Há greves e greves…

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Das várias greves anunciadas no respectivo cardápio para este mês uma interessava-me em particular, a dos combustíveis, anunciada e convocada com  grande animação nas chamadas redes sociais, aquelas onde toda a gente é apanhada (convocada?) para alinhar em coisas que chateiam o Governo. São as chamadas inorgânicas – talvez por falta de órgãos -, porque nenhum sindicato esteve na origem da convocatória. A tradição já não é o que era.

Esta greve não tem nada a ver com as greves das sextas-feiras já que convoca indiscriminadamente pelo telemóvel sem olhar a grupos profissionais tipo professores, enfermeiros, rodoviária, funcionários do Estado… e assim…. Aqui vale tudo desde que use um veículo automóvel de combustão interna. Os dos veículos movidos a electricidade estão naturalmente dispensados. A menos que tenham lá em casa um veículo de combustão interna que usem enquanto esperam que o eléctrico seja carregado. A ideia parece simples. Ninguém vai à bomba em dias previamente marcados nas tais redes. Interrompe-se por um dia a ida à bomba e chateia-se o Governo que fica sem cobrar os impostos agregados aos combustíveis nesse dia. É claro que os putativos grevistas tiveram o cuidado de atestar os seus depósitos no dia anterior ou guardaram para o dia seguinte. Se implicasse uma deslocação ao futebol, então aí a coisa fiava mais fino e enfiavam-se os litros necessários e não necessários para a ida e volta com desvio para a tasca habitual onde se comem “as melhores bifanas do país”.

A falar com franqueza, para mim, o custo dos combustíveis não me afecta em nada, nem sinto a diferença no peso da carteira. Podem aumentar à vontade que eu meto sempre a mesma quantia – 20 euros – nem olho para as tabelas de preços. Mas isso sou eu a falar da boca para fora.

Neste sábado tive mesmo de ir à bomba do Intermarché, que é onde eu vou sempre “meter” os meus 20 euros. Qual não foi o meu espanto de verificar que quase não tinha lugar para entrar no parque. Duas enormes bichas – uma para o lado esquerdo das bombas, outra para o lado direito – enchiam o espaço quase parecia um “stand” de auomóveis usados. Estavam lá os mais dignos representantes do parque automóvel nacional desde os inevitáveis carros com a estrelinha na frente e nome de mulher, aos modernos e jovens Peugeot 2008 e similares, duas ou três carrinhas com cargas variadas desde abóboras a restos de vedações,  Clios de várias gerações, Méganes e Capturs, uma autocaravana com matrícula espanhola e vários avulso de idade já avançadota mas com a nova matrícula. As pessoas aguardavam nas calmas a oportunidade de avançarem mais um lugar, sem qualquer sinal de impaciência, ocupadas que estavam a fazer festinhas para cima e para baixo nas telas dos seus telemóveis. Tudo pacífico,ninguém de punho no ar.

Em Lisboa menos de uma vintena de pessoas – 12 para citar o JN – decidiram descer a Avenida da Liberdade em protesto contra os preços dos combustíveis. Consta que os polícias que acompanhavam a “arruada” não faziam parte da contestação, antes foram mandados a enquadrarem os manifestantes.

A invasão no “meu” posto de combustíveis devia-se, afinal, ao anúncio da redução de ridículos dois cêntimos na gasolina e de um cêntimo no gasóleo a partir deste sábado. Continua a ser um produto caro, todos o sentimos de uma forma ou outra. Mas será preciso olhar um pouco mais para além dos impostos postos pelo Estado. Os combustíveis que consumimos, importados, chegam ao país na forma de petróleo bruto, e é o Brent que define o valor do barril em dólares. Na semana passada, o Brent fechou a 84,92 dólares o barril. E a tendência é para continuar a subir. Por muito que o Governo “saque” cerca de 50 por cento em impostos no custo do litro, a verdade é que o preço sobe e desce ao sabor do tal Brent.

Bem se pode ir a Espanha para recuperar uns euros entretanto gastos na deslocação, que a coisa não vai mudar seja com que governo for, sempre dependente da ditadura do Brent.

As televisões bem podem continuar a campanha de alarmismo em relação ao possível aumento dos preços “por causa do custo dos combustíveis que sobe todos os dias” como já ouvi em algumas de um certo grupo. O hábito, o comodismo, a necessidade continuarão a justificar a utilização dos veículos motorizados. Os pópós vão continuar a circular, vão continuar a serem muito utilizados em dias festivos de futebol ou outros, os custos dos combustíveis continuarão a serem esquecidos nos festivos e sonoros cortejos avenida acima avenida abaixo.

Por curiosidade, fui ver números relativos ao negócio automóvel. Em 2019 venderam-se 223.799 veículos ligeiros. Com a pandemia, os números baixaram para 176.992 em 2020 e, até Setembro deste ano, para 136.585.

Mais interessantes serão os números dos carros de luxo que, pelos vistos, não sofreram com a crise nem dos combustíveis nem da Covid-19. Neste ano, foram vendidos 831 Porsches, 30 Ferraris e 21 Bentleys. Mesmo assim, em 2020, a Porsche vendeu 749 unidades e a Bentley, 21. No corrente ano, o mercado de carros de luxo já atingiu as 911 unidades até Setembro, o que dá uma média de 101 carros por mês.

Como diria o meu amigo inglês, “no coments”.

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