Início Site Página 263

Ataraxia, a bruxa

2
ilustração por Budhens

Epá! Tantos projectos, tantas coisas para fazer, deixa-me já escrever na ardósia. Humm, abrir também uma folha de Excel, fazer uma lista. O calendário, tenho de actualizar o calendário com muitos lembretes! Uff, só de ordenar tudo fiquei cansada. Um café bem forte, uma cigarrilha e bora lá. Mas antes o trabalho da agência, a renda vem primeiro.

No meio da pro-actividade, ela atravessa a porta. Visita as divisões da casa, assusta-se com o gato. Ele bem conhece estas bruxas que há muito deveriam ter sido queimadas na fogueira. Mas não, a Inquisição salvou-as da agonizante morte, deixou-as sobreviver até ao presente, não podiam viver em melhor época. Eu, indiferente à sua presença, continuei a despachar emails.

Vejo no monitor o reflexo um escorpião gigante, medonho! Ferra-me nas costas e atravessa o estômago. Jorro sangue pela boca, a dor é infinita, tudo à minha volta é vermelho.

Controlo a respiração, limpo a boca com a mão, não há sangue. No ecrã também não, nem nos papéis, na caneca ou na mesa. Se calhar ontem abusei nas tequilas, a visão dantesca foi um efeito colateral… Tenho de passar a ter mais respeito pela “repousada”.

Volto aos emails. Levanto-me para pôr creme na cara, volto aos emails, levanto-me para varrer os pelos do gato, volto aos emails, levanto-me para fazer coisa nenhuma… a não ser adiar. Sinto as costas dobrarem-se, o corpo pesa, faço um esforço transcendental para enviar três emails. Demoro meia hora.

É aí que percebo. Em forma de escorpião, a bruxa Ataraxia picou-me e continua por aqui. Não a vejo, não a cheiro, sinto-a.

Enfio-me no pijama, desligo o telemóvel, quero dormir, talvez nos sonhos ela não me encontre. Eis que o escorpião, agora multiplicado em mil pequenos, pica-me com o veneno da procrastinação, outra ferrada com o veneno da lassidão, mais outra carregada de preguiça, ainda outra a transbordar de apatia, por fim, a picada mortal da indiferença.

Deixo de lutar, enterro-me na múltipla dor, rendo-me às ideias destrutivas. Todos os meus projectos são uma merda, não vou ganhar nenhuma candidatura, não vou acabar os conteúdos. “Não sou nada, nunca serei nada”.

Caio vertiginosamente num buraco escuro que se abre no tapete. É infinito, percebo que vou morrer. Cá em cima, a bruxa Ataraxia coça a verruga, solta uma gargalhada estridente e voa da casa para fora.

De repente, fico suspensa, a flutuar. Olho para o meu corpo, nenhuma cicatriz dos mil escorpiões. Sinto-me uma nuvem.

Vejo uma luzinha, é uma das fadas madrinhas da Bela Adormecida, a azul, do tamanho da minha mão. Com um toque da varinha mágica põe-me de pé, embora não haja chão.

“Bem-vinda querida”. “Onde estou?” “Estás no limbo entre morreres ou lutares pela vida”. “Mas morri com as picadas dos mil escorpiões…”  “Foi? Ou será que te deixaste vencer numa luta que não podias ganhar na altura? Os escorpiões ferraram-te, mandaram-te abaixo com todos os maus sentimentos que te fazem desistir dos objectivos, dos teus sonhos, de quem queres ser. É difícil sobreviver à bruxa Ataraxia, é muito poderosa, mas não é a primeira vez que te visita, desconfio que não será a última. No momento em que te viu cair por este buraco, virou costas, deu como garantida a perda da tua força e foi fazer mal a outra pessoa. Mas, não vês que todos esses sentimentos já faziam parte de ti? Hão-de sempre fazer. São parte do processo criativo, da angústia que este arrasta, da tua própria natureza. Foi precisamente no momento em que te rendeste ao veneno dos escorpiões que ficaste imune. Foi assim que conseguiste reerguer-te. Por muito que não acredites a tua luz é enorme, os teus sonhos não são quimeras, na verdade, és capaz de tudo. Mesmo sendo preguiçosa, sabes que és, aceitaste todo o veneno, mas, volto a dizer, este já existia em ti. Foi assim que venceste. É quando reconheces as tuas fragilidades que ganhas o poder para as enfrentar. Os medos combatem-se. Percebeste? Humm, nem por isso, hás-de lá chegar. Pronto, pronto, agora vai descansar. Estou sempre por aqui se precisares”. Adormeço na cama com o gato enroscado a mim.

Sete da manhã, acordo antes do despertador! Ponho um pé no chão, sinto que pisei umas cascas crocantes mas não vejo nada.

Está um dia de chuva maravilhoso! Duche bem quente, um pequeno almoço saudável, café. A vassoura da cozinha cai no chão com um grande estrondo. Abro o portátil.

Este é o meu corpo

0
Vênus de Willendorf, a primeira estátua de uma mulher, 28.000 anos A.C.

Tinha 35 anos, vivia euforicamente num corpo vibrante de desejo, que queria conservar assim para sempre. E irracionalmente, imprudentemente, adiei quase três anos, o que, soube depois, era inevitável: a mutilação, que é o destino dos órgãos que não funcionam e ficam no corpo como maçãs podres, a apodrecer todo o resto. Chamada de urgência ao hospital, sob ameaça de posteriores complicações, fiz a mala e fiz-me à estrada numa noite de 5ª feira, rumo ao hospital da Universidade de Coimbra. Sozinha e em segredo! Nem pai, nem mãe, nem filho, nem amigas. Dir-lhes-ia depois de tudo ter terminado, pensava eu. Mas na manhã seguinte, ao acordar num quarto asséptico no 8º piso, a coragem desabou, peguei no telefone e comuniquei para os locais de trabalho que ia estar fora, talvez um mês, explicando as razões. Foi quanto bastou para que a notícia se espalhasse e trouxesse ao quarto as visitas, naquele ritual curioso e mórbido a que os vivos se sentem impelidos sempre que alguém que conhecem, bem ou mal, se encontra na débil condição de “internado”.

Um cheiro forte a desinfectante penetra nas narinas. É possível que médicos e enfermeiras, com o olfacto viciado por aqueles cheiros de todos os dias, não o sintam. Mas ela sente-o. Recupera-o da sua memória olfactiva, onde moram também os cheiros da sua infância, a terra quente molhada, que lhe dava ganas de comer, as filhoses de Natal, os folares da Páscoa, a broa acabada de cozer.

Invade-a aquele odor ácido e asséptico dos desinfectantes, que se alojou na memória entre os milhares de odores que já lá moravam, e que nela se instalou anos antes, quando percorreu corredores assim, impecavelmente limpos, numa tarde em que entrou no bloco operatório, para uma cirurgia, por coincidência (ou não?) ao nariz.

O corpo ainda vibrante dos seus 37 anos é, naquela manhã, um corpo quase morto, pudicamente vestido com a bata de hospital, coberto com um lençol azul também de etiqueta HUC. Vai a caminho do bloco operatório, para uma cirurgia comum, disseram-lhe os médicos, como se fosse a maior banalidade do mundo ser mutilada de um órgão!

Passara a noite anterior a tentar reconstituir uma vida inteira, amores, desamores, triunfos, fracassos, sonhos, frustrações, como quem escreve à pressa o longo livro da vida, sem gramática, sem lógica, apenas com medo.

No dia anterior, pedira que lhe trouxessem um livro sobre anestesias, que lhe dissessem sem rodeios que droga lhe injectariam, mandara chamar o Pedro, seu colega das noites de fechar a edição de “O Correio”, e eterno estudante de medicina, e, com ele, folheara um pesado livro sobre esse estranho estado de estar viva, ser esquartejada e não sentir a dor. Habituadas aos mais variados medos e correspondentes formulações de últimos desejos, as enfermeiras, adivinhando a sua agitação nocturna, fizeram-na dormir tranquilamente uma noite branca, em que nem memória de cheiros doces ou acres, nem de imagens coloridas, deixaram mancha.

Pela madrugada, um líquido transparente injectado na veia, por uma seringa de finíssima agulha, turvou-lhe os pensamentos e adormeceu-lhe a vontade. Vestiram-na para o bloco e apesar da leveza dos tecidos, ela sentiu o peso dos algodões, que pensou serem a sua mortalha.

Já no elevador de serviço, ainda formulou um pensamento que conseguiu articular:
- Vou estar morta? A anestesia é como estar morta, não é?

Há camas-macas, várias, a caminho do bloco. Em todas elas seguem pessoas, lívidas e tranquilas, quais estátuas jazentes, que neste corredor deixam de ter nome e passam a ser conhecidas por estranhas palavras do foro cirúrgico como nefroctomia, mastectomia…

Depois o espaço torna-se branco e vazio. Apenas uma luz fortíssima, vinda do tecto, deixa impudicamente exposto todo o corpo, que não reage. Mas há fragmentos de histórias da sua vida que ainda pairam na cabeça e ela fala. Dir-lhe-ão mais tarde, quando recuperar daquele sono induzido,  que parecia estar a fazer uma reportagem, tal era o insólito da sua conversa:

- Você é médico? Onde tirou o curso?
- Você… é enfermeira? Quantas horas trabalha por dia? E qual é o seu salário?
Depois é só o silêncio, branco e vazio.

Na quase morte, quimicamente induzida, de cerca de 4 horas, ela não sabe o que aconteceu. Saiu do corpo e viu-se sob a luz intensa dos projectores. Saída do corpo, ela era eu, indiferente ao ritual cirúrgico do bloco operatório, desempenhado por meia dúzia de médicos e enfermeiras, que devassavam o meu corpo. Espreito a história do meu corpo pelo enorme buraco recortado no lençol. Mãos sobre a minha pele, que me tocaram sem me tocar, que me acariciaram sem nunca me comoverem, braços de incontáveis abraços que nunca me esmagaram, beijos que nunca me tiraram o fôlego, memória urgente e breve, antes que tudo se torne um enorme vazio do esquecimento. Se não regressar desta viagem, quero levar comigo as memórias possíveis, dos corpos que me amaram sem amor, dos corpos a que me entreguei sem pudor, do sexo sem paixão e sem intimidade, do sexo apenas com a fúria louca do desejo. Do que o meu corpo teve, do que o meu corpo deu a outros corpos.

Quando acordou, viu-se de novo nos longos corredores, sentiu frio e fome, como se regressasse de um longo cativeiro. Taparam-na com cobertores, aqueceram-na, e contaram a piada que ainda hoje gosta de contar:

– Fome? Mas ainda agora lhe demos um bife mal passado! Aqui está o resto – disseram as enfermeiras, mostrando-lhe um saco com sangue que pendia sobre a sua cabeça, no ritual pós-operatório da transfusão.

Durante anos, muitos anos, todos os dias, sempre que a sua mão ou outras mãos acariciarem a curva da sua cintura, regressará àquele espaço-silêncio branco e vazio, onde o seu corpo, com a vida suspensa, foi escancarado, e no delírio do sono-morte, imaginou a serra eléctrica trinchando as duas últimas costelas flutuantes, o bisturi cortando as aderências, as mãos do cirurgião arrancando o rim e toda ela se esvaindo em sangue, o aspirador, as gazes, o cirurgião assistente ajeitando os músculos, a pele, cosendo, fechando…!

Deitada na areia, banhada pelo sol quente de Agosto, a cicatriz é como a capa de um livro cujo título suscita curiosidade. Mais curiosidade do que uma tatuagem que a disfarçasse, e foi esta certeza, que lhe era dada por todos os olhares indiscretos, que a fez desistir de mandar tatuar uma serpente para disfarçar a cicatriz. Com o passar dos anos, confundir-se-á com muitas outras marcas trazidas pelo tempo, à medida que o seu corpo for deixando de ser um objecto liso, sem história. Porque o tempo é “esse grande escultor”.

A misteriosa inscrição dumas alminhas

2

Causa espécie, como sói dizer-se, encontrar tosca legenda sob um baixo-relevo bem arquitectado. Que mistério ali se ocultará? Poderá a tradição local esclarecer a estranha anomalia?

Encontra-se no cunhal de uma casa, na Rua do Poço, freguesia de Queimada, concelho de Armamar, o que, à primeira vista, aparenta ter sido uma alminha, ou seja, um dos monumentos que a tradição popular foi colocando ao longo dos caminhos, amiúde em encruzilhadas, em louvor das almas do Purgatório – e daí, como se sabe, lhes advém o nome. Aliás, não é incomum estarem, na filactera inferior, as siglas P. N. A. M., no convite a que o transeunte reze um Padre-Nosso e uma Ave-Maria pelas almas.

Aqui, porém, a inscrição nada parece ter a ver com o que lhe está por cima.

Rua do Poço, freguesia de Queimada, concelho de Armamar

Na verdade, o baixo-relevo, em jeito de nicho curvo, de superfície lisa, flanqueado por pilastras e rematado por cornija, com cruz ao centro em peanha e volutas e pináculos piramidais laterais. 

Um conjunto, pois, deveras harmonioso e, por isso, ocorre perguntar, com toda a razão, se essa superfície agora nua se não destinaria a receber uma pintura, como outras vezes acontece, alusiva às almas nas brandas chamas do Purgatório. Se a houve, as inclemências do tempo tudo lograram limpar. Não parece haver, porém, o mínimo vestígio de tinta, pelo que, se tal intenção existiu, não chegou a ser concretizada. Também o debrum inferior não tem largura bastante para segurar uma estatueta.

Um dado se nos afigura, todavia, assaz credível: o monumento não foi pensado para esse cunhal, não só porque destoaria da envolvente, mas também porque não é obra para estar àquela altura do solo. Trata-se, pois, em nosso entender, de uma reutilização. Sábia reutilização, dir-se-á, na medida em que, desta sorte, o monumento, qualquer que tenha sido o seu enquadramento original, ficou assim devidamente protegido.

Prende-se essa hipótese com o facto de a inscrição que subjaz ao nicho nada ter a ver directamente com ela. E dizemos «directamente», porque a nossa opinião é que o proprietário da casa terá encontrado o baixo-relevo e o quis aproveitar para alindar essa esquina. E, vai daí, mandou gravar inscrição que perpetuasse a sua atitude:

ESTA OBRA MANDOU
FAZER LUIS REUELO DE
CAPo · Fº DE IOZE REBE
LO DO POSO

O que significa, em linguagem dos nossos dias: «Esta obra mandou fazer Luís Revelo, de Capº[?], filho de José Rebelo, do Poço».

Poder-se-ia pensar que também a placa fosse um reaproveitamento, ou seja, vinda doutro lugar; cremos, todavia, que o facto de José Rebelo ser «do Poço» torna mais verosímil a hipótese de também a casa ter sido obra do Luís!

O tosco bloco mede (aproximadamente) 27 a 31 cm de altura; 64 de largura e 81 de espessura; a altura das letras varia entre os 4,5 e os 5, 5 cm.

Note-se, no letreiro, que Rebelo está grafado com U (por V) e com B – um eco da pronúncia local! Fº é, como se desdobrou, a sigla habitual de ‘filho’. Identifica-se o pai com o nome próprio e o apelido de família e a menção da naturalidade ou da residência: «do Poço», nome da rua onde a sua casa se localiza. Por esse motivo, é natural que «de Capº», na identificação do filho, queira também indicar naturalidade ou residência. Poderá haver dúvida na leitura, porque a superfície está levemente esboroada; Alberto Correia sugeriu-nos CAR(valho), que seria, nesse caso, outro apelido do Luís; quere-nos parecer, todavia, que há um P com um pequeno O sob a parte circular e o ponto triangular que de seguida se vê prova claramente que estamos perante uma abreviatura. De que terra? Inclinamo-nos para que seja uma das proximidades, por se tornar, dessa forma, mais fácil a identificação.

Atente-se, de novo, no carácter rústico da escrita e o facto de não ter havido qualquer cuidado em preparar molduração ou, até, o que seria o mínimo, apresentar o bloco à esquadria, com arestas direitas; nada disso se pensou e também a parede foi toscamente aparelhada com as pedras que se tinham à mão. Mais uma prova a ratificar o carácter de reutilização do nicho ali, desenquadrado mas oportunamente aproveitado.

A que época poderá atribuir-se o conjunto? Torna-se difícil definir. As letras capitais usam-se durante muito tempo assim (veja-se o A com o travessão angular, o S inclinado para diante), e, por outro lado, aqui estamos, inclusive, num meio rural. Uma data de finais do século XIX ou princípios do século XX, não seria, quiçá, despicienda, se atentarmos, por exemplo, na grafia IOZE, com ressonâncias do I latino para o som do J e o Z (mais ajustado ao som usual).

Claro, as fontes locais, como acima se escreveu, designadamente os registos cadastrais, poderão vir em nosso auxílio: quando é que esta casa foi construída (ou remodelada pela última vez)? Quando é que o lugar se chamou simplesmente Poso?

De qualquer modo, regozijamo-nos por nos ter sido possível dar a conhecer um vestígio da antiguidade, que, pelo seu interesse histórico e documental, merece continuar a ser devidamente preservado.

Viver com cancro

0

Diagnóstico? Cancro. Cancro de mama, cancro no cérebro… cancro. Primeiro pensamento: sentença de morte, sofrimento, porquê eu? 

Entre a solidão de carregar um diagnóstico pesado, chega às famílias a notícia. Todos correm. O que poucos sabem é que, de repente, naquele núcleo familiar todos temos cancro. Começam os tratamentos: cirurgia, radioterapia, quimioterapia. Vai-se o cabelo, a zona de tratamento apresenta queimaduras dolorosas, as viagens de ambulância, de ida e volta, cansativas. Indisposição, humor deprimido. 

Os meus olhos tristes nada dizem sobre que aprendi a viver, com elas, o seu cancro. Não se luta contra ele, não se ganha ou perde, aprende-se a viver. A minha mãe, diagnosticada há um ano. Uma outra minha amiga, que aprendeu a viver com ele e que, com um humor transcendente, nos dizia “Eu é que tenho cancro e vocês é que são todas maradas da cabeça” e soltava uma gargalhada, sempre pronta para viver. 

Hoje ela já não está connosco. Hoje a minha mãe aprendeu a viver com o bicho. Eu aprendi a não guardar nada para fazer amanhã, vestir amanhã, etc. porque tudo o que temos é o hoje. 

Viver em modo cancro não é fácil, requer força e coragem, uma equipa médica atenciosa e, cá por casa, falar-se sobre isso com abertura. 

Obrigada por este ano. E todos aqueles que estão a aprender a viver com ele, seja na primeira pessoa, seja enquanto familiares, saibam que é OK não estar sempre OK. 

Neste dia quero também deixar um repto. Eu, como filha, não posso nunca deixar de trabalhar para acompanhar a minha mãe aos tratamentos. Só há legislação no caso dos descendentes e não ascendentes. Agora pergunto, que civilização é esta? Onde está a justiça social? Pois… foi a pergunta que fiz, enquanto os meu olhos, marejados de lágrimas, soltavam fogo pela tremenda injustiça. E foi assim que, durante algum tempo, ela foi na ambulância sozinha… e eu fiquei de coração pequenino. 

A jornada não termina nunca… e é isto.

Sim, Senhora Ministra

0

Com efeito, salvo o seu discurso na cerimónia de abertura do ano judicial, em que fez um balanço dos principais problemas da justiça com enfoque nas soluções já em marcha, foram quase invisíveis as suas intervenções. Tão raras que até eu, sempre atenta às notícias, só recordo uma intervenção num jornal da noite, a propósito do encerramento do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

É um facto que os ministros com grande visibilidade mediática, quase sempre (talvez possamos tirar o quase) o são pelas piores razões, pelo que esta invisibilidade da Ministra da Justiça poderia ser um bom sinal.  A justiça é um dos “cancros” da política portuguesa que parece ter atingido o grau de incurável. Mas o poder judicial está tão pulverizado por instituições, que só com a Constituição da República na ponta de língua me atreveria a dizer o que é da competência da senhora ministra. Duma coisa estou certa: do que depender dela, fará as reformas que tornarão o sistema judicial português um exemplo para o mundo.

Já ouço apupos dos funcionários judiciais. São precisos mais de mil, a Senhora Ministra prometeu duzentos…

Ela quer “fazer acontecer” mudanças, mas para poder, tem de contar com as finanças. Para fazer acontecer seja o que for, para o bem de todos, é preciso coragem de desafiar as instituições políticas e financeiras a pensarem no bem comum e não nos privilégios de minorias, grupos económicos e pessoas com nome. É escandalosa, amoral, a distorção que os governos em geral fazem dos conceitos fundacionais da democracia. Há uma naturalização do capitalismo, como se fosse o fim da história, quando não passa de um sistema criado pelos homens (e mulheres) que aprimorou tudo o que tem de pior: desigualdades económicas gritantes, fortunas imorais de uns poucos e bandos de miseráveis. No meio, uns remediados. Ouvi um jovem comentar o carro do vizinho nestes termos: “eh pá, para ter um carro destes há de ganhar praí uns mil euros limpos por mês!” Deu-me vontade de chorar. Já ninguém estranha. As desigualdades são aceites como naturais. Imagens de gente a passar fome, a dormir na rua, já nem nos estragam o jantar. E têm menos mediatismo do que usar uma mala que custa 400 mil euros. Mas ainda há quem venha para a rua gritar. Clamam por justiça. Até perderem a voz.

Conheço a Ministra das Finanças. Conheci-a Catarina, nos seus 18 anos, já a ler textos integrais dos antepassados da democracia moderna: Montesquieu e “O espírito das leis”, Jean-Jacques Rousseau e “O contrato social”.

Sim, Senhora Ministra, tenho a certeza de que gostaria e seria capaz de ‘fazer acontecer ” uma verdadeira revolução no sistema judicial português. Assim pudesse!

Uma eloquente inscrição do século XVIII

1

Explicam os teóricos da evolução cultural da Humanidade ocidental que ela se processou aos altos e baixos. Ou, dizendo doutra forma e para se usar a teoria dialéctica de Hegel (1770-1831), os acontecimentos (a tese) acabam por gerar uma reacção (a antítese), donde virá a resultar uma síntese, a qual, por sua vez, se constituirá em novo ponto de partida, num eterno movimento em espiral.

Vemos isso na moda, em que ao cabelo comprido sucede a cabeça rapada e, daí, um penteado de média dimensão, de existência fugaz. À minissaia da estilista Mary Quant, da década de 60, sucederam os vestidos até aos pés.

Também no âmbito cultural se tem progredido assim. Veja-se que, no século XVI, o Latim era a língua científica oficial; soçobrou um pouco no século XVII, para, no século XVIII, o neoclassicismo das artes ter implicado um retorno ao uso do Latim, muito por sugestão das Academias.

No que concerne à religião, recordar-se-á que a missa foi rezada em latim até não há muito tempo. A introdução da língua vernácula nas cerimónias religiosas foi, não há dúvida, uma das grandes inovações do Concílio Vaticano II (1962-1965). Por conseguinte, não é de admirar que se encontrem, aqui e além, inscrições em língua latina, por vezes em termos de jaculatórias, mormente se forem passíveis de relacionar com frases da Sagrada Escritura.

É nesse âmbito que incluímos o que está gravado no lintel duma janela do primeiro andar (junto ao telhado) do nº 3 da Rua da Ramada, em Arícera, povoação hoje integrada na União de Freguesias de Arícera e Goujoim, concelho de Armamar.

            Lê-se o seguinte:

SVRGITECOPADDEVM
             1706

O S e o V estão ligeiramente inclinados para diante; a perna do R, bem oblíqua e lançada para a frente; G de haste vertical, curta, com serifa no vértice; O alongado na horizontal, o que também acontece com o D, de curvatura quase ovalada; M bastante largo. A inscrição está centrada e terá havido prévias linhas de pauta para a gravação no solo, assim se explicando que se toquem os vértices do E, do V e do M.

A leitura só oferece duas dúvidas:

– Temos, aparentemente, P; será, porém, R de perna oblíqua menos perceptível, designadamente devido à dificuldade de se obter uma iluminação susceptível de o realçar.

– A outra dúvida reside no último número da data. Cremos que foi primeiramente gravado um 6, que poderá ter sido corrigido depois para 1 esguio e cursivo.

1706 ou 1701 é questão de pormenor que eventual consulta aos arquivos cadastrais poderá vir a dirimir; para o caso, todavia, como documento cultural, é de somenos.

Por conseguinte, procedendo à divisão das palavras e desdobrando a que, em nosso entender, está abreviada, o texto diz o seguinte :

SVRGITE COR(da) AD DEVM

Levantai os corações para Deus.

Preferimos corda, o plural do nome latino cor, em vez do singular cordem, por nos parecer mais lógico; contudo, também o singular se aceitaria.

Para quem viveu ainda no tempo da missa em latim, fácil será recordar, agora, a proclamação (o prefácio) a anteceder o cântico do Sanctus: sursum corda! – «corações ao alto!».

Decerto a expressão, assim nesta formulação singela, poderá ter sido inspirada em específica passagem bíblica, que não lográmos identificar. Próxima dela é, no entanto, a que vem no livro do profeta Jeremias (31, 6): «Há-de vir um dia em que os vigilantes gritarão sobre os montes de Efraim: “Levantai-vos! Subamos a Sião, ao Senhor, nosso Deus”» – «Quia erit dies in qua clamabunt custodes in monte Ephraim surgite et ascendamus in Sion ad Dominum Deum nostrum».

Não será, pois, despiciendo sugerir uma investigação sobre os reflexos da religiosidade cristã no dia-a-dia da população em geral. Reflecte esta inscrição uma convicção, o eco duma catequese que chega não apenas à população urbana, mas também às gentes do campo. Aliás, ocorre perguntar: poderá atender-se, a este propósito, à dicotomia cidade-campo? Cada achado destes, deve implicar, por outro lado, uma reflexão complementar: concretamente, o que aconteceu? Quem poderiam ter sido os autores? Houve influências directas? Trata-se, afinal, duma ocorrência isolada ou teremos – a nível local, regional ou nacional – testemunhos semelhantes?

Possa esta nota vir a suscitar maior curiosidade acerca do significado cultural que inegavelmente se desprende destes aparentemente singelos letreiros dispersos.

Rua da Ramada, Arícera, Armamar

A tecnologia não pode significar desumanização

1

O uso da tecnologia é uma tendência cada vez mais comum nos espaços comerciais, para diminuir o peso da mão de obra. Já o seu uso nos serviços públicos deve ter em consideração alguns factores, como a iliteracia digital de uma boa parte da população. Há que proteger as pessoas, em especial as mais idosas, levadas ao engano por manifesta ignorância.

No presente, já é uma raridade encontrarmos um funcionário num posto de combustíveis, numa portagem ou até nalguns hotéis, que receba o pagamento da compra diante do cliente. Em quase todos estes sítios, debatemo-nos com as duas tarefas. Pagamos numa máquina ou através de uma aplicação informática, munidos de um código pessoal, que se encarregará de levar o dinheiro ao destinatário através de uma rede digital. Essas aplicações para já são quase todas gratuitas. No dia em que ficarmos completamente reféns delas, passarão a ser pagas.

Depois de limitar ao mínimo, as horas de atendimento ao público, os bancos vão começar a cobrar comissões por todos os serviços que prestam, até o acesso às suas poucas agências, ou pelo levantamento de dinheiro a quem continua a insistir no uso da carteira, em vez de fazer transações com o telemóvel, por exemplo.

Mas o principal obstáculo surgirá no dia em que não pudermos entrar numa repartição pública, sem fazer previamente um agendamento. E isso já está a acontecer. A pandemia foi o pretexto que faltava para mudar o paradigma no atendimento, de serviços cuja responsabilidade está a cargo do Estado. E parece que veio para ficar.

Há pessoas que andam pela rua com receios fundados, de permanecerem ilegais por tempo indeterminado, não conseguindo formalizar a sua autorização de residência por não terem um telefone local para atender, onde um receptor de chamadas lhes dá um número, depois de ouvirem uma gravação interminável, ou obterem uma aplicação web que funciona mal, para tratar de assuntos que os tornem pessoas legais e activas.

Já existem pessoas que têm que atrasar algumas das suas decisões vitais, por não conseguirem aceder livremente a um cartório, notário ou conservatória. Já começam a aparecer portas fechadas nas repartições de finanças, com um segurança na entrada, que, lista na mão, separa os habilidosos dos menos entendidos em informática. Filtra quem pode entrar e quem não pode entrar para tirar dúvidas, dum assunto pertinente e inadiável, num prédio pago com os nossos impostos, e em que as divisórias reduzem os espaços onde antes havia funcionários para atender quem não podia sair dali sem uma solução para o seu problema.

Lojas, postos de gasolina, centros de saúde, auto estradas, hotéis, bilheterias, restaurantes… e a até a Administração Pública, andam a par com aqueles que silenciosamente desumanizam e eliminam empregos. Podemos fazer todo tipo de debates para melhorarmos a rentabilidade do Estado, mas o que não pode ser legítimo, é exigirem-nos uma marcação prévia para nos deslocarmos ao balcão de uma instituição pública, para tratarmos de um assunto em que ambas as partes, Estado e cidadão, são protagonistas interessados na resolução do mesmo. Além de levantar uma barreira onde a acessibilidade deveria ser a norma. Estamos a meu ver, perante uma prática que me parece inconstitucional.

A função pública deve estar ao serviço do cidadão, e não o cidadão atrás da conveniência do sector público, apenas porque se pretende reduzir custos, sem se perceber os efeitos destrutivos que isto causa na vida das comunidades. 

Se deixarmos alastrar esta ideia, sem reparos e indignação, será o começo do fim da atenção aos cidadãos, da reivindicação dos seus direitos, e uma porta aberta para mais privatizações. E depois: menos empregos, menos garantias de emprego… menos tudo.

POBRES JORNALISTAS

2

A maioria dos jornalistas ganha mal, um pouco à semelhança do que se passa na generalidade das classes profissionais em Portugal. É verdade que há alguns milionários na profissão, mas os casos de ordenados chorudos são relativamente poucos e, quase sempre, apenas premeiam os “papagaios” televisivos.

Não há um único repórter que tenha um nível salarial equiparado ao de um pivot de jornal televisivo. Não há um. E, no entanto, são os repórteres que fazem todos os conteúdos de um noticiário, seja num jornal, na rádio, no site ou na televisão. Sempre foi assim.

E quanto toca a despedir, os critérios de escolha variam entre ser mais velho e, portanto, mais bem pago, ser menos acomodado a injustiças praticadas na empresa, ser notoriamente melhor profissional que as chefias ou não ir para a cama com quem manda. Dizer não nunca foi coisa bem vista. Nem mesmo nas redações.

Há quem pense que os jornalistas têm o que merecem, genericamente falando. Por serem uma classe profissional acobardada. Na verdade, num setor onde os aumentos salariais rareiam, também têm sido raras as greves e as manifestações públicas de protesto.

Hoje, ficámos a saber que há vários conflitos em surdina em diferentes redações. Na rádio TSF, do grupo Global Media (GMG), os trabalhadores fizeram um plenário para pedir mais dinheiro à entidade patronal. Na SIC, 150 trabalhadores protestaram em silêncio por aumentos salariais. Não se ouviu nada, cá fora.

Também na LUSA, no Jornal de Notícias, na TVI/CNN, no jornal A Bola, na RTP, há conflitos laborais latentes ou em curso. Nuns casos porque as empresas estão em novos processos de redução de pessoal, noutros porque os aumentos salariais propostos pelo patronato são inferiores a 1 euro por dia.

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) diz estar “a acompanhar as várias situações”, mas não se nota qualquer eficácia nesse acompanhamento. Há décadas que o setor tem vindo a ser maltratado e o jornalismo cada vez mais desconsiderado. O sindicato não tem tido uma ação capaz de reverter a situação cada vez mais precária dos profissionais.

O SJ é um sindicato enfraquecido. Em muitas redações, a maioria dos jornalistas não está filiada no sindicato. No final do ano passado, para tentar contrariar essa realidade, o SJ lançou uma campanha de angariação de sócios um tanto estranha. Prometia os habituais descontos em seguros, transportes, viagens, hotéis, mas dava uma borla nas quotas até abril de 2023. Esqueceram-se de leiloar um automóvel…

Ri-te, ri-te que já vais ver como é!

0

Ao anunciar que o Grupo Desportivo do Zambujeiro ia levar à cena uma comédia, escrevi:

«Nada sei do que lá vai passar-se, garanto. No entanto, vi que o senhor Nicolau Gogol tinha escrito uma peça a que deu o nome de ‘Inspector’ e que foi estreada, a 19 de Abril de 1836, em S. Petersburgo. Uma comédia em cinco actos! Escreveu alguém sobre ela aquilo que eu nunca saberia escrever: “A natureza ambivalente do homem e do artista Gogol – os elementos antinómicos de pesadelo de um lado e os do riso desenfreado do outro – traçam juntos as linhas definidoras desta comédia que revolucionou o teatro russo”. Se é isso que vai ver-se não sei; mas que promete ser uma noite bem divertida, sei bem que vai ser!».

E foi.

Num original da jovem actora algarvia Joana Saraiva e por ela encenado, certamente partilhado e pontilhado com as constantes buchas dos actores, ali se passam, de facto, quase duas horas de boas gargalhadas. Não é para menos, porque esse «inspector de São Peterburro» não é burro nenhum e aproveita-se bem do facto de – pelo seu trajar selecto e ares sentenciosos e por, inclusive, ter dois lacaios para lhe transportarem as malas… – o terem tomado pelo inspector anunciado. Não era, mas gostou do papel. E, embora se apercebesse à evidência que, a nível de Educação, de Saúde, de Justiça, por exemplo, as coisas estavam mesmo mal, aproveitou-se dos dinheiritos que, sub-repticiamente, lhe iam passando, para a todos solenemente declarar que escreveria um relatório assaz favorável a todos.

Não escreveu. E os burlados só disso se aperceberam quando deram conta da carta em que, a um amigo, ele contava das delícias por que passara.

Um texto singelo, bem servido por este grupo amador, que mais não pretende do que, desta forma, cimentar a comunidade desta aldeia, ali plantada entre leves colinas ainda ornadas do verde da vegetação rasteira original…

Filipe Santos é o inspector boçal, malicioso, rei da festa; Laura Sobral, a azougada espanholita; Beatriz Dorropia, a sedução; Beatriz Baleia, a «senhora»; Maria João Baleia, uma tempestade; Rosa Rodrigues, a 2ª tempestade, que ri por todos os poros, irradiante de vivacidade; Margarida Rabeca, a tatuada filha do Governador; Isabel Silva, vai tudo à frente; José Santos e Carlos Rodrigues, a serenidade em pessoa.

José Sobral trata do som, Vasco baleia das luzes, Ana Sobral é a contrarregra; Joaquim Baleia, assistente de palco; Hugo Sobral e Renato Duarte superintendem na sala.

A comédia «O Inspector de São Peterburro» está em cena aos sábados, até dia 1 de Abril (inclusive), a partir das 21 horas, na sede do Grupo Desportivo do Zambujeiro, em Cascais. Marcações pelo tel. 937 907 563 ou por ticketline.

Jogos de Guerra

0

O Comité Olímpico Internacional quis permitir que atletas russos pudessem competir nos Jogos olímpicos de 2024, em Paris, mas Zelensky não é um sportsman. O Presidente da Ucrânia é, de facto, um chefe de guerra.

vídeo

Não é a primeira vez que países são banidos. A história dos Jogos Olímpicos mostra que situações de guerra ou discriminação são razões para banir países de participarem na maior competição desportiva do mundo, que acontece de 4 em 4 anos.

Por exemplo, a Alemanha foi banida de pelo menos três edições (1920, 1924 e 1948) devido ao seu envolvimento nas duas grandes guerras mundiais. A África do Sul também foi banida de participar, enquanto esteve em vigor o regime do Apartheid.