OS DEPUTADOS “URSO”: A SÁTIRA POLÍTICA NA IMPRENSA DE 1849

A crónica satírica publicada no jornal O Eco Popular, em 18 de janeiro de 1849, e recuperada por Alfredo Barroso em O Bruxo de Ceide / Breviário Camiliano, oferece um retrato mordaz, intemporal e profundamente irónico da vida política portuguesa do século XIX. Através de uma metáfora zoomórfica - a transformação do deputado recém-chegado à capital «urso» -, o cronista constrói uma crítica feroz ao parlamentarismo constitucional da época da Regeneração e do Cabralismo, expondo os mecanismos de corrupção, o provincianismo e a perda de idoneidade moral daqueles que eram eleitos para representar a nação.

0
43

« O último comboio de deputados, presume-se que está salvo! Feliz o lisboeta que pode, no Cais das Colunas, assistir ao desembarque dum urso, que pela primeira vez palmilha o Terreiro do Paço! Um urso encara primeiro a estátua equestre, com maxilas escacanradas extasia-se a admirar. Em seguida, emboca pela Rua do Ouro e em cada tabuleta de ourives cuida  encontrar uma posta mesa do orçamento. Desemboca no Rossio, e entra na estalagem dos Dois Irmãos Quando lá chega, já o gaiato lhe tem mamado o lenço de assoar. O pai da pátria esquenta-se, e apela à desforra para a fatal mesa.« O urso janta,lava-se, e vai à Rua dos Algibebes comprar uma calça de pano preto já feita, visto que nem todos, como o Sr. Castro-Pilar, a podem arranjar pela maçonaria. No dia imediato, entra o urso no salão de S. Bento, dança, dá o seu urro, faz uma pirueta , e recebe 2880 réis. « O urso, depois de um mês de exercício, debaixo do chicote do amansador das hidras, está domesticado».

(de uma crónica publicada pelo Eco Popular, 18 de Janeiro de 1849)

O texto inicia-se com uma imagem forte: o desembarque, no emblemático Cais das Colunas, do «último comboio de deputados». A utilização do termo «comboio» (ou a ideia de uma comitiva que chega em massa da província) e a celebração irónica do lisboeta que assiste ao desembarque estabelecem imediatamente o contraste entre a capital, cosmopolita e cínica, e o interior do país, de onde provêm estas figuras grotescas. O deputado é caricaturado como um «urso», um animal selvagem, rústico e desajeitado que «pela primeira vez palmilha o Terreiro do Paço».

Ao deparar-se com a imponência de Lisboa, o «urso» reage com um espanto primitivo. Encara a estátua equestre de D. José I e, de «maxilas escancaradas», extasia-se. Esta reação física de pasmo revela a sua total impreparação e o deslumbramento perante o poder instituído. Contudo, o verdadeiro instinto do animal não é a admiração estética, mas sim a fome de privilégios. Ao embocar pela Rua do Ouro, uma das artérias mais ricas da Baixa pombalina, o urso confunde o brilho das tabuletas dos ourives com «uma posta da mesa do orçamento». A crítica económica é direta: o deputado da província não viaja para a capital movido pelo bem comum ou por ideais patrióticos, mas sim atraído pela perspetiva de enriquecimento fácil e pelo saque dos cofres do Estado.

A caminhada do urso continua em direção ao Rossio, o centro nevrálgico da sociabilidade lisboeta, onde se aloja na célebre «estalagem dos Dois Irmãos». É neste trajeto que a crueza da capital se manifesta: o «gaiato» de Lisboa, símbolo da vivacidade e da malandrice urbana, rouba-lhe o lenço de assoar sem que ele se aperceba. Ao dar pela falta do objeto, o «pai da pátria» — título pomposo e irónico concedido aos legisladores — enfurece-se e promete vingar-se na «fatal mesa» do parlamento ou do jogo, mostrando que a sua dignidade é facilmente abalada por um reles batedor de carteiras.

A segunda fase da transformação do deputado passa pela sua integração social e estética. Para fingir o decoro exigido pela sua nova função, o urso necessita de uma farda. Dirige-se à Rua dos Algibebes para comprar umas «calças de pano preto já feitas». O vestuário pronto-a-vestir sublinha a falta de berço e de alfaiataria personalizada, marcando-o como um intruso na elite. O cronista aproveita este momento para lançar uma farpa política contemporânea, referindo que nem todos os deputados têm a influência do «Sr. Castro-Pilar» para arranjar benesses através das redes de clientelismo da Maçonaria, uma força de bastidores crucial no Portugal oitocentista.

Finalmente, ocorre a estreia no Palácio de São Bento. O salão parlamentar transforma-se numa pista de circo. O urso «entra, dança, dá o seu urro, faz uma pirueta» e, por essa performance ridícula, recebe a sua côngrua diária de «2880 réis». O debate de ideias, a legislação e a defesa dos cidadãos são reduzidos a coreografias patéticas concebidas para entreter e justificar o subsídio financeiro.

O desfecho da crónica é o golpe de misericórdia na independência do deputado. Após um mês de exercício de funções, sob o jugo e o «chicote do amansador das hidras» — uma clara alusão aos líderes partidários, chefes de governo ou influenciadores políticos que controlavam as bancadas —, o urso orgulhoso e selvagem perde a sua autenticidade. O texto conclui que ele está, por fim, «domesticado». A sua domesticação representa a submissão total ao sistema, a perda da voz própria e a transformação definitiva do representante do povo num mero lacaio obediente ao poder central.

Esta crónica, preservada na erudição camiliana de Alfredo Barroso, transcende o contexto específico de 1849. Ao ridicularizar a ganância, o deslumbramento, o clientelismo e a perda de espinha dorsal dos deputados, o texto funciona como um espelho satírico cujos reflexos, de forma desconfortável, mas cómica, continuam a ecoar na crítica contemporânea à classe política.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui