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Um texto delicioso

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Vem isto a propósito de um, escrito por Helena Ventura Pereira, UM SANTO POR DIA, com o qual me identifico, como se de alguma forma encarnasse no seu espírito. Ela leva-me a um lugar que pareço conhecer. 

São várias as vezes em que sonho acordado. Uma espécie de meditação. Isto depois de ler um romance histórico ou ver um filme alusivo a uma época remota, mesmo que ficcional, sendo levado pela minha imaginação para uma outra vida que não esta. Quantas vezes me abstraio do meu dia a dia, e me coloco a viver nesses tempos, perdido no meio daquela multidão, meio atarantado e desnorteado, olhando aqueles rostos encobertos, a maioria deles indigentes, analfabetos, vendedores ambulantes, gente sem meios de subsistência, sem cuidados sanitários e de higiene, nascendo, crescendo, vivendo e morrendo na sombra da civilização, como se não passassem de meros adereços na paisagem.

Diz o poeta que dos fracos não reza a História, numa clara alusão aos valorosos homens e mulheres que construíram o império, esquecendo-se que muitos deles nem rosto tinham. De qualquer forma podemos sempre anuir que o verso é bem mais transversal e intemporal do que nos possa parecer, uma vez que essas sociedades estão cheias de heróis sem nome, cujo martírio é não saírem da miséria, apesar de trabalharem com afinco e cuidarem da família. 

Quanto aos Santos Mártires referidos por Helena Ventura Pereira estamos num patamar idêntico. Há uma enormidade deles, anónimos, cujas identidades não constam dos livros sagrados e dos sermões paroquiais. Dou como exemplo, os Cátaros, em França, na idade média. Muitos deles não sabiam bem porque morriam, mas recusavam-se a abandonar a sua fé. 

Na base das colunas que integram a frontaria  da Catedral de São Dômnio, em Split, na Croácia, estão esculpidas na pedra, pequenos corpos humanos, com várias formas, parecendo suportar a estrutura do imponente edifício, cujo significado parece ser sugestivo. Os alicerces. Foi sobre eles, crentes anónimos, gente sem identidade conhecida, que se construiu a Igreja, como instituição. Como estes, não faltarão listas de mártires, nunca redigidas, em todas as épocas e por toda a parte. Só não lhes conhecemos os rostos

M de… metropolitana

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Pedir um dia de folga do trabalho para tratar de assuntos pessoais pode tornar-se um pesadelo. Queremos fazer o máximo possível, mas graças ao estado dos transportes públicos, perdemos mais tempo (e paciência) do que ganhamos. No meu caso, tendo precisado de utilizar o autocarro 1101 (antigo 1 da Vimeca), perdi uma consulta médica devido ao atraso causado por conta do peculiar horário desta carreira. Este autocarro, mesmo em hora ditas “de ponta” e em período escolar, só passa de meia em meia hora, e isto sem contar com os atrasos eventuais (tráfego automóvel intenso, enganos nos percursos porque os motoristas estão a ambientar-se, para dar alguns exemplos).

Da parte da tarde, tendo de ir para a zona de Queluz, foi o pesadelo kafkiano: entre as 15h e as 15h50, o autocarro que era o 149 da Vimeca não passou, e quando por fim apareceu, não era a caminho do destino previsto, mas no sentido inverso. No decorrer desta situação, telefonei para o serviço de atendimento ao cliente da Carris Metropolitana, para ser atendida por um funcionário especializado em variantes das frases “não sei” e “não posso fazer nada”.

Por conselho de um motorista, apanhei o autocarro que sucedeu ao número 12 da Vimeca. O mesmo autocarro, conduzido por um cavalheiro com sotaque de português com açúcar que não só não sabia dar informações sobre se passava no arruamento do meu destino, “nem tinha obrigação de saber”, como a dada altura deu meia volta ao percurso para voltar ao ponto de partida sem avisar. Ao contrário do que ele afirmou, o placard electrónico do autocarro em causa não informava do facto.

Acabei por apanhar um táxi, de forma a chegar enfim ao meu compromisso, o que contribuiu para depauperar as minhas já frágeis finanças.

Mas foram buscar motoristas ao estrangeiro? A julgar por esta notícia do jornal Expresso, sim.

semanário Expresso em 13 de setembro de 2022

O projecto, lançado no primeiro dia deste ano da graça de 2023 (ou desgraça, para quem depende dos transportes públicos) já tem problemas, como relata esta notícia da CNN Portugal. Nas redes sociais e nas conversas espontâneas entre perfeitos conhecidos nas paragens de autocarros, a insatisfação é para lá de grande. No Portal da Queixa, ainda mais.

CNN Portugal em 6 de janeiro de 2023

Nos últimos anos, o decréscimo da qualidade dos transportes públicos nas grandes cidades tem sido um filme de terror. Não parece haver melhorias, até porque vivemos em metrópoles carrocêntricas, mesmo com estudos que provam até à exaustão que essa está longe de ser a melhor prática, e onde quem não tem automóvel é tratado como um cidadão de segunda ou terceira categoria. Provas desses comportamentos abundam, desde a selvajaria do comportamento nas paragens e estacionamento de veículos até ao tráfego automóvel de pesadelo, mas há outros. Há poucos dias, um cidadão europeu à conversa comigo comentou surpreendido uma constatação: que em Portugal, o custo dos combustíveis era um escândalo, e em paralelo as pessoas utilizavam cada vez mais o automóvel. 

Algumas perguntas ficam para já sem resposta: 

Como é que a administração da Carris Metropolitana, que teve meses para se preparar para a transição, não previu ou acautelou situações como estas nem estabeleceu planos de acção caso acontecessem?
Como é que se planeou um portal tão confuso que o utilizador, sobretudo quem recorre pela primeira vez, não consegue saber a que linha corresponde qual carreira, e qual carreira corresponde a uma anterior?
Que consequências vai haver para os responsáveis que não souberam prever este surreal e triste cenário, que só promete agravar-se nos próximos tempos (mau tempo, greves, eventos em larga escala, etc.)?
Quem está disposto a ouvir as dezenas ou mesmo centenas de utilizadores prejudicados, desrespeitados, exaustos e até revoltados com este estado de coisas, que merecem apenas um bom serviço para o qual já pagam duas vezes (através do passe e dos impostos)?

Cruzeiro – do sonho à realidade!

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E era, de facto, um sonho antigo. Que nos custava ver como, pouco a pouco, o que fora pensado para tantas coisas definhava, impotente.

«Cruzeiro» se chama, do nome dos Cruz os seus mentores; cruzeiro porque então, nesse final da década de 40, ali, sobre ele, se cruzavam as rotas aéreas e havia como que a confluência das três freguesias, Cascais, Estoril e Alcabideche. E queria-se que foi encruzilhada de muitas gentes, de muito movimento, algo que nunca se vira em tempo algum e em nenhum sítio.

Quantos por ele, nestes anos todos, fomos passando e até ali alguma vez comemos num dos restaurantes lá de cima ou fomos aos fados, rejubilámos no passado dia 28.

Dissiparam-se as dúvidas logo à aproximação e depois, paulatinamente, à medida que fomos percorrendo os espaços e vimos que, mesmo em dia de abertura, já ameaçavam estar vivos.

No palco, ao rés-do-chão, um coro lançava cantos ao vento; no que vão ser as salas de aula da Escola Profissional de Teatro, quatro-cinco alunos treinavam já aquela cena combinada, no convite a que nos demorássemos e nos sentássemos numa das cadeiras, a ouvi-los… E depois vinha-se ao amplo varandim do 1º piso e ao do 2º e a vista alargava-se até ao Cabo Espichel… Maravilha!

E olhámos para trás: sim, aquela espécie de torreãozinho, qual torre de radar de aeroporto, os arquitectos fizeram questão (como nós faríamos!) em a manter! Aliás, a traça da época acabou por ser respeitada – e com isso também nos congratulamos.

Quase no final do dia, mal refeitos das emoções, ainda nos esperava a sessão solene no auditório. Um auditório! Como, vivamente entusiasmado, me escreveu Nikolay Lalov, de Budapeste:

«Não há melhor satisfação: ver a Orquestra criada por mim, a abrir uma Academia, onde o Conservatório, criado por nós, vai ter salas e a OCCO um auditório para actuar. E a OCCO dirigida por um jovem maestro, que ganhou prémio no concurso que OCCO criou… A OCCO apanhou a ” velocidade do Cruzeiro”!».

Pois foi isso mesmo. Além dos discursos protocolares, o do Senhor Presidente da Câmara e o do Senhor Ministro da Cultura (nunca ele pensou, creio eu, que viria a ter o seu nome numa placa deste edifício, que se habituara a ver desde pequenino e cuja degradação também muito lhe custava sentir), além dos discursos, tivemos o Monólogo do Vaqueiro por um dos elementos do TEC. Só que, neste caso, o recém-nado não foi um principezinho de carne e osso, mas um edifício real, real de realeza e real de realidade! E o vaqueiro bem o soube louvar. Um texto de antologia, diga-se! Merece que se saiba quem o fez! E merece voltar a ser ouvido.

Quando, sim, actuou a Orquestra Sinfónica de Cascais e Oeiras, a acompanhar uma tenor, que nos deliciou, por exemplo, com a Ave-Maria de Schubert, não haveria trecho mais adequado ao momento. Como – num outro horizonte – o canto dos goliardos, Carmina Burana, a fechar o espectáculo, nos obrigou a outros sonhos…

Que, sim, esta Academia de Artes do Estoril (canto, dança, teatro, música…) é, agora, um sonho cumprido, um sonho «refeito», como Lalov contrapôs ao sonho «desfeito» do empreendedor de 1951. Queremos, porém, que venha a ser um viveiro de bons sonhos concretizados! E sê-lo-á!

EM PARIS, IGREJA PORTUGUESA ATACADA DUAS VEZES

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fotomontagem

Um homem ucraniano, de 47 anos, foi detido pela polícia francesa, em Paris, na sequência de uma série de ataques a duas igrejas. O atacante usou artefactos incendiários, nos três ataques efetuados no espaço de poucos dias. Uma dessas igrejas é a do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, que foi atacada duas vezes. Trata-se da igreja onde por costume a comunidade portuguesa se desloca para casamentos e baptizados ou para assistir à missa.

Segundo o Luso Jornal, o reitor do Santuário informou que o local vai ser equipado com câmaras de vigilância no exterior.

A primeira tentativa teve lugar na terça-feira, dia 17 de janeiro, pelas 6h50 da manhã. O incendiário lançou um cocktail molotov através das grades que separam a porta principal da igreja.

A porta sofreu alguns danos, mas resistiu. Já no segundo ataque, em 29 de janeiro, a porta ardeu por completo, mas os bombeiros chegaram a tempo de evitar que o fogo alastrasse para o interior do templo.

O outro edifício de culto atacado foi a igreja de Saint-Martin-des-Champs. O cocktail molotov incendiário não só destruiu a porta do edifício como o fogo se propagou para o interior. este edifício é um tesouro da arquitetura medieval. A primeira igreja ali construída foi no ano 710. Em 1060, o edifício foi remodelado, a pequena igreja transformou-se numa imponente abadia.

O Luso Jornal dá conta de que a Polícia Judiciária francesa abriu um inquérito por tentativa de incêndio às duas igrejas “por motivos de raça, etnia, nação ou religião”.

O Santuário português de Paris ficou sob vigilância policial. A detenção do suspeito deixou a comunidade portuguesa aliviada. O homem ficou detido na ala psiquiátrica de um estabelecimento prisional parisiense, mas o reitor do Santuário diz que “embora ele tenha sido internado na ala psiquiátrica, ele não é maluco.”

UM SANTO POR DIA

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pintura de Frade Angélico (da Wikipedia)

O que é um santo? Estava a pensar no assunto ontem, ou que santo se comemorava, convencida de serem quase sempre as mesmas, as razões para definir a santidade. Aparecia-me a figura de Timóteo.

Timóteo, dizem as enciclopédias, era filho de uma judia crente, Eunice, e de um grego pagão. Crente ela num único Deus, pagão ele por acreditar em várias divindades, mas convertido mais tarde.

Podemos aceitar que na educação dos meninos de então, como nos de hoje, mães e avós desempenhavam um papel fundamental. Os varões adultos estavam ligados às actividades bélicas, à terra, às viagens, deixando às mulheres a responsabilidade da casa e da educação da descendência. Rembrandt eterniza um momento de empatia entre avó e neto muito comovente, em1648.

S. Timóteo

A mesma lenda em várias versões, animadas por enorme profusão de estampas, dá a entender que a avó materna, Lóide, ajudaria a cimentar a crença de Timóteo num só Deus. Por causa dessa convicção, o destino do jovem seria chegar a bispo, consagrado no ano de 65, e morrer sob o martírio do apedrejamento, no ano 80.

Cada dia lembra um santo, mas estaremos condenados a celebrar dias de mártires, por causa de intolerâncias, quando, no essencial, os homens só querem uma vida igualmente digna para as suas famílias?

Todas as religiões a prometem, mas todas falham nessa ânsia de serem diferentes. É a História a provar que raramente usaram de candura e bondade para converter. Fizeram-no sempre tocadas por interesses pessoais, ou de grupo, que nada tinham a ver com o interesse e respeito pelo indivíduo.

Um santo não pode, nem deve ser, apenas uma figura de mártir por caprichos de um sector, que rejeita a crença dos outros. A crença é pessoal, íntima e só pode ter essa designação se for livremente escolhida.

Hoje, em dia dedicado a outro santo, lembro todos os anónimos que, anulando as suas vidas pessoais, recolheram, alimentaram, curaram e deram amor incondicional, ou calor fraterno a desconhecidos e próximos, sem atenderem a detalhes que nada acrescentam à dignidade humana.

É desses exemplos que a humanidade precisa, sem retóricas, ostentações, nem atropelamentos, para obtenção de maior fama.

Já agora, qual a importância de um privilégio, por maior que seja, se de um momento para o outro teremos de nos mudar para parte incerta, sem bagagem nem currículo?

BURLÕES E MOEDA FALSA

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O que é estranho é os organizadores destes embustes terem toda a liberdade para publicitar os seus esquemas. Usam as redes sociais, usam as páginas da Microsoft. Quando abrimos o computador, aparece-nos sempre uma página da Microsoft ou da Google ou de outra grande empresa global de comunicação onde, no meio de notícias verdadeiras surgem outras que apenas se assemelham a notícias, mas que são propaganda pura e, como é o caso, propaganda de esquemas fraudulentos.

Aparentemente, a polícia não atua, as empresas que veiculam estas tretas apenas se interessam por receber o pagamento pelo serviço que disponibilizam, o utilizador que se acautele. Mas, a verdade é que se isto perdura é porque há lucro nesta atividade. Se não houvesse sempre quem caísse na canção do bandido, eles já teriam partido para outra.

Neste caso das criptomoedas, é por demais evidente a má fé do esquema. O texto, a imitar uma notícia, fala de que um Estado poderoso decidiu adoptar uma criptomoeda como moeda oficial. É mentira. Todos os links possível que o “artigo” proporciona vão dar ao mesmo destino: um site que vende criptomoedas.

Reparem como a página se assemelha à de um jornal. O “P” do logótipo é semelhante ao do jornal Público. A página tem um cabeçalho com diversas “secções de notícias”, mas se experimentarmos, vão todas dar ao vendedor de moeda falsa.

O pormenor desta aldrabice vai ao ponto do texto ser assinado por um tal Fernando Pessa, intitulado jornalista. Já houve um com esse nome, muito popular na televisão, mas morreu há uns anos. No site da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) não existe agora nenhum com esse nome.

Página da CCPJ

MENOS É MAIS

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Fiz uma licenciatura em jornalismo para, nos bancos da universidade, deixar de ser apenas aquela miúda que tinha jeito para escrever e legitimar alguma da minha escrita, e para aprender, a sério, a diferença entre informação e achismo.

Mas o que aprendi repercutiu-se em inesperadas dimensões da minha vida. Ganhei novos filtros para ler informação, aprendi a valorizar as fontes e, sobretudo, passei a prestar atenção às diferentes formas como cada recetor perceciona o que vê. Desenvolvi uma espécie de estética de receção das notícias. Limito-me aqui deliberadamente ao médium televisão, por ser o que chega a mais portugueses e também por se ter tornado, por razões de (in)capacidade, aquele que ocupa de momento, mais tempo na minha vida.

Apurei as formas de ver TV: para aprender, para entreter, para … adormecer.

Desenvolvi também o gosto por ver televisão acompanhada. Durante os anos em que, trabalhando e vivendo longe, fui regularmente à minha aldeia natal, cultivei o hábito de ver televisão com os meus primos, regressados de França, para uma merecida “retrete”.  Fiz com eles, muitas vezes, um exercício que conhecia da literatura sobre o jornalismo: avaliar, no final de cada noticiário, o que tinham retido. Sem surpresa, concluía sempre que cada um deles se lembrava de diferentes notícias, normalmente não mais de 3 ou 4. O mais intrigante era tentar perceber como um certo alinhamento das notícias permitia a cada um deles fazer outras notícias, juntando partes de várias que tinham visto. Tudo isto eu tinha lido durante o curso, mas comprová-lo com o meu próprio “grupo de controlo” era outra coisa. 

Esta característica do cérebro, de se focar, selecionar e reter determinada informação, fez-me refletir, até hoje, sobre a importância dos canais generalistas, os valores-noticia, o alinhamento dos blocos informativos e concluir, inevitavelmente que menos é mais. Quero dizer, de nada adianta um alinhamento de dezenas de notícias em 60 minutos, sendo certo que apenas 3 ou 4 serão retidas.

Como cada um vê o que quer, tem de haver notícias para todos os gostos?! Não me parece. Tem é de haver clareza, racionalidade, mais informação e menos espetáculo. Aparentemente, os canais de informação contínua vieram resolver este problema, repetindo até à exaustão as mesmas notícias ao longo do dia. Não creio. A avaliar pelos números das audiências, a maioria da população portuguesa só vê os canais tradicionais, mesmo dispondo de pacotes que incluem os outros.

Os jovens, segundo amplo consenso, não vêem notícias, partilham informação através das redes sociais às quais atribuem o mesmo valor. Esta equivalência geral justificava amplamente que o currículo escolar incluísse, desde há anos, a educação para os media. Tão elementar como a literacia em tecnologias, saúde, ambiente ou finanças, é a literacia mediática, tanto mais urgente quanto mais são os media de interação. Sobrecarregar o currículo com mais uma disciplina? 

Com poucos anos de profissão, já me questionava sobre os critérios que presidem à definição dos currículos. O que excluir? O que incluir? Meio século de produção de conhecimento em todas as áreas científicas e humanistas forçosamente alteraram o currículo escolar. Não tanto como se poderia esperar. E a pergunta mantém-se: no final do século XXI, se a humanidade sobreviver ao seu acelerado processo de autodestruição, haverá escolas. Com que planos curriculares?

ALCABIDECHE – A FREGUESIA FESTEJOU 182 ANOS!

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Uma sessão variada, que se iniciou com a apresentação de um vídeo a mostrar o que é Alcabideche e o que nele se tem feito em prol da população, nos mais diversos domínios: educação, cultura, acessibilidade, higiene e limpeza, desporto, preservação do ambiente… Cantou Beatriz da Silva, a vencedora da 1ª edição do concurso «Estrelas da Freguesia»; apreciou-se a actuação do Grupo de Dança da Sociedade de Instrução e Recreio de Janes e Malveira (chamado, à boa maneira inglesa – tinha que ser! –«Expression Move»); soubemos que o Clube Desportivo Cascais Crusaders, sediado em Alcabideche, é campeão nacional de futebol americano…

atuação dos Expression Move

Enfim, o rol de galardões que a Junta de Freguesia entregou – recorde-se que a pandemia impedira celebrações nos dois anos anteriores… – constituiu eloquente amostra do muito em que os fregueses alcabidechenses se têm notabilizado. E isso foi devidamente assinalado nos discursos protocolares dos presidentes da Assembleia de Freguesia, da Junta e da Câmara Municipal.

Apresentou-se, na ocasião, um livrinho de cordel, que foi distribuído aos participantes à saída da sessão. «De cordel», à moda dos livrinhos que outrora os vendedores de rua penduravam, Alcabideche, Uma História de Séculos mais não pretendeu ser, nas suas 16 páginas, do que mui ligeiro sobrevoar do muito que a vetusta freguesia tem para contar, como, por exemplo, no minucioso volume, de perto de 500 páginas, Registo Fotográfico de Alcabideche e Alguns Apontamentos Histórico-Administrativos também ele edição da Junta, em 2009,os seus autores, Guilherme Cardoso, Jorge Miranda e Carlos A. Teixeira souberam demonstrar.

Como houve oportunidade de referir, não poderia agora resumir-se em tão poucas páginas a riquíssima história de uma Freguesia que, se tem 182 anos como Freguesia, como povoação tem muitos mais. O certo é que essa idade – acrescentou-se, preza a sua importância e a sua identidade. Sempre se distinguiu da vila de Cascais, sempre se manteve autónoma. Criou cedo a sua corporação de bombeiros. Teve núcleos revolucionários e tem tradição que não enjeita a modernidade. As suas gentes de Biscaia, Figueira do Guincho e Almoinhas Velhas partilham-se entre a agricultura e a pesca (os seus nomes daí derivam), mas Alcabideche não hesitou em ter um autódromo, o primeiro grande shopping do País, o hospital (os hospitais, aliás). Gente esforçada, que dos terrenos pedregosos sabia colher o pão. Por isso, Ibne Mucana, no longínquo séc. XI, farto do luxo ilusório das cortes da Andaluzia, quis regressar à sua terra natal, onde havia vento, sim – que os moinhos bem aproveitaram. Hoje, que tanto se fala em energia eólica, Alcabideche foi pioneiro e um dos seus filhos, José Roquete, inventou moinhos que se divulgaram pelo mundo!

E tem água, que Alcabideche quer dizer isso mesmo, o manancial aqui jorra; Atrozela, o seu nome deriva de ser aí a mãe de água.

Lá virá o tempo em que se recuperará a sua azenha. La virá o tempo em que se recuperarão alguns dos seus bonitos e bem estruturados casais saloios. Lá vira o tempo em que mais se falará dos seus vestígios romanos. Por agora, é também o tempo em que Alcabideche se distingue pela excelência dos seus restaurantes. E S. Vicente, o seu padroeiro (como também o é de Lisboa) e a sua ligação à Senhora do Cabo, à Festa do Divino Espírito Santo são penhor duma terra que brilhantemente se preza das suas tradições e as sabe viver. Este singelo livrinho aí está para algumas recordar!

joão Aníbal Henriques e José d’Encarnação

Al-Qabdaq

Poderá ter sido este o nome árabe de Alcabideche, Al-Qabdaq. Retomámo-lo em 1990 para ser o título do Boletim Cultural da Junta. Publicou-se no ano seguinte contendo o livro de uma poetisa ligada à freguesia; Isolina Alves Santos, e, em 1992, o nº 3 conteve a obra completa de Ibne Mucana, traduzida pela saudosa professora de Árabe da Universidade de Alicante, María Jesús Rubiera Mata.

O boletim não teve, por enquanto, seguimento e o nome foi agora ‘recuperado’ no livro de João Aníbal Henriques, Al-Qabdaq – Memorial Histórico de Alcabideche, apresentado, na noite de sexta-feira, 27, na igreja matriz da freguesia, que esteve repleta de gente. Apresentou o volume Pedro Mota Soares, presidente da Assembleia Municipal e os presidentes da Junta e do Município, José Filipe Ribeiro e Carlos Carreiras (respectivamente) – este último autor do prefácio, enquanto a José Ribeiro coubera a «Abertura» – tiverem palavras de muito apreço pelo empenho posto pelo autor na elaboração deste trabalho, que se apresenta denso de texto e sem ilustrações. O próprio João Aníbal contou do percurso feito para chegar a este objectivo.

Vale a pena dar conta dos títulos dos capítulo desta ‘viagem’ pela historia e pelo território da freguesia, uma viagem sedutora, a que não faltam toques de encantadora poesia, que já desses títulos se desprende:´

– «Um Alcabideche perdido nas brumas do tempo»;

– «Na penha verdejante da tradição»;

– «Al-Qabdaq no dealbar da História»;

– «Na rota saloia que define Portugal»;

– «Origens e tradições dos saloios de Alcabideche»;

– «Arquitectura de cenário ou o cenário de Alcabideche»;

– «Aspectos decorativos nas casas saloias de Alcabideche»;

– «Saloios orgulhosos!».

Três páginas de bibliografia completam o volume, com cuja publicação muito nos congratulamos.

Luta sem tréguas

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Vencido o terror da morte, não da minha, mas da dos outros, ver os mortos, estar próxima da morte tornou-se um atractor. Por isso fui visitar uma rapariga da minha aldeia, a rondar os 60 anos, que espera a morte nos cuidados paliativos do Hospital João Crisóstomo, em Cantanhede. Esperar a morte, para esta mulher, é um dizer irónico. Na verdade ela não a espera, ela enxota-a de cada vez que ela se insinua. Há meses que a morte ronda à sua volta. Mas ela recusa-a. Combate-a com uma força que só pode ser a força vital. A pulsão da vida em luta contra a pulsão da morte. Freud percebeu isto melhor do que ninguém, mas também ele era humano, por isso a luta titânica deste judeu pornógrafo foi vencida pela morte.

Aproximei-me da cama. Ela dormitava. Abriu os olhos, não me reconheceu de imediato. Depois pôs os óculos e abriu os braços. Abracei um corpo definhado duma bela mulher que ainda há meses encontrava todos os domingos no mercado da aldeia. Tive a percepção perturbadora de um corpo a morrer. No quarto pairava o cheiro adocicado da morte. Muito do seu corpo já morreu. É agora um corpo fragmentado, retalhado, esvaziado de alguns órgãos. Útero, ovários, vagina, uretra, intestino, tudo lhe foi retirado para impedir o alastramento das metástases, mas sem sucesso. Já se sabe que estas práticas invasivas apenas prolongam a agonia, a dor, a degradação do corpo… até à morte. Mas ela, ainda intrinsecamente parte do corpo que foi, o resto que continua a ser, é aquela mulher, viva, lutadora de sempre. Contorcendo-se de dor, apesar da morfina, declarou peremptoriamente: Eu sei que ela vai vencer. Mas não lhe darei tréguas. Estarei alerta e a combater até ao último minuto. Ela saberá que eu fui uma adversária à altura.

Esta declaração não comove. É uma declaração de guerra, não um pedido de tréguas, não uma deposição de armas. Por isso, ao invés de comover, suscita a raiva, a impotência e também a admiração. Ouço-a. Fala quase em surdina. Também a voz já começa a perder a batalha contra a morte. Mas não enuncia discursos de despedida. Fala da sua vida, do que fez, lamenta algumas das suas decisões, que diz ter tomado por causa do seu grande coração. 

Todos os companheiros a abandonaram, mas não os critica nem os condena. Fala deles como companheiros que lhe proporcionaram felicidade. Alguns estiveram com ela até morrerem. Ela segurou-lhes a mão no fim, ouviu-lhes o último suspiro, fechou-lhes a boca com o beijo da morte, desceu-lhes as pálpebras quando os olhos abertos deixaram de a ver. Homens que a fizeram feliz, mas sobretudo que ela fez felizes. E também o outro, por quem trocou tudo o que era seguro e seguiu rumo ao sul, que a abandonou quando os primeiros sinais da doença se manifestaram no corpo. Até deste ela fala como o homem com quem viveu os 20 anos mais felizes da sua vida.

Ao cheiro adocicado da morte junta-se o cheiro a urina, de que ela tem plena consciência. Chama a enfermeira para lhe fazer a higiene. Afasto-me discretamente. Na verdade dói-me olhar aquele corpo a desfazer-se, a morrer antes dela. Despeço-me com um até breve, sincero, pois tenciono voltar. Ela diz-me que sou como ela, querendo com isso dizer lutadora, fortalecida pela vida, pelas decisões tomadas e consequências assumidas com coragem e sem recriminações. Acena-me e repete: eu não lhe darei tréguas.

Keyla Desaparecida

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Está desaparecida, a transexual Keyla Brasil, que ficou conhecida do público depois de ter invadido o palco do Teatro São Luiz, num protesto contra a invisibilidade dos atores e atrizes transexuais nos palcos portugueses, tantas vezes obrigados a prostituirem-se para não morrer de fome.

o momento em que Keyla interrompeu a peça em cena no Teatro S. Luiz

Depois do protesto, Keyla denunciou estar a receber ameaças e terá saído de Lisboa por causa disso. A última vez que se soube dela, estaria na zona de Coimbra.

Há mais de 48 horas que não dá sinais de vida, há suspeitas de que alguma coisa de anormal pode ter acontecido com ela.

Nas redes sociais, a Casa T lançou o alerta.

A polícia ainda não deve ter mexido uma palha, uma vez que se trata de uma pessoa maior de idade e com liberdade para viajar e se esconder dos olhares do mundo. Neste tipo de situações, só havendo algum indício forte de eventual crime a polícia irá investigar o que se passa.