Tinha 35 anos, vivia euforicamente num corpo vibrante de desejo, que queria conservar assim para sempre. E irracionalmente, imprudentemente, adiei quase três anos, o que, soube depois, era inevitável: a mutilação, que é o destino dos órgãos que não funcionam e ficam no corpo como maçãs podres, a apodrecer todo o resto. Chamada de urgência ao hospital, sob ameaça de posteriores complicações, fiz a mala e fiz-me à estrada numa noite de 5ª feira, rumo ao hospital da Universidade de Coimbra. Sozinha e em segredo! Nem pai, nem mãe, nem filho, nem amigas. Dir-lhes-ia depois de tudo ter terminado, pensava eu. Mas na manhã seguinte, ao acordar num quarto asséptico no 8º piso, a coragem desabou, peguei no telefone e comuniquei para os locais de trabalho que ia estar fora, talvez um mês, explicando as razões. Foi quanto bastou para que a notícia se espalhasse e trouxesse ao quarto as visitas, naquele ritual curioso e mórbido a que os vivos se sentem impelidos sempre que alguém que conhecem, bem ou mal, se encontra na débil condição de “internado”.
Um cheiro forte a desinfectante penetra nas narinas. É possível que médicos e enfermeiras, com o olfacto viciado por aqueles cheiros de todos os dias, não o sintam. Mas ela sente-o. Recupera-o da sua memória olfactiva, onde moram também os cheiros da sua infância, a terra quente molhada, que lhe dava ganas de comer, as filhoses de Natal, os folares da Páscoa, a broa acabada de cozer.
Invade-a aquele odor ácido e asséptico dos desinfectantes, que se alojou na memória entre os milhares de odores que já lá moravam, e que nela se instalou anos antes, quando percorreu corredores assim, impecavelmente limpos, numa tarde em que entrou no bloco operatório, para uma cirurgia, por coincidência (ou não?) ao nariz.
O corpo ainda vibrante dos seus 37 anos é, naquela manhã, um corpo quase morto, pudicamente vestido com a bata de hospital, coberto com um lençol azul também de etiqueta HUC. Vai a caminho do bloco operatório, para uma cirurgia comum, disseram-lhe os médicos, como se fosse a maior banalidade do mundo ser mutilada de um órgão!
Passara a noite anterior a tentar reconstituir uma vida inteira, amores, desamores, triunfos, fracassos, sonhos, frustrações, como quem escreve à pressa o longo livro da vida, sem gramática, sem lógica, apenas com medo.
No dia anterior, pedira que lhe trouxessem um livro sobre anestesias, que lhe dissessem sem rodeios que droga lhe injectariam, mandara chamar o Pedro, seu colega das noites de fechar a edição de “O Correio”, e eterno estudante de medicina, e, com ele, folheara um pesado livro sobre esse estranho estado de estar viva, ser esquartejada e não sentir a dor. Habituadas aos mais variados medos e correspondentes formulações de últimos desejos, as enfermeiras, adivinhando a sua agitação nocturna, fizeram-na dormir tranquilamente uma noite branca, em que nem memória de cheiros doces ou acres, nem de imagens coloridas, deixaram mancha.
Pela madrugada, um líquido transparente injectado na veia, por uma seringa de finíssima agulha, turvou-lhe os pensamentos e adormeceu-lhe a vontade. Vestiram-na para o bloco e apesar da leveza dos tecidos, ela sentiu o peso dos algodões, que pensou serem a sua mortalha.
Já no elevador de serviço, ainda formulou um pensamento que conseguiu articular: - Vou estar morta? A anestesia é como estar morta, não é?
Há camas-macas, várias, a caminho do bloco. Em todas elas seguem pessoas, lívidas e tranquilas, quais estátuas jazentes, que neste corredor deixam de ter nome e passam a ser conhecidas por estranhas palavras do foro cirúrgico como nefroctomia, mastectomia…
Depois o espaço torna-se branco e vazio. Apenas uma luz fortíssima, vinda do tecto, deixa impudicamente exposto todo o corpo, que não reage. Mas há fragmentos de histórias da sua vida que ainda pairam na cabeça e ela fala. Dir-lhe-ão mais tarde, quando recuperar daquele sono induzido, que parecia estar a fazer uma reportagem, tal era o insólito da sua conversa:
- Você é médico? Onde tirou o curso? - Você… é enfermeira? Quantas horas trabalha por dia? E qual é o seu salário? Depois é só o silêncio, branco e vazio.
Na quase morte, quimicamente induzida, de cerca de 4 horas, ela não sabe o que aconteceu. Saiu do corpo e viu-se sob a luz intensa dos projectores. Saída do corpo, ela era eu, indiferente ao ritual cirúrgico do bloco operatório, desempenhado por meia dúzia de médicos e enfermeiras, que devassavam o meu corpo. Espreito a história do meu corpo pelo enorme buraco recortado no lençol. Mãos sobre a minha pele, que me tocaram sem me tocar, que me acariciaram sem nunca me comoverem, braços de incontáveis abraços que nunca me esmagaram, beijos que nunca me tiraram o fôlego, memória urgente e breve, antes que tudo se torne um enorme vazio do esquecimento. Se não regressar desta viagem, quero levar comigo as memórias possíveis, dos corpos que me amaram sem amor, dos corpos a que me entreguei sem pudor, do sexo sem paixão e sem intimidade, do sexo apenas com a fúria louca do desejo. Do que o meu corpo teve, do que o meu corpo deu a outros corpos.
Quando acordou, viu-se de novo nos longos corredores, sentiu frio e fome, como se regressasse de um longo cativeiro. Taparam-na com cobertores, aqueceram-na, e contaram a piada que ainda hoje gosta de contar:
– Fome? Mas ainda agora lhe demos um bife mal passado! Aqui está o resto – disseram as enfermeiras, mostrando-lhe um saco com sangue que pendia sobre a sua cabeça, no ritual pós-operatório da transfusão.
Durante anos, muitos anos, todos os dias, sempre que a sua mão ou outras mãos acariciarem a curva da sua cintura, regressará àquele espaço-silêncio branco e vazio, onde o seu corpo, com a vida suspensa, foi escancarado, e no delírio do sono-morte, imaginou a serra eléctrica trinchando as duas últimas costelas flutuantes, o bisturi cortando as aderências, as mãos do cirurgião arrancando o rim e toda ela se esvaindo em sangue, o aspirador, as gazes, o cirurgião assistente ajeitando os músculos, a pele, cosendo, fechando…!
Deitada na areia, banhada pelo sol quente de Agosto, a cicatriz é como a capa de um livro cujo título suscita curiosidade. Mais curiosidade do que uma tatuagem que a disfarçasse, e foi esta certeza, que lhe era dada por todos os olhares indiscretos, que a fez desistir de mandar tatuar uma serpente para disfarçar a cicatriz. Com o passar dos anos, confundir-se-á com muitas outras marcas trazidas pelo tempo, à medida que o seu corpo for deixando de ser um objecto liso, sem história. Porque o tempo é “esse grande escultor”.



