CONSIDERAÇÕES SOBRE ASSÉDIO SEXUAL

Afirmei recentemente, na entrevista ao Infinito Particular, que fui muitas vezes assediada sexualmente, ao longo da vida, e algumas vezes por figuras públicas. Afirmei, também, que não revelaria os nomes dos envolvidos por não ser burra. Permitam-me "traduzir" esta palavra coloquial. Nos casos em que uma mulher denuncia um homem porque ele foi além dos limites, é costume ela ficar a perder. Quase sempre. Eles acabam como senhores e elas como putas

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Foto de Mervyn O´Gorman, Cristina on Red, 1913

O que escrevo a seguir não é verdadeiro, porque não conheci sequer a pessoa em questão, mas imaginem que eu revelava ter feito uma viagem intercontinental de avião, em contexto de trabalho, ao lado do falecido escritor David Mourão Ferreira, e que a certa altura tinha sentido que ele se roçava em mim. Ponto um: como poderia prová-lo só com a minha palavra? Ponto dois: em quem acreditariam? Em mim ou no emérito professor e escritor? Em que línguas de trapos passaria a andar a minha declaração e o meu nome a partir desse momento? Quantos homens e mulheres me apoiariam? Que problemas com a justiça eu arranjaria? Tenho tempo e dinheiro para gastar em tribunais? Não, não. De maneira que “não sou burra” significa que não tenho tempo, energia nem vontade de mexer naquilo que foi uma prática normalizada em todos os setores sociais e laborais e que também me afetou. Mas espero que alguém o faça. Alguém deste tempo. Não continuem a calar-se como eu me calei.

Muitas mulheres e homens se aproveitaram e aproveitam dos seus atrativos sexuais para conseguir postos, mas muitas mulheres e homens se veem envolvidos em situações desse teor que não desejam e não sabem como evitar devido ao status e poder de quem se insinua sexualmente. Não é apenas em Hollywood. É na Academia, sim. Em todo o lado.

Eu fui muito recentemente alvo de assédio moral sexualizado por parte de um escritor português. Partilhei este assunto com quem de direito. Aconselharam-me a não responder, a deixar cair. Espero que o escritor em questão leia esta publicação. Não ouse voltar a dirigir-se a mim com o mesmo discurso, porque eu já não tenho 20 anos, caro senhor. Se me escrever emails de desagravo a esta publicação torná-los-ei públicos, bem como todos os que até hoje me enviou sem resposta. A admiração que tinha pelo seu trabalho evaporou-se. Deveria engolir a vergonha do seu comportamento e ela ser uma pedra com duras arestas.

(crónica também publicada no Facebook de Isabela Figueiredo)

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