Cruzeiro – do sonho à realidade!

Um país sem artistas é um sítio triste.

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E era, de facto, um sonho antigo. Que nos custava ver como, pouco a pouco, o que fora pensado para tantas coisas definhava, impotente.

«Cruzeiro» se chama, do nome dos Cruz os seus mentores; cruzeiro porque então, nesse final da década de 40, ali, sobre ele, se cruzavam as rotas aéreas e havia como que a confluência das três freguesias, Cascais, Estoril e Alcabideche. E queria-se que foi encruzilhada de muitas gentes, de muito movimento, algo que nunca se vira em tempo algum e em nenhum sítio.

Quantos por ele, nestes anos todos, fomos passando e até ali alguma vez comemos num dos restaurantes lá de cima ou fomos aos fados, rejubilámos no passado dia 28.

Dissiparam-se as dúvidas logo à aproximação e depois, paulatinamente, à medida que fomos percorrendo os espaços e vimos que, mesmo em dia de abertura, já ameaçavam estar vivos.

No palco, ao rés-do-chão, um coro lançava cantos ao vento; no que vão ser as salas de aula da Escola Profissional de Teatro, quatro-cinco alunos treinavam já aquela cena combinada, no convite a que nos demorássemos e nos sentássemos numa das cadeiras, a ouvi-los… E depois vinha-se ao amplo varandim do 1º piso e ao do 2º e a vista alargava-se até ao Cabo Espichel… Maravilha!

E olhámos para trás: sim, aquela espécie de torreãozinho, qual torre de radar de aeroporto, os arquitectos fizeram questão (como nós faríamos!) em a manter! Aliás, a traça da época acabou por ser respeitada – e com isso também nos congratulamos.

Quase no final do dia, mal refeitos das emoções, ainda nos esperava a sessão solene no auditório. Um auditório! Como, vivamente entusiasmado, me escreveu Nikolay Lalov, de Budapeste:

«Não há melhor satisfação: ver a Orquestra criada por mim, a abrir uma Academia, onde o Conservatório, criado por nós, vai ter salas e a OCCO um auditório para actuar. E a OCCO dirigida por um jovem maestro, que ganhou prémio no concurso que OCCO criou… A OCCO apanhou a ” velocidade do Cruzeiro”!».

Pois foi isso mesmo. Além dos discursos protocolares, o do Senhor Presidente da Câmara e o do Senhor Ministro da Cultura (nunca ele pensou, creio eu, que viria a ter o seu nome numa placa deste edifício, que se habituara a ver desde pequenino e cuja degradação também muito lhe custava sentir), além dos discursos, tivemos o Monólogo do Vaqueiro por um dos elementos do TEC. Só que, neste caso, o recém-nado não foi um principezinho de carne e osso, mas um edifício real, real de realeza e real de realidade! E o vaqueiro bem o soube louvar. Um texto de antologia, diga-se! Merece que se saiba quem o fez! E merece voltar a ser ouvido.

Quando, sim, actuou a Orquestra Sinfónica de Cascais e Oeiras, a acompanhar uma tenor, que nos deliciou, por exemplo, com a Ave-Maria de Schubert, não haveria trecho mais adequado ao momento. Como – num outro horizonte – o canto dos goliardos, Carmina Burana, a fechar o espectáculo, nos obrigou a outros sonhos…

Que, sim, esta Academia de Artes do Estoril (canto, dança, teatro, música…) é, agora, um sonho cumprido, um sonho «refeito», como Lalov contrapôs ao sonho «desfeito» do empreendedor de 1951. Queremos, porém, que venha a ser um viveiro de bons sonhos concretizados! E sê-lo-á!

3 COMENTÁRIOS

  1. Tomo a liberdade de inserir o comentário feito pela Dra. Elvira Bugalho, que vive quase paredes-meias com o Cruzeiro:

    «Zé, tu e muita muita gente estão felizes com esta recriação do Cruzeiro… E que direi eu? Desde criancinha a ver, assustada, os morcegos, que, de noite, povoavam aqueles arcos… Depois, as andorinhas, que ali faziam os seus ninhos… E as lojas que, no rés-do-chão, serviam a pouca população da zona… Mas havia mercearias, café, a chique Casa Africana, a farmácia, lavandaria, papelaria… Foi para mim a minha vida e, depois de me ter sido tão útil, continuará agora culturalmente… Só espero que tenha um café… que esteja sempre aberto ao público.

  2. Quantas vezes, passando por ali, lamentei a degradação de um edifício que podia ser recuperado para cumprir uma missão cultural.
    Afinal aconteceu, era a sua vocação, excedendo até as minhas expectativas, por aquilo que este texto tão bem e exaustivamente descreve.
    Academia de Artes do Estoril?
    Não perderá pela demora. Amanhã já passo por lá.
    E parabéns a todos os que contribuíram para que a obra sonhada nascesse.

  3. De: Nikolay Lalov
    9 de junho de 2020 21:48

    Meu caro Amigo,
    Muito obrigado pelas suas amáveis palavras!
    Não poderia ser diferente a atitude dos músicos depois de 3 meses sem fazerem aquilo que eles adoram….
    Foi um momento especial para todos nós: voltar ao palco! E fico feliz que, mais uma vez Cascais, está à frente: 20 000 visualizações do concerto! Só posso agradecer pelo convite do Presidente Dr. Carlos Carreiras. Vamos avançar, com cautela e segurança, mas também com determinação e entusiasmo.

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