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O regresso do “Aguentofórmio”…

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Os mais “antigos” talvez ainda se recordem desta “cenaça”. Em plena ditadura, quando iniciei a minha carreira médica, cedo percebi que havia três medicamentos omnipresentes no “receituário nacional”: o Enterobiofórmio e o Mexafórmio, que serviam para travar todo o tipo de desarranjos intestinais e não só; a que se juntava o “Aguentofórmio”, um produto genuinamente nacional destinado a quem não podia dar-se ao luxo de recorrer à medicina.  

Entretanto, a Saúde dos portugueses evoluiu de forma notável, tendo Portugal construído facilmente um SNS que honra muitas das melhores práticas do mundo e ainda mantem algum respeito por direitos cívicos, consignados na nova Constituição.  

Um percurso que se adivinhava promissor, mas que, cedo entrou em degradação, “orientado” por uma nova classe de gestores políticos, na sua grande maioria “boys e girls” sem nenhuma noção de planeamento e gestão de recursos, técnicos e humanos.

Mais outro grave desvio terá ainda de ser assinalado, pois é igualmente responsável pelo défice crónico que conduziu à crise atual. Há cerca de dez anos, antes de ser “corrida” do cargo, a PGR Joana Marques Vidal bem o referiu: combater a corrupção na área da Saúde era uma das grandes preocupações da Magistratura.

Palavras leva-as o vento. A esbracejar numa onda que até meteu almirantes, o “charco da governação” nem buliu, enquanto a comunicação social silenciava as vozes lúcidas e reverenciava aqueles que, como amplamente denunciei, “nem uma capoeira sabem gerir”.

Entretanto assumiu a pasta um médico bom conhecedor dos bafientos cantos da casa, a quem, em benefício de dúvida, desejei felicidades perante a “morte temida” do SNS, que se avizinhava. Não, sem antes ter afirmado que, por mais competentes que fossem os nomeados, reforçar verbas e mudar duas ou três pessoas nada adiantava, antes seria preciso uma “varridela geral” e a reorganização de quase todas as práticas, dentro do Ministério da Saúde.

Mais uma vez tive razão antes do tempo. Meses depois, como uma manta cheia de buracos que não pode abrigar todo o corpo, aconteceu o impensável. Pela primeira vez nesta escala, desapareceram do mercado nacional centenas de fármacos: alguns vitais, enquanto o Ministério da Saúde comparticipa lautamente muita “farinha” sem evidência científica comprovada. Porquê? Por manifesta ausência de planeamento e de controlo, mas também, pela prevalência de interesses ocultos instalados e nunca averiguados.

Sem centenas de fármacos nas prateleiras das farmácias, consta que o medicamento com mais “saída” voltou a ser o velho “Aguentofórmio”. E não podia deixar de ser assim, se a “receita” até foi prescrita pelo primeiro-ministro, recente autor de uma “orientação” muito em voga.

– Aguentem-se! – assim determinou e mandou publicar. 

ASSALTO ‘À MÃO ARMADA’

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MEO, NOS e Vodafone aumentam o que a lei lhes permite e que é definido pelo índice de inflação medido pelo Instituto Nacional de Estatística.

O mesmo aconteceu com as portagens das autoestradas, embora nesse caso o Governo tenha negociado um aumento ligeiramente inferior à inflação (mas muito superior aos aumentos salariais).

Nada nos diz, até agora, que o Governo pretenda impedir um aumento das telecomunicações tão brutal. E devia fazê-lo. Hoje, ter acesso à net é uma necessidade incontornável.

Hoje, ter net é obrigatório. O Estado comunica com os cidadãos por email. Sabemos se vai chover ou fazer sol no site da meteorologia. Os bancos interagem com os clientes pela net. As escolas dos nossos filhos falam connosco pela net. Fazemos compras online. Consumimos informação pela net. Sem net, não somos ninguém.

A maioria da população tem o acesso à net no mesmo pacote da televisão e do dispensável telefone fixo. É a armadilha que as empresas de telecomunicações montaram, alavancada com a chamada fidelização.

Neste momento, caso alguém se sinta enganado por causa do aumento do preço, e queira prescindir desse serviço, vai ter uma luta árdua para se desvincular do operador de telecomunicações com quem contratualizou a tal fidelização.

Na verdade, a fidelização apenas serve os interesses da empresa. É uma artimanha para nos tirar dinheiro dos bolsos com nenhuma contrapartida válida por parte da empresa. É o caso em que só o cliente tem obrigações. Pagar tudo até ao fim, aguentar com os aumentos de preços que ultrapassam em muito os aumentos salariais, não protestar pelas alterações decididas unilateralmente relativamente à grelha de canais de televisão disponíveis, e pagar mesmo quando há avarias no sistema que não são imputáveis ao cliente.

As operadoras aumentam o preço com o argumento do contexto internacional, a malfadada guerra na Ucrânia. Cheira a argumento da treta. É a inflação auto imposta, um esquema para arrecadar lucros cada vez maiores, uma vez que os custos dessas empresas não sobem na mesma dimensão. Ou alguém acredita, por exemplo, que a NOS, MEO e Vodafone vão aumentar em 7,8% o salário dos trabalhadores?

Como ensinar outra Historia

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Pertenço à geração dos professores surgidos na madrugada de Abril. Frequentava o 1º ano da licenciatura em História, e como uma boa parte dos professores no ano letivo 1974/1975, iniciei-me como professora. Havia uma revolução para fazer, era preciso escolarizar todas as cr1ianças e jovens, por isso foi um “quem sabe ler vai ensinar”. Fui professora de Português, Francês, Introdução à Política e História.

Repeti modelos pedagógicos que tinham sido os meus professores. Tive colegas fantásticas com as quais aprendi a questionar não apenas métodos mas também conteúdos. Não há disciplina que melhor se preste a isso do que a História.

Década após década vi os programas mudarem, adaptarem-se às novas teorias da História. Mas foi como professora de História da Cultura e das Artes que amadureci a compreensão de que continuava a ensinar uma História classista. Da arquitetura à escultura e outras artes visuais, era sempre das classes sociais dominantes a História que os programas contavam e contam. As classes cujas pessoas têm nome. As outras são anónimas, meras estatísticas. Desesperava para ensinar outra História, outras histórias.

As “Perguntas de um operário letrado” de Bertolt Brecht foi o melhor contributo que julgo ter dado a centenas de jovens, para desenvolverem o espírito crítico. Tornei obrigatória  a sua leitura. Muitos aprenderam a dizer de cor “Quem construiu Tebas a das sete portas?”(…).
O melhor que fiz com eles não foram as respostas que lhes ensinei,  mas as perguntas que aprenderam a fazer.

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As Associações, alma de um povo!

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Deixamos de parte o contexto internacional, porque mais difuso e menos palpável; centremo-nos no local, onde a força congregada é maior, deve ser maior e deve ser constantemente apoiada.

Amiúde, o grupo de amigos que vão tornar-se associados sente que necessita de um lugar para se reunir, compartilhar ideias, programar acções. Luta por isso, angaria apoios, bate à porta desta e daquela entidade, consegue um mecenas e a sede nasce, o estandarte aparece, o emblema cria-se

Depois, uns tempos depois, o entusiasmo vai de esmorecer. A construção da sede apontava algo de visível, concreto, e, agora, organizar um concurso, levar por diante uma peça de teatro, organizar uma série de conferências não é assim tão palpável e acaba por não cativar tanto. E os ‘velhos’ que estiveram na origem da construção da sede nem sempre tiveram o condão de entusiasmar os mais novos, os filhos e os netos, e a colectividade começa a correr o risco de estagnar, sede raramente aberta, convívios cada vez mais raros…

Importa, pois, contar a história, para que, dela tomando consciência, os entusiasmos renasçam, o pundonor se renove e a colectividade passe a ser, de novo, a alma do lugar e da aldeia.

Há, por outro lado, a necessidade de se salvaguardar o espólio dessas colectividades: programas, correspondência, convites, fotografias, plantas…

Neste âmbito, a Câmara Municipal de Cascais encetou, desde há vários anos, o processo de albergar no Arquivo Municipal toda essa documentação, nem sempre passível de ser bem salvaguardada nas próprias sedes. Aliás, foi, em boa parte, a informação aí colhida, nesse espólio, que possibilitou a edição do II volume Associações com História (1945-1973), apresentada no sábado, 21 de Janeiro, em sessão solene, muito participada, no Centro Cultual de Cascais.

fotografias da cerimónia e de uma das páginas do livro

João Henriques, director do Departamento da Cultura da Câmara Municipal de Cascais, especificou o processo agora levado a bom termo, depois de se haver já publicado, em 2018, um I volume, com a história das associações cuja criação se situou entre 1886 e 1941. O presidente do Município salientou a importância das colectividades como dinamizadores da actividade das populações. Por fim, foi solenemente entregue um exemplar do volume ao representante de cada uma das 20 associações cuja história se conta no volume em aprecio.

Da cerimónia, algum voto resulta a formular? Sim. Porventura dois:

1º) Que as entidades – tanto públicas (Câmara e Juntas de Freguesia) como privadas – compreendam o elevado significado social do regular funcionamento das colectividades e que, em consequência, não regateiem apoios financeiros, pois é, geralmente, por acção de ‘carolas’ que essas associações se mantêm e realizam.

2º) Que a população das respectivas aldeias veja na colectividade a sua ‘casa’, o lugar pronto a acolher as suas inicitivas; inscreva-se como sócio e colabore nas iniciativas.

Se aplaudimos a publicação? De mãos ambas! No desejo de que outos municípios do País possam vir a inspirar-se e a ter disponibilidade para levar a cabo idênticos empreendimentos.

Um morrião filipino

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Trata-se de uma peça francamente rara, um morrião canelado, modelo que não voltou a ser fabricado. Tem 24 cm de altura e 38 de largura; pesa 2,450 kg.

O canelado, segundo R. Daehnhardt, servia para amortecer os golpes dos adversários, que, ao atingirem a peça, batiam contra rebordos metálicos, que impediam o acesso à chapa protectora da cabeça do portador. Isto apenas se fez na 1ª metade do século XVI na Europa, sobretudo na Alemanha e na Itália, que eram, então, os principais fornecedores de armaduras; no entanto, apenas os fabricavam de ferro, só os espanhóis e os portugueses os faziam de cobre e de latão.

Parece um vulgar capacete, mas – explica Daehnhardt – é um morrião: o capacete, colocado em cima de uma mesa, tem toda a sua borda assente, enquanto o morrião parece que “dança”, tanto para a frente como para trás.

Este exemplar é o chamado “morrião filipino canelado de pera”: tem um pequeno reforço no seu ponto mais alto, para melhor proteger o crânio do seu portador contra um golpe de machado ou de grande moca. A canelura só existe nos exemplares mais antigos, da 1ª metade do século XVI, porque, por a sua produção ser dispendiosa e exigir a mão de grande mestre, deixaram de se fabricar.

Na verdade, se esta cobertura de guerra e de cerimónia nos pudesse “falar” um pouco de tudo o que viu e de tudo em que participou, certamente poderia contar histórias bastante interessantes!

PÃO COM MEL…

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Afinal tudo isso deve estar nesta fatia de pão barrada com manteiga e mel, daquele que
ainda cristaliza. Robusto, sem o sofrimento da centrifugação.
O pão também não é de uma mistura qualquer. Trigo do bom, sovado, crescido sob o
efeito do fermento natural, ou massa-mãe. Cozido entre tijolos latejantes num forno de
lenha, para os lados de Alfarim.
É vendido na praça de Sesimbra. Comida a côdea mais estaladiça, só por gula, é cortado
em fatias que os intervalos do trabalho demandam, por gula igual.
A manteiga é dos Açores. Amarela, intensa, perfumada. Sai uma torrada da torradeira, e
só pede aquela frescura de uma noz de manteiga açoriana a verter umas lágrimas
salgadas.

Preciso de emagrecer, mas já lá vai o tempo das dietas. Que mal pode fazer uma fatia de
pão torrada, umas nozes de manteiga, uma colherzinha de mel que não é centrifugado?
Se a noite me pede um vício inocente, só me lembro do pecado da gula por um chá,
acompanhado de uma torrada com manteiga e mel. Dantes nem me atraía a espessura,
agora olho para o boião de louça e não resisto ao perfume de rosmaninho.
Os créditos de tanto enlevo ficam por conta dos sonhos projectados por milhares de
pessoas nas tarefas diárias. Como se vender pão, ou mel, enriquecessem alguém! Mas há
uns insectos laboriosos, as abelhas, que fazem um trabalho eficiente e servem um estudo
cientificamente fiável da despoluição do ambiente em que se movem. Não lhes cabem
menos créditos.

Diz a padeira que gosta de amassar o pão bem cedo, pela madrugada, de janela aberta
para o quintal, quando os pássaros acordam e todos os desejos parecem realizáveis.
O aroma das laranjeiras, e mais intenso o de lúcia-lima, pedem para aromatizar um chá,
enquanto a massa leveda. Depois o pequeno-almoço, também ele cuidado com requintes
de quem aprecia uma vida saudável, uma boa refeição, ou precisa de suporte de energias
para trabalho sem pausas.
O que comem os portugueses de manhã… ainda só pão com manteiga para acompanhar a
bebida quente? Um café e um pastel de nata, em promoção habitual? E as calorias
necessárias para aguentar o dia e o trabalho dos neurónios?

Volto ao quintal da padeira de tamancos de andar na terra. Deixa que o gato entre para o
calor do borralho, apanha cebolas novas e tomates, às vezes uns pés de cebolinho e de
salsa e vai à capoeira espreitar se as garnisés já têm ovos. Se estiverem atrasadas não há
drama, é um alimento que nunca deixa acabar na despensa.
Depois prepara a frigideira maior, põe os ingredientes em camadas sobre um fio de azeite
bom. E quando amolecidos, temperados com sal e pimenta, derrama sobre eles dois ou
três ovos até ficarem com a clara cozida e a gema ainda a escorrer.
Um café…um chá…um copo de leite quente? Às vezes até um sumo de laranja. Tudo
depende da época e da vontade daquele dia, que a importância do ritual da primeira
refeição, está na variedade e frescura dos alimentos.
“Devia ser nutricionista” – digo-lhe, enquanto me escolhe o pão e o vai armazenando num
saco enorme de papel – mas eu não tenho quintal”.
“Mas tem mel, ou pode procurar quem lho arranje. Uma fatia do meu pão só com uma
colher de mel, cura a maior parte das doenças que conheço. Penso nisso todos os dias,
enquanto a massa leveda até verter da gamela”.
Sabe de tudo. Di-lo com convicção.

E fala-me de varrer as cinzas e os gravetos para deixar o lastro do forno limpo, à espera
dos pães tendidos. Depois mostra-me a perfeição do lar de um dos que, ainda mornos, me
aquecem as mãos e o peito, onde encosto o saco tão recheado, que quase não vejo o
caminho.
Mas antecipo o cheiro do mel, lembro o voo das abelhas no dia em que uma me picou
junto a um cortiço já velho, acabando por morrer.
Mau sangue, o meu? Não…Leiam o livro magnífico de Maurice Maeterlinck, o belga que foi
Nobel de Literatura em 1911 e percebam o que importa.

Maurice Maeterlinck, dramaturgo, poeta e ensaísta (1862 – 1949)

A NATUREZA DOS PARTIDOS

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São conhecidos ao longo destes quase 50 anos de democracia uma sucessão de casos e casinhos de corrupção, peculato, fraudes, evasão fiscal e tráfico de influências, envolvendo dirigentes políticos e ex governantes, afectos aos dois partidos. Onde se misturam fortes ligações familiares a estes. 

Apesar das ações do Ministério Público e da PJ, nem sempre as mais eficazes, diga-se em abono da verdade, uma boa parte destes casos acaba por ir a tribunal, mas prescrevem no tempo e demora processual. A maioria dos arguidos acaba por sair incólume dos pretensos crimes, seja por falta de provas, seja por contradições entre as testemunhas e erros jurídicos. Quando condenados, são-no quase sempre com penas suspensas. Temos ainda alguns, castigados tarde e a más horas, que pela avançada idade ou doença degenerativa, acabam por ficar enclausurados em casa à espera que a morte os leve deste mundo. Foi o caso de Oliveira e Costa, e será provavelmente o caso de Ricardo Salgado, a ser condenado. 

O produto do crime, lesando Estado, ou os cidadãos em particular, nunca foi ou será recuperado. Para uma certa elite o crime compensa. Os grandes escritórios de advocacia encarregam-se de os livrar de males maiores. 

Existe uma natureza inter classista nos dois grandes partidos portugueses. Se bem que o PSD tem vindo a deixar para o PS uma boa parte da classe média que representava, a mais alta, fruto das suas posições cada vez mais neo liberais e do seu engajamento quase exclusivo com as confederações patronais, em detrimento das sócio profissionais. Por outro lado há uma classe média cada vez mais depauperada, que umas vezes se refugia no PS, convencidos que resgatam parte do pecúlio subtraído pelas decisões dos anteriores governantes, noutras derivam para o BE e para o Livre, por retaliação. À direita emerge o populismo de André Ventura como o grande aglutinador do descontentamento popular mais exacerbado e ignorante, além de alguns frustrados desta vida, que não são poucos. A Iniciativa Liberal é um partido que terá uma vida curta. 

Há dias li uma transcrição sobre as escutas telefónicas do caso Vortex. Este processo judicial envolve uma empresa de Construção Civil, na pessoa do seu administrador, Francisco Pessegueiro, e dois autarcas de Espinho. Um do PS e outro do PSD. O actual titular do cargo em exercício, entretanto detido pela PJ, era o socialista Miguel Reis. 

Diz-se a certa altura nas escutas telefónicas, acompanhadas de filmagens num café da cidade de Espinho, onde terá sido entregue um envelope com dinheiro vivo, que:

“Pessegueiro terá mesmo referido que se sentiu mais confortável com o socialista do que com o anterior presidente da autarquia, o social-democrata Pinto Moreira, justificando que Miguel Reis sentia “mais necessidade de dinheiro”, de acordo com fontes da investigação“

Se eu bem entendo, o socialista na câmara há apenas oito meses, tinha um apetite maior por dinheiro fácil e indevido, que o seu antecessor, social democrata. 

É aqui que reside um dos grandes problemas do PS. Os socialistas ao contrário do PSD não são um partido com fortes ligações familiares aos detentores dos grandes grupos económicos, que dominam o aparelho produtivo nacional. Não se conhecem dentro dos vários quadros superiores do partido, relações parentais às maiores empresas nacionais. Quando saem do governo, não se vê ex dirigentes socialistas a integrar as administrações de grupos privados do PSI 20. Há excepções, claro, mas por isso mesmo fogem à regra. As empresas onde aparecem relações entre socialistas e o tecido económico são todas de pequena e média dimensão, ligadas às actividades das regiões onde estão inseridas. Já no PSD proliferam as famílias mais abastadas do país, acionistas ou proprietários dos grandes grupos. “O povo do Restelo, da quinta da Marinha e da quinta do Lago” está quase todo metido no PSD. 

Que os sociais democratas tenham propensão para certas negociatas, nomeadamente a privatização de tudo o que pode dar lucro, mesmo na área da saúde, no abastecimento de água, na electricidade, combustíveis, aeroportos e transportes ferroviários, não me choca, apesar de eu discordar em absoluto com a privatização desses sectores, pelo menos a totalidade do capital. É a natureza deles. Vivem o capitalismo como expressão máxima da sua apetência pelo poder.

Já o PS deixa-me com aquela sensação de alguém estar a trair os mais elementares direitos da social democracia, que juraram defender. Uma espécie de socialismo humanista, que não enjeita o capitalismo, apenas o controla, em especial os seus devaneios ultra liberais, e pugna pela igualdade entre os cidadãos, não de forma utópica, mas através da mobilidade social ascendente e descendente. Toda a gente por esforço próprio tem o direito a chegar aos patamares mais elevados da sociedade. Tanto no plano económico, como no político. Por isso um Estado Social forte, capaz de cumprir essa função. Daí gastar-se o dinheiro de todos com parcimónia, mas acima de tudo preservando a boa gestão do bem público. 

Aquilo a que temos assistido nas últimas três décadas, o caso Sócrates, o de Caminha e este mais recente, de Espinho, são péssimos exemplos. Têm sido deveras degradante para um partido com o passado histórico do PS. E pior, parece não terem aprendido nada com as asneiras anteriores. Fico com a sensação que os socialistas não passam de uns “tesos a tentarem entrar numa festa de ricos”. Ou seja, imitar o PSD da pior forma. Raros são os casos de corrupção onde não estejam metidos dirigentes socialistas. E conspurcam-se por fraca maquia, ao contrário dos dirigentes do PSD, que se abocanham com grandes negócios de renda fixa. 

Será este o ADN do PS? 

A Saúde de Putin

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O mais recente “boletim clínico” sobre a saúde de Vladimir Putin foi feito pelo chefe dos serviços secretos da Ucrânia. E, mesmo assim, foi amplamente divulgado pelos media.

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Já há meses, altos funcionários dos serviços secretos norte-americanos adiantaram à revista “Newsweek” que o Presidente da Rússia recebia tratamento oncológico, porque tinha cancro já em fase avançada. Dias antes, o chefe dos serviços secretos da Ucrânia, o mesmo Kyrylo Budanov que aparece neste vídeo, tinha dito em entrevista à “Sky News” que Putin estava “muito doente” e “numa condição física e psicológica muito má”.

As alegações foram, na altura, desmentidas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo. Sergey Lavrov negou que Putin estivesse doente.

O meu tio da América

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Acabada a Segunda Guerra, na qual Portugal não participara diretamente, mas cujos efeitos se fizeram sentir, sobretudo entre os de sempre (os pobres, vulneráveis como agora se diz!) meu tio, o padrinho velho, fez-se à vida, por esse mundão fora. Embarcou, mais ou menos clandestino, como fogueiro num navio de mercadorias e emigrou para a América. 

Isto e muito mais me contou ele, quando nos anos 90 do século passado, decidiu regressar e vir terminar os seus dias numa pequena aldeia beirã, onde meio século antes deixara mulher e um filho. Meu padrinho velho, nome que mais tarde eu substituí orgulhosamente por O meu tio da América, cujas aventuras começam no porão dum navio, merecia um romance. Eu queria tê-lo escrito. Ainda o ouvi várias horas e guardei em cassetes aquela voz rouca contando e recontando a sua chegada a Ellis Island, o seu trabalho na construção de estradas, a sua empresa falida, a vida de emigrante, o dia a dia no Bronx North, na Concord Avenue, omitindo muito, que só vim a saber após a sua morte.

A voz rouca, o cabelo loiro ondulado e os olhos azuis transparentes como as águas mais límpidas do mundo aquático devem ter enlouquecido muitas mulheres. Meu pai, que entretanto também fora para a América, soube esconder bem o que era fácil de adivinhar. David, o meu tio da América, constituira uma família nos States, com uma porto-riquenha, criaram juntos uma filha e um filho, de cuja existência eu soube apenas há meia dúzia de anos.

Por cá teve uma mulher que deixou com um filho pequeno, o meu padrinho novo, e muitos anos depois, num rebate de consciência veio a Portugal, passou uns meses com a sua legítima e regressou ao Bronx deixando-a com mais um filho. Minha madrinha, que fazia o melhor folar da Páscoa do mundo, aprendeu a viver muito bem com a sua ausência. Apoiada por um irmão, que dedicou a vida a ser o irmão presente que lhe preservava a honra, tornou-se uma empresária, dona de um aviário, que lhe garantiu uma vida muito acima da média. Criou os dois filhos desafogadamente, deu-lhes estudos. Viveu como viúva, sem nunca mostrar rancor.

Quando aquele homem, que amou em silêncio, passou a vir regularmente a Portugal, aceitava-o como se nada soubesse da sua vida dupla. Evitava discussões. Ele podia ir e vir quando queria. E assim fazia. Saia para ir ao café conversar com amigos, chamava um táxi e seguia para o aeroporto de Lisboa. Ela habituou-se a isto.

Lá pelos States, meu tio da América ficou viúvo da porto-riquenha. Fez as malas, despediu se dos filhos e voltou de vez para Portugal, recomeçar uma vida interrompida meio século antes. Em breve, minha madrinha, que nunca tinha ido a um médico, sofreu um AVC, entrou em coma e partiu. Não pude ouvir a história como ela a vivera. As cassetes com a voz rouca do meu tio da América deterioraram-se. E inevitavelmente, um dia, aqueles olhos azuis fecharam-se para sempre. O Americano teve um funeral honroso. Na América, filhos e netos também choraram a sua morte.

Meu padrinho novo, ouvira do pai o mais importante da história. Soube que nos Estados Unidos tinha um irmão, uma irmã e sobrinhos. De forma enviesada também eram parte da sua história. Um dia, pegou no telefone ligou a um deles e sem mágoa nem rancor, tomou a decisão. Chegara o tempo de se conhecerem, partilharem as diferentes memórias que tinham daquele bonito homem, loiro, de olhos azuis transparentes, que lhes deixara uma herança genética impossível de esconder.

O pouco que sei desta história e o muito que gostava de saber mereceria não uma crónica mas um grande romance, que ficará por escrever.  “Tantas histórias, quantas perguntas!”

TALHA DOURADA

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A Igreja Católica nunca dispensou um certo fausto, o luxo que serve para embasbacar o povo. A grandiosidade esmagadora de muitas catedrais e conventos e, principalmente, o brilho da talha dourada  que feria e obrigava a baixar o olhar.

A talha dourada é uma invenção dos católicos da Península Ibérica e, em Portugal, não há igreja velha que não tenha um altar banhado a ouro de lei.

Ficou-nos essa mania de mostrar grandezas, mesmo se à volta não param de se multiplicar os sinais de miséria. Há cada vez mais gente a viver sem teto. Basta andar pelas ruas de Lisboa e arredores, para vermos os novos campistas da Almirante Reis, do viaduto da Padre Cruz, da avenida Infante D. Henrique, só para dar alguns exemplos.

Avenida Almirante Reis, Lisboa. Fotos de Carlos Narciso

Dizem que o papa-altar vai ficar para futuros eventos, megaconcertos e outras cenas grandiosas.  Talvez, mas é duvidoso que algum artista famoso queira utilizar um palco que mantém os fans a uma distância considerável. É mais provável que o recinto venha a ser utilizado nas convenções das igrejas evangelistas e adventistas, certamente que a IURD não vai perder a oportunidade. Fará a mesma festa por uma ninharia.

Na verdade, a Igreja Católica não vai gastar nada. Quem fez o empréstimo bancário para pagar a obra foi a Câmara Municipal de Lisboa. Quem paga o altar são os contribuintes, mesmo professando outras religiões ou nenhuma.

cartoons de Hélder Dias

Vai ser um bocadito estranho ver um papa falar dos males do mundo, da pobreza, em cima de um palco que custou não sei quantos milhões de euros.

desenho de Hélder Dias