Malabaristas, acrobatas, mimos, homens-estátua, palhaços, músicos, nas freguesias mais turísticas as ruas de Lisboa estão cheias de artistas de rua. São quase todos estrangeiros, a dar espetáculos para quem passa, igualmente quase todos estrangeiros.
vídeo
O turismo é uma alavanca importante da economia nacional, mas na verdade este tipo de turismo é desinteressante sob muitos pontos de vista. Culturalmente, vale zero. Estes turistas não frequentam cinemas nem teatros, a maioria não visita museus, procuram cenários para se fotografarem neles sem saber a História do chão que pisam. Nos restaurantes e bares, a maioria dos trabalhadores são imigrantes e as empresas são, cada vez mais, franchisados de marcas internacionais. Incaracterísticas.
Até os museus estão a adquirir formatos de entretenimento hollywoodescos, como é o caso do Quake, uma sala de espetáculo onde se recria o terramoto de 1755.
Ou seja, estar em Lisboa ou noutro lado qualquer, é o mesmo. Apenas muda o cenário.
Uma tarde destas, o meu marido saiu de casa para ir, a pé, a uma rua ao lado da nossa. Voltou rápido porque o jardineiro que procurava não estava em casa. Meia hora depois, cerca das 5 da tarde, voltou a ir a casa desse senhor. Passou uma hora… Passaram duas… Eu tentei o contacto telefónico e ele disse que já vinha, que não me preocupasse… Mais uma hora e dizia o mesmo, o que já não me convencia. Insisti e acabou por me dizer que andava perdido pelos campos… que já tinha caído e que estava buscando os óculos sem os quais quase não consegue ver.
Decidi chamar a GNR e relatar o que se passava, dando as indicações que tinha: o número de telemóvel e a zona por onde andaria… E começou o medo. A GNR não dava com ele. Por telemóvel dizia que não via casas nem nada… Enfim!
Também não demorei muito a chamada, porque não sabia que carga ele teria e, sem carga, a GNR não poderia proceder à geolocalização… E assim estive… Sozinha, claro, com contactos esporádicos da GNR a dizer que nada podiam informar, que não davam com ele.
Passavam as 11 da noite quando mo trouxeram. Andou kms. Ele está habituado a andar muito… A lembrar tempos da guerra… E também por isso tem a mania velha de se meter por caminhos e veredas… Afinal, estava a quilómetros de onde devia estar.
Eu já saía pouco de casa, porque sei que ele não está bem… Início de alzheimer, tal como as irmãs… que já foram…Agora, depois disto, tenho medo de ir à mercearia da rua e ele fazer algum disparate em casa.
Ele nunca quis nem quer mudar de casa, vender esta e ir para a vila, que, sendo pequena, me era mais confortável por tudo. Não quer. Além disso, como de costume, ameaça matar-se e eu temo, porque na sua família é habitual. Uma das irmãs morreu por se haver atirado a um poço e a outra também tentou, mas acabou por ser internada num lar e rapidamente deixou de ter sequer possibilidade física de o tentar.
É assim que vivo ou sobrevivo. Eu nunca gostei de estar aqui… Esta terra é hostil para os de fora e ele, sendo de perto, é de fora porque não viveu aqui… Terei duas ou três amigas, mais conhecidas que amigas, a quem nem sequer me atrevo a pedir ajuda. Eu que tanto ria e brincava já não me reconheço. Sorrir é já um acto raro. Saio o indispensável, porque temo deixá-lo só. Vou agora tentar consulta com um outro médico, ainda que saiba que isto é apenas uma fase inicial . Ele tem medicação, mas, já se sabe, milagres não há!
Leio uma notícia sobre um automobilista que atropelou dois indivíduos que circulavam numa trotinete. Verifico que há alguma legislação sobre esta matéria, sem regulamentação e claramente insuficiente para o que sucede hoje nas grandes cidades. Com efeito, eu própria fui, há duas semanas, atropelada por uma trotinete. Estava na passadeira, um carro parou para me dar passagem e, de súbito, o carro é ultrapassado pela direita por uma trotinete ocupada por dois rapazolas. Claro que me abalroaram. O que seguia atrás ainda se desequilibrou. Pôs um pé no chão e lá seguiram à sua vida, indiferentes ao facto de eu ter ficado caída. O condutor do automóvel saiu para me ajudar a levantar e perguntou-me se eu precisava de uma testemunha. Mas testemunha do quê? Os rapazolas seguiram viagem a alta velocidade e nem a cor da trotinete conseguimos ver, já que a matrícula é inexistente.
Pronto, é o estado das coisas. Diz a lei que quem circula de trotinete está sujeito às regras de trânsito (que não conhecem). Mas nós vemo-los a circular sem que alguma autoridade olhe para eles e os mande parar ou os autue pelo simples facto de não irem nas ciclovias ou estarem a circular em zig-zag pelo meio dos carros ou em excesso de velocidade. As autarquias gastaram rios de dinheiro em ciclovias que, as mais das vezes, os utilizadores de trotinetes e bicicletas não utilizam. É verdade que algumas estão construídas sem terem sequência ou mesmo entrada ou saída. Foram ali simplesmente plantadas.
Mas voltemos à lei: ceder passagem ou sinalizar manobras é coisa que não fazem. Usar luzes e refletores ao anoitecer ou em condições de visibilidade fracas, nem pensar. Manter uma distância de segurança que permita travar e desviar-se de obstáculos é outra medida ‘desnecessária’. Circularem dois ocupantes? Não. Às vezes, como agora no fim do ano, vi que circulavam três… Diz a lei que os passeios estão reservados a peões e condutores de velocípedes até aos dez anos. Alguém cumpre? Não. Alguém fiscaliza? Não. E quando pensamos que vão a falar sozinhos, afinal vão ao telefone com auscultadores, indiferentes ao facto de representarem uma distração e bloquearem os sons do exterior.
Tomaram conta das ruas, em nome da rapidez de circulação e do ambiente. A mim parece-me que foi mais para circularem sem serem responsabilizados por alguma coisa, independentemente dos danos que sofrem ou causam. Aliás, também se diz que estes meios de transporte foram implementados em nome da saúde. Eu só não entendo de qual saúde? De quem? Já que nem são obrigados a usar capacete…
Voltemos à lei, uma vez mais. Desta feita, à inexistente. Nada prevê uma idade mínima ou qualquer outro requisito específico para a condução de velocípedes, o que significa que as crianças podem andar à vontade, em qualquer lugar, com risco para elas e para os peões. Quanto aos seguros, sabemos como funcionam: as empresas de aluguer têm seguros aplicáveis quando a regras de trânsito cumpridas e, como isso nunca acontece, estamos conversados…
Dizem-me que o Automóvel Clube de Portugal tem feito pressão para que alguma coisa seja feita. Por mim apoio, nem que tenha de me manifestar na rua.
Porque a verdade é que ninguém regulada nada desta matéria. Possivelmente até ao dia em que um filho ou um neto de algum governante tenha o azar de atingir alguém ou ser atingido por um destes irresponsáveis. Neste princípio de 2023, desejo aos leitores Feliz Ano Novo com menos bicicletas e trotinetas. Mais segurança!
Desde aquele dia que procuro um sinal de ti. Só há pouco, por segundos (não sei como se mede o tempo nos sonhos) me deste um. Um frame apenas. Um sinal de qualquer das maneiras.
Fazes anos hoje, não sei em que dimensão estás, sei que fazes anos hoje. Enganei-me tantas vezes na tua idade…
Uma vez dei-te dois balões, daqueles com números, com menos dez anos, comprei um cinco mas afinal era um seis. Disseste que era uma brincadeira, estavas habituado a que, em cada três prendas que te oferecia, uma era de pura brincadeira. Muito séria disse que não, mais sério respondeste que a tua idade era outra, mais dez anos! Arranjei a desculpa ideal, “estás a ver como te vejo muito mais novo?”
Era obrigatório passarmos, nem que fosse por umas horas, os nossos aniversários juntos. Algumas vezes, por agenda familiar, não o fazíamos no próprio dia, antes no dia anterior ou posterior. Até porque um aniversário é quando um homem ou mulher quiser, o tempo é apenas uma necessidade da Humanidade se organizar. Também não falhávamos o Natal, na mesma lógica do tempo. Tu eras o meu Natal.
No ano passado dei-te um porta-chaves de prata, com as tuas iniciais gravadas. Foi a prenda mais rebuscada, mais pensada, afinal tinhas tantas coisas. Claro que este não servia para a quantidade de chaves que tinhas e não tentaste sequer encontrar uma solução. Ainda sugeri que o usasses para as chaves da garagem mas tu, com toda a descontração, colocaste-o numa chávena. Percebi que nunca mais irias pegar nele e provavelmente irias perdê-lo dentro de casa.
Pedi-to uns tempos depois, queria gravar no outro lado o meu nome de código que definiu a nossa amizade. Andaste à procura, procuraste e procuraste, e, vá lá, encontraste-o.
Ficou aqui por casa um tempo, não é assim tão barato gravar tantas letras em prata. O fecho estragou-se, entretanto, e só neste Natal é que o mandei arranjar. Agora andas sempre comigo. Para sempre.
Há momentos em que não conseguimos manter a compostura, mesmo em ambiente solene, ou mais ou menos… Havia silêncio, muitas fisionomias de boca aberta e fechada…a confusão bem fácil de fazer, mas…volto um bocadinho atrás para vos situar no local. A hora já não sei qual era.
Numa das visitas a Londres, acompanhada por uma pessoa de família e uma amiga, tinha quatro dias para cumprir um plano de viagem com escolhas sugestivas que as fizessem conhecer a cidade. Pouco tempo, sempre o mesmo de que disponho, e tanto por onde escolher! Ficámos alojadas nos subúrbios, num bairro multicultural considerado problemático na altura. Era a última paragem de metro, Brixton, hoje uma zona ainda colorida, como então, mas muito procurada por turistas depois de requalificada.
A população predominante era composta por portugueses e jamaicanos. Acho que nunca tinha visto tanta réplica de Bob Marley à saída da estação de metro, ao cimo de escadas e escadas rolantes, desde a linha tão abaixo do solo, que parecia sair das entranhas da terra. Reggae…dava vontade de começar logo a dançar no passeio.
Os moradores de várias etnias conviviam pacificamente. Se havia problemas, não eram visíveis a olho nu, nem pareciam afectar o calmo decorrer da vida diária. Era o que nos diziam Fred e Mila, o casal que nos dava alojamento num quarteirão de vivendas geminadas. O primeiro andar, impecavelmente limpo e decorado com materiais das Selfridges, ficava todo por nossa conta. Serviam um belo pequeno-almoço, faziam-nos companhia durante esse intervalo de tempo, davam conselhos como se fôssemos da família. Mais: como sabiam que íamos passar o dia a comer porcarias pela cidade, mal chegávamos a casa ofereciam uma sopa bem portuguesa, que servia de jantar e aquecia os corações. Nunca gostámos tanto de sopa! Pela tardinha, ainda enredadas no trânsito, olhávamos os relógios e já antecipávamos : “vamos comer a sopa do Fred…de que será feita hoje?” Ele um cozinheiro de mão cheia, ela a decoradora com um gosto incomum.
Havia um jardim que o Fred cuidava com amor, delimitado pelas paredes laterais das casas vizinhas e um muro ao fundo, onde se apoiava uma árvore de porte considerável. A meio da zona relvada, um poste com caixinhas de sementes para os passarinhos e uma mais baixa para o esquilo “da casa”. À volta deambulava o gatarrão da família, à procura de umas asinhas, com penas e tudo, para um acepipe, se conseguisse apanhá-las. Tudo corria bem, mas nada do que desejavam as duas, era coincidente com os meus desejos. A mais velha, com quem voltaria anos depois, tinha de tirar uma fotografia diante de Buckingham Palace, para mandar para casa. E como não lhe faltavam meios, insistia em conhecer os Harrods e fazer lá as compras todas. A mais nova só colocava a condição de visitar o Museu de Cera Madame Tussauds. Derrubaram os meus planos. Contrariada, acordava de madrugada no segundo dia, a tempo de ver o gato escorregar pelo tronco da árvore abaixo, com um barulho de unhas de arrepiar, num arremesso fracassado ao ramo onde um pássaro pousava, voando no minuto exacto do salto do predador. Na minha cabeça refazia o plano dos circuitos para agradar a ambas, com intenção de pedir concessões no dia seguinte. Torre de Londres, South Kensington, o Museu de História Natural e os Harrods, ficariam adiados. Nem estaria mal fazer então as compras nas lojas de Al Fayed, para não deixar para o último dia…
Já na rua, animava cada uma delas: a mais velha fazia a fotografia diante do Palácio Real, a outra a tão desejada entrada no Museu de Cera. Para minha surpresa eu mesma, que sempre resistira em prol de outras escolhas, ficava bem impressionada com a organização e interesse da visita “guiada” pelos comentários áudio. Conduzidas em réplicas eléctricas de táxis antigos, com uma barra à frente da cintura, visitávamos Londres de várias épocas, até a de um Shakespeare meditativo escrevendo na sua mesa, depois as ruas dos bairros miseráveis do tempo da Revolução Industrial e mais atrás. A qualidade das figuras simulava o real na perfeição: bêbados e prostitutas à porta de bares decadentes, vítimas de Jack, o Estripador, ensanguentadas em cantos de ruas escuras da época vitoriana, a justiça da guilhotina. Aí já nos tínhamos apeado para seguir um filme numa sala exígua. Quando aparecia o instrumento da decapitação em grande plano e ruidosamente caía, ouvia-se um grito em uníssono e levávamos a mão ao pescoço…
fotografia de Helena Ventura Pereira
De novo nos automóveis, desaguávamos depois no restaurante para fazer despesa certa, antes de seguirmos viagem. Mas o que tornava aquela aventura memorável, era a ronda pelo espaço das figuras notáveis, com fotografias junto dos nossos ídolos, entre frases do género: “a ficção supera alguma realidade”. Era nesse exacto momento que a minha amiga esbarrava com “alguém” e gentilmente pedia desculpa: “I´m so sorry, sir”. Silêncio, ou nem tanto…Eu não conseguia conter o riso quando ela olhava para trás e comentava: “malcriado, nem sequer uma resposta…” “Como há-de ele responder, se é de cera?”. Volta lá, para veres melhor quem é…”. Era Sir David Attenborough, ainda novo, sorridente, em mangas de camisa, com o ar descontraído que lhe conhecemos. O que valia a esta amiga era o sentido de humor e depressa alinhava na sugestão de uma foto em que parecem em amena cavaqueira.
By Jordiferrer – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=63429305
Que prazer guardar esta memória da figura de cera de um naturalista que admiro há tanto tempo! É que, para acompanhar a passagem dos anos, as imagens vão-se sucedendo… Só mais um detalhe de não menor importância. No dia seguinte percorremos South Kensington, uma parte do Museu de História Natural e os Harrods, claro. Mas fazer compras por lá? Eram os armazéns onde a rainha se abastecia…Não chegávamos aos preços. Só a mais velha trazia uma mala-estojo de executivo para o filho, em troca de uma fortuna. À tarde voltávamos a Oxford Street, ao piso inferior das Selfridges. E era daquele mundo de promoções atractivas que trazíamos o grosso das prendas. Já no avião eu propunha.”E se voltássemos daqui a quinze dias?”.
O Serviço Nacional de Saúde é muito mais do que urgências hospitalares ou internamentos. Devia ser um circuito integrado, desde os cuidados de saúde primários até todos os outros níveis do atendimento hospitalar. Mas não é. Infelizmente, funciona mal.
Por exemplo, um cidadão que tenha ido a um hospital público fazer um exame pedido por um médico que ocasionalmente o atendeu numa consulta hospitalar, só consegue disponibilizar os resultados desse exame ao seu médico de família se cumprir um trâmite burocrático que o obriga a responder a um inquérito com perguntas como, por exemplo, o nome do clínico que elaborou o relatório do exame, o dia exacto da realização do exame, etc., questões que o hospital sabe sem precisar de perguntar a mais ninguém. Com a deliciosa nota de que a “informação solicitada será disponibilizada num prazo indicativo que vai até aos 60 dias”.
Num mundo cheio de computadores por todo o lado, em que sabemos ao minuto o que se passa no outro lado do mundo, o médico de família não tem acesso a um dado clínico do seu paciente. Porque ainda fazem dos computadores caderno de notas manuscritas.
Aos 77 anos, Luiz Inácio Lula da Silva tem uma segunda oportunidade para ficar na História como o mais extraordinário e surpreendente Presidente do Brasil.
Deste lado do Atlântico desejamos-lhe sabedoria par fazer do Brasil um sítio decente para todas as pessoas que lá vivem e sorte no drible aos inimigos da democracia.
O facto do antecessor não ter estado na cerimónia de tomada de posse é o sinal da raiva e do despeito que se vive nesse lado da barricada.
No discurso, Lula prometeu “reconstruir” o país sobre as “ruínas” deixadas por Bolsonaro. “Esvaziaram os recursos da saúde, desmontaram a educação, a cultura, a ciência e tecnologia, destruíram a proteção do meio ambiente”, disse Lula, que também reafirmou o compromisso de reduzir a zero o desmatamento na Amazónia. “Não é preciso derrubar nenhuma árvore”, disse o presidente, assegurando que isto não impedirá o desenvolvimento do poderoso setor agrícola brasileiro.
Ninguém duvida que o mundo está com Lula. Um número recorde de chefes de Estado compareceu a esta cerimónia. Ninguém lamentou a ausência de Bolsonaro. Em vez dele, o chefe índio Raoni, juntamente com representantes de outras minorias e classes populares, entregaram a faixa presidencial, feita em seda verde e amarela e bordada com ouro e diamantes.
Foi o grande momento emocional para Lula. “É inaceitável que continuemos a conviver com o preconceito, a discriminação e o racismo. Somos um povo de muitas cores, e todas devem ter os mesmos direitos”, disse o novo Presidente do Brasil.
Já na Guerra dos Cem Anos (1337-1415), entre a Inglaterra e a França, uma outra heroína, Joana d’Arc (1412-1431), os soldados seguiram-na com fervor, até que alguém (sempre a inveja!…) ciciou que havia bruxaria pelo meio e a pobre acabou por ser queimada na fogueira.
Do cavalo-marinho do pai escapou à justa o Toninho, de 9 anos. Combinou com a Maria encontrarem-se naquele recanto fofo da seara do Ti Alfredo. Encontraram-se, deve ter sido bonito para a idade, mas logo adregou passar por perto uma vizinha, que viu os dois enlaçados e correu a meter tudo nas saias da mãe da Maria. O Toninho jurou a pés juntos que até nem conhecia bem quem era essa Maria e, não senhor, nada fizera. O pai sentenciou-lhe então, pela primeira vez, «brincar, brincar, mas na gaita não tocar!». E perdoou-lhe.
Nos tempos da Inquisição, também era assim. Não de guerras nem de amorezinhos em loiras e mornas searas, mas de milhares como os de Inês. Aquele marmanjo está a sair-se demasiado bem nos negócios, o melhor é a gente acusá-lo de ser cristão-novo e de andar por aí em rezas às escondidas. Se calhar, até alguns dinheirinhos dele nos podem calhar pela denúncia. Atire-se o homem prá fogueira!
E há também aquele outro senhor, o da guerra santa – como a dos cruzados da Idade Média – que já o disse alto e bom som: «Descubram-me os traidores! Digam-me já quem é que anda praí a murmurar contra a minha guerra! Eu recompenso!».
Enfim, o estilo de todos os tempos!
Lançou-se a minha amiga Maria Federica Petraccia, da Universidade de Génova, à descoberta de como é que esses guisados se cozinhavam na Roma antiga. Daí nasceu o livro Indices e Delatores nell’Antica Roma. Indices eram, ao que parece, os que, tendo participado no crime, acabavam por fornecer dados para que o processo chegasse ao fim e eles ficassem ilibados ou, pelo menos, com penas aliviadas. Delatores, ao invés, eram os que andavam de fora a farejar, nada os havia prejudicado, mas decerto lhes caberia algum provento se denunciassem o escravo fugitivo, as heranças ocultas ou sem pretendentes…
Tem-se mesmo a ideia, escreve Federica Petraccia, que uma forma de então se andar protegido era confiar-se a informadores profissionais, esses delatores. No reinado do primeiro imperador, Augusto, os delatores foram extraordinariamente eficazes, sobretudo para revelarem tentativas de assassinato do imperador e para controlarem as multidões. Houve inclusive uma lei, a lex Iulia maiestatis, que estipulava, no ano 8 antes de Cristo, ser crime contra o Estado a injúria verbal ou a simples calúnia contra o Príncipe ou, ainda, a difamação dos membros da sua família. (¿Não se condenava recentemente quem ousasse pronunciar a palavra «guerra»?).
O segundo imperador romano foi Tibério, reinou de 14 a 37 da nossa era. No seu tempo, «as acusações pululavam nos lugares públicos e nas casas particulares e até os senadores mais respeitáveis se abaixavam às mais vergonhosas delações, alguns abertamente, muitos às ocultas». Havia uma relação estreita entre o imperador e os delatores, uma relação somente conhecida e documentada nos segredos da chancelaria imperial, «uma espécie de do ut des [«dou-te para que tu me dês», ¿onde é que eu já ouvi isto?…], um instrumento de excepcional pressão política nas mãos do imperador, uma forma de obter reconhecimentos, promoções e riquezas para os segundos».
Refere-se Federica Petraccia a dezenas de casos ocorridos nesse (já longínquo, repita-se…) tempo dos Romanos. Aludo a três, de índole diversa, só para exemplificar.
Um, de aspecto agradável, do ano 362, a excepção para confirmar a regra. Dois emissários imperiais que haviam sido dispensados do serviço prometeram ao imperador Juliano revelar-lhe o esconderijo de um certo Florêncio, na condição de o imperador os readmitir. E, aqui, o príncipe não esteve com meias medidas: chamou-lhes delatores e disse não ser conveniente para um Príncipe deixar-se levar por informações indirectas para encontrar quem se escondera com medo de ser assassinado.
Um outro, de contexto singular. O ex-pretor Paulo estava num banquete e tinha no dedo um camafeu com a efígie de Tibério. A dado momento, já com os copos, pegou num urinol. O caso foi observado quer por Marão, um dos delatores mais famosos da época, quer por um dos seus escravos. Este último apressou-se a tirar-lhe o anel e enfiou-o no dedo, a fim de tornar inconsistente a acusação, que Marão já estava a preparar, de que Paulo encostara às virilhas a imagem imperial!…
O terceiro faz lembrar a nossa constante busca de um bode expiatório. Corria o ano de 472 a. C. Pairava sobre Roma uma pestilência inaudita: as mulheres grávidas morriam e davam à luz fetos mortos. Quando se haviam esgotado todos os normais procedimentos de expiação, há um escravo que segreda aos pontífices que a vestal Orbínia perdera a virgindade a que estava obrigava e continuava a presidir, assim impura, às celebrações sagradas. Julgada como culpada, vergastaram-na, arrastaram-na através da cidade até ao sepulcro. Um dos dois cúmplices suicidou-se, o outro foi punido como era de lei – e a pestilência acabou!
Há obras que surgem no momento oportuno, porque os seus mentores reflectem sobre o mundo e lhes pareceu que, de facto, era importante lançar uma pedrada no charco.
É o caso dos temas escolhidos pela equipa da revista Egoísta, chefiada por Mário Assis Ferreira, da Estoril-Sol. ¿Que assunto poderia interessar, sem lamechices, na quadra natalícia? ¿Que personagem ocupa, na celebração, o principal papel? Maria, a mãe! Maria, a consubstanciar, aqui na sua não fácil função maternal, o papel da Mulher.
«Maria» é, pois, essa evocação de um nome onde cabem, na feliz expressão de Assis Ferreira, «todas as Mulheres do mundo»:
«Mulheres, Mães, que são esteio do que somos e inspiração de amor.
Amor que parece arredado deste conturbado mundo em que a angústia tende a sufocar a esperança».
Desta vez, Mário Assis Ferreira foi parco na introdução: 10 linhas que terminam a sugerir a divinização da Mulher, tal a relevância que lhe deve ser dada – e aqui se dá!
capa da revista Egoísta
Com a inesperada maquetização a que a equipa gráfica, chefiada por Patrícia Reis, já nos habituou – é sempre impossível imaginar com que nos vão surpreender!… – este nº 75 de Egoísta, com 124 páginas, reúne colaborações bilingues (português / inglês) de, entre outros:
– Maria Teresa Horta («Maria», poema inédito);
– Afonso Cruz («Nem todas são Marias», com impressionantes fotos de mui expressivas anciãs…);
– Maria do Rosário Pedreira («Maria – Três poemas e uma canção»);
– Inês Pedrosa («Nomes»);
– Maria João Martins («Falar às jovens raparigas em flor»);
– José Eduardo Agualusa («Gramática do Instante e do Infinito», ilustrado com soberbas fotografias a preto e branco);
– Patrícia Cruz («Eu, Maria, me confesso»);
– Urbano Tavares Rodrigues («Conto de amor»);
– Sérgio Costa Araújo («Do solo árido nasce a aurora», com estampas antigas sobre a vida de Nossa Senhora, no seguimento da passagem 2: 6-7 do evangelho de S. Lucas, referente ao nascimento de Jesus);
– Yvette Centeno (o poema «Maria»);
– Richard Zimler («Paula Rego e a Virgem Maria: de carne e osso»);
– Rainer Maria Rilke («O nascimento de Maria»)…
Nota, ainda, para «Madonno», com desenhos de Tomás Castro Neves, texto de Xavier Pereira e fotografia de João Paulo: na sua aparente irreverência, um convite à reflexão, pequenos textos, salpicos de poesia.
Eloquentes, as fotografias de plantas e de flores, de Pedro Serpa.
Termino com a referência ao texto brincalhão de Maria Manuel Viana, «A importância de ser». Não Ernesto, como na peça de Óscar Wilde, mas Maria. E ela diz que quer ser Maria, simplesmente, e não «Dona Maria», como lhe chamam «os operadores dos call centers, o meu carteiro, os funcionários nos guichets, a minha empregada. E eu odeio. Sou MM e não Maria. Ponto». Para perorar, no final lindo:
«(…) a dupla MM, nome que para mim alguém inventou e de que tanto gosto. MM, aime-aime. Eu, tu, para sempre até morrermos todos e a loucura se esgueirar por entre as palavras».
Em latim, Maria liga-se a mar. O oceano a perder de vista. A Mulher com letra maiúscula em toda a sua infindável extensão…
Uma democracia não se faz com eleições sucessivas até que os partidos da oposição alcancem o poder. Faz-se dentro de um quadro de estabilidade, tendo prazos a cumprir, os quais só devem ser interrompidos em circunstâncias anormais.
Foi o que aconteceu durante a pandemia e, num passado ainda recente, quando Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia da República, no tempo de Pedro Santana Lopes. O ex-primeiro-ministro do PSD saltou da presidência da Câmara de Lisboa para a chefia do governo, apenas porque era vice presidente do seu partido. Caso contrário nunca lá tinha posto os pés. Se alguma vez houve pouca legitimidade democrática para um putativo dirigente partidário assumir essas funções, esse foi um verdadeiro caso de estudo, uma vez que Pedro Santana Lopes nem deputado era. Muito menos ministro no governo de Durão Barroso. Acresce que o PSD aceitou as regras que lhe foram impostas por Jorge Sampaio, para a saída do então primeiro ministro rumo a Bruxelas. Não podia é almejar um estatuto de excepção, quando já se sabia que Pedro Santana Lopes, nem no PSD era consensual, quanto mais na oposição. Com a degradação da sua governação, manter Santana Lopes como primeiro-ministro, diminuído que estava na sua legitimidade democrática, face ao seu antecessor, era manter um moribundo a liderar os destinos do país. O que se passou a seguir veio provar que o já falecido Presidente da República tinha toda a razão na decisão tomada.
Também podemos divagar sobre as reais intenções de Jorge Sampaio, quando aceitou dar posse àquele governo do PSD. Eu tenho uma opinião pessoal. O PSD na sua incessante apetência pelo poder a qualquer custo, acabou por cair na esparrela. Sampaio quis dar tempo ao PS para se recompor, e logo que percepcionou um grande desgaste no governo de coligação PSD/CDS, fê-lo ir a votos.
No final de 2022, depois de um ano com sucessivos casos no governo de António Costa, “a pedido de várias famílias”, todas elas do mesmo espectro político, Marcelo foi instado a dissolver o parlamento, numa espécie de golpe estado palaciano, imitando Sampaio, tentando alterar a correlação de forças no poder, dentro da Assembleia da República, o lugar onde de facto tudo se decide.
O engraçado no meio disto tudo é que os atuais proponentes desta medida drástica, são os mesmos que ainda há anos achavam que Costa não tinha legitimidade democrática para exercer o poder, pelo facto de não ter sido o mais votado, mesmo tendo uma maioria que o apoiava.
Marcelo Rebelo de Sousa pode ser tudo menos distraído. E sabe melhor do que todos nós, que a sua tentativa do ano passado, 2021, de encurralar o PS, no mínimo, numa maioria relativa que o obrigasse a fazer uma coligação com o PSD, de Rui Rio, uma espécie de Bloco Central; já nem ponho como hipótese uma maioria de direita; lhe correu bastante mal. Dessas eleições saiu a maioria absoluta deste governo.
As últimas sondagens dão de novo ao PS uma maioria relativa. Só quando for perceptível uma mudança no tecido eleitoral, que dê garantias ao PR que haverá novas e diferentes maiorias a formar, este tomará a iniciativa de dissolver a AR. Nunca o poderá fazer antes, porque a correr mal, fica refém dos seus próprios erros de análise, e deixa a sua direita política com uma margem de manobra curta, encurralada numa tentativa de golpismo a qualquer preço. É que depois de Marcelo há umas novas eleições presidenciais, e a ser assim, a direita estaria a entregar o lugar de mais alto magistrado da nação a um candidato de esquerda de mão beijada. Ou acham que o país quer um Presidente golpista, em vez de ser um garante de estabilidade?
Mesmo com as “burricadas” que este governo tem feito, tenho dúvidas que algo de significativo mudasse numas eleições a curto prazo.