Há periquitos em estado selvagem, nas cidades portuguesas. Começaram por ser aves engaioladas que se libertaram ou foram soltas, adaptaram-se a viver fora das gaiolas, reaprenderam a procurar comida, encontraram parceiros e reproduziram-se. São o exemplo da maravilhosa capacidade de adaptação de alguns seres vivos.
Felizmente para os periquitos, mesmo no inverno o clima não é suficientemente agreste para lhes fazer mal e há sempre alguma coisa para comer, já que estas aves não comem apenas sementes, também apreciam frutos, grãos e flores.
Estamos a falar de uma espécie em particular, dentro das várias espécies que chegam a Portugal através dos circuitos comerciais de venda de animais exóticos: o periquito-de-colar.
Segundo foi agora divulgado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), as colónias de periquitos-de-colar estão em franca expansão, de tal modo que está em andamento um projeto para se conseguir dimensionar o fenómeno.
Para o efeito, a SPEA pede ajuda aos cidadãos. Nem é difícil. Basta ir passear para parques e jardins ao fim do dia, olhar com atenção para as árvores e, se virem periquitos-de-colar, tentar contar quantos pássaros lá estarão. Depois, basta comunicar a observação no site “Ajude-nos a contar periquitos”. O projeto desenrola-se durante o mês de novembro.
Mas como identificar a espécie certa? Através desta descrição: periquito verde com um colar preto, distingue-se de outras espécies pela parte superior do seu bico, que é vermelha, e pela cauda mais comprida, que se nota sobretudo nas penas centrais azuladas. Em voo, o periquito-de-colar destaca-se também pelas penas de voo, mais escuras do que o resto do corpo.
Estamos a falar de uma ave que veio de África e do sul da Ásia e que se adaptou bem ao clima e à vida em algumas cidades europeias. Em Portugal, no entanto, têm sido vistos também em zonas rurais. Têm sido avistados, principalmente, em diferentes pontos de Lisboa e regiões limítrofes (vale do Tejo e região saloia), nas Caldas da Rainha, em Coimbra, no Porto e nos Açores.
E, aos 70 anos, continuo entusiasmada com a vida e a trabalhar em projetos novos!
Não fiz quimioterapia nem radioterapia. Segui o tratamento de uma médica e investigadora, que também tinha uma componente das medicinas complementares (tal como são definidas e classificadas pela Organização Mundial de Saúde). Decidi que não queria morrer, mas sim viver.
Li um livro que me ajudou muito, “Scientology: Uma Nova Perspetiva da Vida” de L. Ron Hubbard. Scientology ensina-nos a aprender a aprender. E aprendi que “É possível Ser Feliz”, que há “Duas Regras Para Viver Feliz”, “Como Viver com Crianças”, “Como Lidar com as Confusões no Mundo do Trabalho Quotidiano”, sobre a “A Busca do Homem Pela Sua Alma”, e muito mais. Sou professora universitária, e fiquei admirada por ter encontrado tanto conhecimento inovador e ferramentas práticas, que me ajudaram a desenvolver um novo gosto pela vida, assim como a adotar formas mais felizes e eficazes de a encarar, de a compreender e de a viver – como um jogo!
Depois, escrevi um livro para ajudar outras mulheres, “Elevação Vencer o Cancro”, a que a revista Visão se referiu dizendo “… um documento inédito, didático, em que a palavra cancro é sinónimo de vida e não de morte.” Convidei Simone de Oliveira para escrever o prefácio, e seguiram-se uma série de programas de televisão. Era importante passarmos a mensagem de que cancro não era sinónimo de morte nem de um sofrimento horroroso. E que quanto mais cedo fosse descoberto e tratado, maior a possibilidade de se sobreviver com uma boa qualidade de vida e uma boa dose de felicidade.
Seguiram-se mais livros e novos desafios. Voltei a ler o livro. É que hoje sabe-se que compreender ajuda a viver! Mais e melhor! Permite-nos ter mais calma, sermos mais tolerantes e eficazes! Quem é que não quer?
A candidatura de Paulo Rangel é uma jogada de alto risco para o putativo candidato a primeiro-ministro. Rangel deve ter muitos anticorpos no seu próprio partido e, se vier a ser eleito, os seus defeitos e virtudes poderão fazer dele um fenómeno político. Ou seja, será um alvo a abater.
Alguns dirão que a vida privada não deve ser vasculhada por causas políticas, mas sabemos que não é assim e sabemos, também, que os comportamentos privados dos políticos contribuem para formarmos uma opinião sobre eles. E se os políticos nos pedem o voto, nós temos o direito a pedir-lhes tudo o que entendermos, principalmente transparência e honestidade.
Em setembro, Rangel assumiu que era homossexual, num daqueles programas da SIC que puxa pelo sentimento e pela lágrima ao canto do olho. Disse ele, nessa pantalha, que a sua orientação sexual “não é nenhum problema. Foi uma coisa que nunca escondi, não é nenhum segredo “, disse Rangel ao seu interlocutor e a todos os que viram a entrevista. Mas, na verdade, a maioria das pessoas não sabia.
Na verdade, não sabiam que ele era gay e só souberam que ele bebia um copito a mais quando viram um célebre vídeo onde Rangel cambaleava pelas ruas de Bruxelas, depois de um jantar com amigos.
A divulgação do vídeo foi muito criticada. Mas, na mesma lógica de transparência, devia ter sido aplaudida. Ficámos a saber mais um pouco sobre um tipo que um dia destes pode vir a ser primeiro-ministro deste país.
Mas a tempestade talvez ainda nem tenha começado. Na extrema-direita, o deputado Ventura aclara a voz para discursos futuros…
E à esquerda a cena até pode ser mais violenta, uma vez que já falam em salas de bondage e coisas assim…
A questão colocou-se-me vários anos depois de ter entrado na via das literaturas, quando, na sequência da apresentação de um livro, alguém me atribuiu tal estatuto.
Fortes razões legitimavam essa reserva porque, ainda que licenciado em Medicina, só a vinculação ao Juramento de Hipócrates e inscrição na Ordem dos Médicos me garantiu o título de médico. Perante essa realidade, como não questionar a condição de escritor sem que, antes, tivesse obtido uma qualquer “creditação” por parte de entidade idónea?
Na América, usando o critério de diz-me quanto ganhas e dir-te-ei se és escritor, a destrinça talvez até fosse fácil. E, se aplicado tão elementar princípio à nossa “casa”, até poderíamos laborar sobre uma adaptação consentânea, do tipo diz-me quantos livros vendeste ou quantos prémios ganhaste. Mas essa seria sempre uma deriva sem nexo porque, a rezarmos nesse santuário, teríamos de exorcizar ilustres escritores, de Camões, Bocage a Pessoa.
O meu retraimento deverá ainda ser interpretado no contexto em que vivi, com a revolução dos cravos a inundar-nos de doutores e de engenheiros, sem a exigível formação académica. Uma “cheia” de diplomados que nunca cessou de crescer, perante a contínua chuvada de passagens administrativas e de falsas licenciaturas, esta uma “precipitação” em que a classe política se notabilizou, mas a que nem a reitoria duma prestigiada universidade pública ousou furtar-se. E foi assim, entranhadas estas e outras questões, e na ausência de escrutínio, que, durante anos, evitei usar o título de escritor. Até certo dia receber uma carta da APE …
O correio só me traz más notícias, razão óbvia para abrir o subscrito com apreensão. Ao tempo, integrado numa importante coleção de autores portugueses, acabara de “vender” milhares de livros e, para evitar confusões, até oferecera os direitos à causa de Timor. Porém, e ninguém sabe os segredos que um envelope timbrado encerra, logo imaginei grossa asneira… quiçá o incumprimento de deveres legais. Foi, pois, com agrado e surpresa que, lá dentro, deparei com uma inocente proposta para me tornar sócio da Associação.
– Ora, toma! Por esta é que não esperavas…
No entanto, subscrito por um membro da Direção que de todo desconhecia, o meu apurado olfato depressa acusou uma intrigante fragrância: tratava-se de um convite avulso de algum “angariador de fundos” da APE, que tropeçara com o meu ignoto nome numa qualquer lista amarela, ou de uma iniciativa colegial, na sequência de uma apreciação técnica ainda que ligeira e abrangente?
Visando obter resposta a tão pertinente dúvida, determinante na minha decisão, restava-me agradecer a iniciativa e solicitar tal “esclarecimento”. Poucos dias depois, mais uma agradável surpresa, o “colega” deu-me polida conta de que, tendo tido acesso a alguns dos meus textos, entendia cumpridos os requisitos para me propor como “par”.
Tratava-se de uma opinião respeitável e que me sensibilizou, mas que, ainda assim, não me demoveu. Agradecendo a distinção, respondi que fazia depender a minha “inscrição” na APE de um convite coletivo, após análise, ainda que sumária, da minha obra. E porque nunca fui “cromo difícil”, juntamente com a cortês “exigência desse ritual”, até juntei vários livros para apreciação superior.
Adeus e até nunca mais ver, pensei, num cálculo que voltou a sair furado. Ao contrário do que supus, em breve recebia nova proposta, esta com a chancela da Direção. “Gente fina” que, tendo com diplomacia e elegância superado a fasquia que a mim impusera, prontamente me levou a preencher o documento que “legitimava” o meu novo título de escritor.
Honrosa inscrição na APE que nunca deixei de honrar, mas que em nada buliu com o percurso de um corredor solitário que evita equipamentos de marca, recusa aditivos e prefere trilhos silvestres sob meteorologias adversas. Até, recentemente, ter recebido uma “convocatória” irrecusável da Associação, para estar presente no “almoço de homenagem a quatro ilustres figuras da vida cultural portuguesa, com o título de Sócio Honorário, aprovado em Assembleia Geral”.
Ao contrário de outras artes e ofícios, raros escritores portugueses “ascendem ao estrelato” e, no meu canto, eu nem conseguiria identificar a maior parte desses mitos da literatura, que só conheço pela obra. No entanto, imperativo de solidariedade e gratidão, tal homenagem “obrigava-me” a quebrar uma regra que a mim mesmo fixara e pisar, pela primeira vez, os palcos da APE.
Entrado em ambiente desconhecido, deparei então com uma plateia diferenciada, mas algo retraída, como se ainda a despertar da longa hibernação provocada pela Covid-19. Perto de mim, e contra todas as evidências, uma veterana em contos infantis não se cansava de propalar a malignidade das atuais vacinas, firmada em “certezas” estatísticas e científicas, à altura da sua imaginação literária.
Do convívio, registei o notável “testamento” que Manuel Gusmão nos fez chegar, e que merece melhor divulgação, bem como o interlúdio musical proporcionado pelo acordeonista Paulo Jorge Ferreira. De resto, os discursos primaram pela informalidade. Tão informal que nenhum dos homenageados, ou os seus representantes, perderam sequer tempo a agradecer a deslocação dos presentes.
Nos últimos tempos, tenho integrado outro género de “convívios” com candidatas a “misses”, onde o bom gosto, a elegância, a simpatia e a comunicação, a par de uma beleza que já não se exibe em bikinis, constituem fatores determinantes e que, em certos casos, abrem lugar a carreiras profissionais profícuas.
Tendo sido incumbido de convidar um dos homenageados da APE, a quem uma prestigiada associação queria atribuir um prestigiante prémio, deparei com um tipo que, de sobranceiro, nem um minuto do seu precioso tempo me concedeu. Reforçou assim uma máxima a que nunca mais fugirei: ao invés das “misses”, que são para conhecer e não para apreciar as obras, os escritores são para serem lidos e não para conhecer.
Ainda não eram 9h30 e já caminhava pela estrada que ladeia um dos muitos jardins quando deu de caras com a Fonte Mourisca. Não hesitou: foto com ela. (re) descobriu a sua Sintra de sonhos (ou de outras realidades…) enquanto continuava a caminhar., e ainda mal tinha começado. Ainda era cedo, ainda o centro histórico tinha poucos turistas, e já a primeira paragem: NewsMuseum. O museu dedicado ao jornalismo e aos media é de pequena dimensão mas com moderna estrutura: um estúdio onde as mais jovens gerações podem simular a apresentação noticiosa, modernos equipamentos que ombreiam com evocações do passado e informação transmitida por meios que tanto evocavam as novíssimas tecnologias da realidade virtual como equipamentos antigos prestes a cumprir um século de existência.
Em destaque, do rés-do-chão até quase ao teto, uma espiral em ferro com pequenas luzes sustenta vários ecrãs que mostram reportagens de várias estações televisivas pelo mundo, Portugal incluído, peças sobre a pandemia do maldito coronavírus. Nome da instalação (em todos os monitores)? Pandemedia. E a casa de banho? Nunca um WC deu tanta vontade de rir: nas portas, escritas as gaffes de títulos menos felizes em termos jornalísticos puros – mas anedotas de todo o tamanho. E sem falar na All of Fame, uma reprodução de vídeos de momentos, digamos, menos bem conseguidos nos telejornais e programas de entrevistas também de todo o mundo, onde desfilam desde aquela comediante norte-americana que “passou um sermão” a uma pivot que a tentava entrevistar, até àquele debate algures num país (de Leste? Do Médio Oriente?) onde, em vez de se trocarem argumentos, se trocaram socos e até a bancada voou no estúdio de televisão.
A seguir, Palácio Nacional de Sintra. Sim, os bilhetes custam caro, sim, a conta bancária vai ficar mais vazia, mas ela queria desfrutar do dia dela. E o deslumbre ainda estava a começar: os salões, a Arte, a História, enquanto ela se misturava de forma discreta num grupo de turistas que ouviam obedientes o guia a falar em inglês. Que pasmo!, o relógio de sala com mais de um século que ainda dá horas certo e direito. Que maravilha, as salas, incluindo a famosa Sala das Gralhas (ou das Pegas – o pássaro, senhoras e senhores, o pássaro!) onde Dom João se vingou das damas da corte palradeiras que fizeram piadas com o facto de ter sido apanhado pela real inglesa esposa aos beijos com outra senhora. Que encanto, os recantos pequenos e discretos mas agradáveis, e o jardim simples mas aprazível, já com vista para o Castelo dos Mouros, próxima paragem a conquistar. Que o foi, após um breve descanso noutro jardim, sentada perto de um dos tanques de água que durante anos lavaram reais roupagens.
Após uma viagem de autocarro aos avanços e recuos, cheia de turistas e sem o desejado wi-fi, eis que ela chega à entrada do Castelo dos Mouros. Mais um bilhete, mais um gasto, mais um desafio. Benditos ténis-sapatos, que o caminho (não sendo de cabras) é cheio de pontos de interesse arqueológico mas complicado de andar… ai sim? Esperem até subir aquelas escadarias ao longo da muralha. Poucos se atreveram a chegar ao topo, ao ponto mais alto, à torre cimeira. Ela nem por isso, que a idade e o joelho já refilavam (e ela a mandá-los calar, bendita máscara que disfarça quem fala sozinho). A vista, de cortar a respiração. Ao fim da visita, mais uns minutos de repouso, e uma viagem (inesperada) de tuk tuk depois, bastam dez minutos no centro histórico para perceber a massificação em curso do turismo: preços hiperinflacionados (até um simples travesseiro na Piriquita!), músicos de rua que só cantavam em inglês, vendedores de bugigangas e empregados da restauração que miravam os transeuntes qual ave de rapina, que o negócio está mal e cada potencial cliente é contabilizado pelos gerentes/patrões.
A ela, o orçamento apenas permitiu comer à pressa numa dessas cadeias multinacionais de pizza rápida, antes de ir para o autocarro e correr atrás do tempo para chegar a tempo à tão sonhada visita: Quinta da Regaleira. Chegou atrasada (evitar imprevistos, não é?) e prestes a deitar os pulmões pela boca enquanto pedia desculpa pelo atraso – mas porque é que obrigam a dar a Volta à Regaleira a Pé por Ladeiras para aceder à entrada?! – e se preparava para ouvir, atenta e educada, as sábias explicações do guia, que guiou o grupo de visitantes não só pelos espaços da Quinta, como por factos e curiosidades sem par. Uma sugestão: mente aberta, esvaziada do que se passa para lá daqueles muros, porque o encantamento, a História, a Ciência, a Arte, entram-nos pelos sentidos adentro naquele que é um espaço único na Europa Ocidental.
Apesar da beleza das fontes, dos jardins, da curiosa estufa deixada em herança por um apaixonado pela Botânica, da capela tão magnífica como pequena, dos próprios caminhos, claro que as joias daquela esplendorosa coroa são duas. O Poço Iniciático, cujo túnel escavado nas rochas esconde simbolismos e histórias, e o palacete, obra única que por vezes precisa de um ou outro restauro, onde os visitantes da tarde foram brindados por um recital de piano (o nome do músico escapou à atenta visitante) cujo som saía de uma das magnificentes salas do palacete ímpar por onde os turistas passavam, de forma mais ou menos ordeira, mais ou menos atenta a cada sinal de História ou de Cultura. Todas as palavras já foram escritas, mais vale estar lá e sentir o espaço.
Já não deu tempo para ver outros sítios, que ficaram para outra ocasião (que venha ela): o Palácio e o Parque da Pena, a Vila Sassetti, Monserrate, Seteais, o elétrico até à Praia das Maçãs, que já está a caminho dos 125 anos e circula bem e recomenda-se… adoçou o desgosto de ter de regressar com umas queijadas na mala antes de apanhar os transportes para casa.
Ao regressar à vida real pensou: conta bancária mais vazia, mas alma mais cheia.
Constrangidos, mas obedientes, os agentes da Polícia Municipal de Sintra transmitiram a Manuel Ildefonso a mais recente “ordem”: não pode deixar no chão nenhum dos seus pertences, sob risco de serem considerados abandonados e serem levados.
É assim que Manuel Ildefonso se vê obrigado a ficar como a imagem documenta, com o saco onde guarda roupa e o saco-cama ao colo, mais o chapéu de sol e os baldes onde lava roupa.
ontem
hoje
Depois de lhe terem levado o carro onde dormia, um veículo que circulava e que nunca tinha tido uma multa de estacionamento e que, portanto, não estava estacionado sempre no mesmo local e muito menos abandonado, agora subiram mais um patamar na já requintada malvadez com que tratam este cidadão.
Estamos a assistir a métodos que roçam a tortura. Estão a transformar este homem numa estátua. Querem vergá-lo psicologicamente. Carregado daquela maneira, Manuel Ildefonso não pode ir a uma casa-de-banho ou ao restaurante onde compra diariamente um prato de sopa. E se for corre o risco de quando voltar não encontrar as suas coisas.
Ele já dorme na pedra dura (a Polícia Municipal levou-lhe o colchão de espuma…), mas ainda tem o saco-cama e uma manta. Mas, acima de tudo, tem uma vontade férrea e espírito de sacrifício. É um homem forte e está a dar uma lição a quem o oprime.
A empresa ICTS despediu uma funcionária que denunciou internamente ter sido vítima de racismo numa ação de formação.
Daniela Gomes nasceu em Lisboa e estudou na faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O facto de ter formação académica universitária não a livra de situações de discriminação e desigualdade.
Na ICTS, Daniela estava ainda dentro do chamado período experimental, tempo durante o qual a empresa pode prescindir do trabalhador sem invocar qualquer justa causa. Deve ter sido o que se passou com Daniela.
Os responsáveis pela empresa preferiram livrar-se de alguém potencialmente reivindicativo, menosprezando as razões do protesto de Daniela. Acontece que, ao agir deste modo, a ICTS acaba por dar cobertura a um ato racista dentro da própria empresa.
Um advogado mais habilidoso até poderá dar a volta a esta história e deixar tudo na mesma. Mas a empresa ICTS não se livra da má imagem e do rótulo de racista que lhe fica colado.
Das várias greves anunciadas no respectivo cardápio para este mês uma interessava-me em particular, a dos combustíveis, anunciada e convocada com grande animação nas chamadas redes sociais, aquelas onde toda a gente é apanhada (convocada?) para alinhar em coisas que chateiam o Governo. São as chamadas inorgânicas – talvez por falta de órgãos -, porque nenhum sindicato esteve na origem da convocatória. A tradição já não é o que era.
Esta greve não tem nada a ver com as greves das sextas-feiras já que convoca indiscriminadamente pelo telemóvel sem olhar a grupos profissionais tipo professores, enfermeiros, rodoviária, funcionários do Estado… e assim…. Aqui vale tudo desde que use um veículo automóvel de combustão interna. Os dos veículos movidos a electricidade estão naturalmente dispensados. A menos que tenham lá em casa um veículo de combustão interna que usem enquanto esperam que o eléctrico seja carregado. A ideia parece simples. Ninguém vai à bomba em dias previamente marcados nas tais redes. Interrompe-se por um dia a ida à bomba e chateia-se o Governo que fica sem cobrar os impostos agregados aos combustíveis nesse dia. É claro que os putativos grevistas tiveram o cuidado de atestar os seus depósitos no dia anterior ou guardaram para o dia seguinte. Se implicasse uma deslocação ao futebol, então aí a coisa fiava mais fino e enfiavam-se os litros necessários e não necessários para a ida e volta com desvio para a tasca habitual onde se comem “as melhores bifanas do país”.
A falar com franqueza, para mim, o custo dos combustíveis não me afecta em nada, nem sinto a diferença no peso da carteira. Podem aumentar à vontade que eu meto sempre a mesma quantia – 20 euros – nem olho para as tabelas de preços. Mas isso sou eu a falar da boca para fora.
Neste sábado tive mesmo de ir à bomba do Intermarché, que é onde eu vou sempre “meter” os meus 20 euros. Qual não foi o meu espanto de verificar que quase não tinha lugar para entrar no parque. Duas enormes bichas – uma para o lado esquerdo das bombas, outra para o lado direito – enchiam o espaço quase parecia um “stand” de auomóveis usados. Estavam lá os mais dignos representantes do parque automóvel nacional desde os inevitáveis carros com a estrelinha na frente e nome de mulher, aos modernos e jovens Peugeot 2008 e similares, duas ou três carrinhas com cargas variadas desde abóboras a restos de vedações, Clios de várias gerações, Méganes e Capturs, uma autocaravana com matrícula espanhola e vários avulso de idade já avançadota mas com a nova matrícula. As pessoas aguardavam nas calmas a oportunidade de avançarem mais um lugar, sem qualquer sinal de impaciência, ocupadas que estavam a fazer festinhas para cima e para baixo nas telas dos seus telemóveis. Tudo pacífico,ninguém de punho no ar.
Em Lisboa menos de uma vintena de pessoas – 12 para citar o JN – decidiram descer a Avenida da Liberdade em protesto contra os preços dos combustíveis. Consta que os polícias que acompanhavam a “arruada” não faziam parte da contestação, antes foram mandados a enquadrarem os manifestantes.
A invasão no “meu” posto de combustíveis devia-se, afinal, ao anúncio da redução de ridículos dois cêntimos na gasolina e de um cêntimo no gasóleo a partir deste sábado. Continua a ser um produto caro, todos o sentimos de uma forma ou outra. Mas será preciso olhar um pouco mais para além dos impostos postos pelo Estado. Os combustíveis que consumimos, importados, chegam ao país na forma de petróleo bruto, e é o Brent que define o valor do barril em dólares. Na semana passada, o Brent fechou a 84,92 dólares o barril. E a tendência é para continuar a subir. Por muito que o Governo “saque” cerca de 50 por cento em impostos no custo do litro, a verdade é que o preço sobe e desce ao sabor do tal Brent.
Bem se pode ir a Espanha para recuperar uns euros entretanto gastos na deslocação, que a coisa não vai mudar seja com que governo for, sempre dependente da ditadura do Brent.
As televisões bem podem continuar a campanha de alarmismo em relação ao possível aumento dos preços “por causa do custo dos combustíveis que sobe todos os dias” como já ouvi em algumas de um certo grupo. O hábito, o comodismo, a necessidade continuarão a justificar a utilização dos veículos motorizados. Os pópós vão continuar a circular, vão continuar a serem muito utilizados em dias festivos de futebol ou outros, os custos dos combustíveis continuarão a serem esquecidos nos festivos e sonoros cortejos avenida acima avenida abaixo.
Por curiosidade, fui ver números relativos ao negócio automóvel. Em 2019 venderam-se 223.799 veículos ligeiros. Com a pandemia, os números baixaram para 176.992 em 2020 e, até Setembro deste ano, para 136.585.
Mais interessantes serão os números dos carros de luxo que, pelos vistos, não sofreram com a crise nem dos combustíveis nem da Covid-19. Neste ano, foram vendidos 831 Porsches, 30 Ferraris e 21 Bentleys. Mesmo assim, em 2020, a Porsche vendeu 749 unidades e a Bentley, 21. No corrente ano, o mercado de carros de luxo já atingiu as 911 unidades até Setembro, o que dá uma média de 101 carros por mês.
O Bairro Operário José Luís (Monte Real) nasceu da benemerência do 1º Conde de Monte Real, Artur Porto de Melo e Faro (Rio de Janeiro, 18-8-1866 / Lisboa, 13-12-1945). O título nobiliárquico foi-lhe outorgado por el-rei D. Carlos por decreto de 21 de Outubro de 1907; aliás, a sua filantropia viria também a ser agraciada com a outorga da Grã-Cruz da Ordem de Benemerência, a 18 de Julho de 1938.
Cascais muito lhe deve. Recorde-se que o aeroporto tem o seu nome por ter sido instalado em terrenos cedidos ao município. Faleceu ainda criança o seu filho José Luís Cardoso Pereira da Silva de Melo e Faro, o que lhe causou grande desgosto e motivou a criação da primeira creche na vila de Cascais, a Creche José Luís. Também por isso se designou «José Luís» o bairro por sua iniciativa inaugurado, a 12 de Março de 1933, em terrenos por ele doados – onde hoje se situa a parte oriental do Bairro da Pampilheira.
Uma obra muito adiante do seu tempo!
Dir-se-á, antes de mais, para melhor se enquadrarem as demolições a que a Câmara ora lançou ombros, que, do projecto inicial (já lá vamos!) apenas se construíram quatro alas, num total de doze moradias.
A primeira ala, mais próxima da Av. Adelino Amaro da Costa, foi demolida há já alguns anos, depois de terem falecido os moradores. A Câmara transformou o espaço em parque de estacionamento, hoje gerido financeiramente pela Mobi Cascais. A quarta ala, oriental, de três moradias, junto ao Parque da Pampilheira, também ele gerido pela Mobi Cascais, estava desocupada há mais de um ano e é essa que ora está a ser demolida. Restam as duas alas interiores, de que apenas estão habitadas quatro casas.
Já houve ocasião de fazer referência a esse inovador projecto, de que se publicou síntese no livro Recantos de Cascais, de 2007, páginas 21 a 24. Daí se respigam, pois, os elementos mais significativos.
Assim, importa frisar que a execução do bairro ocupou lugar de destaque no relatório elaborado pelo Tenente António Rodrigues Cardoso, delegado em Cascais do Governo da Ditadura Militar, sobre as «obras e melhoramentos realizados pela Câmara Municipal até 31 de Dezembro de 1932. Datado de 1933, explicita o relatório nas suas 36 páginas que todas as casas estão dotadas de «dois pequenos quintais, água encanada e casa de banho devidamente apetrechada com W. C., tina e chuveiro».
Realce-se: a preocupação com a higiene e, por outro lado, a possibilidade de, nos quintais, haver pequeno horto e capoeiras. O projecto ficou a dever-se ao Arquitecto Jorge Segurado, da Repartição de Engenharia da Câmara.
Há, porém, um aspecto a que nunca se terá dado a importância merecida, mormente se pensarmos que houve, há pouco, eleições autárquicas e, em relação aos bairros sociais, algo de semelhante está – agora! – a ser encarado. E o que é? Ora veja-se: estipulou-se então que as rendas seriam de 60 ou 80 escudos, «conforme os inquilinos desejarem ser ou não proprietários do prédio que habitem durante 20 anos»!
As verbas assim conseguidas reverteriam a favor da creche atrás citada; o fundo de amortização reforçaria as dotações que «todos os anos a Câmara destinará a novas construções». Não destinou.
O que foi o empreendimento gorado
O terreno doado pelo Conde abrangia o espaço que, a nascente da Avenida Amaro da Costa, vai, na actualidade, desde a Rotunda dos Bombeiros até à Rua do Cobre. Uma extensão da ordem dos 2160 metros de comprido por 100 de profundidade.
Previa-se a construção de cerca de 238 (duzentos e trinta e oito!) fogos e – pasme-se! – além de um amplo largo a meio, deveriam construir-se uma escola, duas lavandarias, dois parques infantis, o edifício das caldeiras, biblioteca e cooperativa.
Que se envergonhem os paladinos de agora! Sim, o projecto é de há cem anos, ostentando uma modernidade invejável e… só 12 (doze) fogos foram construídos! Esses que, pouco a pouco, mais não serão que mera recordação do sonho de um visionário.
Acrescentar-se-á que – não estudei o processo, mas deduzo que assim tenha sido – o Município se viu a braços com uma doação cativa de um projecto benemerente, obrigado, portanto, a cláusulas rígidas. Ou seja, não se poderia dar ao local um destino qualquer, sem que a tónica social estivesse presente, ainda que ao de leve.
Por isso, após grandes negociações (adivinha-se), a Câmara optou, na década de 50, pela figura de expropriação dos terrenos «por utilidade pública» e encarou a hiopótese de uma urbanização que previsse, preferencialmente, serviços (instalaram-se no ângulo sudeste um estaleiro naval e uma grande oficina de metalomecânica), prédios de renda condicionada para inquilinos determinados, moradias de cooperativas de habitação.
A construção dessa parte oriental do Bairro da Pampilheira iniciou-se na década de 50. Os prédios foram arrendadas segundo a tarifa oficial (renda mensal de 1110 escudos). Deu-se prioridade a funcionários da Standard Eléctrica (fábrica de semicondutores inaugurada a 28 de Junho de 1968), das Finanças, da Câmara, das Conservatórias, do Tribunal (o prédio agora alindado com o mural pertence mesmo ao Ministério da Justiça), dos serviços públicos em geral. Uma área de prédios de rendimento e outra, dividida em lotes, para construção de moradias de dois pisos.
Na actualidade, essa tónica mantém-se. E se o amplo largo previsto no projecto do Arquitecto Jorge Segurado se não concretizou, o centro do bairro (digamos assim) é animado pelo comércio que se instalou no rés-do-chão de uma das alas de prédios de rendimento. Quanto ao destino do canto sudeste, em determinado momento pensado para albergar «indústrias limpas» (embora desactivado, o edifício do estaleiro naval mantém-se), está ocupado pelo Hospital CUF Cascais, por cinco oficinas de automóveis, pelo Centro de Inspecção Automóvel, pelo Centro de Distribuição Postal (e correspondente balcão de atendimento ao público), Fábrica de Malhas e Fábrica de Máscaras (pronta iniciativa camarária para fazer face à pandemia); mais perto do, ora moribundo, Bairro Operário, um restaurante oriental.
O futuro
A 1ª fase de demolições ocorreu em Outubro de 2010. Em comunicado distribuído às redacções, no dia 8 desse mês, a Câmara anunciava:
«O espaço será agora limpo, prevendo-se num futuro próximo o seu aproveitamento num projecto a ser desenvolvido pela Câmara Municipal».
Um documento do Gabinete de Estudos Urbanos / DUI, da Câmara, datado de Julho de 2004 sugerira uma ampla construção, cuja volumetria não vinha, porém, mencionada.
Em suma:
«Eu tive um sonho», proclamou o pastor Martin Luther King, a 28 de Agosto de 1963 – sonho cuja concretização não chegou a ver. Trinta anos antes, Artur Porto de Melo e Faro, 1º Conde de Monte Real, tivera estoutro – que também se não concretizou e cujos ‘restos’ agora recomeçaram o seu processo de extinção.
No que foi feito em seu lugar, houve cuidado em manter, ainda que ténue, a ideia de serviço público. Por conseguinte, como não poderia deixar de ser, aqui se recorda aos responsáveis autárquicos o que esse sonho e essa doação acarretavam de responsabilidade social. A ter indispensável primazia sobre visões economicistas, que desvirtuariam o necessário respeito por essoutro sonho de há um século!
O ex-presidente da Câmara Fernando Medina não foi a manifestação dos ciclistas e fez mal. Centenas de pessoas em bicicletas e trotinetes participaram na manifestação em defesa da ciclovia na Avenida Almirante Reis.
Fernando Medina perdeu uma excelente ocasião para confirmar que o ciclismo é uma alternativa válida ao automóvel, para pequenas e médias distâncias. Carlos Moedas já garantiu que a ciclovia da Avenida Almirante Reis é para acabar, mas os dados estão lançados: se ciclovia acabar, os ciclistas continuarão a circular por uma das faixas e naturalmente os automóveis terão de ir atrás.
Uma bicicleta é um veículo a circular. O código da estrada obriga os automóveis a guardarem 1,5 m de distância quando ultrapassam uma bicicleta. Lisboa é uma cidade muito dispersa, mas o aparecimento das bicicletas assistidas eletricamente está a mudar o paradigma de mobilidade na capital.
É muito interessante verificar nos vídeos recolhidos que os ciclistas são de todos os extratos económicos e de todas as preferências culturais.
A ausência de Fernando Medina na manifestação foi uma vitória para Carlos Moedas e um empate para os lisboetas que querem fluir a sua cidade. E que recusam viver em dormitórios, ao estilo de escravos modernos das grandes empresas e multinacionais.