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CONSIDERAÇÕES SOBRE ASSÉDIO SEXUAL

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Foto de Mervyn O´Gorman, Cristina on Red, 1913

O que escrevo a seguir não é verdadeiro, porque não conheci sequer a pessoa em questão, mas imaginem que eu revelava ter feito uma viagem intercontinental de avião, em contexto de trabalho, ao lado do falecido escritor David Mourão Ferreira, e que a certa altura tinha sentido que ele se roçava em mim. Ponto um: como poderia prová-lo só com a minha palavra? Ponto dois: em quem acreditariam? Em mim ou no emérito professor e escritor? Em que línguas de trapos passaria a andar a minha declaração e o meu nome a partir desse momento? Quantos homens e mulheres me apoiariam? Que problemas com a justiça eu arranjaria? Tenho tempo e dinheiro para gastar em tribunais? Não, não. De maneira que “não sou burra” significa que não tenho tempo, energia nem vontade de mexer naquilo que foi uma prática normalizada em todos os setores sociais e laborais e que também me afetou. Mas espero que alguém o faça. Alguém deste tempo. Não continuem a calar-se como eu me calei.

Muitas mulheres e homens se aproveitaram e aproveitam dos seus atrativos sexuais para conseguir postos, mas muitas mulheres e homens se veem envolvidos em situações desse teor que não desejam e não sabem como evitar devido ao status e poder de quem se insinua sexualmente. Não é apenas em Hollywood. É na Academia, sim. Em todo o lado.

Eu fui muito recentemente alvo de assédio moral sexualizado por parte de um escritor português. Partilhei este assunto com quem de direito. Aconselharam-me a não responder, a deixar cair. Espero que o escritor em questão leia esta publicação. Não ouse voltar a dirigir-se a mim com o mesmo discurso, porque eu já não tenho 20 anos, caro senhor. Se me escrever emails de desagravo a esta publicação torná-los-ei públicos, bem como todos os que até hoje me enviou sem resposta. A admiração que tinha pelo seu trabalho evaporou-se. Deveria engolir a vergonha do seu comportamento e ela ser uma pedra com duras arestas.

(crónica também publicada no Facebook de Isabela Figueiredo)

NÃO HÁ PACHORRA PARA O POLITICAMENTE CORRETO

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E que dizer do episódio insólito ocorrido numa escola básica no estado norte-americano da Florida, com a imagem de David, de Miguel Ângelo, que levou à demissão da diretora, após um pai ter apresentado queixa, por alunos com 11 e 12 anos terem sido expostos à estátua pornográfica, numa aula sobre arte do renascimento?!

Mais incrédula fiquei!

Estamos mesmo no século XXI e isto aconteceu em países que se orgulham de terem exemplares regimes democráticos?

estátua de David, de Miguel Ângelo (1501)

Ou estaremos no mundo de distopias imaginadas por escritores do século XX?  Pior ainda: no caso da nudez da estátua de David parece tratar-se de um regresso à época da contra-reforma católica, um recuo de uns meros quatro séculos, a um tempo em que a censura foi feroz quanto à obra prima da escultura do renascimento e também da pintura de um genial artista. É sabido, pelos livros de História, que o tecto da Capela Sistina, quando, após quatro anos de minucioso e doloroso trabalho, foi dado a conhecer ao beatíssimo Vaticano, de imediato foi sujeito a correções, apressando-se a padralhada a mandar tapar os genitais masculinos, fazendo pintar sobre eles umas folhas de parra. E foi assim, com estes ridículos tapa-pénis, que os nus masculinos do tecto foram vistos durante séculos, até à recuperação da pintura original, já na segunda metade do século XX.

Michelangelo Buonarroti, conhecido por Miguel Ângelo, foi, na minha modesta opinião de professora de História da Cultura e das Artes (HCA), durante uma década, não só o maior artista de todos os tempos na representação do nu masculino, mas também um arquiteto incomparável, um poeta notável, em suma, um Humanista, sem o qual não podia contar-se a história do ocidente.  A minha única viagem a Roma teve a Capela Sistina como um dos propósitos, e felizmente pude ver os tectos como teriam sido pintados por Michelangelo Buonarroti.

Entre a imensa parafernália de recordações para turistas que se vendem por toda Roma, descobri um calendário com representações dos genitais masculinos, em frescos de Pompeia e em diversas pequenas esculturas anónimas. E encontrei também um precioso livro com desenhos de nus de Miguel Ângelo. Com pénis em repouso, murchos, minúsculos, e outros eretos, esses sim, dignos de serem considerados signos da falocracia. A estátua de David, pela sua excelência e dimensões, devia ter um assim.

Nos anos em que fui professora de HCA, usei muitas imagens de nus, femininos e masculinos. Aliás não consigo sequer imaginar como ser professora de História de Artes, que inclui necessariamente a História da arte grega e as sucessivas “cópias”, dos romanos ao renascimento e aos posteriores movimentos neo, sem usar as imagens de nus.

estudo do pintor (1563) Giorgio Vasari

O facto de serem figuras mitológicas faz toda a diferença, como o testemunham diversas polémicas com pinturas e esculturas bem conhecidas. Como se aos deuses e deusas toda a nudez fosse permitida, mas não aos comuns mortais. Os anjos, como toda a gente sabe, não têm sexo.

Deveras curioso, porque é inimaginável a representação da nudez, sem que os artistas a observem e escrutinem em todos os detalhes, inclusive os genitais, parte integrante da anatomia humana. E Miguel Ângelo seguramente observou a nudez e muito a apreciou, sobretudo os corpos de homens, como deixa perceber a genial escultura de David e também as pinturas dos corpos musculados das mulheres no tecto da Capela Sistina

E como ensinar a história dos frescos dos prostíbulos de Pompeia, felizmente recuperados, muitos séculos depois do Vesúvio os ter enterrado em cinzas, sem mostrar as imagens dos genitais, muitas vezes em ação?!

Na História da Arte nenhuma nudez pode ser castigada. Uma não existe sem a outra. Melhor ainda: não existiria sequer humanidade, e portanto qualquer história para contar, sem os genitais em ação.

O episódio ocorrido na escola da Florida, que levou à demissão da diretora, traz-me à memória outro caso, de há doze anos, da professora Bruna Real, de Mirandela, afastada da escola pela câmara municipal, por ter posado nua para a edição portuguesa da revista Playboy. À data deste híper mediático caso de censura, eu era já uma feminista diplomada e, contra o politicamente correto, publiquei na edição seguinte desta revista masculina, um artigo em defesa de Bruna Real: “Os lugares da nudez”.

Estava longe de imaginar que uma dúzia de anos depois precisaria de escrever em defesa da nudez masculina.

O queixoso pai americano, com tamanho zelo na educação do seu filho púbere, acaso o proibirá de usar o telemóvel, ter acesso às redes sociais de trampa, onde seguramente vê toda a espécie de pornografia?!

Uma metralhadora, com tamanho q. b. para tapar um pénis ereto de David, talvez não fosse suficientemente chocante para provocar mais um debate sobre a lei das armas nos EUA.

Mas a imagem de um natural e inofensivo pénis, visto por uma turma de púberes, conseguiu levar à demissão duma professora na pátria da democracia!

Corrigir livros e esconder os genitais, em obras que pretendem mostrar a nudez em todo o seu esplendor, não é apenas censura. É falsificar a História.

Não há pachorra para tanta merda politicamente correta!

a criação de Adão, Miguel Ângelo (1512)

O TEATRO AO ESPELHO

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É o teatro a falar dele próprio. Em palco, Beatriz Batarda faz de professora de teatro, que é o que ela é na vida real. Os outros 7 atores fazem de jovens atores de teatro, que é o que eles são também na vida real.

A promoção da peça refere essencialmente o nome da autora e encenadora, Beatriz Batarda. Mas além da ‘estrela’ Batarda, em palco estão Binete Undoque, Guilherme Félix, Hugo Narciso, Íris Runa, Joana Pialgata, Pedro Russo e Rita Cabaço. Jovens atores, ainda cheios de esperança.

Falando de teatro, assim se fala da vida real de quem se dedica ao teatro. A insegurança, o racismo, o lugar da liberdade na arte, o lugar da liberdade na vida, todos os entraves que nos dificultam a vida e nos cortam a possibilidade da felicidade, da realização pessoal.

Um espetáculo sobre padrões de vida ineficazes, mentirosos, irreais. Batarda diz que “este espetáculo não será uma proposta de respostas nem de solução, mas uma abertura para uma grande mancha de perguntas, numa tomada de consciência de que há uma mudança a acontecer, e o que é que vamos fazer…?”

O desenho de luz é de Nuno Meira, a cenografia de Fernando Ribeiro, os figurinos de José António Tenente, o vídeo e a assistência à criação de Rita Quelhas, e a pintura de mural de Constança Villaverde Rosado.

A peça fica em cena na sala Mário Viegas até dia 22. As sessões para o público em geral começam às 19:30. As récitas para escolas decorrem de dia 18 a 20, com sessões às 14:30, mediante marcação, tendo como público-alvo alunos do ensino secundário. No dia 22, há tradução em Língua Gestual Portuguesa.

O espetáculo integra-se na Bienal Cultura e Educação 2023 Retrovisor: Uma História do Futuro, do Plano Nacional das Artes.

MASSACRADAS IMPUNEMENTE

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Num local muito perto de casa, numa pequena estrada que atravessa campos agrícolas, encontro muitos répteis e anfíbios mortos, infelizmente.

No caso dos anfíbios, esmagados por veículos, a morte é em alguns casos acidental, mas a maioria é por falta de cuidado por quem lá circula. Também há (quero acreditar que já sejam uma minoria) quem o faça de propósito e os tente esmagar sempre que se deparam com um animal atravessar a estrada.

ANIMAIS APEDREJADOS ATÉ À MORTE

Já no caso dos répteis (principalmente cobras) a história é outra. Além dos atropelamentos, acidentais ou não, muitas cobras são mortas de propósito, as provas são evidentes. Quase sempre, quando encontro um réptil morto, está com o corpo esmagado em vários locais (já encontrei animais ainda vivos, mas com as entranhas todas de fora ou com ferimentos irrecuperáveis na zona da cabeça) e quase sempre junto ao corpo as armas do crime (pedras e paus ensanguentados). Quem faz isto talvez não saiba, mas é crime matar animais selvagens, em Portugal.

cobra-rateira

A única exceção são as chamadas espécies cinegéticas, como tordos, perdizes ou coelhos, e mesmo aí há regras: só podem ser caçadas em zonas próprias, sinalizadas para o efeito, e em períodos específicos, definidos por lei.

UMA COBRA AGRADECIDA

Em Outubro de 2016, encontrei duas cobras rateiras mortas, junto a um pequeno muro que faz divisão entre o campo e a estrada. Uma vez mais, animais assassinados, apedrejados. Eram dois exemplares juvenis, provavelmente nascidos em Agosto desse mesmo ano.
Passei a ficar atento a ver se encontrava mais algum espécime dessa ninhada. No mês seguinte, encontro mais um juvenil, felizmente vivo, relativamente perto do local onde os “irmãos ou irmãs” tinha sido mortos. Então decidi capturá-lo e levá-lo para outro local, na tentativa de a salvar do mesmo destino que as anteriores.

Dias mais tarde, consegui capturar a cobra e levá-la para um local de floresta afastado das estradas e da passagem de pessoas. Libertei-a junto a um caneiro de regadio dos campos junto à floresta.

Qual foi o meu espanto, quando, talvez percebendo a minha boa ação, em vez de fugir, a cobra deixou-se ficar durante bastante tempo. Não podia recusar a disponibilidade dela para se deixar fotografar.

Estava eu nisto, deitado no chão, a ocupar o caminho pedonal de acesso aos campos, quando um agricultor local se assustou ao ver-me ali esticado: pensava que eu estava morto.

Fernando Ferreira Photography |Fotógrafo de Natureza

Quem quiser (e puder) contribuir para a continuidade do Projeto Biodiversidade na nossa Terra de Fernando Ferreira, pode enviar donativo para:
– IBAN: PT50 0033 0000 4538 8641 1930 5
– MBWAY 966 257 848
Este projeto visa não só registar a Biodiversidade, bem como ser uma ferramenta didática na Educação e Sensibilização Ambiental, de forma a impulsionar mudanças positivas junto do maior número de pessoas possível, principalmente nas nossas escolas.

OS PREÇOS DA COMIDA CONTINUAM A SUBIR

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Dentro de uma semana, há uma lista de 44 produtos alimentares que passarão a ser vendidos sem IVA. É suposto que, sem imposto, esses produtos baixem de preço. No entanto, a maioria dos produtos da lista aprovada pela Assembleia da República tinha IVA de 6%, pelo que a redução, se existir, será nessa ordem de valor.

A escolha dos produtos foi negociada, não só com todos os partidos políticos, como também com os setores da produção e da distribuição, a quem o Governo atribuiu apoios de 140 milhões de euros.

Este esquema está aprazado para entrar em vigor no dia 18 de abril e deverá durar 6 meses. Mas, entretanto, os preços continuam a aumentar. Se formos ao supermercado diariamente e se nos dermos ao trabalho de ir comparando preços, verificaremos aumentos inusitados e incompreensíveis.

Por exemplo, no Intermarché, o arroz mais barato custava há dias 0,99 cêntimos por quilo. Hoje, está a 1,09 euros. Nesta semana, não há notícia dos combustíveis terem aumentado 10%, não há notícia dos trabalhadores do setor terem tido aumentos de 10%, mas há produtos que aumentaram 10%, como é o caso deste arroz.

10% de aumento nesta marca de arroz

Outra curiosidade constatada no mesmo Intermarché é o “desaparecimento” de alguns produtos mais baratos e que também estão incluídos na lista dos que vão beneficiar do IVA zero, como é o caso do atum em lata. Referimo-nos ao atum posta em óleo da marca Adonis (0,69€ a lata) e ao sangacho de atum da marca Radar (0,59€ a lata). Enquanto as prateleiras de outras marcas estavam bem fornecidas, a zona dos atuns baratos estava sem nada.

marcas mais baratas ‘desaparecidas em combate’

Haverá várias explicações para tal. Talvez os consumidores não tenham dinheiro para marcas de atum mais caras e esgotem os produtos mais baratos. Talvez os serviços de reposição do supermercado andem a dormir na forma. Talvez o stock tenha acabado. Talvez eles queiram vender as marcas mais caras. Podemos escolher uma das hipóteses ou todas. Vai dar ao mesmo: o atum barato desapareceu e quem se lixa é o mexilhão.

Nasci para ser poeta!

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Se alguém poderia ter, um dia, esta exclamação, esse alguém poderia ser, com razão plena, António Salvado, por, na verdade, dele se poder dizer que toda a vida respirou poemas. Respirou-os e no-los quis transmitir com uma cadência passível de ser classificada como ininterrupta.

Calou-se a sua voz, aos 87 anos, no passado 5 de Março. Não sem antes, quando o internamento hospitalar se lhe revelou indispensável, se ter voltado para os seus familiares e lhes ter garantido que seria mais uma experiência a narrar nas suas rimas.
Não teve ocasião para isso, desta feita; tenho, porém, a certeza de que algo logrou alinhavar e de pronto mostrou lá ao S. Pedro, assim que ele lhe abriu as portas: «Olha o que eu alinhavei? Gostas?».
E S. Pedro gostou com certeza.

Perdoou-lhe, desde logo, que muito se haja demorado a estudar mitologias gregas e romanas, a falar de lúbricas deusas e de constantes tricas entre elas e seus amores e inspirações. Perdoou-lhe, porque bem compreendeu que essa formação clássica lhe proporcionou alargada visão do Mundo e do Homem e, por esses alegóricos caminhos, acabou sempre por realçar a Humanidade e o que de mais nobre o Mundo deveria ter.
Sim, compreendeu também S. Pedro aquela farpa quase escondida (mas venenosa!…) na biografia mínima que desejou incluir na bandana da sua última antologia, publicada pelo município albicastrense, «ex-director de um museu do Estado». Assim, sem mais explicação, que a bom entendedor meia palavra basta.

S.Pedro entendeu a mensagem e decerto vai diligenciar para que esse «museu do Estado» que tanto amou e tantos amargos de boca lhe deu, ressuscitará, um dia – ou não trouxesse este Abril forte sopro de renovação!…

Não se diz expressamente em Poesia de Amor nos Versos de António Salvado (TVJ Editores, 2023) quem escolheu o conteúdo. O autor, sem dúvida, que deixou para José Maria da Silva Rosa o encargo de um prefácio denso, qual ensaio sobre a densidade de um poeta. Uma escolha basto difícil, asseguro; mas agradável foi a escolha do título: «Poesia de Amor». Chave d’ouro de tão fértil caminhada! Quis António Salvado, instintivamente porventura, deixar-nos esse mensageiro legado? Acredito que sim. Que o Amor é para ser cantado, é para ser celebrado, é para lutarmos por ele!
E recorto o terceto onde, assim, como que por acaso, meus olhos vieram pousar:

Aleluias de sol cruzam o tempo
A melopeia do celeiro aberto
Derrama grãos sobre o instante agora.

Perdoa-me, António, se, desta sorte, os retiro do poema em que postulas junto ao teu o permanente sussurro da tua amada. É que, na verdade, aqui, o pessoal é transcendente. De repente o vemos lá no alto, melodioso e límpido, qual celeiro aberto de grãos a serem derramados sobre o instante agora.
É que, António, perdoa-me, decerto não terás pensado nisso quando, por volta de1987, burilaste o poema: de bem suculentos grãos estamos mesmo precisados agora! O
grão da Poesia, sim; mas, por ela, os outros, concretos, que sabem matar a fome.
E descansa, Mestre: aprendemos a lição!

DANIELA, CRISTINA E CATARINA, QUAL DELAS A MELHOR?

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Olhando para as audiências televisivas de domingo, Cristina Ferreira perdeu. O programa que dirige, “O Triângulo”, não aguentou com a estreia de “Os Traidores” na SIC. Aliás, foi uma noite com duas estreias, porque também a RTP lançou o “The Voice Kids”.

O horário nobre das televisões generalistas está entregue a formatos internacionais. Uma espécie de atestado de incompetência aos criativos portugueses.

Destes três formatos, escolhemos o “The Voice Kids” da RTP para ver, mas a maioria dos telespetadores portugueses viu a estreia de “Os Traidores”, onde brilha a atriz Daniela Ruah que veio dos EUA propositadamente para a produção deste show televisivo.

Para já, o esforço parece compensar. A SIC reclama para si a vitória no horário nobre. As audiências publicadas indicam que o programa de Daniela teve uma média de 1 milhão e 6 mil espectadores

Na TVI, Cristina Ferreira teve de se contentar com 762.300 espetadores, enquanto os pequenos cantores da RTP, com Catarina Furtado e sem Vasco Palmeirim, tiveram em média 666.700 espectadores.

O programa da RTP pode até ser o mais interessante de seguir, aquele que consegue maior proximidade com o público, mas soçobra perante o marketing promocional dos canais privados.

A RTP precisaria de arriscar mais para reverter a perda de audiência, produzir televisão de grande qualidade. O “The Voice Kids” não é um mau programa para as tardes de domingo, no inverno. É um programa de família, onde as crianças poderiam ver outras crianças na televisão, com quem se poderiam inspirar para também elas se atreverem a fazer coisas ousadas. Os pais e avós não desdenhariam acompanhar filhos e netos numa tarde televisiva onde os miúdos exibem sonhos. No atual horário vai continuar a perder.

MIMO

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Empadão é prato de família. De crianças à volta da mesa e o avô que nunca mais se vem sentar e o periquito que não se cala. É prato de amor, de ternura, comida que custa pouco a fazer, ainda menos a comer. Empadão é mimo.

Começo a picar alhos com fartura, recordo as nossas noites intermináveis. Saía sempre produzida, com aquele brilho nos olhos que ilumina os outros. Pico as cebolas bem picadinhas, ao ritmo com que ela continua a dançar sem parar.

O plim do micro-ondas lembra-me os deadlines que a sufocam sempre que mergulha num trabalho. Dá voltas e voltas, quer tudo para conseguir alguma coisa. Nunca sabe por onde começar, já não se lembra de qual é o objectivo. Chega sempre ao fim, conta histórias lindíssimas, tem talento, muita emotividade, alma de artista, por isso mesmo sofre com agonia durante o processo de criação.

Tempero a carne com bastante pimenta, uma pitada de cominhos, pimentão-doce à vontade, sal, uma folha de louro. Não são precisos muitos temperos, tal como a nossa amizade. Espreito o frigorífico, ainda tenho um resto de chouriço de murça, desfaço-o com a varinha mágica e junto à carne mas reservo umas rodelas para o toque final.

Enquanto envolvo tudo com as mãos, lembro-me das festas que lhe faço no cabelo enquanto chora por mais um idiota que lhe partiu o coração. Tem uma capacidade gigante para amar, sai coladinha a cuspo, mais sai, o amor vence a dor.

Deixo-a marinar e passo às batatas, foi ela que me ensinou o segredo. Cozem-se até ficarem desfeitas, escorrem-se, acrescenta-se uma colher de manteiga pois, como diz, “margarina é uma falsificação infeliz”. Uma pitada de pimenta branca, sal, noz-moscada ralada, tempero essencial para que puré seja puré. Pego na batedeira que se usa para as claras em castelo, despejo um copo de leite morno, para não fazer grumos. “Fica fofo, tão fofo que parece algodão doce”, parece que a estou a ouvir.

Azeite na caçarola, alhos e cebolas, mexo e recordo os seus sonhos adiados. Quer conhecer o mundo, passar uns meses em cada lugar, filmar, gravar, fotografar, falar com as pessoas. Depois há-de escrever um livro ou fazer um filme sobre tudo  o que viveu e sentiu. Acredito que o fará, precisa  é de dar o salto sem rede. É sem rede que consegue ir mais além.

Acrescento a carne ao refogado, ponho polpa de tomate a olho, tem de saber a tomate, mas qb. Uma colher de açúcar equilibra a coisa. No fim rego tudo com vinho tinto, é a minha costela beirã, raramente uso o branco. Fica encharcado, está perfeito. Nenhuma de nós gosta de coisas certinhas.

Não quero um empadão firme, prefiro antes que se desmanche no prato, tipo comida para bebé. Até que no dia seguinte acaba por ficar direitinho mas não seco.

Uma camada de puré no pirex, outra de carne, outra de puré. Aliso tudo com a espátula, com a doçura que ela me dá sempre de mão beijada.

Dois ovos batidos para cima da camada final, largo a olho pão ralado que me faz lembrar as purpurinas que gostava de espalhar pelo cabelo e até no decote, quando saíamos à noite e tínhamos 30 anos. Brilhava como uma estrela, ainda é uma estrela mas penso que não o sabe. A rematar, meia dúzia de rodelas de chouriço de cor bordeaux escura, igual aos batons com que contorna os lábios com uma perfeição exímia.

Empadão no forno, uma toalha aos quadrados na mesa e a loiça cor-de-rosa que um dia disse ser feita por um “fabricante de mealheiros”. Abro uma garrafa de vinho, sei que não está para sobremesas.

Vou buscar o CD dos Morcheeba aquele que ouvimos até à exaustão num verão perfeito na costa vicentina. Acendo incenso e velas. Oiço o som da campainha.

Está sem brilho nos olhos. Abraço-a. Falamos de trivialidades, sorri ao reconhecer a música. Sentamo-nos à mesa. A partir daí, só abri a boca para comer. Pus todo o meu amor no empadão, agora quero é ouvi-la. Amigos são a família que escolhemos.

CARROS ELÉTRICOS VÃO BAIXAR DE PREÇO

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Volkswagen e Peugeot/Citroen anunciaram a intenção de produzir automóveis 100% elétricos cada vez mais baratos. Uma decisão interessante, se realmente se quer descarbonizar a mobilidade automóvel. O elevadíssimo preço dos automóveis elétricos é o principal obstáculo ao aumento das vendas deste tipo de veículos.

A Volkswagen vai montar a fábrica para o modelo ID-1 na Índia, onde a mão de obra já é mais barata que na China. Várias marcas europeias que montaram fábricas na China, já estão a deslocalizar essas unidades de produção para a Índia.

Protótipo do VW ID-1 (design ainda em desenvolvimento)

A Citroen/Peugeot vai montar os modelos Citroën ë-Berlingo, Peugeot e-Partner,  Opel Combo-e e o Fiat e-Doblò na fábrica de Mangualde, em Portugal. A adaptação da fábrica vai obrigar à contratação de mais 450 operários e a um investimento de 119 milhões de euros, financiados pelo PRR da União Europeia.

Carlos Tavares (à esquerda na imagem) quando anunciava o projeto para a fábrica de Mangualde

O país de origem de Carlos Tavares, presidente da Stellantis (empresa-mãe da Citroen/Peugeot), não pode ter sido fator decisivo, por mais que ele acarinhe as suas origens portuguesas. Mas, para os portugueses, é interessante percebermos que Carlos Tavares não desdenha Portugal.

Assistiu, vivo, à missa por sua alma!

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Não, essa história o Manuel Genciano Morais Afonso não a incluiu no livro Australopiteco, datado de Fevereiro de 2022, de Edições Astrolábio. Contou-ma a mim e deixou para o livro outras andanças.

Poderá parecer, à primeira vista, quer pelo título (a recordar um dos hominídeos antes do Homem), quer pela imagem da capa (o Stonehenge em céu bem carrancudo), que se ia ter um livro de História ou, até, de Arqueologia.

Nada disso!

Depois de umas páginas, não muitas, em que dá conta do seu percurso estudantil e onde nos convencemos que vamos ter livro de memórias, apercebemo-nos que não: é livro de viagens, na medida em que, na maior parte do volume, Genciano Afonso conta, basto de pormenores, as muitas e circunstanciadas viagens que fez, sobretudo pela Itália. Claro, também em Portugal, em Tomar, por exemplo, onde tem a sua casa de férias, e adregou, portanto, visitar em jeito de extraterrestre, com nave espacial e tudo, o convento, o que lhe permitiu incursão pela história dos misteriosos Templários, hoje tão de moda.

Pela Itália andou de caravana, de carro, de comboio (num daqueles que param em todas as estações, para poder auscultar melhor o sentir das gentes) e, de vez em quando, por desfastio, lá pegava num drone e ei-lo com vistas admiráveis para descrever.

Narrativas que vivem do hábito que tomou não apenas de ler atentamente os guias de viagem, mas de tudo anotar: aqui comi isto, ali a refeição custou-nos os olhos da cara, acolá havia uma fila que nunca mais acabava…. E deitou as moedas na Fontana dei Trevi. E penetrou nas catacumbas de S. Calisto. Só não viu o Papa, mas descreveu a Capela Sistina, deliciou-se com gelados e bom café…

Enfim, descrições minuciosas de quem faz questão em tudo partilhar dos muitos apontamentos minuciosamente tomados. A história da morte é que aí não contou. Contou-ma depois e aí vai!

«O senhor morreu, vem aqui no jornal!»

Andou Manuel Genciano no seminário salesiano e também essa passagem pelo colégio de Mogofores (as refeições, as tarefas, os passeios, o quotidiano, a música…) lhe merece descrição no Australopiteco. Não seguiu, porém, aí os seus estudos e matriculou-se em História na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi ranger no Norte de Moçambique e a essa tropa também faz referência.

Dormia a sono solto, na capital, a 28 de Fevereiro de 1969, num andar da Actor Taborda, quando, às 3 h e 41 m, o País foi sacudido por um sismo de intensidade 7,9 na escala de Richter.

imagens da destruição do sismo de 28 de fevereiro de 1969

Saltou para a rua, em pijama, como a maioria das pessoas e só viria a acordar numa cama de hospital. «Como é que se chama?», perguntou-lhe o polícia, «dê-me um número de telefone para avisar os seus familiares». Soube depois que o seu corpo mais ou menos inanimado andara de Anás para Caifás, porque os feridos eram tantos que não havia camas nem macas que chegassem. Acabaram por o pôr a um canto, numa enfermaria de grávidas em eminente risco de parir… No dia seguinte,

– O senhor está morto, diz aqui no jornal – mostrou-lhe uma enfermeira.

Na verdade, o seu nome constava do rol daqueles que desta se haviam passado para melhor. Riram-se todos. Apalpou-se para sentir bem que estava vivo. Estava. Dias depois teve alta, de muletas, porque, felizmente, fora mais o susto.

E a primeira ideia foi ir às Oficinas de S. José, dos Salesianos, em acção de graças. Acomodou-se num dos últimos bancos da capela. Eis senão quando, no início da missa, o padre enuncia as intenções e termina «Também por alma do nosso querido amigo Genciano, infelizmente falecido neste cataclismo que nos assolou».

– Se tivesse um buraco, enfiava-me por ele abaixo – confidenciou-me.

Não se enfiou, ficou muito quietinho e, no final, saiu sorrateiramente sem dar de vaia a ninguém. No dia seguinte, a caminho de Vila Praia de Âncora, onde tinha a família, parou numa das casas salesianas do Porto. Bateu à porta. O padre que veio abrir, deu com ele e… desmaiou! O Genciano gritou por socorro lá para dentro, acorreu outro sacerdote que, ao vê-lo, zás, caiu também desamparado!… Era, senhores, uma alma do outro mundo!

Não consta esta, como disse, nas muitas histórias que, em jeito dialogante e cheio de apartes, Genciano Moras Afonso se deliciou a contar das viagens e peripécias, onde a sua formação em História, como é natural, jamais deixou os créditos por mãos alheias!