DESCULPE SENHOR ATTENBOROUGH

Memória de viagens, antes dos voos low cost e da invenção do Airbnb e alojamentos locais mercantilizados.

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fotografia de Helena Ventura Pereira

Há momentos em que não conseguimos manter a compostura, mesmo em ambiente
solene, ou mais ou menos…
Havia silêncio, muitas fisionomias de boca aberta e fechada…a confusão bem fácil de fazer,
mas…volto um bocadinho atrás para vos situar no local. A hora já não sei qual era.

Numa das visitas a Londres, acompanhada por uma pessoa de família e uma amiga, tinha
quatro dias para cumprir um plano de viagem com escolhas sugestivas que as fizessem
conhecer a cidade. Pouco tempo, sempre o mesmo de que disponho, e tanto por onde
escolher!
Ficámos alojadas nos subúrbios, num bairro multicultural considerado problemático na
altura. Era a última paragem de metro, Brixton, hoje uma zona ainda colorida, como então,
mas muito procurada por turistas depois de requalificada.

A população predominante era composta por portugueses e jamaicanos. Acho que nunca
tinha visto tanta réplica de Bob Marley à saída da estação de metro, ao cimo de escadas e
escadas rolantes, desde a linha tão abaixo do solo, que parecia sair das entranhas da
terra. Reggae…dava vontade de começar logo a dançar no passeio.


Os moradores de várias etnias conviviam pacificamente. Se havia problemas, não eram
visíveis a olho nu, nem pareciam afectar o calmo decorrer da vida diária. Era o que nos
diziam Fred e Mila, o casal que nos dava alojamento num quarteirão de vivendas
geminadas. O primeiro andar, impecavelmente limpo e decorado com materiais das
Selfridges, ficava todo por nossa conta.
Serviam um belo pequeno-almoço, faziam-nos companhia durante esse intervalo de
tempo, davam conselhos como se fôssemos da família. Mais: como sabiam que íamos
passar o dia a comer porcarias pela cidade, mal chegávamos a casa ofereciam uma sopa
bem portuguesa, que servia de jantar e aquecia os corações.
Nunca gostámos tanto de sopa! Pela tardinha, ainda enredadas no trânsito, olhávamos os
relógios e já antecipávamos : “vamos comer a sopa do Fred…de que será feita hoje?” Ele
um cozinheiro de mão cheia, ela a decoradora com um gosto incomum.

Havia um jardim que o Fred cuidava com amor, delimitado pelas paredes laterais das
casas vizinhas e um muro ao fundo, onde se apoiava uma árvore de porte considerável. A
meio da zona relvada, um poste com caixinhas de sementes para os passarinhos e uma
mais baixa para o esquilo “da casa”. À volta deambulava o gatarrão da família, à procura
de umas asinhas, com penas e tudo, para um acepipe, se conseguisse apanhá-las.
Tudo corria bem, mas nada do que desejavam as duas, era coincidente com os meus
desejos. A mais velha, com quem voltaria anos depois, tinha de tirar uma fotografia diante
de Buckingham Palace, para mandar para casa. E como não lhe faltavam meios, insistia
em conhecer os Harrods e fazer lá as compras todas. A mais nova só colocava a condição
de visitar o Museu de Cera Madame Tussauds.
Derrubaram os meus planos. Contrariada, acordava de madrugada no segundo dia, a
tempo de ver o gato escorregar pelo tronco da árvore abaixo, com um barulho de unhas
de arrepiar, num arremesso fracassado ao ramo onde um pássaro pousava, voando no
minuto exacto do salto do predador.
Na minha cabeça refazia o plano dos circuitos para agradar a ambas, com intenção de
pedir concessões no dia seguinte. Torre de Londres, South Kensington, o Museu de
História Natural e os Harrods, ficariam adiados. Nem estaria mal fazer então as compras
nas lojas de Al Fayed, para não deixar para o último dia…

Já na rua, animava cada uma delas: a mais velha fazia a fotografia diante do Palácio Real, a outra a tão desejada entrada no Museu de Cera.
Para minha surpresa eu mesma, que sempre resistira em prol de outras escolhas, ficava
bem impressionada com a organização e interesse da visita “guiada” pelos comentários
áudio. Conduzidas em réplicas eléctricas de táxis antigos, com uma barra à frente da
cintura, visitávamos Londres de várias épocas, até a de um Shakespeare meditativo
escrevendo na sua mesa, depois as ruas dos bairros miseráveis do tempo da Revolução
Industrial e mais atrás.
A qualidade das figuras simulava o real na perfeição: bêbados e prostitutas à porta de
bares decadentes, vítimas de Jack, o Estripador, ensanguentadas em cantos de ruas
escuras da época vitoriana, a justiça da guilhotina. Aí já nos tínhamos apeado para seguir
um filme numa sala exígua. Quando aparecia o instrumento da decapitação em grande
plano e ruidosamente caía, ouvia-se um grito em uníssono e levávamos a mão ao
pescoço…

fotografia de Helena Ventura Pereira

De novo nos automóveis, desaguávamos depois no restaurante para fazer despesa certa,
antes de seguirmos viagem. Mas o que tornava aquela aventura memorável, era a ronda
pelo espaço das figuras notáveis, com fotografias junto dos nossos ídolos, entre frases do
género: “a ficção supera alguma realidade”.
Era nesse exacto momento que a minha amiga esbarrava com “alguém” e gentilmente
pedia desculpa: “I´m so sorry, sir”. Silêncio, ou nem tanto…Eu não conseguia conter o riso
quando ela olhava para trás e comentava: “malcriado, nem sequer uma resposta…”
“Como há-de ele responder, se é de cera?”. Volta lá, para veres melhor quem é…”.
Era Sir David Attenborough, ainda novo, sorridente, em mangas de camisa, com o ar
descontraído que lhe conhecemos. O que valia a esta amiga era o sentido de humor e
depressa alinhava na sugestão de uma foto em que parecem em amena cavaqueira.

By Jordiferrer – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=63429305

Que prazer guardar esta memória da figura de cera de um naturalista que admiro há tanto
tempo! É que, para acompanhar a passagem dos anos, as imagens vão-se sucedendo…
Só mais um detalhe de não menor importância.
No dia seguinte percorremos South Kensington, uma parte do Museu de História Natural e
os Harrods, claro. Mas fazer compras por lá? Eram os armazéns onde a rainha se
abastecia…Não chegávamos aos preços. Só a mais velha trazia uma mala-estojo de
executivo para o filho, em troca de uma fortuna.
À tarde voltávamos a Oxford Street, ao piso inferior das Selfridges. E era daquele mundo
de promoções atractivas que trazíamos o grosso das prendas. Já no avião eu propunha.”E
se voltássemos daqui a quinze dias?”.

6 comments

  1. Crónica cheia de colorido e boa disposição, muito bem escrita num discurso fluido.
    Não é todos os dias que alguém esbarra com Sir David Attenboroug. Nem toda a gente.
    Mas as a uma linda senhora, tudo se esculpa.

  2. Gostei muito de ler esta crónica, para além de muito bem escrita, com períodos curtos e linguagem simples, conta alguns episódios hilariantes como o encontro do Sr,Attenbourgh .Foi uma leitura muito agradável que me predispôs bem depois do almoço.
    Obrigado amiga Helena, Poeta e Escritora. Bem haja.

  3. Crónica muito bem elaborada pela minha amiga Maria Helena. Escreve muito bem, é mesmo uma poeta e escritora. Ela tem esse dom. Gostei imenso. Muito interessante esta análise da viagem a Londres.

  4. Quando vi a foto, e não atentando no mais ou menos evidente anacronismo, ainda pensei que o cientista era mesmo de carne e osso… Fez-me vir à lembrança um encontro similar que tive aqui há anos e também registei fotograficamente com Picasso, no espaço correspondente de Amesterdão.
    A escrita é fluida e cativante, como sempre.

  5. Fazer uma visita a londres, numa cronica da Helena é uma viagem muito aliciante, mas “turistar” lugares icónicos pela sua mão é viver as suas emoções como se tivessem sido minhas. É como viajar numa geografia encarnada em busca da poética da geografia e que dá “direito a sonhar”… usando expressões de Bachelard!
    Londres é uma Babel onde a musica e a moda, são as línguas francas dos idiomas culturais que a formam…quem não se lembra nos anos 60 da informalidade daquela rapariga de nome Sandie Shaw, apresentar-se em mini-saia e descalça e vencer o festival da eurovisão contra a Europa da formalidade? Mas não estava só ao mesmo tempo jovens de cabelo comprido cantavam por todas as rádios aos nossos ouvidos: “Love me do”; “”(I Can’t Get No) Satisfaction””; ” I am free”… propondo também irreverencia nos estereótipos masculinos e liberdades sociais oriundas de bairros multiculturais que criavam ritmos convidativos à dança. Londres foi durante muito tempo sinonimo de urbanidade, Juventude, criatividade e a irreverencia, que todos os jovens ambicionavam.
    Lugar, onde nem mesmo uma gotinha de SAUDADE faltava com “sopa portuguesa” que me levou a pensar de como “aquecia os corações”.
    Há quem diga que “somos mais portugueses fora de Portugal”, nunca pensei nisso, mas por experiencia própria, somos mais sensíveis as referencias do Pais, fora.
    Quando viajamos em grupo é fascinante sentir que as verdades absolutas nunca existem e o mapa que levamos anunciam ideias não a sua realidade de onde vamos, razão que leva e ” refazer planos e circuitos” constantemente. Mas isso traduz a poesia da descobertas no instante e oferecer a todos e a si próprio a quinta-essência de sinestesias caprichosas: sentir cores, saborear perfumes tocar sons, escutar temperaturas, vislumbrar ruídos. Este exercício dado péla emoção, significa também que, viajar pressupõe a confusão de todos os sentidos prévios e uma reactivação e recapitulação de ideias á priori. Um pequeno jardim como o do Fred pode ser bem terapêutico, para as ordenações das espectativas e gerar novas emoções para tudo passe depressa e no final dizer com sinceridade o que se sente: ”E se voltássemos daqui a quinze dias?”.

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