhar para o relógio e criava riqueza e desenvolvimento. Radicavam-se, instalavam-se para o resto da vida. Investiam localmente. Não obedeciam às regras próprias dos emigrantes. Não pensavam em retornar a lado nenhum. E replicaram a receita ao virem para Portugal.

Um trabalho sobre as concretizações do espírito empreendedor dos “retornados”, que incomodou muita boa gente e o seu contributo para a economia do país é o que sugiro à Sábado.

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