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ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS

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Há muitos anos, numa viagem de autocarro, tive como companheira uma mulher desconhecida, que durante mais de uma hora me contou como abandonara o trabalho profissional para se tornar cuidadora da mãe.

Ouvi-a quase incrédula, reconhecendo naquela renúncia à sua vida profissional e social decorrente, um exemplo inexcedível de coragem e amor filial.

Perguntei-me se eu seria capaz de tal e, não duvidando da autenticidade do seu testemunho, a ela perguntei: “e tem rendimentos que lhe permitiram deixar de trabalhar?”

Que sim, tinha, da reforma da mãe e complemento de viuvez, desde a morte do pai. Não havia ainda o estatuto de cuidador informal, e mesmo que houvesse, não seria seguramente esse subsídio que lhe permitiria sustentar-se a si e à mãe.

Não tendo eu condições para deixar de trabalhar, vivendo a 100 km de distância, sim, pus o meu pai, viúvo, num lar, onde durante sete anos ele pode conviver com alguma alegria, com amigos a amigas que também lá moravam.

Todos os quinze dias, ao fim de semana, me deslocava à aldeia, com a minha irmã, a morar e trabalhar a mais de 200 quilómetros, e levávamos o pai a passar o fim de semana em casa.

Nunca lhe ouvi uma queixa sobre a forma como era tratado no lar. Pelo contrário. Aos domingos, mal acabávamos de almoçar, já ele nos lembrava que queria ir lanchar ao lar.

Desenvolveu até um sentido de humor que lhe desconhecia. Dizia, com piada, quando entravam novos utentes, “hoje chegou mais uma remessa de velhos”!.

As notícias sobre maus tratos a idosos nos lares, que de vez em quando inundam os ecrãs da TV, não permitem generalizar. Contudo, sei como algumas imagens se tornam omnipresentes e se toma a árvore pela floresta. Mas eu recuso-me a generalizar.

O que me indigna é que pareça não haver meios para a fiscalização regular, sem aviso prévio, destas instituições que acolhem idosos, alguns por preços obscenos. Que a sociedade em geral só tome consciência da falta de condições dos lares, quando algum incidente abre um telejornal. Os meios de comunicação social cumprem a sua função. Não que os seus propósitos sejam de indiscutível ética. As audiências determinam a agenda, mas o importante é que façam o seu trabalho de denúncia. São eles que desencadeiam de imediato inspeções e, não raramente, encerramento dos lares. Mas os agentes de fiscalização que, segundo a Ministra da tutela, estão sempre a acontecer, não veem?! Precisam das denúncias, das imagens chocantes dos media para abrirem os olhos!?  A cegueira, a ignorância, a desvalorização do que está à vista todos os dias, isso sim, suscita-me indignação. Mas ainda assim recuso-me a generalizar. Os lares não são todos iguais, embora se tenham tornado o negócio da velhice, no caso dos privados, aos quais poucos têm acesso, ou padeçam de todos os males das instituições públicas, no caso dos tutelados pela Segurança Social.

A minha atual situação de dependência torna-me uma potencial candidata a um lar.  Amargurada pelo condicionamento que tenho feito à vida do meu companheiro, discutimos muitas vezes essa alternativa. Com todo o desvelo, ele tem-se oposto categoricamente a esta opção.  Não deixou o seu trabalho como professor de piano, embora concentre o seu horário em 2 dias por semana, e tem conseguido conciliar a extrema dedicação como professor com os cuidados que carinhosamente me presta.

Esses momentos em que está com alunos devolvem-lhe o sentimento de que a vida continua o seu rumo, apesar dos cuidados que a minha situação lhe exige. São indispensáveis para manter o equilíbrio psicológico, vendo/ouvindo os alunos crescer como futuros pianistas ou, pelo menos, como apreciadores de boa música.

Sou grata pelo seu zelo como cuidador e sei quanto isso tem contribuído para que eu não desista de lutar todos os dias por mais autonomia, em pequenos gestos que o libertem, e a nós dois alimentem a esperança de que posso tornar-me menos dependente.

Sei que nunca mais conduzirei um carro, mas não ficarei presa em casa. Ele tornou-se também o meu motorista, para as terapias e para todas as dimensões ainda possíveis da vida social.

Contudo, jamais julgarei aqueles que encontram nos lares uma solução para darem aos pais ou companheiros/as uma oportunidade de continuarem as vidas, as suas e as deles. Não julgarei o meu companheiro, nem o meu filho, se esse tempo chegar também para mim.

A minha luta por manter um mínimo de autonomia contínua. Mas se me acontecer, involuntariamente, desistir da luta, sei que eles procurarão o melhor possível para mim. E devem fazê-lo sem remorso. Porque o que ficará são as memórias do tempo em que vivi feliz na sua companhia.

Ainda “A habitação mais antiga de Portugal”

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Em subtítulo do texto publicado no dia 7, perguntávamos «Do século XI? Como é possível?».

O título «A habitação mais antiga de Portugal» chamou de imediato a atenção e tivemos um número ímpar de visualizações: já mais de 10400 pessoas leram esse artigo, escassos cinco dias após a publicação, o que constitui prova do interesse que os temas de história local sempre despertam.

E houve comentários, não apenas de aplauso, mas também – e estes particularmente nos agradaram – de reflexão, em jeito de resposta à pergunta que se fizera: será possível atribuir a esta casa uma data tão recuada?

De caminho, falámos da cerâmica e o Doutor Alberto Tapada, em comentário no Facebook, confirmou: na tese de doutoramento que fizera sobre os barros negros (mormente os de Bisalhães) referiu-se aos oleiros da Queimadela, os chamados «tigeleiros».

Também veio à baila um documento do tempo do Sr. D. Afonso Henriques, o que provocou amável comentário da Dra. Maria Helena Ventura, autora do livro Afonso, o Conquistador, «romance épico sobre o homem que sonhou e fundou o Reino de Portugal», publicado em 2020, e que confirmou a existência das pessoas constantes no documento citado:

«No meu Afonso apresento Soeiro, no índice onomástico, como terceiro filho do “Aio”… mas tanto ele como os irmãos exerceram altos cargos na corte… […] Sem dúvida também que casou com uma Sancha Bermudes de Trava, filha de Bermudo Peres de Trava e de Urraca Henriques, irmã de Afonso Henriques».

E concluiu:

«Reparar num texto destes que descobre uma casa tão antiga e recorda estes nomes, foi para mim emocionante».

Quanto ao topónimo Queimadela, o amigo José Pombo não hesitou em adiantar o que a lenda conta:

«O nome de Queimadela, que bem conheço, fez-me lembrar uma história que terá ocorrido no reinado do imperador romano Trajano (sevilhano, ao que parece, que reinou entre 98-117!…). Para debelar uns “insurretos” de Lamego que se terão insurgido contra os duros impostos romanos, teriam sido enviadas 14 legiões (!…) para arrasar a cidade! Alguns mais avisados terão fugido para localidades dos arredores de Armamar, que foram incendiadas (daí os nomes de Queimada e Queimadela!…). Isto será lenda, História, ou as duas coisas!».

E se Alberto Júlio Silva confessou, ao ver as imagens, «Isto faz-me cá uma tristeza que só… sentida!», Ana Nunes declarou conhecer o lugar, até porque tem entre mãos um trabalho «para executar vai para um ano» sobre este «local incrível!».

E agora a resposta!

Esclarecer-se-á, em primeiro lugar, um pormenor que se omitiu: é que, a ser verdadeira, a data não equivalia a 1086, mas sim a 1083-38 = 1045, porque a era de Cristo só viria a substituir a era de César no reinado de el-rei D. João I, a 22 de Agosto de 1422.

Outro esclarecimento respeita às fotografias apresentadas: numa vê-se a guarnição em madeira, noutra não; mas foi tudo uma questão de ângulos, sem qualquer intenção de induzir em erro. Numa, a madeira ficou à sombra. Aproveitamos o ensejo para agradecer ao proprietário, o Sr. João Carreira (já nonagenário), a permissão das fotos e da publicação.

Aliás, uma das primeiras observações feitas por peritos em história da arquitectura foi a tipologia do ‘arco’ em que a inscrição foi feita:

«A tipologia construtiva e a forma da verga também não é consentânea com a arquitetura medieval» (Sérgio Gorjão).

«Uma verga assim, neste arco abatido, ligeirinho, parece dissonante neste contexto» (José Teixeira).

Depois, foi a questão dos caracteres.

A Doutora Maria Helena da Cruz Coelho, notável medievalista, alertou: «Eu desconfio muito destas antiguidades. A datação nesta época era em algarismos romanos, portanto… há que ter cautelas»..

Paulo sublinhou:

«Nunca se colocaria uma data em algarismos tal como os conhecemos hoje. A datação até tarde foi em numeração romana. Esse registo pode ser antigo e até pode ter uma razão de ser, mas não prova nada».

Manuel Abrunhosa queria saber mais:

«Há outros exemplos dessa caligrafia na suposta época de construção ? Em outras casas de idade subsequente próxima? Em edifícios religiosos, tumulária, estatuária, pontes, castelos…?

O óbvio nem sempre se revela representar uma realidade…»

Foi, porém, o comentário de Sérgio Gorjão, director do Palácio Nacional de Mafra – bem haja! – que nos chamou a atenção para um pormenor:

«Parece-me um equívoco… A forma de grafar os dígitos no século XI não era nada semelhante… A numeração árabe não era usada… Aquele “0” deve ser um erro epigráfico e o mais certo é querer representar um “6”. A tipologia de escrita é muito mais consentânea com a do século XVII».

De facto, se compararmos com a outra inscrição que apresentámos para justificar a leitura do 8, nada nos custa concordar: o pretenso O tem, na verdade, embora quase indistinta a perninha para cima, como o 6 da outra data. Portanto: 1683!

Em conclusão:

Bem razão tínhamos ao perguntar «Do século XI? Será possível?». Não era. Não era, portanto, a «mais antiga habitação de Portugal»; é, porém, a mais antiga, datada, de Queimadela.

Consola-nos, porém, ter dado a conhecer essa povoação, Queimadela de seu nome, freguesia do concelho de Armamar, de muitos ignorada e que ora – mesmo sem termos razão na hipótese levantada – acabou por andar nas bocas do mundo! O nosso modesto contributo para valorizar o interior. Não é habitação do século XI, mas é da 2ª metade do século XVII. Em 1683, curiosamente, morrera D. Afonso VI e D. Pedro IV assumia o título de Rei de Portugal e dos Algarves. A outra casa com data é de quatro anos depois (1687); será que el-rei D. Pedro trouxe novo alento ao País e tal se repercutiu nestas interiores terras beirãs?

Artigo em co-autoria com José Carlos Santos

ZELENSKY NÃO VAI AOS ÓSCARES

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A conceituada revista Variety publica que Zelensky foi rejeitado pela Academia de Hollywood.

O Presidente da Ucrânia queria discursar na próxima cerimónia dos Óscares, mas a Academia não foi em fitas. Mandou dizer não, uma resposta que Zelensky deve ter estranhado, depois de tantas aparições virtuais em tudo quanto tem sido cerimónia, festival, cimeiras políticas, parlamentos, desfiles militares e telejornais de todo o mundo.

Segundo a Variety, Zelensky fez chegar o pedido através de Mike Simpson, um conhecido agente de talentos artísticos dos Estados Unidos. Mas a resposta foi não.

Zelensky rejeitado pela Academia de Hollywood, notícia da revista Variety

As más línguas apostam, agora, que Zelensky vai meter uma cunha ao Presidente Biden. Talvez funcionasse se Biden não desse atenção às sondagens. A popularidade de Zelensky e do apoio americano à Ucrânia está em declínio e, então, talvez não seja boa ideia, dirá algum conselheiro presidencial.

A nega de Hollywood interrompe uma série de intervenções de Zelensky em cerimónias ligadas ao cinema. Ele esteve online no Festival de Berlim, em Fevereiro, e esteve também nos festivais de cinema de Cannes, Veneza, nos Grammy e nos Globos de Ouro. Nunca como ator ou comediante, como já foi, mas como dirigente político.

A recusa da Academia do Cinema norte-americano não foi a primeira. Já em setembro, a organização do Festival de Cinema de Toronto não quis Zelensky no evento.  

NO JOGO DE ALVALADE, LISBOA PERDEU

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Em dia de jogo em Alvalade, a hora de ponta em Lisboa começou pouco depois das 3 da tarde. Os engarrafamentos entupiram a cidade. Com epicentro no topo norte do jardim do Campo Grande, a paralisia do trânsito alastrou quilómetros em redor.

O acesso ao Hospital de Santa Maria ficou muitíssimo dificultado, com ambulâncias a circular a passo de caracol ou em perigosas incursões fora-de-mão.

O nervosismo acabou com a paciência dos automobilistas e os acidentes sucederam-se, complicando ainda mais a marcha dos automóveis em filas intermináveis e cada vez mais longas. Cruzamentos entupidos, rotundas sem escoamento, muitos agentes da PSP a tentar ordenar o que se tornou ingovernável.

Lisboa tem sempre horários de trânsito mais difícil. À tarde, por volta das 17h30 e até às 20h00, é sempre mais complicado. Mas  quando a cidade aceita que jogos de futebol sejam marcados para as 17h30, todos sabemos que a bagunça vai ser grande, tanto mais que os principais estádios de futebol de Lisboa estão junto às saídas da cidade: a 2º circular e a avenida Padre Cruz.

Enquanto no estádio, 40 mil pessoas se empolgavam com as peripécias do jogo, fora do estádio centenas de milhar sofriam agruras para chegar a casa, no final de um dia de trabalho.

E o Sporting nem ganhou.

A LUZ MAIS PRECIOSA

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Chagall?

Moïshe Zakharovich Shagalov…Só Marc, se quiser

Bella Rosenfeld…

E abraçavam-se, tal a urgência do brilho nos olhos de ambos.

Havia uma diferença de idade. A filha dos joalheiros tinha apenas 14 anos e ele 21,  o mais velho de cinco irmãs e um irmão. Mas ela já começava a escrever, era uma menina desenvolta.

Ambicioso na pobreza. A mãe cuidava da prole, o pai trabalhava a um balcão. Deixava que o filho mais velho  estudasse  artes na Escola de Vitebsk, donde Bella também era natural. Ambos descendentes de judeus. Depois arranjava-lhe 27 rublos e mandava que se governasse com eles em S. Petersburgo, se tanto queria partir.

Bem reconhecia o brilhantismo do  filho mais velho em tantas áreas…Estudava e sobrevivia trabalhando por amor à arte. Mas Amor a sério era o que sentia no momento em que se cruzava com Bella. Seria a sua Musa por toda a vida, acabava de assumir no instante em que se conheciam.

Dizem que tocava à noite…Tinha acabado de vender duas telas a um político ricaço, que lhe oferecia uma bolsa para ir até à Europa. Não podia perder a oportunidade. E em 1910 via as cores alegres e o movimento de Paris, mas os olhos de Bella brilhavam ainda mais dentro do seu coração: “Na vida só há uma cor, como na paleta do artista, com o significado da vida e da arte: a cor do Amor”.

Quatro anos depois estava de regresso a Vitebsk, abraçava Bella com o mesmo ardor e casavam no ano seguinte, 1915. Logo a seguir Petrogrado, onde nasceria Ida. Ainda voltavam a Vitebsk, onde registavam a menina, para recuperar alguma coisa que ficara no ar, talvez a sensação de levitarem quando se amavam…

Bella fazia-o ver as estrelas na intensidade do azul da noite, o brilho da Terra acabada de acordar, a Poesia dos sons na variedade dos elementos do Universo. Esses refúgios guardavam-nos de um mundo cruel. Tinham casado já a Europa era cenário de uma guerra sangrenta, depois a Revolução Bolchevique apanhava-os nas suas teias. Marc era obrigado a aceitar o posto de Comissário das Artes de Vitebsk, acabando por abrir a Escola de Artes local.

Não estava feliz. Alguns conflitos com companheiros, competição, falta de espaços amplos, tudo lhe deixava uma sensação de angústia,…As exposições em Moscovo em 1920 e em São Petersburgo depois, permitiam-lhe viajar, conhecer negociantes de Arte, receber encomendas vantajosas. Depois Bella sugeria que poupassem e partissem para Paris. E os seus olhos pediam com tanta doçura, que Marc não podia negar-lhe o desejo.

Só passados dois anos, em 1924, Chagall e a sua amada se fixavam em Paris. Ele incorporava elementos dos movimentos vanguardistas, mas não queria ser filiado em nenhum. Em 1939 rumavam ao sul de França, já o mundo se agitava à volta de teorias de eugenia e ameaças de novo belicismo.

A conflitualidade sempre existiu à face da Terra. Só não se espera que o ser humano não aprenda e reincida na desolação….Em 1941 Bella ainda era presa em Marselha, como tantos descendentes de judeus. Mas Chagall  e a filha tudo faziam para a libertar. E fugiam para Nova Iorque até se ver um fim para o horror da guerra. 

Depois de contrair um vírus em 1944, a doce companheira de um dos maiores artistas plásticos do mundo morria no espaço de dias. Estavam a 2 de Setembro e Marc ficava destroçado por chegar à Europa sem ela. Depois de quase um ano sem pintar, recuperava o ânimo e publicava-lhe o livro LUZES ACESAS.

Conheceria outras companheiras : Virgínia, por alguns meses, Vava (Valentina Brodski, a segunda mulher com quem casaria) mas toda a sua obra era um monumento de beleza e cor levantado à sua Musa principal durante 29 anos.

Nas telas estavam incorporados elementos da terra natal de ambos e sua simbologia, as cores suaves de Paris e do mundo que conheceram, o Azul profundo do Amor. Porque ainda era ele a chave da resolução de conflitos, para o grande Marc Chagall.

Tantos violinistas nas telas, diziam da importância da Música. O galo talvez representasse a fecundidade, no entender de alguns críticos de Arte. Os outros animais apareciam como humanos, num saudável respeito por todas as espécies à face da Terra.

Porque o mundo precisa de humanizar-se, como na luz das telas de Chagall.

Vôo sobre Vitebsk

SINTRA: REPRESSÃO CONTRA SEM-ABRIGO

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A Polícia Municipal de Sintra persiste impunemente em ações de repressão e bullying contra um homem pobre, um sem-abrigo, que se manifesta contra a Câmara Municipal.

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A história de Manuel Ildefonso, desde que iniciou o protesto em frente à Câmara Municipal de Sintra está documentada neste site. Basta efetuar uma pesquisa com o nome Manuel ildefonso, para encontrar dezenas de reportagens e artigos sobre este assunto.

O nosso apelo

Manuel Ildefonso precisa de um bom advogado que aceite ser pago pelo Estado, uma vez que Ildefonso não tem meios para pagar. Os advogados oficiosos nomeados pelo tribunal a que Ildefonso tem direito, normalmente são demasiado timoratos e pouco ou nada empenhados. Limitam-se a pedir justiça, mas isso não acontece sem empenho e engenho de um advogado. Se algum advogado quiser um bom caso social e com repercussão pública, aqui está uma bela oportunidade.

arquivo Duas Linhas

Uma ousadia que paguei caro

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Em 1965, o sucesso na escola primária e um empurrãozinho da professora, garantira-me uma bolsa para prosseguir estudos num colégio na vila próxima da minha aldeia. Aí ganhei prestígio como boa aluna, o meu nome esteve continuamente no quadro de honra, recebi prémios.

O que contrasta com o que conto a seguir.

Punida por diversas infrações, como fumar uns cigarros às escondidas, ler fotonovelas, observar descaradamente os rapazes nas práticas desportivas, acabei expulsa do colégio, por ter ousado escrever uma crónica no jornal local, criticando o diretor e reivindicando direitos para as raparigas: praticar desportos a sério, em vez daquelas infantilizadoras brincadeiras das meninas, misturarmo-nos com os rapazes nas salas de aulas, em vez daquela absurda divisão entre filas de rapazes e filas de raparigas, partilhar as mesas nas salas de refeições…

Paguei cara esta ousadia.

Num sábado de manhã, a minha mãe recebeu, alarmada, a visita do diretor. Trazia a caderneta com as notas do 2°período e comunicava oficialmente a minha expulsão do colégio.

A criar duas filhas sozinha, na ausência do meu pai, emigrado nos EUA, a mãe sentenciou: acabava ali a minha carreira de estudante e a presunção de jornalista. Senti a ameaça como o fim da linha. Escrevi uma carta de despedida, sem acusações e sem pedido de perdão, tomei veneno dos ratos e deitei-me na cama à espera da morte. Fui salva pela minha irmã que, entrando por mero acaso no quarto, alertou todos os parentes. Chamou-se um táxi. Cheguei ao hospital da vila já próxima da morte. Uma imediata lavagem ao estômago devolveu-me à vida.

Regressada a casa, passadas as férias da Páscoa, a minha mãe recuou na sentença e procurou uma escola para eu terminar o ano (6°ano, equivalente ao atual 10°).

A minha condição de boa aluna garantiu-me um terceiro período num internato na Figueira da Foz, onde também ganhei prestígio e cheguei a ser uma espécie de “assistente” do professor de Latim.

No ano seguinte recuperei a liberdade, frequentando um externato junto à Praça da República, em Coimbra, partilhando com a minha irmã, entretanto já na universidade, um quartinho, ali nas proximidades.

Tanta liberdade, depois de anos dela privada pelo rigor da educação sexista, acabou numa gravidez aos 17 anos, um casamento à pressa e muita dificuldade em viver uma vida de adulta, casada, com um filho, estudante e com empregos ocasionais de curta duração. Caramba: eu era pouco mais que uma criança!

Desistente do curso de Direito, mudei para História.  Estava aí, naquela madrugada de 25 de Abril de 1974.

A vida precipitou se a acontecer.

E foram precisos 35 anos para, num almoço de antigos alunos do colégio, me aproximar do antigo diretor, e finalmente esclarecemos as nossas razões. A rebeldia, a expulsão, a tentativa de suicídio, tudo foi compreendido e perdoado.

No auditório da Calazans Duarte, em vésperas de um 25 de Abril já no século XXI, estes factos foram ouvidos com incredulidade por aqueles adolescentes filhos da liberdade. E recontados por um aluno, aspirante a jornalista, que hoje faz carreira, algures numa cidade inglesa. 

Há ousadias que se pagam caras. Eu paguei. Mas esta é, afinal, uma triste história com um final feliz!

A HABITAÇÃO MAIS ANTIGA DE PORTUGAL

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Peregrinando atentamente por ruas e vielas das nossas esquecidas aldeias do interior, há, de vez em quando, um pormenor que nos deixa perplexos. E dizemos com os nossos botões: é lá possível!… Não pode ser! Uma casa ainda em pé e datada de antes de Portugal ser Portugal, porque só o começámos a ser, independentes de Castela, pelo Tratado de Zamora de 1143!…

Entrámos por essa viela. Rua Cimo de Vila, povoação de Queimadela, concelho de Armamar.

Rua Cimo da Vila, Queimadela

Cobria o musgo as paredes de pedra solta. Abundantemente, a denunciar que por ali há muito que não passava gente nem bestas. À esquerda, uma parede revestida de escamas. Em frente, uma porta velha, de tábuas mescladas pelas intempéries. Ladeava-a uma escada de cimento, a contrastar pelo ar moderno com a envolvência antiga: daria, certamente, para esconsa entrada ou para uma viela mais. Admirámo-nos da janela escancarada resvés ao telhado, que por ela se via ser de telha vã, de canudo, em várias camadas. E lembrámo-nos, então, de ter lido, na página da povoação:

«Queimadela foi muito conhecida por uma arte já desaparecida: o fabrico da telha mourisca e de canudo. Esta atividade teve origem na idade média, altura em que assumia grande importância para a povoação, num misto de produção industrial e atividade artística, uma vez que também se produziam vários utensílios domésticos e objetos decorativos. Esta prática prolongou-se até ao século XX, mas desapareceu com o surgimento da telha de cerâmica. A última pessoa a dedicar-se a esta arte foi o senhor João André Pereira».

Ficámos cientes.

Chamou-nos, porém, a atenção a verga superior da janela, levemente arqueada. Tinha letras e números gravados. Aproximámo-nos e soltámos um oh! de espanto – que a data apontava para o século XI. Como poderia ser? Teria a casa idade tamanha?

ERA Ɖ  I083.

O E, como era de uso, ficara metido no D; I com pintinha era 1. Estranhámos o 8 de braços abertos; mas topámos outro igual e com o mesmo significado na aldeia de São Martinho das Chãs, também no concelho de Armamar.

Por isso, se dúvidas houvera, dúvidas não podia haver, era mesmo um 8. Ou seja, o lintel anunciava que fora feito quase nos finais do século XI. Uma casa do século XI assim perdida em ruela em povoação que dá pelo nome de Queimadela, como se, um dia, um incêndio a tivesse lambido!… Podia lá ser!

E fomos indagar da sua antiguidade.

Tinha-a, na verdade, porque, na página 280 do livro História do Bispado e Cidade de Lamego, de M. Gonçalves da Costa, datado de 1977, Figueira e Queimadela aparecem mencionadas como dependentes ou filiais da Igreja de Britiande. E, noutra página, a 150, se conta que, antes de falecer, D. Afonso III legou herdamentos em Queimadela à catedral de Lamego. Sim, é verdade, D. Afonso III morreu a 16 de Fevereiro de 1279, ou seja, já no último quartel do século XIII. Mas estas referências, acreditamos nós, não apareceram assim sem mais nem menos. Algo houvera antes.

E achou-se, para já, o seguinte: segundo o documento nº 242, publicado por Ruy de Azevedo em Documentos Medievais Portugueses, um tal Soeiro Viegas, chamado também Moço Viegas, confiscou para a coroa avultados bens em Figueira, Queimada e Queimadela, antigas honras de D. Egas Moniz e que também D. Afonso Henriques doara, em 1153, a Pedro Viegas e sua mulher, D. Ouroana Dias.

Temos Queimadela nas bocas do mundo no século XII, pois então!

Por conseguinte, decerto outras novidades por descobrir nessa documentação antiga. O lintel da Rua Cimo de Vila aí está a espicaçar a curiosidade!

Artigo em co-autoria com José Carlos Santos

Artigo actualizado em 11/03/2023 aqui: Ainda “A habitação mais antiga de Portugal” (duaslinhas.pt)

À BEIRA DA TERCEIRA GUERRA MUNDIAL

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Marinka, Donbass, dia 4 de março de 2023

Quando há um ano a Rússia entrou pela Ucrânia adentro, foi uma surpresa para mim. Estávamos em plenos Jogos Olímpicos de inverno e todos pensávamos que seria a China a aproveitar o momento para invadir Taiwan.

Se a China invadisse Taiwan e, logo depois, a Rússia tivesse invadido a Ucrânia, não haveria condições para responder aos dois lados. Mas a China preferiu esperar para ver a reação do ocidente. Deixou para a Rússia as despesas da festa.

Quatro dias depois da Rússia ter invadido a Ucrânia, escrevi que Putin iria sofrer uma derrota humilhante. Se não se lembram, sigam este link para a crónica do dia 28 de fevereiro de 2022.

excerto da crónica MUITO CUIDADO com o HOMO LARAPIENS de 28 de fevereiro de 2022

Se leram essa crónica, repararam que também “adivinhei” que a guerra na Ucrânia iria provocar a união do ocidente, o reforço da NATO. Acertei em cheio, até ver. Além disso, ainda avancei com o eventual estilhaçar do império russo e os avanços oportunistas dos chineses e turcos sobre esses territórios. E, lentamente, estamos a assistir a esses movimentos. A geopolítica mundial está a mudar.

A Rússia não tem muitas opções, vive rodeada de inimigos e de falsos amigos. Neste momento, o que vemos é uma espécie de fuga em frente, aumentando o esforço de guerra, empenhada na destruição brutal do território que tenta conquistar para, mais tarde, lhe servir de moeda de troca.

Do lado de cá, durante meses assistimos à enorme lentidão no apoio militar à Ucrânia. Tudo muito lento, mitigado, dissimulado. A Ucrânia sempre a pedir mais armas e armas de maior poder de fogo e alcance. Os americanos fornecem o armamento, é um facto. Mas parecem mais empenhados em capacitar a Ucrânia para uma guerra longa e de desgaste do exército russo, do que propriamente na derrota rápida de Putin.

Cheguei a pensar que a aposta americana seria fomentar um golpe palaciano que derrubasse Putin e, em consequência, provocasse a desagregação da Rússia. Seja qual for a estratégia político-militar dos americanos, estamos num jogo muito perigoso. A opção nuclear não pode ser menosprezada. É verdade que metade da Rússia ficaria carbonizada na retaliação americana, mas a Europa também morrerá e a América, mesmo geograficamente distante, está ao alcance dos mísseis intercontinentais russos.

Na verdade, ninguém está preparado para um cenário dessa ordem. E por isso a guerra vai continuar a dilacerar a Ucrânia e a enfraquecer a Rússia. No campo de batalha, há uma espécie de empate técnico nos duelos de artilharia e nas tropas entrincheiradas.

Pelo seu lado, a China dedica-se a explorar os recursos naturais da Sibéria. A troco da neutralidade face à agressão, a China “ocupou” economicamente a Rússia. Substituiu as empresas ocidentais que saíram, comprou as empresas russas que estavam a falir.

“O problema da Europa está no desastre económico e no enfraquecimento dos regimes democráticos, na ascensão dos movimentos populistas fascistas que tentarão acabar com a democracia. Balançamos entre democracia e autocracia.”

Outro ator oportunista é a Índia que compra e revende o petróleo e gás russos que o ocidente sancionou, mas que adquire agora com a “etiqueta”  Made in India. Por isso a Índia não condena a invasão russa, posicionamento político que também serve para antagonizar a antiga potência colonial, a Inglaterra. Há muita coisa no passado dos povos que explica as atitudes do presente.

Na calha continua a invasão de Taiwan pela China. Perdida a oportunidade de coordenar o ataque contra a ilha separatista, com o avanço russo sobre a Ucrânia, a China vai esperar e continuar a reforçar a sua capacidade militar. Quando se decidir a atacar, deverá ser rápido e muito doloroso. O erro de cálculo de Putin não será repetido pelos que mandam em Pequim.

E nós, europeus, estamos nisto. O problema da Europa está no desastre económico e no enfraquecimento dos regimes democráticos, na ascensão dos movimentos populistas fascistas que tentarão acabar com a democracia. Balançamos entre democracia e autocracia. É mesmo um problema global. Basta olhar para políticos como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Giorgia Meloni, Andrzej Duda, Viktor Orbán, Santiago Abascal, André Ventura, Vladimir Putin e outros que hão de chegar.

NA DEFESA DOS MOTORES DE COMBUSTÃO

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A extinção do motor de combustão nos automóveis a partir de 2035 ainda não é uma questão fechada. Na Alemanha, por exemplo, um dos ministros do Governo defende que essa proibição pode e deve ter algumas exceções.

A União Europeia adiou a votação para acabar com a comercialização de veículos que emitam dióxido de carbono (CO2) a partir de 2035, após o ministro alemão dos transportes ter assinalado a sua oposição, defendendo que a proposta deveria salvaguardar os motores de combustão que utilizam combustíveis sintéticos limpos.

A posição de Volker Wissing é a “ponta do iceberg” da divisão que existe no Governo alemão relativamente a esta matéria. Portanto, tudo depende do consenso a que se chegar primeiro dentro do Governo alemão, só depois os outros Estados-membros irão votar.

Noutros países europeus também não há concordância plena nesta questão. Em Itália, por exemplo, a esquerda defende o fim dos motores de combustão enquanto a direita está contra. Nesta matéria, a primeira-ministra Giorgia Meloni exige liberdade aos Estados-membros para escolherem as suas políticas.